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Vivendo de Inventar - Notícias
Sobre a VDI
Vivendo de Inventar é uma comunidade feita para escritores profissionais que querem desenvolver suas carreiras e está recheada de informações gratuitas e/ou exclusivas que farão toda diferença para quem leva contar histórias a sério. 
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Conto: "INSURGÊNCIA"
Escrito por Jaques Valadares, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
João, dotado de seu imenso conhecimento adquirido em seus dez anos de vida, não aguentava mais o sistema opressor imperialista imposto por sua mãe. Lucas, seu irmão mais velho até concordava com ele, mas não tinha coragem de enfrentar a fera.
Televisão só até às nove da noite, videogame só depois do dever de casa, refrigerante só de final de semana... Basta!
Naquela casa não existia democracia, apenas o autoritarismo e João sabia que alguém precisava fazer alguma coisa. Que fosse ele o herói. Davi voltaria a derrotar Golias!
Foi até seu quarto e pegou em suas mãos aquele objeto que seria o símbolo da resistência. Lucas o alertou para desistir, era crueldade demais, mas ele estava decidido. Foi até a porta do quarto de sua mãe que adormecia tranquilamente, estava vulnerável, era o momento certo.
Quando dona Lourdes levantou-se e abriu a porta de seu quarto, lá estavam eles, deixados bem à vista para que ela soubesse até onde seu filho estava disposto a ir. João observava da porta do banheiro entreaberta para ver a reação da mãe diante de sua vingança. A essa altura ela provavelmente já estava ciente que ele não estava para brincadeira.
Os olhos da mãe fixaram nos dois pares de chinelo brancos virados de cabeça para baixo. O que aconteceria? Quanto tempo ela ainda teria de vida?
Sua mãe então começou a sorrir, ele não entendeu o que estava acontecendo, mas ela caiu em uma gargalhada tão contagiante que também o fez sorrir. Quando acabou a sessão de risos ela pegou o chinelo.
— João Felipe dos Santos!
Naquela manhã João descobriu que o chinelo virado não faz mal algum as mães, mas doem pra cacete...

Conto: "SE ELE NASCER "
Escrito por Emerson Lima, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
  A música soava extremamente alta enquanto a garota se servia de mais uma dose de uísque e voltava para o meio da pista de dança.
- Você não acha que está exagerando na bebida? - pergunta Luana
- Ah, relaxa -diz Natasha – E fim de semana. Teremos toda uma semana estressante pela frente. Então, vamos aproveitar.
Ela sai rebolando e logo se agarra a um garoto e começa a dançar.
Instantes depois eles seguiam para um local mais íntimo, entre risinhos.
Quando abriu os olhos no dia seguinte, Natasha estava deitada e tinha um homem idoso, vestido de branco e com alguns papeis na mão a encara-la.
- O....o que aconteceu? - pergunta ela
- Você teve um pequeno desmaio -diz ele- Mas vai ficar tudo bem. Só pediria que evitasse consumir tanto álcool porque isso pode fazer mal para ele.
- Ele quem?
- O bebê -diz o médico- O consumo elevado de álcool pode causar serias complicações para o feto.
Natasha arregalou os olhos.
- Mas que bebê? Do que o senhor está falando?
Foi a vez do médico arregalar os olhos.
- Pois você não sabia? -pergunta ele, surpreso- Você está no quarto mês de gestação.
- Você não pode estar falando sério!
Sentado na beirada da cama, invisível aos olhos dos dois, estava um pequeno garotinho loiro de cabelos encaracolados e olhos azuis.
- Ela não gostou da notícia? Não gostou de saber que estou sendo gerado?
Ele encarava o rosto da garota em busca de alguma pista do que teria feito de errado.
- Eu não quero...Você tem que tirar isso de mim -gritava a garota, agora desesperada- Eu não posso ter um filho...
O garoto arregalou os olhos.
- Foi a festa não foi? Está irritada porque eu a tirei de lá -dizia ele, com um sentimento de culpa – Me desculpa, mamãe...Mas eu não estava suportando...Eu não consegui aguentar...Aquela bebida estava me queimando...
O médico assustado com os gritos da garota lhe aplica um novo sedativo e ela aos poucos foi sossegando e, por fim, dormiu.
O garotinho ficou ao seu lado enquanto o médico saia para atender um outro paciente.
- Tudo vai ficar bem, mamãe -diz ele- Eu vou cuidar de você.
Então, cuidadosamente, moveu os lençóis e a cobriu.
Quando Natasha acordou, algumas horas depois, Luana estava junto da cama e parecia extremamente preocupada. Fazendo perguntas sem parar.
- Não foi nada demais. Apenas exagerei um pouco na bebida -diz Natasha- Isso acontece.
As duas deixaram o hospital e seguiram em direção ao apartamento onde ela morava com a mãe.
Ao cruzarem a porta, Eleonora estava a sua espera.
- Onde você estava até essa hora? -grita ela- Eu lhe liguei várias vezes...
- Ah, Não venha bancar a boa mãe a essa hora da manhã -retruca Natasha- Quando foi a última vez que a vi mesmo? Tem o que? Um mês?
Aquilo foi como um tapa em Eleonora.
- Você sabe que eu estava trabalhando...
- Ah, Sim-diz Natasha, em tom de zombaria-Sempre o trabalho
Enquanto isso, Luana e o garotinho estavam a um canto olhando de uma para outra com olhares chocados.
- O que aliás era o que você também deveria fazer -continua Eleonora, falando cada vez mais alto- Procurar um trabalho e não passar o dia inteiro enchendo o saco do seu irmão e da empregada. Ela me ligou agora a pouco, sabe. Pediu demissão. Pois se sentiu ofendida pela forma grosseira com que você a tratou, simplesmente porque ela a repreendeu quando você estava batendo no seu irmão.
- Esse pestinha dos infernos bagunçou todo o meu quarto
- Porque você escondeu a minha bola lá -diz um garotinho de cinco anos que estava agarrado a perna de Eleonora.
- Hoje à noite eu terei uma reunião importante e você vai ter que ficar com ele -diz ela- Quem sabe assim você aprende a tratar melhor as pessoas.
A mãe deixa a sala com o filho no seu encalço e quando Natasha o encara, furiosa, ele lhe mostra a língua.
Bufando de raiva a garota segue para o quarto com Luana e o garotinho que elas não viam.
- Você viu só? -grita ela, ao entrar e bater à porta- Viu só a vida que levo aqui?
- Calma, amiga -pede Luana- Lembre-se que você não pode se estressar. Você está... Esperando um bebê.
-Não. Não estou -diz Natasha, decidida- Aquilo só pode ter sido um erro daquele velho. Eu não estou gravida.
Luana então tirou da bolsa um teste de farmácia.
- Podemos tirar essa dúvida agora mesmo -diz ela
Meio relutante, Natasha pega o teste e segue para o banheiro.
Minutos depois, um grito forte fez Luana e o garotinho se sobressaltarem e Natasha saiu do banheiro com o teste em punho.
- Deve ter alguma coisa errada -diz ela, agora apavorada- Eu não posso estar gravida...até porque...
- Você não sabe quem e o pai -completa Luana
Natasha olha para ela com irritação e depois de um tempo baixa os olhos.
- Eu não vou ter esse bebê -diz ela, por fim- Eu detesto crianças. Não viu como aquele pestinha me trata? Vou falar com a Gina e pedir o endereço daquela clinica que ela foi...
- A Gina quase morreu naquele lugar -diz Luana- Pensa melhor, Você quer mesmo matar esse bebê?
O garotinho dá um salto da cama, onde estava sentado, e fica diante das duas de olhos arregalados.
- Me matar? -diz ele- Não, mamãe...Eu prometo que vou me comportar...Eu não a incomodarei mais nas suas festas...Mas, por favor, Não faça isso.
Natasha pegou o celular, fez uma ligação e quando voltou para junto da amiga revelou ter marcado para o dia seguinte uma visita a clínica.
O garotinho recuou para longe dela, aterrorizado.
Naquela noite, depois de ter seguido algumas dicas da internet e tomado um monte de remédios para abortar, a garota sai do quarto cambaleando e segue na direção do banheiro com ânsias de vomito.
De repente, escorregou em algo e caiu no chão.
Levantou-se com dificuldade e então viu que o chão estava repleto de brinquedos.
Furiosa ela seguiu para a sala atrás do irmão. E esta, Estava um caos completo.
Com roupas e restos de comida por todo lado enquanto Igor bebia um refrigerante que se esparramava pelo sofá a cada nova vitória no seu vídeo game.
Natasha, tomada de fúria, partiu para cima dele e começou a esbofeteá-lo.
E foi então que o telefone tocou.
Ao atende-lo as únicas palavras que conseguiu registrar foi:
-...Sofreu um acidente...Eu a trouxe para o hospital...Você tem que vir para cá...
Ao chegar ao hospital, sua mãe estava em um dos leitos, com os olhos fechados, o rosto machucado e inchado e vários ferimentos pelo corpo.
O médico a informou que o carro capotou várias vezes e que foi um milagre ela ter sobrevivido.
No entanto, suas pernas...
Ao voltar para junto da cama, Natasha viu Igor debruçado sobre o corpo da mãe e então um sentimento a muito esquecido fez ela se aproximar dele e o abraça-lo.
- Vai ficar tudo bem, guri -diz ela- Nós vamos cuidar dela.
O garotinho ao lado deles sorriu.
Aquele não tinha sido bem o seu plano mas uma pequena esperança parecia ter nascido.
Esperança essa que foi frustrada pela manhã, Quando Natasha acordou cedo e pegando um taxi seguiu para a clínica.
Ela ainda tremia relembrando o sonho que tinha tido aquela noite e que para ela mais parecia um pesadelo.
Bebes e mais bebes rindo e andando cambaleantes com as mãozinhas erguidas para frente vindo na sua direção.
O garotinho ao seu lado percebeu que o seu plano não tinha dado muito certo.
Chegam a clínica, onde Luana já a esperava, Novamente fazendo inúmeras tentativas de dissuadir a amiga daquela ideia.
O garotinho viu que tinha que fazer algo.
 E então se pôs a correr clinica adentro até chegar ao consultório, onde uma mulher de jaleco examinava uma paciente.
Ele respira fundo, aproxima-se dela e adentra o seu corpo.
Minutos depois, uma das enfermeiras veio até as garotas informar que a doutora não estava passando bem e que iria remarcar os próximos pacientes.
Frustrada, Natasha voltou para casa e só então deu pela falta da empregada.
A casa estava uma bagunça e Igor ia de um lado para outro abrindo todos os armários.
- Onde você foi? Eu estou com fome -diz ele, com uma voz chorosa.
-Ah, moleque não enche -pede Natasha e segue para o quarto onde começa a chorar.
O garotinho sentou-se ao seu lado e ficou a observa-la.
De repente, eles ouviram um grito e ela saiu correndo do quarto e adentrou a cozinha onde um dos armários estava virado. E por baixo dele, o pequeno Igor gritava desesperado.
Natasha, apavorada, ergueu o armário de cima do irmão.
Ele ainda tinha um saco de rosquinhas na mão.
- Desculpa, Igor -pede ela, entre lagrimas - Eu...Eu sou uma babaca.
Naquele dia ela fez um delicioso almoço para eles e os dois comeram juntos enquanto jogavam vídeo game. Depois ele a ajudou com a lousa.
Pouco depois quando seguiam rumo ao hospital para visitar Eleonora, a atendente da clínica ligou marcando a sua cirurgia para o dia seguinte.
No dia seguinte ela acordou cedinho, deixou Igor no colégio e então seguiu para a clínica.
La chegando pensou em ligar para Luana e informa-la, mas achou melhor não.
Ao seu lado, o garotinho ia de um lado para o outro tentando pensar em uma forma de impedi-la de mata-lo.
Na mesa de cirurgia sua mente era tomada por inúmeras notícias de pessoas que haviam morrido em clinicas clandestinas como aquela e isso a deixava meio receosa.
Mas não podia voltar atrás.
Ela não precisava daquele bebê na sua vida.
A medica começou os primeiros procedimentos e sentado à beira da cama o garotinho chorava enquanto sentia terríveis dores por todo o seu corpo.
Natasha adormeceu por um instante, devido aos sedativos.
Logo tudo aquilo iria acabar...
- Natasha...Natasha...
A garota abriu os olhos e estava parada em meio a um pátio lotado de crianças que corriam sem parar.
- Você está bem? -pergunta Luana que estava ao seu lado.
- Claro, E....só estava pensando se ele vai ficar bem no meio de todas essas crianças -diz ela, olhando ao redor e apertando ainda mais forte a mão do filho - você não acha que ele ainda está muito novo para...
- Claro que vai ele vai ficar bem -diz a amiga – Não vai, Rafinha? Você gostou da creche?
- Parece Legal -diz o garotinho, que aparentava ter três anos, tinha os cabelos loiros e encaracolados e os olhos azuis.
Natasha respira fundo, dá um abraço apertado no filho e um beijo em sua bochecha.
 E então ele sai correndo para se juntar as outras crianças.
- Que bom que você chegou a tempo, amiga –diz ela, depois de um longo silencio – Eu não me perdoaria nunca se tivesse chegado até o fim naquela cirurgia.
A amiga a abraça sorrindo.
Elas ficam ainda por um longo tempo a contempla-lo.
E por fim as duas entram no carro e seguem para o trabalho.
Pelo Retrovisor ela ainda olhava a creche e desde já contava as horas para voltar ali e pegar o seu filho.
                                         Fim
Conto: "Mãe dos Mares "
Escrito por Stela Sampaio, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Olhei para o céu e vi aquelas nuvens negras ameaçadoras a espreita chegando cada vez mais perto. Uma tempestade estava chegando e seria uma das grandes considerando a direção sul do vento. Vento sul. Odiava esse vento, pois sempre que aparecia tinha a certeza de que meu pequeno barco de pesca não aguentaria e iria parar no fundo do mar me levando junto. 
Sempre fui um cara ferrado nessa vida. Meu pai era pescador e pobre, agora é só pobre mesmo. Quem teve que herdar o barco e tem que sair para pescar uma vez por mês sou eu. E como ele, também sou pobre. Ser pobre não é lá o meu maior problema, mas sim o fato de até hoje ser solteiro. Sonho em ter uma grande mulher e filhos, o que ainda não aconteceu e a cada dia parece um sonho mais distante. Sou pobre e sozinho. Ótimo!
Não me considero um galã de cinema, porém tenho certeza que não sou feio. Muitas mulheres gostam desse meu corpo grande de 1,85 de altura, pele escura e músculos relativamente proeminentes. No entanto, ninguém quer ficar comigo para sempre, apenas algumas noites. Sinto-me usado. Trinta e sete anos, tenho uma casa própria pequena e com metade das paredes pintada e nada de esposa. Talvez seja porque cheiro a peixe todos os dias.
Estava liberando um pouco de corda e afrouxando a vela para aproveitar o vento, quando senti o ar impregnado com o cheiro da maresia esfriar levemente. É, seria um dia ruim. Olhei para meu companheiro de viagem, que estava cuidando do leme, vi mesmo através do vidro que nos separava quando bufou e fez uma careta para mim.
- Se morrermos hoje, a culpa é sua. - Disse Nelson, o som da sua voz abafado pelo vento, quase incompreensível. Ele era meu melhor amigo e meu sócio. Tinha a minha idade e foi a única pessoa louca o suficiente para topar essa doideira de sair pelo mar pescando comigo.
- Ah, é? Posso saber por quê?
- Porque você não fez a oferenda para Iemanjá. - Um trovão soou não muito longe de nós, o brilho veio direto do céu e sumiu no horizonte. Meus pêlos arrepiaram. O rosto do meu amigo se iluminou por alguns segundos, havia preocupação e medo em seus olhos.
- Já disse que isso é babaquice. - Torci o nariz, lá vem aquele papo religioso de novo.
- Como é que você pode ser ateu sendo filho de devotos dos Orixás?
- Como é que você pode acreditar em um ser que é pseudo-peixe e afoga pescadores? Por que chamar de Iemanjá se ela parece uma sereia?
- Não fale assim da nossa mãe! Ela não é uma sereia! E nem te afoga se fizer a oferenda todo ano.
Ah, claro! Como podia ter me esquecido! Todo santo ano milhares de pessoas jogam rosas brancas em oferenda à uma divindade meio peixe. Vale lembrar que muitas dessas pessoas nem são do Candomblé ou da Umbanda, o que torna o ritual ainda mais bizarro.
- Tá bom, tá bom. Se a gente morrer, pode me culpar no outro mundo. Tanto faz. - Resmunguei.
Meus pais eram devotos ferrenhos dos Orixás, descendentes diretos dos africanos. Eu não. Nunca acreditei em nada disso. A única mãe que me interessa é a que está me esperando em casa.
Duas horas se passaram e sentia que tinha entrado em um furacão ao invés de tempestade. O barco balançava e rangia tanto que tinha certeza que se quebraria no meio. Estava tentando abaixar a última vela para podermos ligar o motor e sair dali, quando ouvi Nelson gritar do outro lado.
- Viu! Eu te disse! Tudo culpa sua!
- Ah! Cala a...- Fui jogado para fora do barco, vislumbrei por alguns segundos o olhar assustado de meu amigo antes de sentir a porrada da água.
Tentei nadar em vão. Não tinha força o suficiente para vencer ondas furiosas. Cansei em pouco tempo e a cada onda conseguia ficar menos tempo fora da água respirando. O barco estava fora de vista. Ia morrer na véspera do dia das mães. Que ótimo presente!
Dizem que vemos nossa vida passar diante dos olhos quando estamos para morrer, mas tudo que vi foi a expressão que minha mãe faria quando me enterrasse. Claro, se sobrasse algo para enterrar. O mais provável é que virasse comida de peixe. Sou um idiota.
- Filho! Filho! - Abri os olhos e a vi debruçada enquanto me balançava.
Seus olhos negros como uma noite sem estrelas estavam preocupados e confusos.
- Mainha? Eu morri? - Ela deu uma risada gostosa e balançou a cabeça.
- Não, meu filho.
- Onde estou? - Levantei e vi que estava na praia onde costumávamos nadar quando crianças. - Como vim parar aqui?
- Também ia fazer essa pergunta. Achei que voltaria no dia das mães, mas pensei que fosse vir de barco, não carregado pelas ondas.
- O quê? Espera.
Tentei reprocessar tudo que aconteceu. Choveu, caí do barco e morri. Certo?
- Mainha, eu estava pescando e uma tempestade me jogou na água. Como vim parar aqui?
Lá estava a expressão pensativa que tanto vi na minha infância. Ela fazia isso quando lhe fazíamos perguntas impossíveis.
- Filho, o que é isso na sua mão?
Não tinha notado que eu estava segurando uma rosa branca com um laço vermelho amarrado no caule. Gelei. Conhecia apenas uma pessoa que colocava um laço assim nas rosas e as oferecia a Iemanjá duas vezes ao ano, no dia primeiro de janeiro e no dia dois de fevereiro.
- Parece que a mãe dos mares atendeu o meu pedido. Trouxe meu filho a salvo para casa. - Minha mãe sorriu e me abraçou.
Queria reclamar, dizer que não existe Iemanjá nenhuma, que devia haver uma explicação científica para tudo aquilo. No entanto, o abraço dela me deixou mudo. Minhas crenças não eram importantes naquele momento. Eu estava vivo e nos braços da única mãe que me importava.

Conto: "Data venia, mamãe"
Escrito por Eliane Reis, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Assim como o passado passa, Camila passou. Logo ela!
Não há caminho alternativo. As calças já não lhe servem mais, os pés incham, a barriga incomoda, o sono é alterado. Mas, a prole está formada. Abandona a academia, engaveta o diploma e já que ganhara vários quilos a mais e inúmeras estrias no ventre, o jeito é ignorar esses percalços necessários para proteger a espécie. Também se caminha no contratempo.
Com o primogênito e “desplanejado” Júnior, aprende a ignorar o espelho. Acorda às cinco da manhã, coloca a mão na massa, de unhas aparadas é claro e desce três centímetros no salto. Dedicação plena. Com o nascimento de Arthur, aprende a chorar. Segue seus próximos dias de exaustão e as noites mal dormidas, fazendo tudo o que dela se espera. Camila é moça bonita, balzaquiana, decidida e independente. Mas, com o nascimento de Julia, percebe que há um dissenso entre ser mãe e ser mulher. Já não se importa se há tempo para sair de si, para ser qualquer outra pessoa que não seja ser mãe. Precisa salvar a casta. Sem se dar conta e aos poucos, transforma seu caráter dogmático num empirismo sem tamanho. Resolve os primeiros conflitos de Júnior na escola, adoece com Júlia nos desarranjos de paixões adolescentes e morre de ciúmes de Arthur, ao lhe apresentar a namorada. Começa a acreditar no amor. Sim, como nada é por acaso, ela sabe que precisa de esmaecimento.
_ Camila, o tempus fugits é como um vendaval. – lembra as palavras da sua mãe – Sempre haverá o primeiro fim. Você irá perceber que cortar laços dói mais que cortar o próprio corpo.
Ao longo do tempo, Camila vai cedendo, apesar de todas as artimanhas que usara para direcionar o caminho da prole. “Data venia, mamãe, eu cresci ”. Ajuda a fazer as malas de Júnior que vai estudar na França, vê a casa vazia nos finais de semana quando Júlia vai para a casa do namorado e quando Arthur sai com os amigos.
Passam-se anos. Apesar de ser setembro, o dia amanhece com ar outonal. Camila debruça no parapeito da janela; por um momento quer perder-se porque já ouviu dizer que perder-se também é caminho. Na verdade sente-se só, sente falta, falta algo que nem ela sabe bem o que é. Talvez sinta saudade. Talvez tenha adotado uma maternidade destemperada aos bocados, mas que apesar das opções “delete” e “reinicie” que aparecem nas teclas da vida, ela ainda prefere a pausa. Faria tudo novamente ao concluir que o amor materno é isso mesmo. Ele tem que se esfarelar aos poucos.
Conto: "As Dores e Delícias da Maternidade"
Escrito por Raíssa Dias, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
“Olá, ouvintes! Olá você que também é mulher, mãe, dona de casa e ainda trabalha fora! Este é mais um episódio do podcast Dores e Delícias da Maternidade, onde eu compartilho com vocês um pouco da minha (des)experiência como mãe do Afonso. No episódio de hoje, eu queria contar pra vocês algo que aconteceu esta semana. Como vocês sabem, o Afonso estuda numa escola plural, onde conta com uma auxiliar escolar, a Gabi, que o ajuda nas atividades, a se locomover nos intervalos, na hora de ir ao banheiro e durante as refeições. 
“Na última quarta, quando cheguei à escola, o Afonso estava triste, cabisbaixo, e não respondia nem olhava para mim quando eu o chamava. A Gabi estava bem ao lado dele e me contou o que aconteceu: durante o almoço, o Afonso estava apresentando dificuldades em levar o garfo à boca. Normalmente, nós fazemos isso por ele, porém a Gabi começou a desenvolver essa habilidade com ele há pouco tempo. Uma coisa muito importante sobre crianças com deficiência é que nós sempre queremos fazer tudo por eles, por achar que eles não dão conta de fazer quase nada sozinhos. Porém, a Gabi está me ensinando o quanto é necessário desenvolver a autonomia deles, e que muitas coisas eles conseguem fazer sozinhos sim, a gente é que nunca deixa, hehe!
“Então, o Afonso estava lá almoçando, quando um grupo de colegas mais velhos passou por ele no refeitório e, ao ver sua dificuldade em acertar o garfo dentro da boca, começaram a apontar e a rir dele, bem alto. Ao ouvir as risadas, o Afonso imediatamente largou o garfo, que caiu bruscamente dentro do prato, fazendo com que um pouco da comida espirrasse no rosto dele. Isso apenas piorou a situação, e o grupo começou a rir ainda mais dele, contagiando outros alunos que também estavam no refeitório. Com isso, Afonso não quis mais comer, e todas as tentativas da Gabi foram inúteis. Ele ficou em completo silêncio a partir daquele momento, e permaneceu assim até o dia seguinte.
“Preciso dizer que, como mãe, essa situação me irritou ao extremo. Senti muita raiva das crianças que fizeram isso com meu filho. E demorei um tempo para me lembrar de que isso não é culpa delas. É culpa de uma sociedade que trata tudo que é diferente como indesejado, inadequado, motivo de piada e de ódio. Culpa de seus pais e mães que não os educam para entender e abraçar a diversidade. Ser mãe de uma criança com deficiência tem sido um desafio em vários sentidos. Além das dificuldades intrínsecas ao papel de mãe de forma geral, e das especificidades no trato com o Afonso, ainda preciso me preocupar com os outros. Com as opiniões deles e em como elas podem afetar o meu filho.
“Eu sinto o tempo todo que tudo o que eu faço nunca é suficiente. Nunca consigo protegê-lo de tudo. É como se a vida estivesse dizendo na minha cara: ‘coisas ruins vão sempre acontecer, não importa o que você faça’. Bom, é isso. Só queria fazer esse desabafo hoje.”
Helena desligou o microfone e tirou os fones de ouvido. Não quis editar o episódio daquela semana, iria carregá-lo direto para o site. Iniciou o upload e se levantou da cama, indo checar Afonso que estava na mesa de jantar fazendo o dever de casa com a avó, Ester. Mal entrou no cômodo e já recebeu um olhar de reprovação da mãe, que simplesmente não entendia a necessidade dela em falar sobre sua vida privada para um bando de estranhos.
- Se já tiver terminado sua brincadeira semanal, pode sentar aqui e vir ajudar seu filho, que está precisando de você. – Disse Ester, já se levantando da cadeira. – Essa responsabilidade é sua, e não minha!
Helena não discutiu e nem disse nada, apenas ocupou o lugar que sua mãe acabara de deixar, pegando os cadernos de Afonso para entender do que se tratava a tarefa. Mas Ester ainda não tinha terminado:
- Você devia arranjar um emprego de final de semana. Você já trabalha a semana toda e, quando chega sábado, em vez de ficar com seu filho, se enfia para dentro do quarto para falar sobre suas questões íntimas com pessoas que nem mesmo existem!
Por algum motivo, Ester achava que as pessoas da internet não eram reais. Ela falava sem olhar para Helena, de costas, enquanto tirava as panelas do armário para começar a preparar o almoço.
- Então, já que aparentemente você está com tanto tempo livre, devia pelo menos fazer alguma coisa útil com ele e gastar em algo que vai ajudar a trazer dinheiro para dentro de casa. – Finalizou Ester, virando-se para encarar Helena.
Todo fim de semana era a mesma coisa, a mesma discussão sem sentido. Helena já estava cansada de argumentar que não precisavam de dinheiro. Ela tinha um bom emprego e o pai de Afonso, Jorge, se encarregava de todas as despesas dele. Ele não quis se lançar à sorte de um processo por pensão judicial, e correr o risco de sua mulher e filhos descobrirem sobre seu caso extraconjugal. Assim, transferia para a conta de Helena até mais do que o necessário, todos os meses, impreterivelmente.
Sua mãe não entendia a importância que o podcast tinha para ela, e Helena também nunca se arriscou a explicar, pois a verdade era que, em alguns momentos, ela própria sentia que aquilo era uma bobagem, um capricho seu. Ester estava certa: era um tempo precioso gasto com algo supérfluo, enquanto poderia estar na companhia de seu filho. Porém, bem no fundo, Helena sabia que o podcast a salvara. Foi o fato de poder se abrir, de poder falar abertamente sobre o episódio que deixou sequelas irreversíveis na vida de Afonso, e de receber o apoio de outras pessoas que a permitiu elaborar e se curar.
Hoje, ainda se lembra com tristeza daquela fatídica tarde. E embora já tivesse aprendido a não perder seu tempo especulando sobre tudo que poderia ter sido e não foi, às vezes ainda se pegava nesses pensamentos, ou relembrando a tragédia. Caminhava em uma avenida central da capital, à procura de emprego. Na época, sua mãe ainda trabalhava como costureira e precisava levar várias roupas aos clientes, e por isso não podia ficar com Afonso. Assim, Helena o levou junto. Após um dia cansativo, deixando seu currículo em vários prédios comerciais, Helena e Afonso se dirigiam ao ponto de ônibus. Só queriam voltar para casa.
Enquanto estavam parados na calçada em frente ao ponto, ouviram alguns gritos e uma agitação no final da rua. Algumas pessoas vieram correndo na direção deles e gritando, como se estivessem fugindo de alguma coisa. Segundos depois, ouviu-se um tiro. Um homem dobrou a esquina, correndo. Logo atrás dele, vinha outro. Estava armado. Mais um tiro.
Helena, compreendendo a situação, virou-se subitamente para pegar Afonso no colo, que na época tinha apenas 2 anos. Mas ele não estava a seu lado, como estivera há um segundo. Ele havia se afastado dela, correndo em direção à multidão e em direção aos tiros. Tudo aconteceu em menos de uma fração de segundo.
- Afonso! – Ela gritou, enquanto corria desesperadamente atrás do garoto.
Mas já era tarde. O tiro seguinte veio certeiro na direção dele.
A bala acertou a cabeça de Afonso que, embora tenha sobrevivido, perdeu permanentemente parte das capacidades motora e cognitiva. A partir de então, a vida de Helena passou a se resumir a hospitais, consultas médicas, fisioterapia, fonoterapia e terapia ocupacional. Cada dia um novo profissional descrevendo os progressos de Afonso que ela simplesmente não conseguia enxergar, tentando convencê-la de como ele teve sorte em ter sobrevivido.
- Mãe! Lápis. – A voz de Afonso tirou Helena de seu devaneio. O garoto estendia um lápis de cor azul para ela. Helena pegou o lápis e sorriu para ele, lembrando-se de que estava ali para ajudá-lo com a lição.
- Você não vai dizer nada? – Perguntou Ester, encarando a filha com uma escumadeira nas mãos.
- Mãe... – Helena estava exausta, não aguentava mais discutir sobre o podcast. Principalmente porque sabia que, na verdade, o incômodo de Ester era outro.
- Se ao menos você não tivesse ido lá naquele dia...
“Aí está!”, pensou Helena.
- Se ao menos você não tivesse sido tão irresponsável! – Ester continuou, chacoalhando a escumadeira no ar. – Não precisava ter ido levar os currículos naquele dia. Podia ter ido no dia seguinte, quando eu poderia ficar com o Afonso!
O acidente de Afonso acontecera há 6 anos. E há 6 anos Ester culpava Helena pelo destino dele. Ela sempre se resignou diante das reprimendas da mãe, porque de certo modo, também se culpava.
- Mãe! Lápis. – Afonso agora estendia um lápis amarelo para a mãe, que estava tão imersa na declaração de Ester, os olhos se enchendo de lágrimas, que apenas pegou novamente o lápis da mão dele, sem dar atenção. Mas ele não desistiu tão fácil desta vez:
- Não, mãe! Lápis.- Ele disse novamente, batendo uma das mãos na folha de papel à sua frente.
E foi aí que Helena viu. Na folha de papel à frente de Afonso, ele desenhara dois lápis, um azul e um amarelo. Algumas semanas atrás, Afonso mal conseguia firmar o lápis no papel. Mas agora, o desenho daqueles lápis, cheio de imperfeições e com linhas que não se encontravam muito bem, era a coisa mais linda que Helena já vira. E naquele momento, ela imediatamente se esqueceu de qualquer desentendimento com a mãe, pois havia ali algo mais importante que as unia: o amor por Afonso.
- Mãe, olha! – Ela praticamente gritou, sorrindo e chorando ao mesmo tempo. – O Afonso desenhou esses lápis! Ele fez isso sozinho!
Ester largou a escumadeira na pia e correu para ver o desenho. Não conseguindo conter a emoção, também chorou, abraçando e beijando Afonso e Helena.
Porque no fim das contas, era isso que importava. Quando se lida diariamente com as adversidades, cada pequena conquista importa, e muito! Helena chorou abraçada ao filho e à mãe, reconhecendo a importância de todo o esforço, de todas as horas gastas entre os ônibus, levando Afonso às terapias três vezes por semana. E naquele momento, teve a certeza de que fez o melhor que podia. Afinal, não é isso que é ser mãe? Fazer o melhor que se pode, sempre.
*Este conto é inspirado na história real de uma das mães mais resilientes e admiráveis que já conheci.

Conto: "Três folhas"
Escrito por Clóvis Nicacio, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Aniversários não deveriam ser dias tristes e solitários. Aquele amanheceu como qualquer outro. Nada de diferente no sol, no vento, na rua ou até onde conseguia enxergar dentro do quartinho pequeno. O pai saiu para trabalhar antes mesmo da escuridão desaparecer. Sem o ronco dele, o silêncio só não se instalou aterrador por causa dos piados dos passarinhos lá fora. Mas o menino sentia, mais do que via, uma diferença. Depois dessa data estaria oficialmente com 12 anos. 
Desde que a mãe morreu, há dois anos, achava que nunca mais saberia o que era um aniversário. Ela sabia. Dizia que o melhor aniversário era quando se podia escolher o presente. Ainda se lembrava de quando o deixou escolher um bolo, e a mãe conseguiu arranjar um pedaço, Deus sabe como. Mães sempre conseguem tudo.
Sozinho no quarto, permaneceu deitado. Num sábado sem aula e sem missa de domingo, levantar mais tarde era um presente que podia escolher. Pena que não era folga para o pai. Já devia estar trabalhando na gráfica, do outro lado da cidade. Depois do trabalho normal, completaria o dia fazendo horas extras, como em todos os sábados depois que ficou viúvo. Mas no dia seguinte iriam juntos para a missa.
Morar no subúrbio tem suas vantagens e desvantagens. A Igreja na mesma rua era bom, mesmo com o barulho dos sinos, mas a gráfica ficava longe. O pai só voltaria quando estivesse escuro novamente.
Só viu o presente quando se levantou. Três folhas de papel sobre a mesa, ao lado de um toco de lápis. Branquíssimas, como se tivessem sido feitas das penas tiradas das asas de um anjo. Só podiam ser uma surpresa deixada pelo pai. Quer dizer que ele se lembrou!
Ler e escrever eram as únicas diversões possíveis, para um menino vivendo sozinho com o pai. Ficava horas no porão, todos os dias, lendo e relendo tudo o que conseguia pôr as mãos. Livros, revistas, jornais velhos. Adorava a Bíblia, por ser o livro maior. Quando tinha algum papel, escrevia, inventando personagens, mudando as histórias, criando aventuras. A mãe havia ensinado a sempre melhorar, se aperfeiçoar a cada parágrafo, assimilando o que outros haviam feito. Essa vida eremita o afastava das outras crianças, fossem da escola ou da igreja. Era visto como um esquisito, branquelo, magérrimo, um antissocial sem amigos. Só o Padre e o pai o apoiavam, depois que a mãe se foi. Ela o chamava de futuro escritor.
Não havia pedido aquele presente, mas adorou. Sentou-se, pegou uma das folhas e começou:
“Hoje é meu aniversário de 12 anos. Não tenho amigos para comemorar comigo. Deve ser melhor assim, já que eu não saberia o que fazer. Se pudesse escolher, pediria um bichinho. Não, para compensar todos os outros aniversários, seria melhor um bichão. Queria ter um leão, igual aqueles dos romanos. Eu seria respeitado por todos os outros garotos.”
Estava contemplando a folha, pensando no que mais poderia encaixar, quando um enorme barulho fez a casa estremecer. Tão alto como se viesse de dentro da casa. Correu para fora do quarto, curioso e assustado. A porta da sala, a que dava para a rua, continuava fechada. Para o outro lado, na direção da cozinha, não havia porta, mostrando que o cômodo anexo estava vazio. Só restava o banheiro e o porão. Caminhou alguns passos, atento a qualquer novo ruído, até a porta do porão. Só ouvia o próprio coração, disparado. Até os passarinhos haviam se calado. Ao olhar para baixo, viu dois reflexos lá no fundo, iguais aos olhos de um animal o encarando. Prestando atenção, viu a juba do enorme felino delineada pela pouca iluminação. Conseguiu fechar a porta no momento exato em que o animal disparou em sua direção, emitindo um novo rugido ensurdecedor. Ouviu poderosos arranhões no lado de dentro da porta, depois do leão conseguir subir pela escada estreita. O peito estava quase explodindo.
Não conseguia entender como um bicho daqueles estava no porão. O pai jamais deixaria um animal selvagem de presente, sem avisar nada. A não ser que... Será possível?
Voltou correndo para o quarto. As folhas continuavam sobre a mesa. Amassou aquela usada, jogou no lixo, pegou outra em branco e escreveu:
“Hoje é meu aniversário de 12 anos. Não tenho amigos para comemorar comigo. Seria muito bom se tivesse pelo menos um, alguém corajoso que me ensine a domar leões. Como o Daniel da Bíblia, aquele que ficou vários dias entre as feras, sem sofrer nenhum arranhão. ”
Deitou a folha na mesa. Ficou ouvindo, atento. Os arranhões na madeira cessaram. Mais alguns minutos e escutou batidas na porta. Podia ser algum vizinho incomodado pelo barulho. Foi para a sala.
As batidas não vinham da porta da rua, mas da que fechava o porão. Sem os rugidos e arranhões conseguiu juntar coragem suficiente para abrir a porta e olhar para dentro, com o coração disparado de novo.
Um rapaz com roupas estranhas o encarava, ainda mais assustado do que ele.
— Onde estou? É isto o inferno?
— Não, é só o porão da minha casa. Já domou o leão?
— Que leão? Que castigo é esse que me aplicas?
— Você é o Daniel, não é? O que foi atirado na cova dos leões e foi protegido por Deus.
— Esse é meu nome, mas nada sei do que falas. Fui condenado à cova dos leões pelo Rei Dario, mas quando fecharam a tampa da cova me encontrei nesse lugar estranho.
— Foi um engano da minha parte. Sei como consertar. Não saia daí. E não tema os leões, eles não farão nada com você. Deus não vai deixar.
Fechou a porta e correu para o quarto. Amassou a segunda folha, atirando-a para o lixo, para junto da primeira. Pegou a terceira, escrevendo com dedos trêmulos.
“Hoje é meu aniversário de 12 anos. É um dia especial quando posso escolher meu presente. O dia de confessar e pedir perdão pelos meus erros. Perdão por não ter feito amigos. Pelas minhas escolhas erradas. Prometo que vou ouvir conselhos. Que não farei manhas, mas não sei se consigo evitar chorar. Vou cumprir minhas penitências, todas elas. Posso ter meus cabelos revirados, vou rir junto quando receber cócegas, vou obedecer sem questionar. Para fazer tudo isso, só o que peço é passar esse dia com minha mãe. “
Dobrou a folha cuidadosamente, guardando-a dentro da Bíblia. Depois desceu correndo para o porão, com os olhos embotados e o peito perto de explodir, tentando não tropeçar nas lágrimas.
As folhas não foram um presente do pai.
Conto: "Perdão"
Escrito por Stefani Banhete, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Abri meus olhos e olhei em volta, aflito. Estava tudo tão escuro e por um segundo, eu não sabia onde estava. Tive um pesadelo. Já fazia muito tempo que isso não acontecia. 
Me virei na cama, procurando a mão e o calor do meu marido. Ele não estava lá. Melhor dizendo, eu não estava onde deveria estar.
Me sentei na cama e acendi o abajur. Lembranças me inundaram como aquelas ondas violentas num dia de mar agitado. Meu quarto de quando eu era criança. Minha mãe.
Era onde eu estava: na casa da minha mãe. Ela estava ficando velha e meus irmãos haviam decidido coloca-la em um lar para idosos, mas nenhum deles tinha a coragem de ir até lá e contar a ela. “Vá você,” eles disseram. “Vocês já estão brigados há anos mesmo. Não vai fazer diferença se ela se zangar com você.”
Claro. Porque meu coração é feito de pedra, né? Caramba, não é porque ela me expulsou de casa quando eu contei que ia me casar, que eu não vou me importar se minha mãe me odeia.
Que tipo de pessoa eles acham que eu sou? Que tipo de pessoa eles acham que ela é?
Mamãe sempre foi durona, mas era tão amorosa! Eu me lembro, quando era criança, ela nunca me deixava sair de casa sem um beijo e um casaco.
Lágrimas me subiram aos olhos e tudo o que eu queria era o colo dela, os braços dela me apertando contra seu peito ossudo.
Me deitei outra vez, recordando, sentindo o cheiro de poeira no quarto. Minhas coisas ainda estavam lá, como eu havia deixado, o que...? Quase quinze anos atrás?
Eu passei tanta coisa naquele quarto! Altos e baixos, conquistas e fracassos... Minha mãe sempre esteve ao meu lado, cuidando de mim, me dando conselhos. Fomos só nós dois na casa por um bom tempo, enquanto os outros estavam na faculdade, ou já tinham se casado e mudado, alguns deles sem deixar endereço, inclusive.
Até aquele dia, tanto tempo depois, eu não conseguia entender porque minha mãe me chutou de casa... Por quê cara?! Aquilo machucou. Deus sabe como doeu! Por muito tempo eu tentei esquecer que tinha mãe, ou irmãos. Por um tempo eu achei que ia conseguir. É ingenuidade que chama, né?
Minha mãe deixou uma marca indelével em mim. Amor e dedicação. Eu a sinto comigo todo domingo quando vou ao abrigo passar um tempo com as crianças sem família que vivem lá.
Quando senti o sol batendo no meu rosto, me dei conta de que tinha pegado no sono novamente. Barulhos na cozinha me disseram que ela estava acordada, provavelmente fazendo café.
Escovei os dentes e troquei o pijama antes de descer.
Desci a escada fazendo barulho, para não assustá-la quando chegasse na cozinha.
— Bom dia, mãe.
Ela se virou para mim e eu me assustei com as mudanças em seu rosto. Quinze anos de mudanças.
— Matheus? O que você está fazendo aqui? Achei que fosse o Carlos.
— O Carlos me pediu pra vir... Eu precisava conversar com a senhora.
— Não antes do café. Você sabe que eu não funciono de estomago vazio.
— Eu sei. Quer que eu vá na padaria?
— Eu ia comer pão de forma, mas já que você está aqui, vá sim. Traga umas broas de milhos, também, por favor.
— Claro mãe... Já volto.
Peguei a carteira e fui para a porta.
— Espera, Matheus. Leva um casaco.
— Mãe, são dois quarteirões...
— Não interessa. Veste o casaco.
— Tá bom, mãe... – vesti o casaco e abri a porta.
— E cadê meu beijo?
Surpreso, me virei novamente e me deparei com sua bochecha, voltada na minha direção. Sem saber muito bem o que pensar, beijei seu rosto e disse novamente que voltava logo.
Por todo o caminho tentei entender o que tinha acontecido. Era como se nada tivesse acontecido, na verdade. Não havia nem um traço da tristeza que vi nos olhos dela naquele dia, tantos anos atrás.
Enquanto caminhava pela calçada malconservada, fui me lembrando das vezes em que nós dois andamos por aquela mesma rua, rumo àquela mesma padaria. As pessoas nos cumprimentavam e mamãe sorria de volta. Sempre. Nunca a ouvi dizer sequer uma palavra maldosa sobre ninguém. Para mim, minha mãe era a pessoa mais bondosa e legal do mundo.
Por isso doeu tanto quando ela me expulsou. Eu jamais pensei que ela fosse o tipo de mãe que faria isso com os filhos.
Comprei o pão e as broas; voltei para casa, passo acelerado e coração batendo rápido.
Resolvi que ia perguntar a ela. Eu não podia mais viver com aquela dúvida.
Entrei e fui para a cozinha, o cheiro de café me pegando pelo estomago.
— Matheus? Por que você está aqui?
Parei e pisquei algumas vezes, confuso.
Ah! Era por isso que eles queriam colocar a mãe no asilo...
— Oi mãe. Eu vim tomar café com a senhora. Trouxe pão quentinho e as broas de milho que a senhora gosta.
Ela sorriu para mim e pegou outra xícara no armário.
— Você ainda gosta de três colheres de açúcar no seu café?
— Não, o Syd me convenceu a diminuir o açúcar...
— Que bom. Você comia muito açúcar quando era criança... Quem é Syd?
Era a hora da verdade...
— Meu marido, mãe...
— Marido?
— Sim... Nós estamos juntos há quinze anos.
— Que bobagem, Matheus. Você não tem nem dezoito ainda!
Perambulando pela cozinha, ajeitando coisas que não estavam desarrumadas, era como se ela estivesse evitando olhar para mim.
— Mamãe, olha pra mim. Por favor?
Ela parou finalmente, agarrada a borda da pia, mas não se virou, então eu me levantei e a abracei, como ela costumava fazer comigo.
— Mãe. A senhora sabe que eu sou um homem adulto, não sabe? Não consigo acreditar que esteja ficando senil!
Seus ombros caíram contra meu corpo e ela enxugou o rosto antes de se virar para mim e me abraçar também.
— Eu sei. – Ela disse, balançando a cabeça contra meu peito – Minha mente parece que me escapa as vezes... Mas eu sei.
Eu a levei para se sentar a mesa e servi um pouco de café.
— Mãe, posso te fazer uma pergunta?
Ela me olhou, um pouco encabulada, provavelmente sabendo o que eu ia perguntar, mas fez que sim.
— Por que a senhora me expulsou de casa? Por todos esses anos, eu tentei entender, mas não consegui. Até hoje, não me parece algo que a senhora faria...
— Matheus, eu... – ela soltou um suspiro pesado e tomou um gole de café. Após um longo silêncio, ela começou: Eu fiquei com tanto medo! Eu... Eu já tinha ouvido falar de tanta coisa horrível que acontece com pessoas como você! Meu coração não ia aguentar perder você! Você era o meu menino, meu companheiro...
— Eu continuaria sendo seu menino, mãe. Casado com o Syd ou não! Mas ao invés disso, a senhora me afastou e me perdeu da mesma forma...
— Eu sei. Na época eu me recusei a pensar nisso. Tudo o que eu queria era esquecer que tinha um filho, para que não precisasse receber a notícia de que você tinha sido encontrado morto numa vala, ou que tinha contraído aquela doença horrível... Porque... Porque se eu não soubesse mais de você, eu podia fingir que você tinha se casado com uma moça decente e se mudado, como seus irmãos fizeram, e que tinha filhos e vivia seguro e saudável...
— Mamãe...
Sem saber o que fazer, eu me levantei e me ajoelhei na frente dela, deitando a cabeça no colo da minha mãe, pela primeira vez em quinze anos. Ela passou a mão pelo meu cabelo e nós dois ficamos naquela posição por muito tempo.
— Eu sou feliz, mãe. Sou saudável e tenho uma boa vida. – Eu disse finalmente, erguendo a cabeça – Com o Syd eu tenho tudo que a senhora desejou pra mim!
— Eu sei, meu amor. Seu irmão me contou... Você me perdoa, por favor? Me perdoa por ter separado a gente? Me perdoa por não ter estado lá quando você precisou de mim?
Surpreso, eu a encarei por alguns segundos. Minha mãe me pedindo perdão?
— É claro! – Eu disse, começando a chorar outra vez. – É claro que eu perdoo a senhora, mãe! E eu também te peço perdão. Por ter sido covarde e nunca ter vindo aqui. Por ter deixado o tempo passar...
— O tempo passa, meu amor. Independente da nossa vontade... Mas é claro que eu perdoo você! Agora, levanta e vamos tomar café e você me conta tudo o que te aconteceu nesses anos todos!
Nossa! E era tanta coisa para contar que eu nem sabia por onde começar. Então eu comecei do princípio e como disse o Chapeleiro Louco, parei quando cheguei ao fim. O fim sendo a decisão dos meus irmãos de colocar a mãe no asilo.
— Mas eu tenho uma ideia melhor. – Eu disse, já desolado pela expressão de choque no rosto da minha mãe. – O que a senhora acha de vir morar comigo e o Syd?
— Na capital? Mas Matheus, eu não poderia, nunca, viver num lugar grande daqueles! E se eu me perder? E se o seu... seu marido não gostar da ideia? Morar com a sogra não é o ideal de um casal jovem, você sabe disso...
— Mãe, calma. O Syd vai adorar a senhora. E nossa casa é grande, se a senhora se sentir melhor, a gente faz um apartamento separado com cozinha e tudo, só pra senhora, o que acha? – Um pequeno sorriso moldou os lábios dela e eu fiquei mais seguro da minha decisão. – E não se preocupe em se perder. Nós podemos colocar um cartão com nosso endereço na sua bolsa.
— Você sempre teve resposta pra tudo, né Matheus...
— Aprendi com a melhor! Mãe, por favor, pense com carinho. Eu quero muito ter a senhora por perto, pra gente se curtir e fazer parte da vida um do outro de novo. E o Syd tem um amigo neurologista que pode ajudar com seus problemas de memória.
— Antes de qualquer coisa, eu quero conhecer seu marido. Preciso saber se vamos nos dar bem.
— Acho ótimo. Vamos fazer suas malas e a senhora vai passar uma semana lá em casa.
— Agora?
— Quer hora melhor do que agora?
Ela sorriu para mim e terminou o café, já frio, que estava na xícara.
— Lave a louça pra mim, enquanto eu pego algumas roupas.
— Tá bom. Leve um vestido elegante, porque vamos ao teatro também.
Os olhos dela brilhavam tanto quando se voltou para olhar para mim, que minha garganta se apertou.
— Eu adoro teatro!
— Eu sei. Vai logo! Mas me chama pra descer a mala!
Enquanto eu lavava nossas xícaras, ouvindo os passos animados dela no andar de cima, minha mente ficava alternando entre a culpa de tê-la deixado sozinha por todos aqueles anos e as milhares de desculpas que eu inventei ao longo desses mesmos anos, para não vir visita-la.
Obviamente, eu fiquei mais magoado com a situação toda, do que gostaria de admitir.
Enquanto ela estava lá em cima, liguei para o Syd e expliquei tudo. Como a pessoa maravilhosa que é, ele me apoiou na minha decisão, mas ficou feliz com o período de teste.
A viagem de volta foi estranha. Mamãe me perguntou várias vezes para onde estávamos indo, mas cantava com as músicas do rádio do carro sem distinção entre pop, rock ou boleros. Ficou claro para mim, que o rádio era sua única companhia em casa e aquilo me partiu o coração.
Aquela semana juntos veio e passou e para a consternação geral dos meus três irmãos, mamãe se mudou para minha casa.
Como prometido, nós adaptamos uma área do térreo para que ela tivesse liberdade e privacidade e como eu já esperava, ela se apaixonou pelo Syd. Nos dias bons, ela passava a tarde toda com ele, que trabalhava em casa, cuidando do jardim ou cozinhando alguma coisa que costumava preparar quando eu era criança.
Nos dias ruins, eu a encontrava na porta da nossa casa, de tardezinha, quando chegava do trabalho, olhar consternado e nosso bulldog inglês, chamado Bowser, diligentemente parado ao lado dela. Eu parava meu carro na frente da casa ao invés da garagem e ia lhe dar um beijo. Ela pegava minha mão e começava a andar, puxando a nós dois, Bowser e eu, em direção a uma pracinha ali perto. E ela sempre dizia:
— Matheus, você precisa esquecer essa ideia de namorar homens!
Eu respirava fundo e contava até dez, olhando para frente. Eu sabia que era a doença falando, não ela, mas algo dentro de mim ficava pesado e dolorido quando a ouvia dizer aquelas coisas.
— Mãe...
— Meu filho, me escuta! É perigoso! Você vai acabar morto ou com aquela doença horrível que ninguém acha a cura...
Mais uma vez eu respirava fundo e, pegando na mão dela, explicava, outra vez:
— Mamãe, a senhora não tem com o que se preocupar. Eu estou seguro e saudável. Nada vai me acontecer. E eu não posso simplesmente parar de gostar de homens. Parar de gostar do Syd... É quem eu sou, mãe!
E então ela me olhava, meio triste, meio sorrindo, dava um tapinha no meu rosto e outro na cabeça de Bowser, se levantava e caminhava de volta para casa.
Em um desses dias ruins, que eram bem poucos, se comparados aos dias bons, eu realmente fiquei abalado pelas palavras repetidas dela. Havia recebido a noticia de que um amigo querido tinha sofrido uma agressão grave em um bar, algumas noites atrás.
Assim que entrei no quarto, para tomar um banho e finalmente encerrar meu dia, Syd notou na hora minha expressão e veio me abraçar.
— Dia ruim?
— Bastante. – Soltei o ar pesado de dentro de mim e o abracei também – Minha mãe também não ajudou...
— Ma...
— Eu sei, Syd. Eu sei, é a doença, mas hoje me bateu fundo...
— O Lino, né? – Eu fiz que sim com a cabeça, tirando a gravata e os sapatos, e os larguei na cama junto com o paletó.
Syd ficou me olhando tirar a roupa e entrar no banho, mas alguns minutos depois, ele estava no box comigo.
— Sabia que ela me fala exatamente as mesmas coisas que ela fala pra você? – Eu o olhei, surpreso e meu marido sorriu. – Ela te ama, Matheus. E eu descobri que ela me ama também. Ela se preocupa com a gente e no cérebro cansado dela, essa preocupação faz sentido!
— Eu sei que faz... Caramba, como eu sei! Mas, as vezes é tão difícil...
— É mesmo. Mas pelo menos, a gente sabe que ela diz o que diz, por preocupação e não por preconceito puro e simples. Tem gente que não tem tanta sorte.
— Você tem razão... Nós somos felizes, não somos? – Syd fez que sim – E eu tomei a decisão certa trazendo ela pra cá, né? – Ele acenou novamente. – Eu te amo.
— Também de amo, Ma. E amo sua mãe.
Conto: "O acidente com a lata de farinha"
Escrito por Day Fernandes , agenciada da Vivendo de Inventar.
— Catarina das Neves! Passa já pra dentro! Quem tirou você do castigo por acaso? 
— Mas mãe...
— Eu não quero saber de mas. Você só vai sair depois que aprender a nunca mais mentir pra mim.
— Eu não menti, mãe. Eu juro!
— Ah, não? Então quem foi que derrubou toda a lata de farinha no chão que eu tinha acabado de encerar?
— Fui eu, mas...
— E quem disse que vinha da escola direto pra casa e chegou duas horas atrasada?
— É que eu passei na casa da Marina pra fazer uma coisa.
— Que coisa?
— Uma coisa, ué.
— Olha aí, já tá mentindo pra mãe de novo!
— Mas eu não to mentindo!
— Já disse que eu não quero saber de mas. Larga logo essa bicicleta e vem pra dentro!
— É que eu tenho que buscar uma coisa importante lá na casa da Jô.
— Que Jô é essa, Catarina?
— A minha amiga Joana, mãe!
— Então fala direito, menina. Que mania de ficar encurtando o nome das pessoas.
— Eu posso ir? Por favor?
— Não senhora. Já falei que não!
— É rapidinho. Eu prometo!
— Não. Entra logo e vai catar aquele monte de papel picado no seu quarto. Onde já se viu uma menina da sua idade fazendo bagunça desse jeito?
— Eu limpo na volta. E encero a cozinha de novo. Deixa, vai?
— É claro que vai encerar. E quero ver aquele chão brilhando do jeito que estava antes!
— Então eu posso ir?
— Que raio de coisa é essa que você quer buscar, criatura? Você não tá de nenhum namorico por aí, né?
— Não, mãe! Credo!
— Acho bom. Você não tá na idade de saber de namorado não. Tem é que estudar pra ser alguém na vida. E para de me olhar com essa cara que eu sou sua mãe!
— Que cara?
— Essa aí, revirando os olhos e bufando. Por acaso eu não te dei educação?
— Mas eu não to fazendo nada!
— Chega de tanto mas. Vai logo na casa da Joana e quando o relógio bater cinco horas eu não quero ver um cisquinho de farinha no chão. E quero a senhorita com aquele quarto arrumado, entendeu?
— Oba! Valeu, mãe!
— Humpf! E vê se toma cuidado no caminho!
***
— Onde raios essa menina se meteu?
— Manhê! Cheguei. Tô aqui na cozinha.
— O que foi que eu falei sobre o horário, Catarina? Já são quase cinco e me...
— Surpresaaaa! Feliz dia das mães!
— Minha filha! Onde... Onde foi que você arrumou esse bolo, menina?
— Ah, mãe, não chora. Eu, a Marina e a Jô fizemos tudo sozinhas!
— E foi por isso que você derrubou metade da minha lata de farinha no chão?
— Foi sem querer... Mas o bolo tá uma delícia!
— Catarina, Catarina. O que eu vou fazer com você?
— A senhora pode anular o castigo.
— Nem sonhando. Vem aqui, me dá um abraço.
— Ai, mãe! Assim eu fico sem ar.
— Quando foi que você cresceu tanto, minha filha? Ainda ontem eu te carregava no colo.
— Isso já tem um tempão!
— Você tá me chamando de velha, é?
— Não, mãe!
— Então para de rir e vamos comer logo esse bolo.
— Vamos. Me dá aqui o seu prato.
— E vê se não faz bagunça na minha mesa.
— Ai, mãe. A senhora não dá uma folga.
— Esse pedaço tá muito grande, Catarina.
— Não tá não, toma aqui. Para a melhor mãe do mundo inteirinho! A minha!
Uma homenagem carinhosa a todas as mães preciosas e batalhadoras espalhadas por esse mundo! Especialmente a minha! Te amo, mãe!
Conto: "Contando as horas"
Escrito por Paloma Brito, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Mariana tirou a mochila pesada das costas e a largou no sofá junto com o próprio corpo. O relógio no alto da parede soava um tic-tac irritante no silêncio do apartamento, informando com os ponteiros empoeirados que já eram 14 horas. Depois da manhã exaustiva na escola, soltou o primeiro suspiro de alívio. Suas notas ainda não estavam melhores. Mas poucas coisas estavam melhores na sua vida. 
Sua mão se enrolou na camiseta da farda da escola e tremulou com a intensidade do aperto; Mariana sabia que tinha força suficiente para rasga-la ali mesmo se quisesse. Selou os lábios numa linha fina e afrouxou as intenções raivosas. Levantou-se com outro suspiro para se trocar e começar seus afazeres.
O micro-ondas apitou ruidosamente, avisando que o almoço estava pronto. Comeu na companhia da pequena televisão da cozinha, assistindo apaticamente as notícias sobre casos de violência na cidade. Ela não se lembrava da primeira vez que assistiu uma notícia trágica, então não sabia em que momento havia se tornado insensível a notícias como aquelas. Pensou que talvez todas as coisas do mundo fossem assim. Na primeira vez que algo acontece, o impacto é praticamente inevitável. Contudo, quando aquela mesma coisa se repete diversas vezes, tornamo-nos insensíveis ao que ela causa.
E agora era assim que Mariana encarava o noticiário. Não havia surpresa alguma ali. Lavou os pratos ao terminar de comer. Espiou o horário no celular quando sentou na mesma mesa da cozinha para fazer os deveres de casa. 15:45. Pulou a atividade de matemática. Algumas coisas nem valiam mais a pena tentar.
Com a cabeça apoiada na mão, ela tentou forçar as expressões em inglês a entrarem em sua mente e fazerem algum sentido. Não fizeram. Mas elas entraram e ficaram lá, soltas e flutuando entre o emaranhado de fios de informação. As batidas do lápis na mesa aumentaram de ritmo, ultrapassando o tic-tac do relógio. 18:00. Mais um suspiro.
“Ela disse que chegaria mais cedo do trabalho hoje”, a menina lembrou. Balançando a cabeça, fechou o livro de inglês abarrotado da caligrafia forte e pouco elegante. Abrigou-se na única matéria que realmente apreciava, que lhe remetia a acontecimentos reais do passado, mas não menos fantásticos por isso.
Assim como as palavras do livro de História narram fatos que levaram décadas para acontecer podem ser lidas em algumas horas, o tempo passou da mesma forma para Mariana. E quando menos esperava, levantou a cabeça ao ruído da chave na fechadura. Apressou-se, tirando sua bagunça da mesa da cozinha. 20:00h. Um suspiro. Mesmo assim, o sorriso surgiu no rosto da menina.
“Peguei um engarrafamento terrível, parece que aconteceu algum acidente”, Beatriz justificou o atraso, com um sorriso pequeno dominando as feições cansadas.
Era mentira. Mariana sabia que era uma desculpa esfarrapada como todas as outras. Sua mãe passava o maior tempo possível longe de casa. O lugar trazia lembranças angustiantes demais. E sempre que Beatriz contava-lhe tais mentiras, Mariana se esforçava para não apontar aquelas lorotas.
Forçando um sorriso, Mariana deu um aceno de compreensão a sua mãe e arrumou a mesa para o jantar. Beatriz já vestia roupas limpas quando se sentou à mesa. Apenas o ruído dos talheres contra a porcelana podia ser ouvido.
“Tirando o engarrafamento, como foi o dia no trabalho?”
A resposta demorou para vir. Beatriz mastigava lentamente sem revelar satisfação ou desgosto pela comida. Quando por fim engoliu, respondeu:
“Bom”. Mariana refletiu o motivo de ainda se dar ao trabalho de fazer aquela pergunta se sabia que todos os dias recebia aquela mesma resposta padrão e automática. Desta vez, para surpresa da menina, aquela palavra foi seguida de outras. “E o colégio?”
“Exaustivo, insuportável, um inferno na terra...”, respondeu com uma risadinha. Beatriz sabia que a filha estava exagerando. “Mas tudo bem porque o fim de semana está chegando e vamos ao parque, não é?”
“Ah, sobre isso...”
Mariana suspirou. Nem precisava ouvir o restante para saber o que a mãe falaria, mas o fez mesmo assim, suportando com o maxilar trincado o que pensava ser a próxima mentira qualquer. Beatriz não hesitou para falar, fez uma pausa apenas para passar o guardanapo sobre os lábios.
“Vou trabalhar”
Duas palavras. Apenas duas palavras para dizer que o passeio que Mariana aguardou a semana inteira não aconteceria. Um ardor característico subiu aos olhos da menina. Uma respiração trêmula e rápida impediu a umidade de escapar naquele instante.
“Ainda teremos o domingo”, o tom baixo carregava tanto uma sugestão quanto uma esperança.
“Estarei cansada”
Mariana abandonou os talheres e cerrou os punhos sobre o colo. Por um triz não os bateu contra a mesa e gritou que sua mãe só podia ser a pior do mundo. Levantou-se lentamente, avisou que já ia dormir e começou a se afastar em direção ao corredor.
“Já?”
A menina fingiu não escutar. Foi para o seu quarto e fechou a porta atrás de si. Deitou no escuro, esquecendo-se até dos seus pequenos rituais noturnos, como ligar o abajur e ler o livro que guardava no criado mudo. Esta noite, as lágrimas rolaram pelo seu rosto, e o choro carregava muito mais do que apenas frustração por não fazer o passeio que tanto queria.
O apartamento, miúdo e modesto, costumava ser um lugar feliz. O lugar mais feliz do mundo para a menina. O jantar era embalado por conversas e risadas, e Mariana pôde ouvir a voz profunda do seu pai provocando-a, e fazendo Beatriz rir. O choro continuou, agora devido à saudade. Três batidas firmes na porta sobressaltaram Mariana, que se encolheu e ficou paralisada.
Uma fresta da porta se abriu iluminando parcialmente o quarto. A silhueta de Beatriz apareceu no vão.
“Vai dormir sem escovar os dentes?”
Mariana escolheu não responder, pois sabia que as lágrimas poderiam ser ouvidas em sua voz embargada caso falasse. Diante do silêncio da menina, Beatriz entrou no quarto e fechou a porta, mergulhando as duas no breu novamente.
Com sua típica calma, andou até a escrivaninha, onde puxou a cadeira e a colocou próximo da cama antes de se sentar e inclinar-se para falar.
“Você está bem, Mariana? Está sentindo alguma coisa?”
Ela sentia. Sentia o peso do silêncio entre as duas contaminar o apartamento, o quarto, e seu coração. Já não podia mais suportar. Não se sufocaria mais e sobreviveria de suspiros de horas em horas.
“Por que você não gosta de mim, mãe?”, a voz chorosa perguntou, ao passo que Beatriz se recostou na cadeira. “Por que mente tanto e não conversa comigo?”
“Mariana...”
Levantando o tronco da cama rapidamente, a menina sentou-se e encarou a escuridão do quarto, mas sabendo que sua mãe estava ali. Mariana era como um rio calmo, que mostrava sua fúria quando a tempestade o fazia transbordar. Suas palavras vieram acompanhadas de lágrimas e soluços irrefreáveis.
“Não! Desde que o meu pai morreu você finge que eu não existo, e não aguento mais. Você não gosta de mim, só vive para essa droga de trabalho! Sinto como se eu te incomodasse o tempo todo, mesmo me esforçando ao máximo para não te aborrecer porque assim, quem sabe, você goste de mim novamente, mas... mas nunca é o suficiente, você nunca me enxerga!”
As últimas palavras saíram como gritos raivosos, e sua respiração acelerada parecia o único ruído que preenchia a casa depois do silêncio se abater sobre o aposento. A mãe permanecia tão muda quanto sempre, mesmo com a explosão da menina.
“Você nunca fala nada, somos duas estranhas dividindo um apartamento”, magoada e irritada, Mariana tentou alcançou o abajur para ligar a luz, incomodada pelo escuro. As mãos de Beatriz, magras e frias, tentaram impedir a menina, que as afastou rudemente.
Click
O abajur iluminou parcamente o quarto; os olhos semicerrados das duas voltaram a se abrir depois de poucos segundos. Mariana perdeu a fala diante do rosto da mãe, voltado para baixo e marcado por lágrimas. Nunca a tinha visto chorar. Nem mesmo no funeral. O silêncio se prolongou entre elas.
“Mãe?”, um sussurro.
Beatriz começou com a voz frouxa, “Tenho chegado tarde todos os dias porque estou fazendo hora extra, e sábado também farei. Se ficou com a impressão de que não gosto de você, filha, sinto muito. Sinto tanto que não faz ideia. Deixo sua farda limpa e passada para você ir à escola, preparo o almoço antes de sair para o trabalho, mas essas coisas talvez não sejam suficientes para você perceber meu carinho, meu amor por você”.
Mariana não sabia o que responder, até mesmo sua mente estava silenciosa agora.
“Tenho algumas dívidas, e ainda nem consegui terminar de pagar seus livros da escola. Quando seu pai... faleceu, não estava preparada para arcar com tantas despesas. Me perdoe por não dar conta...”
“Por que não me contou nada disso?”, Mariana perguntou num fiapo de voz.
“Você é só uma menina, a minha menina. Não tem que se preocupar com isso. Nós, adultos, vamos resolver”
As duas não demoraram para perceber o erro que Beatriz tinha cometido. E, embora fosse difícil fazer tal correção, Mariana falou enquanto passava o dorso das mãos sob os olhos.
“O ‘nós’ mudou, mamãe. Agora somos só você e eu. E tudo bem porque temos uma a outra”, a menina trouxe o rosto de Beatriz para cima afetuosamente. Os olhares marejados se encontraram. “Somos só nós duas agora”.
“Tem razão”, Beatriz sussurrou capturando as mãos da menina e plantando um beijo nelas. “Mesmo que eu não diga com frequência, eu te amo, Mariana. Nunca duvide disso”.
Concordando com a cabeça, a menina deitou-se novamente e desfrutou quando a mãe a cobriu com os lençóis suaves. Espiou o horário no relógio da cabeceira da cama, mas foi Beatriz quem falou.
“Já passou da hora de dormir”.
“Contei as horas para você chegar, mãe”
“Eu também, filha. Conto as horas todos os dias para chegar em casa e ver você”.
Conto: "A leoa"
Escrito por Sueli Lazari, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Por mais que tivesse tentado, ao longo de muitos anos, ela teve somente um filho. Letícia ainda era jovem, trinta e cinco anos, mas era definitivo, seria mãe de filho único. 
Provavelmente essa era a explicação para o fato de ela ter tido o filho mais lindo do mundo. Certamente, Deus havia caprichado mais nele, afinal, ela só teria um.
Pedro havia acabado de completar dezessete anos, alto, tinha ombros largos, os cabelos negros como carvão e uma pele branca e limpa. A alimentação balanceada, desde o berço, não permitiu que sequer uma odiosa espinha o incomodasse.
Para Letícia, a vida de mãe era perfeita, ela era a sua melhor amiga, a companheira para as brincadeiras, os estudos, os passeios, qualquer coisa, tudo que ele precisasse. Pedro era divertido, educado, estudioso, era simplesmente o melhor filho do mundo inteiro, perfeito. Até o dia em que ele resolveu virar o fã número um da cantora mais popular entre os jovens de sua idade. Pedro era apaixonado por Anneta.
A mãe não suportava nem ouvir o nome da artista. Odiava a sua voz fanha e morria de vontade de rasgar todos os seus pôsteres. Porque ele tinha que ter crescido tão rápido? De onde veio aquele mau gosto musical? Onde tinham ido parar os CDs com as músicas de galinha pintada e pintinho amarelo?
Ela bem que tentava fazer com que ele enxergasse a realidade.
_ Ela é muito oferecida. Tem uma vida totalmente desregrada. E como você pode achá-la bonita? Está acima do peso. Tem muita celulite. E aqueles olhos? São enormes.
O rapaz apenas sorria, levava na brincadeira, sem imaginar o quanto a mãe levava aquilo tudo tão a sério.
_ Ela é a mulher mais linda do mundo!
_ Mulher mais linda do mundo... Não sei onde.
_ Eu pegaria! Não precisa ficar com ciúmes. Vai se acostumando, ela ainda vai ser sua nora.
A mãe ficava fula da vida. Virava as costas para o filho, tentando esconder as rugas na testa e o rosto vermelho.
O marido tentava como podia ajudar a mãe leoa, principalmente quando se tratava do filhote.
_ Querida, não fique tão nervosa... Ele já tem dezessete anos! Como vai ser quando arrumar uma namorada?
_ Imagina, é um menino ainda! Ele só precisa estudar. Não vamos nos preocupar com isso tão cedo.
E demorou exatamente dois meses para que ela começasse a se preocupar. Foi durante o almoço de domingo.
_ Mãe, pai... Preciso conversar com vocês.
A mãe se engasgou com o espaguete, seus olhos pareciam querer saltar para o centro da mesa. Aos poucos, conseguiu retomar o fôlego.
_ Ai meu Deus! O que foi meu filho? Está se sentindo bem? Pode falar. É sobre drogas? Homossexualismo? Eu bem que desconfiava.
_ Querida... Deixa o menino falar.
O filho sorriu carinhosamente, estava acostumado com o jeito da mãe.
_ Está tudo bem, mãe. É só que... Estou namorando.
O garfo da mulher foi parar debaixo do sofá.
_ Querida, tem molho de tomate no seu cabelo!
_ Mãe... A senhora está bem?
_ Namorando? De namorar? Quer dizer... Namorando?
_ Sim, e uma moça, aliás.
_ Quem?
_ A senhora não conhece.
_ Onde ela mora?
_ Aqui perto.
“Graças a Deus, não era a Anneta!”
_ Vou tomar um ar. Acho que minha labirintite está atacada. – E ela saiu da casa, caminhando como um zumbi.
Sentada na varanda, em sua cadeira de palha, ela pensava, onde teria errado na criação do filho? Podia jurar que tinha feito tudo certo. Não podia ser verdade. Ele ainda era um menino, há pouco tempo ela trazia dinossauros sempre que chegava da rua. Pedro só tinha parado de beber leite na mamadeira aos onze anos.
Ela precisava saber quem era a moça. Já imaginava o tipo de mulher que seria. Estava cansada daquela laia. Cabelos sempre descoloridos, escova permanente, minissaia curtíssima. E os decotes? Andavam quase nuas. Pareciam todas iguais. Mas ela não se faria de cega. Não mesmo. Se a mocinha fosse muito indecente, ela iria falar com ele.
Voltou para dentro da casa, sentou-se à mesa.
_ Como ela é?
_ Gente boa.
_ O que ela faz da vida?
_ Estuda.
_ E a família dela?
_ São pessoas muito legais. Relaxa. A senhora vai poder perguntar tudo isso para ela.
_ Vou? Quando?
_ Me deixa ver. – Ele pegou o celular na mesa e conferiu algo. _ Daqui a meia hora. Ela vai vir aqui. Está louca para conhecer a senhora e o papai.
_ É o seguinte, eu já vou avisando, se eu não gostar da cara dela eu não vou esconder.
_ Ah, eu tenho certeza disso. Mas a senhora vai adorar a Anita. Ela é linda.
_ Anita? Linda?
_ Anita. Linda.
_ Linda como?
_ É a cara da mulher mais linda do mundo. Você vai ver.
Só podia ser um castigo, ela fez tudo da melhor maneira que pôde, o criou com tanto amor e era isso que recebia em troca. Uma nora com a cara da Anneta. Já sabia que a detestaria, na verdade, ela já a detestava.
A culpa era do filho, se não fosse tão louco pela cantora, se não fizesse tantos elogios. Se ele não a tivesse provocado tanto. Mas já era tarde. Qualquer coisa que se relacionasse com a cantora, ela tinha birra.
Quarenta minutos depois do almoço o rapaz recebeu uma mensagem no celular.
_ Ela está aí na frente. Vou buscá-la. E mãe... Comporte-se.
O casalzinho entrou pela porta da sala. A menina parecia acanhada, olhava para o assoalho. O coração da mãe batia descompassado. Mas ele havia se enganado, ela não parecia em nada com a Anneta.
O filho sorria de orelha a orelha.
_ Mãe, olha bem para ela e me responda. Não é Igualzinha à senhora naquelas fotos do seu álbum de casamento?
_ Ela é linda. – E as teimosas lágrimas deslizaram sem timidez pela face da leoa domada.
Conto: "A BALADA DE BELATA. 
BELATA, A MÃE NEGADA "
Escrito por G. M. Rhaekyrion, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Senti a pele do pescoço de Anita ceder sob a minha espada, ela tinha um cheiro forte de margaridas, o ar de pânico estampado no rosto. É indescritivelmente satisfatório ver a vida se esvair diante dos meus olhos. Gosto de pensar que sou a Ceifadora, que decido o destino de minhas vítimas, espero eu que a Dona Morte não se sinta ofendida; aliás, estou contribuindo para a abundância de espíritos no seu Mar dos Lamentos. É um favor.  
— Gostou? Espero que sim. — disse perto de seu rosto, com os olhos injetados de puro ódio.
Meu coração era pleno, nunca palpitava ao chegar a hora de matar. Na verdade, causava uma plenitude única, como o efeito dos sons da chuva e o cheiro da natureza. Matar é meu mantra, minha meditação. “Não espero que compreendas”.
Segurava os cabelos prateados de Anita, esposa do líder do clã dos magos Elementais, achando belo o contraste de seus fios claros no vermelho de seu sangue. Demorei-me a segurando, queria ver a reação de Valén quando me encontrasse com o corpo desfalecido de sua esposa e sentisse o mesmo que me fez sentir; que corroesse em sua pele a sensação da perda, da dor. Soube do poder que cabe a ele, de como conseguiu a posição que tem. “E por causa dela também morrerá”. É onipresente o pensamento dos que sentam no topo da pirâmide social, acreditam tão fielmente no poder que possuem, comparam-se a deuses, mesmo sem declarar tal ato, servindo de juízes do mundo, selando a vida dos mais baixos. Tomando o que desejam sem se importar de quem, e quem... “Tomando minha filha... Minha Solara”.
— Não imaginariam que eu voltaria, não é? — conversava com o cadáver diante de mim. — Que arrancaria a alma, um por um, não é mesmo? — ri comigo mesma, lambi o sangue que manchava meus dedos. — Sintam... Sintam na pele o gostinho do que me fizeram sentir.
Espero que jamais se esqueçam de mim, pois vim aqui resgatar o que me foi tirado. Trazer de volta minha filha para meus braços. Punir um por um, até que restem só cadáveres e sangue, alimentando essa terra já pútrida de guerras passadas. Regando-a com líquido fresco.
Que meu nome vire símbolo de horror. Soarei feito a peste, serei a canção de terror para crianças dormirem. O mal, o símbolo da desgraça; que eu soe feito o diabo, o simples pensar de meu nome vire motivos de arrepios, que rezem para me afastarem, supliquem aos deuses a minha distância. Sonhem com meus olhos castanhos, lembrem-se da pele leitosa da minha face e do sorriso largo de dentes tingidos de sangue. Serei a lenda que vão recitar ao redor da fogueira, o motivo dos calafrios... Serei o medo, o mais genuíno medo.
Valén adentrou o salão de refeições com seus olhos lilases brilhando, as mãos cerradas em dois punhos de terra e o corpo banhado de suor. Era uma noite quente de primavera, a lua cheia pairava gorda no topo do céu, e eu me encontrava sentada à mesa, com o corpo de Anita estendido sobre o móvel, servido.
— A-a-ani...Ani...
— Bonita, não é mesmo? Ela será muito mais feliz nas minhas mãos, entenda. Quanto mais cedo compreender, melhor será para todos nós. — recitei as palavras que o ouvi dizer quando se prostrou no meu leito e colheu a criaturinha que trouxe ao mundo, não me permitindo nem ver seus olhos.
Gargalhei baixinho, ele mal conseguia falar, os olhos se enchendo, o tremor o invadindo. “Isso, tema. Sinto o que me fez sentir”. E num golpe de raiva ele conjura o ar a sua volta, desfazendo os punhos de terra, trazendo uma lufada agressiva na minha direção. Ergui a espada diante de mim e me pus de lado, cortando o ar feito tecido. Ouvindo o sibilar fino da lâmina.
Coloquei-me sobre a mesa quando Valén, gritando, conjurou o fogo, recrutando as chamas das tochas ao nosso redor, formando um arco mortífero a me envolver. Senti o calor e a queimação nas minhas panturrilhas, saltei e percebi que o arco me seguia. Corri em volta da mesa e colhi o pó do saquinho preso ao meu sinto. Quando perto do homem eu lanço o pó no chão, fazendo explodir uma fumaça branca intensa. Pude ouvir a tosse de Valén e seu recuar, senti o fogo ceder.
Fechei fortemente os olhos, concentrando-me nos meus ouvidos, podia sentir a energia dele mais fraca, estava esgotando seu mana. Abaixei-me quando conjurou o vento de novo e espalhou a fumaça pelo cômodo a dissipando. Quando um mago chegava a ditar seus encantos era sinal de uma mente cansada. Recitar me dava vantagem e a aproveitei.
Avancei em sua direção golpeando sua perna, mas ele foi rápido, e me jogou longe com uma dobra de ar. A parede me amorteceu e escorreguei, a dor me arrancando o fôlego por segundos preciosos.
 Gritei quando o fogo me queimou os pés e pernas e recuei escapando do pior. A água me atingiu depois e numa sequência de investidas eu fui mandada para longe, sendo jogada para fora do cômodo a encontrar o salão de entrada, por onde comecei meu rastro de morte. Perdi a espada, meus olhos ardiam e respirar era um problema. Apoiei as mãos devagar no chão, erguendo o tronco enquanto tossia. “Desgraçado”. Ouvi sua voz.
— Vai se arrepender do que fez.
Esperei, encolhi o corpo e sutil colhi de dentro do corpete um saquinho minúsculo. Engoli seu conteúdo e no instante seguinte a dor desapareceu de mim. Mantive-me contraída, soltei um breve gemido e ele se aproximou. Podia ouvir o quanto ofegava, estava à beira de um colapso mágico e eu não tinha muito tempo.
Quando Valén ficou a uma distância segura eu puxei seu pé o vendo cair, montei depressa sobre seu corpo e acionando a lâmina retrátil da minha braçadeira eu atravesso o homem no meio das clavículas. Ele engasgou, os olhos parando de brilhar aos poucos e o pânico se espalhando pelas curvas de seu rosto.
Notei que chorava só quando as gotas de minhas lágrimas molharam a face do homem, mal consegui acreditar que estava feito. O matei, tinha matado o desgraçado.
— Belata. Espero que se lembre...
Ele não conseguiu nada dizer, mas estampou a compreensão antes de morrer. Valén tinha me tirado Solara, levado o bem mais precioso de minha vida e agora pagava morrendo. Não me importa se neta dele era, Solara é minha filha em primeiro lugar, e não cabia a ele decidir tal destino, não cabia. Solucei.
— Morreu. Morreu. MORREU! — gritei em puro êxtase e ao puxar a lâmina e enfiá-la no peito do homem em puro ódio eu senti algo me apunhalar as costas e me transpassar.
O ar me faltou por alguns segundos, uma sensação de aperto tomando o peito, meus braços ficaram dormente, amolecidos de alguma forma. Senti quando escorrei de lado e sentei no chão encarando o que saia de minha barriga.
Uma estaca de gelo grossa apresentava sua ponta melada de sangue bem abaixo de meus seios. O frio não me atingia, nem a dor, mas meu coração estava aos saltos, pois ouvi a voz angelical que sempre imaginei que Solara teria.
— Deuses... Deuses elementais... Mãe, mãe, mãe. Por favor, fale comigo, por favor, fale. Mãe? Mãe?
Sorri largamente ao virar o rosto na direção daquelas súplicas, esperava ter uma jovem de cabelos prateados e olhos castanhos debruçada sobre mim, finalmente, em meus braços. Mas vi uma menina de cabelos negros como os meus e olhos tão lilases quanto lembro seu pai ter, chorando sobre o corpo de Anita estendido na mesa. Ela tremia violentamente, jamais imaginei ser assolada por tamanha dor, era o mesmo de ter um pedaço seu sendo arrancado e apesar da poção anestesiante, senti o pesar daquela cena.
— S-sol-sola-solara.
Disse em dificuldade, o sangue me encheu a boca e escorregou por ela aos montes. O gosto era mais doce do que imaginei. Apoiei uma mão trêmula no chão, tentando me manter acordada. Uma espécie de sonolência me invadia e foi quando um chute violento me atingiu a face, obrigando-me a deitar de lado, arrancando o resto das minhas forças. Vi as botas negras, a barra do vestido e quando me viraram de costas senti a estaca me transpassar um pouco mais, enquanto a silhueta de Solara se formava diante de mim. Era linda, pelos deuses, como era linda. E seu ventre estava crescido, numa curva sutil e bela de quem esperava. Sorri, sorri largamente.
— S-sol. — balbuciei.
— Cale-se, Assassina! Você matou meus pais. Matou minha mãe!
Mais um chute veio em meu rosto arrancando sangue das minhas narinas, mas a felicidade não conseguia ir embora. Apenas enlargueci o sorriso.
— Mi-minha Sol. — disse a encarando, vi a determinação que Nöen, seu pai, tinha. A energia dela era poderosa, pulsava perceptivelmente, formando uma áurea roxa azulada ao seu redor. Nunca senti tanto orgulho. Era isso o que diziam sobre filhos? Será que era isso?
— Sua? Esta delirando! — ela cutucou a estaca, mas dor alguma me atingiu e gesticulei a apontar em sua direção e depois na de minha barriga, esperando que ela entendesse.
— F-filha. — sussurrei. O peito maluco de tão acelerado e no seu semblante atônito eu quis enxergar o amor que me acometia.
— O que? Mentirosa. Sou Vitória, filha de Anita do Clã Elemental! A herdeira. E você não passa de uma assassina!
Talvez eu soubesse desde o início, talvez tivesse me cegado esses vinte anos. Não importava, apenas consegui a rever... E a ouvir. Não era como sonhei, muito menos como desejei que fosse, mas soube que Vitória era uma mulher forte, poderosa. Só de saber que seu futuro estava protegido por ela mesma me senti acalentada. Solara existiu só para mim e essa fantasia permanecerá para sempre em meu coração. Se não doía? Acho que nem a morte conferiria tamanho sofrimento, nem o dia que sequestraram minha garotinha de meus braços. Havia me vingado, era o que importava.
Sorria quando fui ceifada, de vez, dessa vida.
Conto: "Nem pai nem mãe, só arte-final"
Escrito por Sandra Godinho, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
- Tenha um bom dia, meu amor! 
- Você também, querido.
Paulo guardou as últimas recomendações da mulher, as diretrizes para o almoço, os cuidados com a filha, o cuidado com a casa. Aguardou o carro dela virar a esquina, deixando no asfalto a fumaça do diesel que subia às narinas. A sensação de ausência invadindo o corpo. Nem tudo era dito por palavras, às vezes, um gesto ou o silêncio bastavam. Aliás, nem tudo valia a pena contar. A noite anterior tinha sido de entrega, ele dentro dela, dentes furando pescoço em ritmo alucinante, ossos do quadril contra ossos do quadril, gemidos sem dor. Dentro e fora, roçando caminhos e bordas.
Agora não via a hora dela se ir. E não havia nada que ele pudesse fazer. Ninguém tinha culpa dele ter perdido o emprego meses antes e ela ter conseguido manter o dela, uma bênção em tempos de crise. Agora, cabia a ele o cuidado com a filha e a casa, nessa ordem. Ele retornou para dentro com um temporal se armando em cima de sua cabeça. Tinha tanto a fazer. Assim que colocou o pé no batente da porta, deu um pulo no ar. Estava a sós com sua filha, finalmente. Quando a garota de nove anos apareceu sonolenta à sua frente, ainda segurando pela mão o coelhinho de pelúcia azul, ele sabia que a diversão ia começar. Tanto tempo cumprindo horário, batendo metas, assumindo um papel pervertido de quem só vive para trabalhar. Vegetava, sabia-o bem. A tudo, ele deu um basta. A tudo, ele deu as costas em revolta. Sentiu seu silêncio acordar o vento, sacudir seus eixos, arrepiar um mundo que estava prestes a ser resgatado.
- Já levantou, Mari?
- Mamãe já foi?
- Foi sim.
- Quero tomar café.
- Quer que o papai prepare uma banana-split?
- Mamãe não vai brigar?
- Mamãe não precisa saber.
Mamãe não precisava saber de muitas coisas. Muito menos que ele ria à beça com sua filha. Desbragadamente. Em acessos de riso de fazer xixi nas calças, por tudo e por nada. A sós, em casa ou na lanchonete, quando o milk-shake de chocolate espirrava na sua camisa e as pessoas olhavam assustadas, rindo de doer a barriga, remexendo o canudinho como se o mundo precisasse ser revolvido para que a graça surgisse. Não no mundo deles. No mundo deles, só gargalhadas.
- Mamãe vai ficar bem brava se descobrir que tomamos banana-split e sanduíche ao invés de comida.
- Isso também é comida.
- E vai ficar brava quando vir que você não limpou casa.
- A casa fica melhor com nossas cabanas de cobertores e lençóis. É nosso acampamento. Você não gosta?
- Gosto. Só não gosto quando ela briga com você.
- Mamãe não sabe o que está perdendo. Parece até o papai quando trabalhava, não parece?
Riam. Um sorriso de cumplicidade. Paulo achava que a graça não estava em seguir um caminho reto. Eram os desvios que os revelavam naquele mundo só deles. Não foi sempre assim. Quando soube que a mulher engravidara, ele estava com o livro de economia aberto em cima da mesa, o computador ligado, trabalhando em casa mesmo depois de um dia cheio no escritório. Emendava dias e noites sem notar. As madrugadas comendo o sono e os sonhos. Tudo que Paulo atinava era sobre a responsabilidade de colocar mais uma boca no mundo. Uma boca que ia engolir seus desejos em vastidão de vontades. E quando Mariana nasceu, tudo o que ele pensou foi deixar para a filha a segurança dos bem-criados, uma festa de quinze anos para guardar na memória e um carro para que ela lhe desse sossego. Quase nunca a via ou - se a via - não a enxergava. “Um homem trabalhador” podia ouvir sua mãe falando às amigas como se fosse uma espécie de ser em extinção. “Um homem trabalhador”, a mãe repetiu à esposa, assim que se conheceram, a sina predestinada. E alçada a pedestal como se fosse o ápice da humanidade, o cume que todos almejam. Fez o que pôde até que não pôde mais. A mesma mãe não o entendeu quando ele aposentou o terno para passar as manhãs com Mariana, preparando guloseimas que ele (mais do que Mari) gostava de comer, assistindo programas de culinária na televisão e conferindo as lições como se assim revivesse a infância.
- Está sendo mais criança que sua filha, Paulo.
- Aí está a mágica, mãe. Ir contra a ordem natural das coisas. Rejuvenesço ao invés de envelhecer.
 Paulo se aguentava até que a velha se escafedesse porta afora, livrando o picadeiro para o circo que estava prestes a montar. Ele se encafuava na cozinha até que recendesse cheiros e sabores. Condimentos, guloseimas, magias e feitiços. Após o almoço, deixava a filha na escola para tratar dos afazeres domésticos. Uma lástima porque gostava de ver as coisas fora-do-lugar: A bola rolando pelo quintal, a tampa da pasta de dente aberta no banheiro, as peças do quebra-cabeças espalhadas em cima da mesa da sala sem jamais se completar, o barulho da televisão zunindo até ele dormir no sofá com o controle remoto na mão, evidenciando a vida em descontrole, como altos e baixos de uma montanha russa. Levou algum tempo até Paulo entender que estava em um ápice desvirtuado, saboreando a existência que até então lhe fora negada em sua plenitude. Agora não havia a necessidade de controles. Nem de horários. Nem de regras. Podia fazer o que quisesse e quando quisesse, longe da vista de todos, sem explicação. Sua mulher se aborrecia, sem entender seu desejo de que a casa mantivesse os traços de energia e entusiasmo. Estava vivo, afinal.
- Está gostoso, filha?
- Tá, papai.
- Vamos experimentar um sundae de morango amanhã?
- Vamos, sim...
Mariana emendava uma colherada na outra. Aflita.
- Você vai fazer aquilo que prometeu, papai?
- Vou, sim.
- Não sei se vou conseguir, papai.
- Consegue, sim. Só não fala pra mamãe, ok?
- E se ela perceber?
- Não vai, não.
- Então vamos pro banheiro?
- Agora, filha?
- Agora.
Ansiosa, a menina largou o restante do sorvete de chocolate na taça. Largou o coelho de pelúcia na cadeira, abandonado e sem serventia. O pai enfiou o último bocado do sorvete na goela, também ansioso. Tomou as taças e as colocou na pia, junto com o restante da louça do desjejum, preparado antes da mulher sair para o trabalho. Sempre foi homem de satisfazer as mulheres. Paulo subiu as escadas sem fazer alarde. Sabia que estava prestes a fazer algo proibido. A garota inocente seguia atrás dele, pé por pé, cúmplice no malfeito. Caminharam pelo corredor até alcançar o banheiro. Paulo escarafunchou o armário debaixo da pia até achar a pequena maleta de maquiagem - que a esposa tratava como tesouro - guardado a sete chaves.
- Você vai fazer direitinho, pai?
- Eu vi o vídeo com as instruções dezenas de vezes. Não tem como errar.
- Então vai me explicando.
- Primeiro você passa a base, espalha bem para parecer natural.
- Faz direito, pai. Não cobriu seu pescoço.
- O pescoço também, Mari?
- Para eu ter ideia de como fica.
- Depois a sombra em cima dos olhos, esfumaçando para fora com o pincel. Sua mãe escolheria a azul. Vamos de azul, Mari?
- Você vai ficar bem com a rosé, pai!
- Rosé? Não sabia que existia cor rosé!
- Aprendi com a Magali.
- Sua amiguinha já usa maquiagem?
- Direitinho, mas a mãe dela deixa.
- Sua mãe nunca vai deixar você mexer com maquiagem. Menos ainda com a maquiagem dela.
- Ela não vai saber que mexemos nas coisas dela. Lembra, papai?
- Nunquinha.
Eles passaram horas no banheiro, esquecidos das lições de escola, quebra-cabeças, terremotos e vendavais que açoitavam os quatro cantos da cidade naquela manhã. Paulo finalizou a maquiagem em sua boca carnuda com um batom vermelho-vibrante, que lhe deu um toque afeminado ao rosto. Ele não se importou. Mariana também não, feliz porque o pai a encorajara a testar as habilidades aprendidas em seu rosto pequenino. A primeira vez a gente nunca esquece.
- Acha que a mamãe vai aprovar minha maquiagem, papai?
- Está um pouco forte. Para a festinha das mães você pode pôr só um pouco de blush e um batom rosa claro.
- A mamãe não vai perceber?
- Vai, mas não vai poder falar nada porque é a homenageada na escola.
Com o rosto pintado, a menina saiu do banheiro em direção ao quarto. Escolheu no armário um dos vestidos da mãe e um sapato de salto alto que parecia dançar nos pés pequeninos.
- Vou usar esse, pai.
- O traje todo, Mariana?
- O traje todo.
- Pra que?
- Agora você vai me ensinar a dançar.
Uma trovoada ribombou do lado de fora. Ele escolheu no aplicativo do celular uma valsa antiga da época em que ainda era garoto e aumentou o volume. O tempo passava bem depressa. Ele sabia. Então se aproximou da filha, tomou-a nos braços e se puseram a dançar debaixo de trovoadas que preenchiam lacunas.
Conto: "Feliz Dia das Mães!
Um conto Zumbi "
Escrito por J.C.Gray, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
O Dia das Mães sempre era um problema para Daniel.  
Todo ano se via com o mesmo dilema: ia de loja em loja, via cada uma das vitrines, e não conseguia pensar qual daquelas opções de presentes seria algo interessante para sua mãe. Queria ter sido rico para poder dar para ela aquela televisão dos sonhos, um home theater ou um aparelho de som de botar inveja em todos os vizinhos e arrancar lágrimas de sua mãe.
Mas aquele ano, escolher o presente de Dia das Mães seria ainda mais difícil, tenha tirado lágrimas de sua mãe. Em cima de seu caixão.
Dona Maria Luiza estava inconsolável enquanto soluçava chorando em cima do caixão. Que presente de dia das mães era enterrar um filho? Não era a ordem natural das coisas! Onde foi que ela teria errado para perder seu menino tão cedo?
Naquela sexta–feira tudo parecia ir tão bem! Pela manhã, antes de dar um beijo na testa do filho antes dele sair para voltar em um caixão era só mais um dia. Ela já sonhava com que presente seu filho ia trazer. Será que tinha visto todos os sinais de que ela queria uma cafeteira de capsulas? Ou talvez da air fryer que ela tanto vinha querendo para diminuir o percentual de gordura da família? Se pelo menos o filho conseguisse se manter em um emprego tempo o suficiente para conseguir dar um desses presentes para ela...
Daniel já lembrava da manhã de sexta–feira de uma forma bem diferente: com sua mãe o acordando aos berros, de que ele “não queria nada com a vida”, o mandando se arrumar bem, e ir entregar currículos para tentar conseguir um novo emprego. Não sem antes mandar que ele arrumasse o seu quarto que “parecia um campo de guerra” e lavar a louça suja que ele havia deixado em cima da pia da cozinha. Beijo na testa? Lembrava de ter quase levado um jornal enrolado na testa antes de sair e fechar a porta. Mas que vida ele tinha agora estirado em um caixão enquanto jogavam as últimas pás de terra?
Tudo por culpa do cachorro estranho que havia o atacado pouco depois de sair de casa. Nem sabia que cachorros conseguiam pular a ponto de morder seu pescoço! Quando foi socorrido sangrando muito, lembrava do médico falando para aplicarem uma injeção nele falando algo sobre “raiva”. E agora estava ali, sábado, estirado em um caixão ouvindo os soluços de sua mãe e o som oco da terra batendo contra a madeira do caixão.
“Espera, eu deveria estar ouvindo coisas se estou morto? Será que é isso a tal vida após a morte? Se for é meio bosta...” ele pensou em um momento de lucidez antes de apagar. Agora talvez ele tivesse realmente morrido de vez.
O domingo de dia das mães acordou nublado e chuvoso, bem como o humor de dona Maria Luiza. Porque comemorar dia das mães depois de ter enterrado seu filho? O que ela não sabia é que aquele seria um dos dias mais loucos de sua vida.
– MEU DEUS! – Daniel levantou em um pulo dando com a cabeça na tampa do caixão de madeira – Não comprei o presente da mamãe!
Alguns dizem por aí que existem preocupações de levantar os mortos da tumba, mas com certeza não acreditavam que poderia realmente acontecer.
Daniel começou a se desesperar quando percebeu que estava dentro de um caixão.
“Eu não estou morto! Eu não posso estar morto... não é?” – de perguntava lentamente quando viu sua mão em um tom perdido entre um cinza e um azul que o fez gritar.
Tinha que manter a calma e tentar sair dali. Depois de muitos chutes que pareciam que iam fazer sua perna cair, conseguiu quebrar a madeira da tampa do caixão e foi se erguendo pela terra molhada. Quando sua mão atingiu o lado de fora da terra, se impulsionou para cima. Ouviu gritos de pessoas que passavam pelo cemitério e viram a cena apavoradas.
– Porque me enterraram vivo? – ele se perguntava.
Sujo de terra da cabeça aos pés, ele se pôs a andar. Estranhou estar devagar como nunca antes, e percebeu que mais arrastava as pernas do que andava. Achou que pudesse ser algum tipo de câimbra.
Deixou o cemitério nesse passo de defunto, e andou até a grande loja de departamento próxima. Precisava comprar o presente da sua mãe! Controladora do jeito que ela era, ai dele que não entregasse um presente bom.
As pessoas olhavam para ele e desviavam do caminho, algumas chegavam a gritar. “Devo estar parecendo um mendigo” pensou, até parar na frente da vitrine da loja. Namorou a enorme televisão de 60 polegadas com imagem 4k. Uma moça o olhou e gritou, saindo correndo. Será que estava tão mal assim?
Se arrastou para dentro da loja deixando um rastro de lama por onde passava. Demorou um tempo naquele passo lento a chegar na frente de um armário em exposição e se olhou no espelho. E foi ele que gritou. Além de todo sujo, realmente parecia morto. Com o susto um de seus olhos pulou do rosto, o deixando ainda mais desesperado tentando o encaixar de volta.
Uma das televisões em exposição ligadas no noticiário falava algo sobre alguns animais mortos retornando à vida misteriosamente.
“Aquele maldito cachorro!! Agora eu sou um zumbi?” pensou ele. “Por quanto tempo será que ainda vou estar pensando? Zumbis pensam?”
A resposta para sua pergunta ele não sabia, mas teve a melhor ideia de toda a sua vida. Ou melhor, não vida.
Se arrastou até o balcão onde os atendentes da loja já estavam se escondendo dele. “Que gente burra, nunca viram The Walking Dead?” ele pensou.
Bateu com sua mão acinzentada em cima do balcão, e os vendedores se encolhiam mais atrás dele.
– Eu quero aquela TV, a de 4k! – Daniel falou, pelo menos era o que ele entendia que estava falando, porque na realidade, o som que saia de sua boca era algo mais parecido com um monte de gemidos de “urrrrrrrrrrghhhhhhhh”.
Uma das vendedoras começou a chorar. Se ele tinha falado de forma tão clara porque eles não entendiam? Tentou ameaçar um pouco: soltou um ruído alto batendo na mesa, com as mãos, e depois apontando para a TV. Do que ele falava só entendiam aqueles sons horríveis, mas apontar surtiu efeito. Um vendedor corajoso, se levantou, tremendo.
– Vo–você quer essa aqui? – ele perguntou tremendo muito. – E–eu vou fazer a–a–a nota para vo–você...
Mais um barulho gutural, que fez o homem engolir seco.
– A–acho que não precisa de nota... – ele estava realmente apavorado – E–e–eu vou buscar no estoque! – ele falou antes de sair correndo.
A ideia tinha funcionado. Daniel se sentia satisfeito, pela primeira vez em sua vida, ou morte, iria dar um presente decente para sua mãe.
Em alguns minutos o vendedor trazia a caixa em um carrinho. O zumbi estendeu a mão para o vendedor, que teve medo de estender de volta para apertar a dele, mas o fez. Daniel foi tomado por uma sensação louca de fome naquele momento e antes que percebesse estava mordendo o braço do vendedor, que começou a gritar.
Se trabalhar no dia das mães já era ruim, imagina morrer sendo comido por um zumbi?
Daniel só voltou a si depois que estava satisfeito e quando olhou para o corpo do vendedor no chão a sua frente pensou “Ih... merda. Como vou pegar um taxi agora?”
Os outros vendedores gritavam quando ele foi para trás do carrinho com a TV o empurrando. Achava que não iam se importar com o carrinho de qualquer forma.
Daniel foi seguindo, naquele passo de tartaruga. Chamava atenção de todos a sua volta, mas aqueles que percebiam que era um morto–vivo saiam correndo e gritando.
A gritaria dos vizinhos na rua de sua casa poderia ter chamado a atenção de dona Maria Luiza, mas ela estava presa no seu luto, que nem ao menos se importava. Se fosse um incêndio talvez ela deixasse as chamas a consumirem. Pensou que talvez assim o sofrimento doesse menos. E ainda assim ela era incapaz de se lembrar da forma correta como vinha tratando o filho que perdera nos últimos tempos.
Quando ouviu o som da campainha, não quis se levantar para atender. Mas depois da perturbação de diversos toques seguidos, ela se levantou já preparada para perguntar se o desgraçado que não respeitava a dor de uma mãe que perdeu um filho não tinha família.
Quando abriu a porta já pronta para o esporro viu primeiro a enorme caixa de televisão na sua frente. Obviamente ela não entendeu nada.
– Acho que estão entregando isso no lugar errado! – ela falou. Os olhos fundos de tanto chorar a deixavam com um ar de doente.
Foi quando ela viu aquele ser, todo sujo, descabelado e cinza, mas vestindo as roupas que seu filho estava vestindo em seu caixão.
– Feliz dia das mães, mamãe! – Daniel falou, agora ele mesmo conseguiu ouvir os sons muito estranhos que ele fazia enquanto achava que estava falando.
Sua mãe gritou. Claro, obviamente. Quem não gritaria numa situação daquelas? Logo em seguida ela começou a chorar. Daniel não sabia ao certo o que fazer, quando sentiu sua mãe o abraçar, mesmo se sujando inteira. Agradeceu por ter comido aquele vendedor, não ia querer morder sua mãe.
– Meu filho!! Meu filhinho.... meu Dani! – ela não parecia se importar de ter ficado toda suja de terra, e então olhou a caixa – É pra mim?
– Desculpa não ter embrulho... – os sons guturais saiam no lugar das palavras.
– Quem se preocupa com embrulho e presente Dani? Você está vivo! Bem, meio vivo.
– Você está me entendendo? – ele a olhou confuso ainda soltando aqueles sons estranhos.
– É claro que eu te entendo, sou sua mãe, troquei suas fraldas e te ensinei a falar, acha que eu não ia te entender?
Daniel sentiu uma lágrima escolher pelo rosto, sorte que não via que o que escorria na verdade era um liquido preto, medonho. Abraçou forte sua mãe. Mas claro que aquele momento lindo durou pouco.
– Daniel você está podre, literalmente! Vai direto pro banho! Aproveita que agora que voltou pode arrumar aquela zona que você deixou no seu quarto! E não esquece da louça suja!
– Mas mãe eu sou um zumbi agora! – ele tentou se defender.
– Nada de ”mas”, e você pagou como por essa televisão? DANIEL VOCÊ ROUBOU UMA LOJA? VAI DEVOLVER ISSO AGORA! Essa não foi a educação que eu te dei! E depois vai me contar essa história toda de zumbi direitinho tá me entendendo?
Enquanto empurrava o carrinho com a TV de volta para a loja, o zumbi sorriu.
Tudo estava perfeitamente voltando ao normal. Ou quase.
Conto: "O SHOGUN DO LAVRADO"
Escrito por César Nogueira, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
O Shogun do Lavrado era considerado o homem mais poderoso da região, mas ninguém nunca o tinha visto. 
As pessoas diziam que os poderes dele vinham do Kabuto, o elmo que usava. Quem quisesse ser o novo Shogun, bastava desafiar o atual no topo do Monte. Poucos arriscavam a subida porque demônios infestavam o Lavrado, uma savana de quilômetros de vazio que circundava o Monte.
Os poucos que encararam o desafio não voltaram. Se tivessem visto o Shogun e voltado para contar a história, talvez ninguém acreditaria na palavra deles.
O Shogun do Lavrado tinha um metro e noventa, cinquenta quilos, pele cinza e passava os dias sentado num trono de ferro rodeado de ossos humanos e urubus. Ornado com chifres e dentes de demônio, o Kabuto lhe cobria toda a cabeça e era a sua única vestimenta. Na maior parte do tempo o Shogun ficava inerte olhando para o nada. Nas raras vezes em que tentava se levantar, uma luz vermelha saía do Kabuto. Então, ele voltava a ficar parado.
Por décadas o Shogun do Lavrado ficou isolado no topo do Monte.
Isso mudou com a chegada do Samurai.
***
Barbudo, cabeludo e com as roupas aos trapos, o Samurai subiu ao topo do Monte num entardecer. Ofegante, ele não tirava uma mão da sua espada. Com a outra ele beijou a foto da sua mãe que carregava num cordão. A senhora, careca e envelhecida, sorria na imagem. O filho dela, um rapaz de no máximo vinte anos, tinha uma expressão oposta à da mãe enquanto ignorava as dezenas de urubus que voavam acima da sua cabeça. Outros, em rochas, o observavam enquanto seguia pelo caminho pedregoso, enevoado e sem vegetação.
Depois de caminhar por meia hora sempre observado de longe por urubus, o Samurai avistou o trono de ferro rodeado por ossos humanos. Ao reconhecer o Shogun sentado nele, o Samurai não disfarçou o espanto.
***
Os urubus se dispersaram quando o Samurai chegou perto do trono. Incrédulo, olhou para os lados. Não tinha nada nem ninguém. Então, com as mãos tremendo, foi tirar o Kabuto da cabeça do Shogun, mas recuou dando um grito quando o homem levou uma mão para a boca e começou a tossir.
O Samurai fechou a guarda. Suor encharcava a sua testa. O Shogun do Lavrado tossia uma gosma roxa que deixava a sua mão imunda. Quando parou de tossir, balançou a mão, espirrando a gosma para os lados, e encarou o vazio.
Ao longe, o vento uivava. Com o cenho franzido, o Samurai avançou de novo. Olhando para todos os lados, viu mais uma vez que não tinha mesmo nenhuma armadilha. Também ninguém o observava, nem mesmo a criatura à sua frente.
O vento parou. Silêncio.
O Samurai respirou fundo. Suas mãos tremiam e suavam.
O Kabuto saiu fácil da cabeça do Shogun.
Enquanto o Samurai se afastava do trono como se tivesse tirado uma tonelada de suas costas, o Shogun do Lavrado, que não tinha dentes, olhos nem nariz, desabou no chão. Então, urubus se aproximaram do trono. Alguns bicaram ossos do chão que ainda tinham restos de carne. Outros pousaram e se aproximavam aos pulos do antigo Shogun.
Entre uma tosse e outra, o homem sorria aliviado.
***
A noite chegou rápido ao Monte.
Com o Kabuto em mãos, o Samurai só pensava na sua mãe enquanto se afastava do trono. Não muitos metros longe dele, porém, um bando de urubus bloqueou a passagem do Samurai. Sem tirar os olhos dos adversários, deixou o Kabuto no chão e desembainhou a sua espada.
Aglomerados no ar, os urubus aos poucos ganharam a forma de um homem musculoso. Do que seria a mão desse homem, um urubu voou como uma bala em direção ao Samurai, que desviou com facilidade. Aos gritos, ele saltou e atacou os urubus. O seu golpe apenas cortou o ar. O bando se dispersou para todos os lados.
Quando eles se reagruparam, um dos urubus da "cabeça" carregava o Kabuto nas suas patas.
Sem pensar, o Samurai os atacou de novo.
O segundo golpe também não acertou nenhum urubu, mas os dispersou de vez. O Kabuto caiu no chão e ficou rolando. Quando sentiu que não corria mais perigo, o Samurai o pegou de volta e sorriu. Seus olhos ficaram vidrados com a luz vermelha que saía de dentro do Kabuto, que começou a tremer nas suas mãos.
Então, ele gargalhou feito louco. Mas logo a risada virou um gemido de dor.
Sem o Samurai perceber, um urubu disparou em sua direção e acertou as suas costas. O baque jogou o Kabuto para longe do Samurai, que caiu no chão todo ensanguentado. Enquanto ele tentava arrancar o urubu do corpo, outros se agruparam no ar. Com a forma de um dragão, o bando encarou o Samurai, que tinha dificuldade de respirar.
O barulho das asas dos urubus lembrava uma gargalhada. Como uma flecha, eles voaram para cima do Samurai.
Com as suas últimas forças ele se jogou na direção do Kabuto. Quando os urubus estavam a poucos centímetros de distância, o Samurai conseguiu colocar o elmo na cabeça.
Um grito de desespero ecoou por todo o Monte.
Então, os urubus se dispersaram, mais uma vez.
***
Amanhecia no Lavrado.
O topo do Monte estava silencioso e pacato. A noite, porém, foi diferente.
O antigo Shogun ouviu os gritos de desespero por horas. Urubus bicavam o seu corpo, mas ele ainda sorria aliviado. Havia décadas que ele não se sentia daquele jeito. Nada o impediu de dormir com tranquilidade. Ele só acordou quando o sol raiou. Metade do seu corpo já tinha ido pros estômagos dos urubus.
Apesar de só ver borrões, a sua consciência continuava plena. Lembrou da infância, da adolescência e dos seus motivos de subir o Monte.
A consciência do antigo Shogun estava tão plena que o fez perceber pés cinzas caminhando em direção ao trono de ferro.
 Enquanto o novo Shogun do Lavrado se arrastava em direção ao trono de ferro, o coração do antigo Shogun bateu acelerado. Seu corpo começou a tremer. Sangue espirrava da sua boca.
Urubus se aproximavam do trono. Um deles observava o antigo Shogun usando o fiapo de forças que ainda tinha para se arrastar para para perto daquele homem acinzentado e com as roupas em trapos.
 Anestesiado, o novo Shogun se sentou no trono de ferro. Seu corpo dava espasmos de vez em quando, como se algo estivesse sendo injetado nele. Antes de ficar inerte de uma vez, arrancou o cordão do pescoço. A foto da sua mãe ficou jogada entre umas costelas no chão.
O urubu que observava o antigo Shogun começou a se preparar para o ataque. Sem perceber a ave se aproximando, os restos daquele que no dia anterior sentava no trono rastejavam em direção ao rapaz, que já não era mais Samurai.
Conto: "Todo tipo de mãe é mãe"
Escrito por Stephanie Telmo, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Era um belo bolo este que dona Célia preparava. A senhora de cabelos brancos, e corpo magro trabalhava com mãos rápidas na cozinha para que tudo ficasse pronto antes da chegada de seus filhos. Ela trazia um grande sorriso, de dentaduras novas e brilhantes, enquanto trabalhava animada. Seus filhos estavam vindo para o dia das mães, e trariam seus filhos com eles.  
Célia mal podia se conter. Há tanto tempo não via as crianças! A pequena Emily já devia ter sete anos, imagine só! Só a via por vídeo quando Guilherme usava o computador para falar com a mãe. Ele morava longe, nos Estados Unidos, e Célia não podia ir vê-los. As filhas de Pedro também deviam estar maiores. Clarisse, a mais velha, completou oito anos no mês passado, e Maria logo faria cinco. Pedro morava no Sul, e Célia não o via há quase um ano. Já Samira morava próximo. Célia a ajudava a cuidar do pequeno Yago de cinco anos. Já que o namorado de Samira fugiu assim que soube da gravidez, Célia assumiu seu papel e ajuda a filha com o neto.
A senhora colocou o grande bolo na mesa e o cobriu com carinho. Sentiu os olhos lacrimejarem e os limpou com delicadeza. O amor por seus filhos estava transbordando. A campainha tocou e despertou Célia. Ela correu para a porta apressada e a abriu com a maior cara de felicidade que pode. Sua filha estava parada na soleira da porta, segurando no colo um jovem menino sorridente.
- Vovó!
Gritou Yago enquanto se atirava nos braços da avó. Célia o abraçou com carinho e o colocou no chão.
- Meu menino! Fiz seu bolo favorito para hoje!
- Verdade? Aquele de laranja?
- Esse mesmo! Mas só depois do almoço que você pode comê-lo.
- Obaaaaa!
O pequeno se atirou correndo para dentro de casa e foi para o quarto de brincar que sua avó mantinha com todo o cuidado. Samira fechou a porta atrás de si.
- Esse menino anda muito agitado ultimamente.
- Bobagem, querida! Isso é sinal de grande saúde.
- Seria bom para a minha grande saúde se ele fosse mais quieto.
As duas mulheres riram e se abraçaram.
- Feliz dia das mães, mamãe. Cadê os meninos?
- Devem estar chegando.
Seguindo suas palavras, a campainha tocou mais uma vez. Era Pedro, trazendo duas meninas atrás de si, agarradas em suas calças.
- Mãe! – Gritou Pedro, e lhe deu um grande abraço.
As meninas permaneceram envergonhadas atrás do pai. Célia se abaixou perto das meninas.
- Como estão minhas netinhas lindas?
- Bem, vovó. – Respondeu a mais velha.
Pedro tocou a cabeça de Clarisse e disse gentilmente para que as meninas fossem brincar no quarto de brinquedos. Em poucos minutos as três crianças gritavam e riam no quarto. Pedro sentou-se jogado no sofá e deixou um longo suspiro sair.
- Você está bem, meu filho?
- Ainda sinto a falta dela, mãe. É tão difícil cuidar das meninas sozinho. Só faz um ano que Alice se foi, mas ainda assim... – Um soluço ficou preso na garganta de Pedro enquanto ele falava. – Ainda assim, tenho de ser forte pelas meninas.
Célia alisou os cabelos do filho e sorriu para ele.
- Você é mais forte do que pensa, meu bem. Está sendo um excelente pai para minhas netas. Alice ficaria feliz de ver.
Samira se sentou do outro lado do irmão.
- Você é praticamente mãe delas agora, Pedro. Está fazendo um bom trabalho.
- Estou com medo da puberdade.
Enquanto os três riam para descontrair, a campainha tocou mais uma vez.
- Oh, deve ser o Gui! – disse Samira.
Célia pulou do sofá antes que a filha atendesse a porta. Seu coração congelou por dentro. Seu pequeno menino Guilherme estava de volta! As mãos tremiam diante do peito enquanto Célia se dirigia para a entrada. Sentia tanta falta do seu caçula. Ela abriu a porta da mesma forma que a fez para seus dois filhos, com o maior sorriso que pode. Diante dela se encontrava um rapaz muito alto, com cabelos longos presos em um rabo de cavalo desajeitado, e o sorriso mais brilhante que Célia já vira.
- Mamis! – gritou Guilherme em uma voz estridente, que derreteu o coração de Célia. – Senti tanta sua falta!
Ele se atirou nos braços da mãe e os dois se abraçaram com força. Célia segurava o choro, enquanto Guilherme não se esforçava para tal e deixava as lágrimas saírem. Ainda na porta estavam mais duas pessoas. Um rapaz vestido de roupas sociais, com a barba rala trazia uma pequena menina pela mão. A menininha não se parecia nem um pouco com nenhum dos dois. Guilherme tinha os cabelos castanhos e olhos claros, o outro rapaz tinha cabelos loiros e olhos castanhos. Já a garotinha tinha cabelos muito lisos e negros, com olhos puxados.
Guilherme puxou os dois para dentro. E trouxe a garotinha com cuidado para perto de sua mãe. Nesse ponto, Célia já estava chorando.
- Essa é a vovó. A que a gente sempre conversa nos vídeos, lembra?
A menininha abriu um largo sorriso e pulou no pescoço da vovó. Célia se agarrou a menina e chorava como uma criança. O rapaz que acompanhava Guilherme passou a mão sobre o ombro do mesmo e se permitiu chorar. Seu parceiro lhe deu um beijo no rosto e os dois se encararam com muito amor.
- Você é mais bonita pessoalmente, vovó.
As crianças que estavam no quarto vieram correndo para a sala para ver quem era a nova visitante. Ficaram animados ao descobrirem que tinham mais uma prima e ficaram amigos rapidamente.
Pedro enfim se aproximou cauteloso de Guilherme. Os dois se encararam carrancudos por alguns instantes, deixando todos na sala um pouco tensos. Depois logo abriram um sorriso e se abraçaram apertados.
- Senti sua falta, Gui.
- Eu também, Pepe.
Pedro soltou Guilherme e olhou cheio de graça.
- Ninguém me chama de Pepe desde que você foi embora. Por favor.
- Bom, eu estou aqui, e eu posso tudo, querido.
Pedro encarou o companheiro de Guilherme e foi logo lhe dar um abraço também.
- Espero que esteja cuidando bem do meu irmão, Marcelo.
- Deixa comigo, Pepe.
- Ah não! Assim não!
E todos riram felizes por estarem juntos novamente. Célia olhava sua família com muito amor. Sua casa que ficava quase sempre vazia, estava cheia de vida mais uma vez. Todos os seus amados filhos estavam ali. Todos com suas famílias sendo criadas e vivendo suas vidas. Célia sentiu muito orgulho de todos eles.
Depois da refeição, todos estavam super ansiosos para o bolo que Célia não deixara ninguém mexer. As crianças dançavam nas cadeiras e até os adultos estavam ansiosos. Célia ficou de pé na ponta da mesa e olhou profundamente para todos os presentes na sala.
- Hoje é um dia muito especial. Não só para mim, mas para cada um de vocês também. Eu me considero a pessoa mais feliz do mundo por ter os quatro filhos mais maravilhosos que eu jamais sonhei ter. – Marcelo se permitiu enxugar lágrimas que escorriam silenciosas por sua face. Célia o encarou cheia de amor. – Você é sim um filho maravilhoso para mim, Marcelo.
- Vai papai! – gritou Emily.
- Mas eu não sou a única mãe sentada aqui hoje. Samira, eu acompanho você todos os dias, e todos os dias eu a vejo lutar por seu filho. Você é uma mãe incrível, e sei que o Yago concorda.
- Concordo!
- Pedro. Alice se foi, e ela era incrível. Agora você está aqui e cuida de tudo. As meninas te amam, e você é tudo para elas. Você é mãe também.
Pedro não conseguiu responder. Ele se limitou a segurar o choro. As meninas bateram palmas para o pai.
- Guilherme, meu filho. Eu lembro que quando você tinha uns dezesseis anos me disse que queria ser mãe. Você conseguiu.
- E é a melhor mamãe! – respondeu Emily cheia de entusiasmo.
- Esse dia não é só meu. É nosso. É de cada um de vocês que se esforçam todos os dias diante das pessoas que não os entendem. É seu, Samira. É seu, Pedro. E seu também, Guilherme. E é muito meu por ser a genitora de todos vocês.
Célia tirou o pano de cima do bolo. As palavras escritas nele fizeram todos na mesa chorarem.
Feliz dia de TODAS as mães

Conto: "Adelaide"
Escrito por Vivianne Fair, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Estela não estava acreditando no que estava ouvindo. Na verdade, ela sequer acreditava em si mesma. Sabia da fama daquela senhora, mas ainda assim entrou na casa. Talvez quisesse ouvir e ver com seus próprios olhos.
Ninguém sabia direito o nome da vizinha de Ricardo Lumes. Uma mulher reservada, sem muito interesse ou atrativo. Não era ‘da alta’ como seus vizinhos; sua casa era simples no meio das mansões, de tinta descascada e rachaduras nas paredes. Tudo o que fazia era cuidar do jardim e, pelo cheiro que emanava de sua cozinha com frequência, cozinhar. Mas como já estava lá há tempos, muito antes das mansões serem construídas, as pessoas resolveram deixá-la em paz. Apenas a ignoravam. Não sabiam o nome dela. Apenas um “bom dia” ou “boa tarde” apressado, sem olhar em seus olhos, era tudo o que lhe dirigiam.
Claro que havia os boatos. Era uma senhora de 80 anos já, que nunca teve filhos. Seu marido morrera quando ela já contava com seus sessenta anos e vivera sozinha desde então. Às vezes uma bola ou outra caía no seu quintal, e ela a devolvia com carinho e um docinho. Entretanto, os meninos não pegavam de volta. Eram ricos e podiam ter quantas bolas e doces quisessem e não seriam “contaminados” por aquela que todos diziam ser uma bruxa. Matara o marido envenenado, diziam. Sufocara os visitantes ou parentes enquanto dormiam.
Estela saíra da casa da mulher pronta para gritar aos quatro ventos que aquela mulher era apenas louca. Entretanto controlou-se. Afinal, era noiva do famoso empresário Ricardo Lumes e não poderia atrair aquela atenção para si. Mas com certeza contaria tudo ao seu noivo. Ele deveria tomar alguma providência, pensava ela enquanto dirigia-se à casa dele, afinal o que essa mulher poderia espalhar sobre ele? O que seria de sua reputação?
Quando entrou na mansão, dirigiu-se humildemente à mãe de Ricardo, uma senhora respeitável que tomava chá, sentada em uma poltrona branca e coberta de plumas.
– Com sua licença, senhora Agnes.
A mulher olhou-a de lado, como se ela não fosse mais do que seu pequeno animal peludo que pulava de um lado para o outro do sofá.
– Vim ver seu filho, Ricardo. Ah, e trouxe-lhe bombons. Se a senhora quiser, eu...
A mulher fez apenas um gesto de desdém para ela, sacudindo a mão como se fosse enxotá-la. Estela saiu apressadamente, mas ainda feliz por ter conhecido a famosa atriz Agnes Lumes. Quantas mulheres queriam estar naquela situação e noiva do empresário mais bonito da cidade, pensava em seu coração. Ela teve muita sorte.
– Querido, você nem vai acreditar!
Ricardo estava sentado na sala de estar, do outro lado de uma mesa gigante de cedro, preso a anotações. Ultimamente os negócios andavam bem, mas ele sabia que crises financeiras estavam para abalar o cenário mundial e queria estar sempre preparado. Fora bem educado nesse sentido.
– Olá, Estela – ele deu-lhe um sorriso galante, embora sem tirar os olhos do papel – O que houve?
– Sabe aquela senhora do outro lado da rua, aquela que dizem ser uma bruxa? Aquela que te agrediu covardemente anos atrás?
– O que tem ela? – ele não parou de escrever. Tinha uma facilidade muito boa com números e concentração.
– Ela me chamou para visitá-la, acredita?
– E você foi?
– Eu precisei, né? Imagina que ela foi muito simpática e disse que precisava falar uma coisa importante comigo. Assim, no portão da casa dela. Cheguei a pensar que ela fosse ler minha mão ou sei lá.
– E...?
– Ricardo, você nem acredita! Ela disse que ficou sabendo que eu sou sua noiva e me pediu – na verdade quase exigiu! – que eu fosse uma mulher boa pra você! Que eu jamais o magoasse e que você era filho dela! Imagina! Ela achava que era minha sogra! Como se pra mim não bastasse ter só uma!
Ele ergueu os olhos para ela finalmente.
– Ela disse o quê?
– Isso mesmo! Que você era filho dela! A sua mãe Agnes precisa saber disso! Já pensou no boato, Ricardo? Já pensou no que isso pode acarretar?
Ricardo levantou-se e dirigiu-se à janela, uma enorme vidraça que alcançava o teto e dava vista para a rua. De lá ele podia avistar a casa da senhora, que ainda permanecia de janelas fechadas, desde que ele se lembrava.
O nome dela era Adelaide. Um dia, quando chegou com seus pais naquela rua, um garotinho de seis anos, assustado com a mudança, ela se apresentou e disse que estava à disposição. Sua mãe fizera pouco caso. Seu pai disse-lhe que não precisava se incomodar já que nunca estaria em casa mesmo e que o filho Ricardo ficaria com a babá, mas ainda assim lhe agradeceu. Ela sorriu, acenou e voltou para casa.
Alguns dias se passaram e Ricardo havia feito novos amigos. Um dia, descendo de skate, caiu violentamente e não conseguia andar. Adelaide apareceu, levou-o para casa, tratou de seus ferimentos, deu-lhe uma série de recomendações e um pedaço de bolo para levar para casa. Ricardo comeu pelo caminho, para que a babá não ficasse sabendo.
No dia seguinte, estava indo para a escola e acabou encontrando alguns valentões pelo caminho. Ricardo procurou correr, mas eles o alcançaram. Adelaide viu ao longe os meninos baterem no pobre menino, que os rapazes chamavam de ‘riquinho’ e correu munida de uma vassoura. Não se preocupou em descer a vassoura nos garotos com força, e depois até foi processada pelas mães deles pela violência. Ela nunca mencionou o fato a Ricardo, mas ele sabia, porque um dia o pai comentara isso à mesa, nas poucas ocasiões em que o via.
Sua mãe Agnes nunca estava em casa da mesma forma, porque sempre tinha uma apresentação para fazer ou ensaio para participar. Tirando as festas que Ricardo era obrigado a ir ou as viagens para países que nunca ouvira falar para poder estar com eles, seus pais nunca o haviam levado ao cinema. Afinal, tinham um home theater em casa, e o menino podia pedir ao mordomo que lhe comprasse um DVD do filme que desejasse ver. Foi Adelaide que viu o jovem sentado no chão do jardim, polindo a bicicleta, e o chamou para ir ao cinema com ela e Mário, um homem simpático, marido dela. Ele lembrava de ter se divertido muito naquele dia, mas não do filme. Mário e Adelaide eram muito engraçados e tiraram sarro do filme inteiro.
Ricardo não era bom na escola. Apesar de ter tutores, ele tinha dificuldade em entender. Tinha vergonha de confessar que não dava conta e os pais acusavam a escola de ser negligente, mas ele mesmo não se importava em fazer as tarefas. Um dia, passando com os livros embaixo do braço, Mário o viu cabisbaixo e o chamou para sua casa. O jovem percebeu que ainda estava cedo e resolveu ir, tentando não chorar por causa do resultado da prova.
Mário viu a nota, disse que não estava tão ruim, mas que iria ajudá-lo nas tarefas. Adelaide preparou chocolate quente e biscoitos, enquanto os dois passavam a tarde resolvendo problemas de matemática e focando nos estudos. Ricardo começou a tirar boas notas e mostrava-as primeiro a Mário e a Adelaide antes de mostrar aos pais. Contudo, estes pouco ligavam se não fosse uma nota perfeita. Ricardo começou a não se importar mais em mostrar seu desempenho para os pais.
Um dia, Ricardo fora a uma festa na vizinhança e acabou exagerando na bebida. No caminho curto de volta, bateu o carro em um poste, mas saiu ileso. Movido pela adrenalina, conseguiu encontrar o caminho até em casa, embora um pouco cambaleante. Pouco antes de passar pelo portão, Adelaide o viu, e percebeu o quanto embriagado ele estava. Movida pela fúria, ela saiu de sua casa munida com um cinto e os braços desnudos.
Ricardo nunca apanhara tanto em sua vida. Na realidade, Ricardo nunca apanhara. Os gritos do jovem chamaram a atenção do segurança e seus pais viram, horrorizados, seu filho apanhar como se fosse um moleque de rua. Rapidamente chamaram a segurança e apartaram dele a mulher, que não parecia estar arrependida. Ela se sacudiu para se livrar daqueles que a agarravam, murmurou um xingamento, apertou o robe e voltou para a sua casa, batendo a porta com força.
Ricardo Lumes chegou a virar notícia, como filho de empresário que fora agredido por uma vizinha. A pedido dos pais, eles não processaram a senhora Adelaide, e ficaram ainda mais famosos por terem concedido o ‘perdão’ a uma agressora que provavelmente tinha distúrbios mentais. Ricardo fora proibido de vê-la e agora só saía acompanhado por seguranças.
Adelaide não saía mais de casa com frequência. Piorou, quando alguns anos depois, seu marido Mário morrera. Ricardo a viu caminhando atrás da procissão, mas não muitos se juntaram a eles. Uma comitiva solitária, Adelaide fechada em seu casaco escuro. Muitos anos depois, ela voltara a aparecer no jardim, mas não mais com a juventude e alegria de antes. Adelaide agora era fechada, cuidava apenas de seu terreno e voltava para dentro de casa. Não hesitava em receber os visitantes bem, mas não havia muitos deles.
Muitos anos se passaram. Ricardo era um homem formado, com bom emprego, desempenho excelente, orgulho dos pais.
Olhando pela vidraça, Ricardo percebeu algumas lágrimas caírem no chão e passou os dedos pelos olhos. Estivera chorando e não percebera.
– Querido? Está tudo bem? – Estela inquiriu, preocupada.
Ele teve um súbito lampejo. Odiou a si mesmo naquele momento. Agarrou a mão de Estela que, atônita, não esboçou reação.
Saiu correndo da casa, puxando a noiva pelo braço, surpreendendo os passantes. Abriu o portão da casa de Adelaide, empurrou a porta e viu a mulher que, surpresa, levantara-se do sofá ainda com um novelo de lã na mão.
Sem dizer uma palavra, Ricardo ajoelhou-se aos seus pés, agarrou seus joelhos e murmurou com olhos marejados e coração partido.
– Benção, mamãe... Já te apresentei minha noiva?
Conto: "DE SOGRA PARA FILHA "
Escrito por Barbara Bein, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
A senhorinha entrou na sala escura de filmagem e se sentou no banquinho que lhe fora indicado. 
— É Daniel, isso?
— Isso, Dona Helô! A senhora está bem confortável? Quer um chá, uma água?
— Aceito um chá. Estou um pouco nervosa...
Sorrindo, ela pegou a xícara e segurou com as duas mãos, aquecendo-as. Só então perguntou, como se tivesse subitamente lembrado de onde estava.
— Eu olho direto para a câmera?
— Se a senhora se sentir mais confortável, pode olhar para mim. Está preparada para começar?
Ela assentiu, com um sorriso nervoso.
— Muito bem e...gravando.
— Meu nome é Heloíse, mas todo mundo me chama de Helô. Eu prefiro. Eu estou aqui hoje, gravando esse vídeo, porque...— ela deu uma olhada para o chá, como se procurasse forças ali – Puxa, isso é difícil, Daniel! Mais difícil do que eu imaginava!
— Está tudo bem, logo a senhora se solta.
— Certo...Eu estou aqui para gravar um recado para a minha nora.
"Meu filho se chama Robert. Por causa do Robert Taylor. Ai que homem charmoso aquele, queria que meu Péricles tivesse sido um pouco mais como ele.
Robert era meu maior tesouro. Eu o criei como um homem deveria ser. Minha mãe sempre dizia “nenhum homem consegue viver sem uma mulher por perto”. E parecia verdade! Péricles nunca lembrava de tirar os pratos da mesa e Robert era incapaz de se servir sozinho. O que seria deles sem mim?
Tudo ia bem. Até que...ela entrou em nossas vidas.
Kiri. Valkíria o nome (Deus, quem coloca um nome desse em uma filha?). Mas todo mundo chamava de Kiri, ela preferia assim. Quando a vi pela primeira vez, na noite em que Robert a trouxe para o jantar, uh! Senti uma palpitação até! Não podia ser boa coisa, não senhor! Cabelos curtos e espetados. Unhas escuras. Brincos demais. Maquiagem demais. Eu achei que meu Robert teria mais bom senso que isso, Daniel. Mas não. Aquela esquisitona conseguiu segurá-lo muito bem. Foram meses. Um ano. Um ano e meio. De repente Robert começara a lavar a louça depois do jantar. Um dia o vi lavando as próprias cuecas no banho e trocando a roupa de cama!
Ele começou a mudar e era tudo por causa dela. Kiri!
Acabaram se casando, os dois. Se casando, não, se juntando. Foram morar lá do outro lado da cidade. Insisti que tinha um bom apartamento no nosso prédio, de um amigo nosso. Ele até poderia dar um descontinho no aluguel! Mas não. Kiri não queria.
Por um tempo eu ainda tentei manter as coisas nos eixos, sabe? Tentei resgatar os nossos valores de família em Robert! Umas duas ou três vezes na semana eu ia visita-los, como quem não quer nada, e aproveitava para dar uma mãozinha na cozinha (que Kiri não sabia como limpar direito). E com a roupa (que ela não passava nunca). Eles insistiam que aquilo não era preciso, eu dizia que não me importava...mas me importava sim. Se não fosse eu estar organizando aquela casa, meu Robert moraria em um chiqueiro!
Pois veja, Daniel, eu me casei tarde. Sou a mais velha de três irmãs e a que se casou por último. Péricles foi meu primeiro e único homem. Kiri também já era um pouco velha para se casar, mas eu, com a idade dela, já sabia muito bem meu papel dentro de casa!
O fato é que ela não entendia. Não aceitava! Não queria aprender nada comigo. Um dia brigamos feio. Daniel, você não imagina a grosseria. Ela me mandou para fora da casa de Robert e disse que eu só poderia voltar se fosse convidada. Eu fiquei ofendidíssima. Logo que cheguei em casa, liguei para Robert. Sabe o que ele disse? “Ela tem razão, mãe. A senhora passou dos limites. Eu..sinto muito.”.
Foi a primeira vez que descobri o que era ter o coração dilacerado, Daniel. Foi uma das piores noites da minha vida.
A partir dali, nosso relacionamento mudou. Via os dois umas duas vezes no mês. Kiri sempre parecia na defensiva comigo e Robert sempre nervoso.
O tempo passou e um dia Robert me ligou para nos encontrarmos para um café. Era muito incomum, mas eu adorei. Enquanto bebericava um gostoso capuccino com creme (Péricles detestava essas coisas, então nós nunca saíamos para comer ou beber algo diferente), Robert começou:
— Mãe...eu tenho uma coisa pra te contar. Não sei como você vai reagir, mas...
— Ai meu deus! – eu disse, quase derrubando meu cappuccino no colo dele – Será que...? Ai meu deus, finalmente!
— Mãe!
— Finalmente minhas preces foram atendidas!
— Mãe!!
— Você e a megera vão se separar, é isso? – quase dei um gritinho de alegria quando ele segurou minhas duas mãos, com um sorriso bobo no rosto e disse:
— Mãe...me ouve! Nós não vamos nos separar coisa nenhuma! A Kiri está grávida.
Grávida... grávida... grávida...
Parecia que aquela palavra vinha em ecos na minha mente, socando cada neurônio até conseguir achar uma maneira de entrar no meu cérebro.
— GRÁVIDA? – eu gritei — Meu deus Robert, o que foi que você fez? – por um momento achei que ia desmaiar.
Os dias que se seguiram foram conturbados. Kiri parecia querer se reaproximar, mas eu estava magoada. Magoadíssima! E não sabia explicar o porquê. Via os dois conversando, parecendo dois passarinhos fazendo um ninho, só falavam de bebês e reformas e nomes. Que tipo de mãe Kiri poderia ser, afinal? Você sabia que ela tinha uma tatuagem no braço, Daniel? E além do mais, meu Robert era novo demais para ser pai.
Até que algumas semanas depois, Robert me ligou outra vez. Ele nunca ligava para o pai, especialmente em emergências. Mas mais tarde eu desejaria que ele tivesse escolhido o pai ao invés de mim.
— Mãe, eu preciso de você aqui em casa. Agora. – e seu tom urgente.
Corri pegar um táxi (Péricles estava ocupado vendo o jogo) e fui até lá. Logo que Robert abriu a porta, a primeira coisa que vi foram os olhos vermelhos e a camisa azul clara manchada.
— Mãe...— ele disse – O bebê...Kiri...ela perdeu o bebê. Era uma menina. – ele me abraçou e chorou. Eu nunca tinha visto meu filho homem chorar, Daniel, e aquela foi a segunda vez em que meu coração se despedaçou.
— Conversa com ela, mãe. Por favor. Eu acho que ela precisa de uma mãe. A mãe que ela nunca teve. Faz isso? Por mim?
Como eu poderia dizer não ao meu filho?
Quando entrei no quarto escuro e abafado, com cheiro de dormido, vi a silhueta de Kiri deitada de costas para a porta. Aquela menina sempre tão geniosa e explosiva parecia apagada e seca. Me assustou. Mas mesmo assim, sentei na beirada da cama e tentei conversar com ela. Não sabia bem o que dizer. Jamais havia passado por aquilo. Mas tentei. Por Robert, e até por ela, tentei.
— Essas coisas acontecem, filha. Não estava nos planos de Deus. Daqui a pouco você se recupera e vocês podem tentar de novo...
Mas de repente ela virou para mim. Os olhos inchados, mas sérios como nunca.
— Dona Helô — ela disse, cortando todas as minhas palavras de conforto — Eu preciso confessar uma coisa. — ela gemeu – Eu não tive coragem ainda de dizer para o Robert mas...talvez a senhora possa me entender.
Ela respirou fundo, como se tomasse coragem e soltou a bomba bem no meio da minha cara:
— Eu não quero ter filhos. Nunca quis. Eu acabei grávida e Robert estava tão feliz que... eu fui na onda dele, entende? — ela começou a falar cada vez mais rápido — Não me entenda mal, eu teria amado essa criança, sei que sim, e tentaria ser a melhor mãe que eu pudesse ser. Mas a verdade é que eu estou aliviada que isso tenha acontecido. E culpada, muito culpada por me sentir assim. Será que a senhora me entende? — ela me olhava com tanto sofrimento!
Mas eu não conseguira entender. Como ela poderia não querer filhos? Era o auge da vida de uma mulher, seu melhor momento, a melhor coisa do mundo! E pior, como ela poderia estar aliviada?
Daniel...eu levantei daquela cama sem dizer uma palavra. Não pude mais olhar para a cara dela. Era demais para mim. Saí daquela casa e mal falei com meu filho.
Foram tempos tristes aqueles. Dias em que mal nos falávamos, mal nos víamos. Até que poucos meses depois, Péricles faleceu. Um ataque do coração. Deus...como fora difícil. Mas há algo interessante na morte, sabe Daniel? Ela nos separa de quem amamos, mas também nos aproxima. Foi naquele momento tão triste da minha vida que Robert, e principalmente Kiri, ressurgiram como anjos da guarda.
Eles vinham me ver várias vezes na semana, ajudar nas tarefas de casa e me fazer companhia. Robert fora maravilhoso. Kiri tinha mais tempo livre e também andava meio indisposta naqueles dias. Então de repente estávamos eu e ela jogando conversa fora na sala, tomando chá ou vendo algum programa idiota na TV. E eu a conheci de verdade. Comecei a entender quem ela realmente era.
Certo dia, muitos meses depois, Robert me ligou outra vez. Diz que precisava sair e tomar um café comigo. Ah Daniel, eu tive um bom pressentimento! Fui correndo encontra-lo.
Quando estava com meu cappuccino com creme bem quentinho entre minhas mãos, eu não aguentei. Nem o deixei falar.
— Querido! Não me diga nada! Eu acho que já sei! É Kiri não é?
— Mãe...
— Ela está grávida não é??
— Mãe, espera...
— Ai meu deus! Eu vou ser avó! Eu vou ser avó! — eu quase gritei. Mas mais uma vez Robert tomou minhas mãos e eu silenciei na mesma hora. Algo não estava certo.
— Mãe...— ele suspirou — A Kiri...nós descobrimos um...caroço. Na mama. Ela precisa de tratamento, imediatamente. Uma cirurgia...Deus do céu...— ele escondeu o rosto com as mãos.
E quando achei que meu coração não ia aguentar ser dilacerado mais uma vez, encontrei uma força que não sei de onde veio, Daniel. Tirei as mãos do meu filho do rosto e disse que ele não estava sozinho nessa. Que nós iriamos cuidar de Kiri juntos.
Kiri está nesse momento em outro país, lutando contra a doença e...ela não está bem. Queria estar lá, com eles, mas não tínhamos dinheiro para isso. Há muita coisa que eu queria dizer a ela e não tive oportunidade. Então...quis gravar esse vídeo, um vídeo bonito, bem feito, e mandar para ela, para que ela sinta orgulho da sogra que tem.
Kiri, você ajudou Robert a ser um ser humano melhor. Muito melhor do que eu ou o pai dele. Eu tinha raiva de você pela vida livre e cheia de escolhas que você tinha. Você é tão forte! Eu sei que a sua mãe abandonou você cedo. Talvez por isso você tivesse medo de ter filhos. Hoje eu entendo e respeito isso. Mas quero que você saiba que você tem uma mãe aqui, em mim. Hoje e sempre. Fique bem, filha.”

Conto: "O Retorno da Sogra "
Escrito por Stela Sampaio, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Era a quinta vez que Carlos olhava para o relógio naquela manhã. A reunião estava demorando bem mais do que o planejado e ele não aguentava mais ouvir os clientes e seu chefe discutirem o mesmo assunto pela décima vez. Era tão difícil assim definir se a frente do prédio seria azul turquesa ou azul marinho? Tinha um compromisso a tarde e não podia se atrasar.
- Será que azul marinho não ficaria um pouco infantil? - Pergunta um dos clientes.
- Acredito que combina bem com os prédios ao redor. - Defendeu o chefe de Carlos.
Carlos se sentia em um ciclo infinito. Queria levantar dali e ir embora há horas e quanto mais via o horário do almoço chegar, mais impaciente ficava. Escolhe azul marinho logo e para com essa palhaçada!
Não queria fugir da reunião antes dela acabar, mas já tinha combinado com seu chefe de que caso se estendesse demais, teria que fugir. O chefe não ficou muito feliz com a ideia, obviamente.
Meia hora depois, um milagre aconteceu e o cliente finalmente escolheu azul marinho.
Com toda a pressa que tinha, Carlos foi correndo até sua mesa para deixar os papéis sem ver que tinha um colega o chamando.
- Carlos!! Ei, Carlos! Tá surdo, cara? - Henrique tentava chamar a atenção do colega de todas as formas que podia em vão. - CARLOS! - Carlos se vira com um susto.
- Oi, Henrique. Desculpa.
- Que pressa é essa?
- Tenho um compromisso hoje, não virei de tarde. - Henrique faz uma careta.
- Compromisso? Que compromisso alguém pode ter em plena terça-feira à tarde? - Carlos ignorou a pergunta e continuou organizando suas coisas. - Ah! Já sei! Sua sogra colocou uma corrente no seu pescoço hoje de novo? - Como Carlos não respondeu nada. Henrique continuou. - Nunca vou entender porque dá tanta atenção para ela. Você é o cara mais submisso que já vi. Eu fujo da minha sogra como o diabo foge da cruz.
Sem dar atenção ou responder as perguntas de Henrique, Carlos pegou suas coisas e foi embora.
- É sempre bom conversar com você. - Resmunga Henrique antes do colega sair pela porta.
O arquiteto jogou as coisas desajeitadamente no carro e se enfiou no banco do motorista. Se preocuparia com suas coisas depois. Entrou na rodovia principal de Brasília, o Eixão, e correu em direção à Asa Norte para buscar a esposa no hospital Santa Helena.
- Estamos atrasados? - Perguntou Roberta apressada jogando suas coisas de qualquer jeito no banco de trás e fechando a porta. Ela ainda usava o jaleco e tentou tirá-lo com o carro em movimento.
- Um pouco, mas chegaremos a tempo.
- Comprei um lanchinho para irmos comendo no caminho. - A esposa tirou dois sanduíches de presunto e queijo e ofereceu ao marido.
- Obrigado, estou morrendo de fome. - Carlos foi comendo e dirigindo ao mesmo tempo e rezando para que não levasse nenhuma multa por isso.
“Maldita reunião e clientes indecisos!” Xingou mentalmente. Tinha planejado tudo com tanto cuidado, mas tinha sempre que ter um cliente sem noção para estragar seus planos.
- Calma, vai dar tempo. - Roberta diz docemente tentando acalmá-lo.
O marido respirou fundo, uma, duas, três vezes. Quando sentiu que estava calmo o suficiente se concentrou completamente no trânsito até que seu celular mandou um sinal de mensagem recebida.
- Pode ver para mim? - Disse Carlos à esposa preocupado de ser alguma emergência do trabalho.
Roberta pegou o celular, digitou a senha para destravar a tela que conhecia bem e ficou muda.
- O que foi? - Perguntou Carlos dando uma rápida olhada para o rosto da esposa antes de voltar sua atenção para a pista.
- Eu realmente não gosto desse cara.
- Henrique?
- É.
- O que ele disse?
- Para você parar de ser tão submisso à sua sogra e aproveitar a tarde livre para descansar da sua vida de casado. - Roberta fez uma pausa antes de continuar. - Ele também disse para você dizer para mim e minha mãe que está muito ocupado no trabalho e ir beber umas com ele mais tarde.
Carlos ficou mudo e encarava a pista na sua frente ainda mais concentrado.
- O que respondo para ele? - A esposa tinha um tom desafiador na voz, queria se vingar de Henrique de alguma forma.
- Nada.
O arquiteto não se daria ao trabalho de dar uma resposta, tinha um assunto mais importante com o que se preocupar. Henrique era abusado, convencido e gostava de falar mal de todo mundo, incluindo da esposa e da própria sogra. Carlos não tinha tempo para isso agora, precisava atravessar toda a Asa Sul em menos de dez minutos, uma missão impossível na hora do almoço.
Mas aparentemente a sorte estava do seu lado e o trânsito estava excelente, permitindo que a missão impossível se cumprisse. Carlos não conseguiu conter o sorriso.
- Viu, chegamos a tempo. - Disse Roberta sorrindo carinhosamente para o marido.
Ele mal acreditava que seus planos dariam certo no final ao fazer a curva do cemitério Campo da Boa Esperança e estacionar no melhor lugar que podia.
- Acha que ela vai gostar da novidade? - Pergunta Roberta um pouco apreensiva.
- Tenho certeza que sim.
O casal caminhou por vários túmulos até chegarem no identificado como "Maria Fernanda da Silva, adorada mãe e sogra. 1945 - 2017".
- Pronto? - Pergunta a esposa com o olhar preocupado.
Ela não gostava de obrigar o marido àquilo, mas era a única forma.
- Sim. - Carlos sorriu gentilmente e apertou a mão dela para acalmá-la.
Ao fechar os olhos e se concentrar, sentiu o ar a sua volta mudar, ficando mais denso e frio. O cheiro parecia diferente, mas não conseguia defini-lo em palavras, apesar de já tê-lo sentido diversas vezes. Quando um frio lhe percorreu a espinha, sabia que estava quase lá e puxou todas as memórias que tinha de sua sogra.
Começou pela primeira, quando dona Maria o encontrou inconsciente e desnutrido na rua aos seus dezesseis anos após fugir da casa de seu pai que o espancava todos os dias por temer o próprio filho. Seguiu para a memória do primeiro sorriso que viu ela dar, quando acordou no hospital Santa Helena e comeu ferozmente seu café-da-manhã depois de dias sem comida. Em seguida viu dona Maria com alguns papéis anunciando que tinha conseguido adotá-lo. Por fim, chegou à lembrança que mais adorava, a de dona Maria entregando sua filha para ele no altar.
As lembranças se uniram e formaram o corpo espiritual de dona Maria que sorria de orelha a orelha para o casal.
- Meus filhos! É tão bom vê-los! Carlos, você emagreceu, está comendo direito? Já disse para não ficar pulando o almoço por conta do trabalho, nenhum emprego vale a sua saúde. - Carlos sorriu tentando conter as lágrimas que queriam vir. Dona Maria se virou para a filha. - Querida! Como você está bonita! Sua pele está ótima e... - Dona Maria ficou muda e olhou mais atentamente para a filha.
Roberta estava com uma barriga de cinco meses, carregava Pedrinho, o primeiro filho do casal. Queria ter contado para a mãe antes da barriga começar a aparecer, mas Carlos só conseguia trazê-la uma vez ao ano, sempre no dia e horário do aniversário de sua morte. Eles apelidaram aquele dia de "o dia da sogra".
Após analisar cada pedaço do corpo da filha, a mãe sorriu e tapou a boca emocionada. Talvez tivesse chorado se pudesse, mas espíritos não conseguiam produzir lágrimas.
- Meus queridos! Que notícia maravilhosa! Fico tão feliz! É menino ou menina?
- É um menino, mãe. - Responde Roberta acariciando a barriga. - Se chamará Pedro em homenagem ao papai.
Gotas frias de suor escorriam pelas laterais do rosto de Carlos e Roberta se apressou.
- Queríamos que você soubesse e pretendemos trazê-lo para conhecê-la no ano que vem. Sentimos sua falta mãe. - Roberta conteve um soluço, mas lágrimas vieram aos seus olhos.
- Minha filha, sempre estarei com vocês. Agora que terão um filho a minha ausência será menos dolorosa.
- Não! - A filha balançou a cabeça de um lado ao outro negativamente. - Nunca! Sempre sentiremos sua falta. Nós te amamos muito.
Carlos respirava rápido agora e dona Maria ficou preocupada.
- Também amo vocês, mas agora é hora de nos despedirmos. Fiquei muito feliz com a novidade. - Dona Maria encara o genro. - Carlos, pode me libertar.
- Desculpe, queria poder mantê-la por mais tempo. - Carlos pausava a cada palavra, estava muito cansado.
- Está tudo bem, querido. Ver vocês três já é um grande privilégio.
- Também sinto a sua falta. - Confessou o genro que ergueu o corpo e fechou os olhos para libertá-la.
- Amo todos vocês, por favor, cuidem-se. - O corpo espiritual de dona Maria se dissolveu e Carlos despencou no chão arfando desesperadamente.
Roberta se abaixou e lhe ofereceu um pouco de água.
- Desculpe por te obrigar a isso. - Disse a esposa preocupada.
- Você não me obriga a nada. Também amo muito a sua mãe.
Todos os anos o casal tinha poucos minutos com dona Maria no dia da sogra, mas apreciavam cada segundo a mais que podiam passar com ela. Eles a amavam e ela retribuía o sentimento. Em breve, o pequeno Pedrinho poderia conhecer a incrível mulher que dona Maria foi. Uma mulher destemida que encarou a justiça e o pai alcóolatra por Carlos, e uma mãe formidável que criou uma filha corajosa que salvava vidas diariamente no hospital Santa Helena. Carlos sempre considerou sua habilidade uma maldição, agora era grato por poder usá-la no dia da sogra.

Conto: "SOGRA "
Escrito por Udine Tausz, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
- O que você tem? 
- Nada!
- Como nada, amor? Você está com essa cara o dia todo... Está zangado?
- Não. Chateado, mas não se preocupe. Não é com você...
- Isso eu sei! Mas não gosto de ver você assim, cabisbaixo, sorumbático... Fico preocupada, você sabe...
- Mas não precisa. Só me dê um abraço.
- Oh, oh. Isso é sério!
- Só por que eu pedi um abraço? Eu sempre quero seus abraços...
- Muito bem, muito bem. Venha cá! Um abraço!
- Seus abraços são muito reconfortantes!
- Agora me conte: por que estamos tão chateados?
- Não quero magoar seus sentimentos, meu amor. Basta um de nós chateado hoje, está bem?
- Magoar meus sent... Ah! Acho que já sei o que é! Meu amor!
- Viu? Você também vai ficar chateada...
- Bem, não é a melhor coisa de se ouvir, mas você sabe que pode me dizer tudo... No fim, eu acabo mesmo descobrindo!
- Ou algum fofoqueiro acaba te contando!
- Meu amor, vamos! Anime-se! É só por uns dias! E nós nunca recebemos visitas!
- Uns dias que vão parecer uns milênios!
- Uh, exagerado! Vai passar rapidinho!
- Eu posso ir para os Campos? Lá vai passar rapidinho... vou estar longe...
- Que indelicado seria isso de sua parte!
- Sua mãe não é nada delicada quando começa a fazer críticas à nossa casa!
- Bem, ela está acostumada com outro tipo de... vida...
- Há há há ... não foi engraçado!
- Admita! Foi sim! Há há há há
- Ela põe defeito em tudo... diz que é muito escuro...
- Bem, ela gosta muito de luz...
- Que a decoração é muito monocromática...
- Onde ela vive tem sempre muita cor...
- E que você não se alimenta direito...
- Ehm...
- E aquela intragável sopa de cereais!
- Amor! Só por uns dias! Eu só vejo mamãe uma vez por ano, quando vou visitá-la. Estou feliz que ela tenha vindo aqui, apesar...
- Apesar...?
- Apesar das implicâncias que vocês têm um com o outro...
- Ela reclama do cachorro! E ele é tão bonzinho...
- Bonzinho até a página dois, né, amor...!
- E reclama que ninguém poda as árvores... e do rio... e de tudo em volta...
- Ela só quer que eu seja feliz... E você sabe que eu faço de tudo para vê-la bem... é importante para o trabalho dela...
- Ah, eu sei!
- Olhe, vocês dois tem uma coisa em comum: querem a minha felicidade. Eu prometo que vou dizer a ela para não implicar com você. E você me promete que vai fazer de tudo para que ela se sinta à vontade.
- Ah, meu amor... Tudo que eu mais quero é saber que você está feliz!
- Eu estou. E ela vai ver que sim! E vai parar de implicar com você!
- Ahhhh, não vamos exagerar! Afinal, esse AGORA também é meu papel! Receba-me com as honras que mereço, genro!
- Eu a recebo, Senhora, bem-vinda a este lar... Fique à vontade, mas não coma nada, por favor!
- Amor!
- Ora, seu...!
- Mamãe..., Amor! Se vocês continuarem com isso, quem vai para os Campos sou eu!
- Desculpe, meu bem....
- Ah, minha filha...!
- Agora, dêem-se as mãos e prometam que vão se comportar pelos próximos dias...
- Deméter...
- Hades...
- Nós prometemos, querida.
- Muito bem! Agora vamos dar uma voltinha?
- Nesse muq...
- Mamãe!!!!
- Oh!

Conto: "O aniversário "
Escrito por Sueli Lazari, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Naquela manhã Talita acordou com algo martelando em sua mente, por alguns segundos, daquele tempo em que levamos para acordar e raciocinar direito, não lhe ocorreu o motivo daquela aflição. Era mais uma impressão ruim que qualquer outra coisa, um peso estranho bem no meio de seu peito.
Então ela lembrou-se, e caiu-lhe como uma bomba! Fechou os olhos e soltou o ar pela boca, “que saco”! Era domingo, era o dia dela, era aniversário da sua sogra. O dia em que não poderia recusar, sob qualquer hipótese, o convite para o jantar em comemoração aos oitentas anos de vida da mãe de seu amado marido.
Por muitos anos, durante o namoro e depois do casamento com seu único filho, Talita conseguiu, com muita dificuldade, livrar-se de quase todos os convites vindos daquela mulher. Dores de cabeça, cólicas terríveis, daquelas que seguram até as mais fortes na cama, uma consulta, terremoto, tsunami...
Depois que os filhos vieram, foi mais descomplicado. É compreensível que as crianças fiquem doentes, que tenham compromissos com a escola, com os aniversários dos amiguinhos, as aulas de inglês, alemão, chalcatongo mixtec, essa eles não poderiam perder, mandarim... E etc.
Mas naquele domingo nem o Santo Papa conseguiria intervir por ela. Não é todo dia que se comemoram oito décadas de existência. Seu marido estava dormindo profundamente. Mas olhando-o com mais atenção, ele não parecia estar muito bem, as bochechas avermelhadas, a testa suada, seria febre? Ela animou-se.
_ Amor... Amorzinho, acorde!
Nem um músculo se moveu, um ronco ressoou alto. De repente a respiração do homem desapareceu, sua barriga ficou alta, o pescoço inchado. Ela chamou-o, chamou-o outra vez e nada de ele voltar a respirar, nada. Aproximou-se mais dele, cutucou o braço, o peito, as costelas do marido. Ele estava morto?
_ José Luiiiiz! – Sua voz saiu com muito mais potência que ela pretendia. O homem soltou o ar de uma só vez e arregalou os olhos, enquanto pulava para trás, batendo com força as costas na parede gelada.
_ Tá louca mulher? O que foi que aconteceu? Quase me mata de susto!
Ela o abraçou e depositou vários beijinhos em seu rosto aparentemente irritado.
_ Graças a Deus. Você está bem. Achei que estivesse morrendo.
O marido com a cara torta olhava para a esposa, enquanto massageava com certa dificuldade as próprias costas.
_ Não acredito. Esse ano você se superou. Vai tentar me matar para não ir ao aniversário da mamãe?
A mulher abriu a boca, balançou a cabeça em negativa.
_ Francamente... Olha só o que recebo por me preocupar com você. Não acredito que você está me dizendo isso. Não tem nada haver.
O marido respondeu um “sei” escorregando pela lateral da cama, tentando escapar de uma eminente batalha.
Deitada na cama, ela ouvia a água do chuveiro cair. Estava com o discurso todo pronto. Mas ele nunca saía, já fazia quarenta e três minutos, quase quarenta e quatro que o covarde havia entrado no banho. Depois resolveria aquela questão, os filhos logo acordariam, precisava preparar o café da manhã.
Na cozinha, enquanto a água borbulhava na caneca e o cheiro do café moído entrava por suas narinas, Talita buscava a possibilidade de uma última saída, um restinho de esperança de não comparecer ao tal jantar ainda existia dentro dela. Quem sabe algo que ainda não tivesse atinado. Talvez uma coisa simples, precisava apenas pensar com mais atenção.
O marido desceu as escadas lentamente, sentia-se encurralado, era dia de folga, não teria como sair correndo para o trabalho. Isso funcionara muito bem por várias vezes. Teria mesmo que enfrenta-la, certamente pediria desculpas á esposa e, se tivesse muita sorte, ela desistiria de levar o assunto adiante pela próxima semana. Sentia-se muito arrependido, era só ter calado a boca. Maldita boca.
_ Bom dia amor...
_ Hum...
_ Você dormiu bem?
_ Uhum.
_ O que temos para o café?
_ Café.
_ Muito bom... E o que vamos comer?
_ Comida.
O homem sentou-se à mesa, abriu o jornal que carregava debaixo do braço. Baixou a cabeça, parecia muito interessado pela leitura. Ela continuava bicuda, olhos fixos nas próprias mãos que arrumavam a mesa.
_ Olha isso, Talita. Você não vai acreditar.
Como a mulher não demonstrou interesse algum, ele continuou.
_ Temos previsão de tempestade para hoje.
Por algum motivo a esposa pareceu mais interessada.
_ Será? Mas eu olhei a previsão a semana toda. Era para ser um domingo de sol.
_ Às vezes eles se enganam. Então... Se chover muito, a festa não vai acontecer. Coitada da mamãe. Eu disse para não fazer a festa em casa. Esse negócio de tenda no gramado nunca funciona. - A esposa lhe lançou um olhar mais leve. Ele sentiu que estava no caminho certo.
_ Nossa... Coitada. Deixa-me ver isso direito. – Tomou o jornal das mãos do marido. _Olha, é muita chuva, não é mesmo?
_ Pois é. É muita chuva.
A esposa começou a cantarolar, primeiro timidamente, libertando-se aos poucos da atmosfera pesada que pairava sobre a cozinha. Depois, parecendo esquecer-se do campo de guerra que havia se formado, disparou a cantar desafinadamente.
_ Vai querer um pãozinho francês na chapa?
_ Com certeza.
José Luiz já não sabia se torcia pela tempestade ou pela bonança, embora para ele, a tempestade provavelmente seria a bonança.
A caçulinha desceu as escadas de cabelo armado. Vitória, de cinco anos, parecia uma versão mirim do primo Itt. Talita lembrou-se imediatamente que o creme de pentear da filha havia acabado.
Rafa, o pequeno homenzinho de dez anos, chegou logo em seguida.
_ Mãe, cadê meu cereal?
_ Bom dia para você também. O cereal acabou. Vamos ao mercado comprar. Troque de roupas, você vai comigo.
_ Mas mãe, eu quero jogar Playstation.
_ Só depois que voltarmos.
O garoto seguiu emburrado. Talita trocou a pequena descabelada e em vinte minutos estavam prontas para o mercado.
_ José Luiz, você vem com a gente?
_ Não se eu puder evitar.
Quando Rafael alcançava a porta, um barulho súbito chamou a atenção do garoto.
_ O que é isso, mãe?
_ Um dilúvio.
As crianças voltaram para seus quartos, às compras ficariam para mais tarde. O dia estava perfeito para cozinhar.
_ Vou preparar um bolo para o café da tarde. - José Luiz subiu para mais uma soneca.
A animada mulher começou a tirar do armário todos os itens necessários para o preparo do bolo. Colocou-os sobre a mesa. Tomaria cuidado para não sujar a toalha branca que lavara no dia anterior. Olhando para a antiga toalha sobre a mesa, não pôde deixar de pensar na sogra.
Dois meses antes, Talita levava os filhos para as aulas de reforço, quando estacionou em frente à escola e o celular vibrou. Ela leu a mensagem da sogra. “TENHO UMA SURPRESA PARA VOCÊ”. O que seria?
Ela não respondeu, não devia ser coisa importante. Então, no final do dia, quando já havia se esquecido da tal surpresa, a sogra apareceu em sua casa levando nos braços suas toalhas de mesa, as de banho e alguns lençóis. _ Alvejei para você. - Seu cérebro imediatamente traduziu a frase: “Alvejei suas toalhas encardidas por que você é porca e não faz as coisas direito”. _ Obrigada - Ela disse.
Dona Carmen tinha tempo de sobra, era aposentada, nunca havia trabalhado fora. Dedicava tempo integral a casa e ao marido. Nunca havia contratado ninguém para ajudá-la. Não permitiria uma estranha mexendo em suas coisas. E, além do mais, ninguém faria o trabalho tão bem quanto ela. As refeições tinham hora marcada. As panelas estavam sempre brilhando, as roupas cheiravam a amaciante, na calçada nunca se via uma folha de árvore ou papel de bala.
Talita era o oposto. Trabalhava o dia todo, era totalmente dependente de uma “faxineira babá”. Dava graças a Deus quando uma delas ficava por mais de seis meses. Não tinham hora certa para comerem e o brilho das panelas dependia da disposição de sua contratada. As roupas eram passadas na hora de sair, o prato mais consumido na casa era macarrão e olhando bem para a toalha, sim, ela estava novamente amarelada.
Cantarolando ela colocou o bolo no forno, que manhã agradável, o dia estava perfeito. Resolveu esticar-se um pouco no sofá da sala. Já deitada e relaxada esticou o braço e alcançou o celular sobre a mesinha. Tinha uma mensagem da sogra. Seria possível que ela tivesse encontrado uma solução para a realização do jantar? Não era possível, não com toda aquela chuva. Abriu depressa.
“TENHO UMA SURPRESA PARA VOCÊS”.
Subiu as escadas pulando de dois em dois degraus.
_ Amor! Acorde. Ligue para sua mãe!
_ Para que? – Seus olhos estavam vermelhos e tinha baba na bochecha.
_ Olha essa mensagem. Acho que ela conseguiu algum lugar para a festa.
_ E porque você mesma não liga?
_ Porque você é o filho dela e não eu.
O marido pegou o celular com um ar contrariado e discou o número da mãe.
_ Oi mãe. Feliz aniversário. Que história é essa de surpresa? – Ele ouviu a mãe por algum tempo. _ Sei... Uhum... Mas não vai mesmo ter jantar? Uhum... Ok. Que pena. Então a gente se vê amanhã. Ok. Tchau. Te amo.
O olhar ansioso da esposa esperava por uma explicação.
_ Não vai ter jantar de aniversário e ela não revelou qual é a surpresa. Disse que se contasse perderia a graça.
_ Graças a Deus...
_ Como?
_ Graças a Deus que ela não contou, perderia a graça.
O domingo correu maravilhosamente bem para a alegre Talita. Foi ao mercado com os filhos, comprou o creme de pentear da filha e alguns produtos de limpeza. Lavou a calçada e deu banho no cachorro. E mesmo com todas as tarefas daquele dia ela não se esqueceu de mandar uma linda mensagem de aniversário para a sogra.
No finalzinho da tarde, quando as luzes dos postes já estavam acesas e o dia estava chegando ao fim, a família esperava faminta pela tradicional pizza do domingo à noite. A mesa estava posta. A campainha tocou. Até que enfim, como tinha demorado. Ou era a fome que era muita?
_ Eu atendo! – Talita correu para a porta.
_ SURPREEEESAAAAA!!!
Foi mesmo uma grande surpresa. A sogra e o sogro estavam plantados em sua frente.
_ Minha nora querida. Eu não poderia passar esse dia longe de vocês. Trouxemos o jantar. Que carinha é essa? Não gostou da surpresa?
_ Gostei... Muito... Entrem.
Conto: "SATÂNIA "
Escrito por Jaques Valadares, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Seu nome era Dona Tânia, mas seu genro Denis costumava chama-la de Satânia, tamanha a simpatia que tinha por ela. 
Para ele, tirar a vida daquela velha fofoqueira não poderia nem ser considerado um assassinato e sim um serviço de utilidade pública.
Naquele dia, ele chegou mais cedo, nem sua esposa, nem seus filhos estavam em casa. Apenas os dois, pensou que seria uma ótima oportunidade para acabar de vez com aquela peste.
Não havia um dia sequer que ela não o xingasse, estranhamente naquele dia ficou quieta, talvez por não haver plateia para vê-la o humilhando.
Denis foi até a cozinha e serviu-se do café que ela havia preparado, uma das poucas coisas que Satânia sabia fazer muito bem. Porém até nisso havia errado a mão, estava bem mais amargo que o de costume, talvez estivesse ficando gagá. Sem o café, já não servia mais para nada.
Enquanto engolia o café amargo ficou imaginando como poderia se livrar daquele encosto.
Poderia empurrá-la na piscina e esperar que se afogasse, poderia sufoca-la com um travesseiro ou quem sabe cortar seus pulsos e fingir suicídio.
Não, Denis sabia que se não tomasse cuidado seria descoberto e também não tinha certeza se conseguiria provocar uma morte tão violenta.
No começo era como uma brincadeira, ficava imaginando as diversas possibilidades de matar sua sogra, mas aos poucos percebeu que não eram apenas suposições, ele realmente tinha o desejo de assassinar aquela velha senhora. O que lhe faltava era oportunidade e por mais que tentasse negar, aquele dia seria o ideal.
Olhou para a sua caixa de ferramentas jogada no chão da cozinha e suas coisas espalhadas. Era para ele ter consertado o vazamento da pia, mas ainda não havia tido tempo. Olhou para a furadeira e se imaginou perfurando o cérebro dela.
Estaria ele se tornando um psicopata? Não. Era apenas um oprimido tentando se livrar de seu opressor.
Ela poderia morrer por alguma doença devido a sua idade, mas, ao passo que andava, parecia impossível, apesar de seus setenta anos tinha uma saúde de ferro, colesterol e diabetes ok, talvez não tivesse nem varizes. Se fosse esperar por uma doença, era capaz dele ir antes dela.
— Veneno! — Ela gritou lá da sala.
Denis se levantou e foi em direção da velha.
— O que disse?
— Se está querendo matar alguém, deveria usar veneno.
— E quem disse que eu quero fazer isso, cada dia está ficando mais louca.
Mas ela não deixava de ter razão. Um veneno seria capaz de provocar uma morte simples, sem sujeira, sem crueldade, pensando bem, era uma ideia genial, poderia ser colocado em um suco, na garrafa de água ou até mesmo no caf...
Denis arregalou os olhos, sentiu um calor imenso subindo em seu corpo. Olhou para a cozinha, o copo com um restinho de café sobre a pia e a garrafa sobre a mesa. Que café era aquele? Ela não costumava fazer um café tão amargo, será que ela teria coragem?
— Você me envenenou?
— Claro que não seu traste, vai caçar o que fazer.
Denis de um suspiro. Mas antes que pudesse relaxar, sentiu o calor novamente, seu corpo começou a suar, suas mãos começaram a tremer, sua visão foi ficando embaçada, aos poucos tudo foi escurecendo até que não havia mais nada e mergulhou no abismo.
— Não envenenei você, envenenei o café!
Conto: "DESABAFO "
Escrito por Jaques Valadares, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Eis que monarquia, imposta a exaustão, 
Dos cavaleiros de armadura
Que trouxeram a escravidão
Transformaram em Ditadura
Pra calar a multidão
Dava aos reis vida longa
Coragem, força e sorte
E aos pobres a tristeza
Pela espada sua morte
Suas riquezas foram exploradas
E seu povo enganado
Sua história é controvérsia
Foi descoberto ou foi tomado?
Ó pátria amada, abandonada
Sofre, sofre!
Quinhentos e dezoito anos
De sofrimentos, desenganos
Mas não desistimos, nós lutamos
Sei que é difícil, eu não nego.
Mas não posso desistir,
De abrir os olhos do cego
Pra parar de se iludir
Se existisse uma manivela
Pra fazer voltar no tempo
Explodiria as caravelas
Com Cabral, Pero Vaz e tudo
Não haveria descobrimento
Não haveria terceiro mundo
Na bandeira, verde seria maior
E o azul seria mais profundo.
Levante desse berço esplêndido
Do qual vive deitado eternamente
Lute pelo que é seu de direito
Não deixe na boca da serpente
É hora de acordar
Não quero mais ser gentil
Fora daqui sanguessugas
Ninguém é maior que meu Brasil.
 
Conto: "O voo do Pinguim "
Escrito por Stela Sampaio, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Era o grande dia, ele sabia disso. Sabia desde sempre que aquele dia chegaria. Sua mãe tinha lhe contado quando começou a caçar sozinho que um dia, quando tivesse idade suficiente e as Ilhas Malvinas esfriassem, precisaria migrar para o norte, para um país chamado Brasil. Todos os anos os pinguins-de-magalhães realizam a migração para o Brasil para fugir do inverno.
No entanto, saber sobre a migração não a tornava menos assustadora. Seus pais estavam há semanas dizendo como o Brasil tem muitos peixes grandes e saborosos, como a água lá era mais agradável, mas nada convencia o jovem e medroso pinguim que viajar uma distância tão longa era uma boa ideia. Havia muitos perigos no mar, com dentes grandes e ameaçadores.
- Vamos? - Perguntou sua mãe com o olhar.
Pinguins não falam palavras como os humanos, mas cada movimento do corpo, olhar e som que emitem significa alguma coisa e o filhote conhecia bem todos os sinais de seus pais. O trio estava na beirada de um pequeno penhasco que facilitava a entrada no mar. O filhote olhou para baixo e recuou. Suas penas estavam eriçadas pelo frio, ou pelo medo, não tinha certeza. A camada de gordura que adquiriu nos últimos meses comendo muito peixe evitava que sentisse frio, então provavelmente era medo.
- Vamos, precisamos ir logo. - A mãe pinguim balançava as asas tentando indicar a urgência do salto. Outros pinguins no mesmo penhasco já começavam a pular e tomar o rumo para o Brasil, se demorassem demais dariam oportunidade para um Leão-Marinho comê-los onde estavam.
O filhote recuou mais um pouco. Tinha Leões-Marinhos no Brasil, não tinha? Com certeza! Devia ter milhares deles! Qual era a graça de ir para um país assim? O inverno não podia ser tão ruim.
Antes que conseguisse avisar para seus pais que não iria, que ficaria ali mesmo e encararia o inverno, sentiu alguém empurrá-lo e mergulhou no mar. Seu pai mergulhou logo em seguida. Ele o tinha empurrado!
Teria feito uma careta para ele se fosse possível, mas sabia que uma vez no mar, a melhor atitude era nadar o mais rápido possível. Quando sua mãe entrou os três dispararam em direção ao norte.
A água estava levemente fria, sinal do início do inverno. Pinguins nadam como uma bala no oceano e a sensação era de liberdade e velocidade.
- Deve ser a mesma sensação de voar. - Pensou o filhote.
Ao contrário de várias aves, pinguins não voam, mas ele acreditava que a sensação de liberdade no ar deveria ser semelhante a que sentia naquele momento.
O Brasil não era muito perto e os viajantes precisaram fazer pequenas paradas na costa da Argentina no caminho, evitando ao máximo os predadores. O filhote quase foi pego enquanto caçava, por um Leão-Marinho que acabou encontrando seu destino na boca de uma Orca. Será que havia Orcas no Brasil? O filhote desejou naquele dia que existissem.
Depois de dias, sua mãe deu um sinal alertando-o de que estavam perto, mais um dia e chegariam no país de destino. O que ela não contava era com o forte fenômeno da natureza conhecida como La Niña que surgiu naquela tarde. O filhote tinha ouvido falar nesse fenômeno que reduzia a temperatura da água e confundia os pinguins. Foi avisado várias vezes pelos pais para tomar muito cuidado com ele e nunca se separar deles quando ocorresse.
Bom, o problema é que nesse exato momento, não via nenhum deles à sua volta. A água fria trouxe uma correnteza que o jogou para longe dos seus pais. Estava perdido em algum lugar entre a Argentina e o tal Brasil. Perdido e sozinho.
- Vá sempre para o norte. - Pensou o filhote sentindo um frio na sua espinha que não vinha da água.
Nadou e nadou, sempre para o norte. Devia ter ficado nas Malvinas. Sabia que devia ter ficado. Não tinha como o Brasil ser um país bom. Iria morrer lá. Morreria sozinho e longe de seus pais. Norte, vá para o norte.
Não sabia onde estava e mal conseguia notar quantos dias tinham passado. Fez pausas rápidas na água mesmo, ficando boiando por algumas horas antes de voltar a nadar, por medo de ir para a costa e ser pego por um Leão-Marinho ou outro predador. Pelo menos na água era rápido e podia voar. No entanto, não descansar na costa estava cobrando seu preço. Ele estava ficando cada vez mais cansado e sabia que sua camada de gordura estava diminuindo, pois o frio da água estava começando a incomodar. Será que tinha chegado no Brasil? Norte, continuaria para o norte até a água começar a esquentar. Seu pai tinha dito que a água do Brasil era mais quente.
Mesmo cansado, o filhote nadou, descansou, caçou e nadou novamente. Não tinha se perdido apenas dos pais, mas de todos os pinguins. Nadar, precisava nadar. Voe na água! Mas estava tão cansado. O seu corpo não obedecia mais, precisava ir para a costa. Ela estava tão longe.
- Como ele está? - Pergunta Michele a bióloga de uma ONG de resgate de animais marinhos de Salvador.
- Ficará bem, já saiu do coma. - Raquel injetou mais uma seringa de peixe moído na sonda gastrointestinal do filhote de pinguim que tinha surgido na praia de Baía de Todos os Santos naquela manhã.
Ele parecia bem melhor depois de seis horas de soroterapia e alimentação via sonda. A Veterinária sorriu ao vê-lo piscar algumas vezes e sua íris se focar nela.
- Acredito que se passar nos testes poderá voltar para o mar em duas semanas. - O pinguim parecia tentar levantar, mas ainda estava muito fraco. - Bem vindo ao Brasil, pequenino. Deve ter sido uma longa viagem.
O filhote sabia que estava nas mãos de uma humana. Humanos eram perigosos. Seus pais sempre lhe disseram para ficar longe deles. Tinha descoberto o Brasil e encontrado sua primeira humana no mesmo dia.
Durante os dias seguintes, Raquel o limpou, o alimentou e o medicou. Com o passar dos dias suas forças estavam voltando e logo foi colocado em um local cercado com uma piscina. A água da piscina era esquisita, parecia pesada, mas o filhote estava feliz por poder nadar novamente.
Sempre que Raquel surgia, o pinguim se escondia. Tinha medo dela. Humanos são perigosos. Era o que seus pais tinham lhe ensinado.
Bicava a veterinária sempre que podia na tentativa de se proteger, mas a menina era rápida e o pegava pelas costas quando se distraía. Não podia reclamar da comida, comer sardinha todo dia não era ruim. Ainda mais se não precisava caçá-los.
Quando ficou completamente bem, a veterinária e a bióloga o colocaram em uma caixa e o levaram. Ele estava com tanto medo. Para onde estava sendo levado? A caixa estava escura.
Foi quando a luz e o som da água batendo na praia entrou na caixa que ele entendeu. Estava indo para o mar. A felicidade que sentiu era tanta que começou a pular na caixa e se mexer para todos os lados.
- Calma, só mais uns passos. - A voz da veterinária era gentil e o pinguim se sentiu mal por sempre bicá-la.
Ela abriu a caixa e ele viu o mar do Brasil. O pinguim ficou paralisado, tinha chegado no Brasil há vários dias sem perceber. Então aquele mar era do Brasil. Um mar esverdeado e as vezes azul escuro, com um sol constante e poucas chuvas. Com aves marinhas para todos os lados e uma areia belamente branca. Um mar que lhe lembrava sua casa.
- Pronto, pode ir. - Raquel tentou encorajá-lo.
O filhote olhou para trás, queria agradecer. Um humano tinha salvo sua vida e cuidado dele. Duas na verdade, a bióloga sempre estava lá também. Nunca se encontrou com um humano nas Malvinas. E não sabia se eles eram gentis como ela, ou se outros humanos do Brasil eram assim. Tinha descoberto um país belo e diferente, com pessoas boas e pela primeira vez, desde o início de sua jornada, não sentia mais medo.
O pinguim deu as costas para as duas e caminhou lentamente para o mar, balançando de um lado para o outro. Seus pés sentiram a água morna da Bahia e ele se apressou entusiasmado com a sensação. Quando estava fundo o suficiente, mergulhou e nadou. Não, voou na água. Ainda tinha muitos dias para passar e conhecer o Brasil antes de voltar para as Malvinas e contar tudo para seus pais. Contar como aquele país lhe deu a coragem que precisava.

Conto: "O despertar da amendoeira"
Escrito por Eliane Reis, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Yago ouviu dizer sobre a “mulher das amêndoas” – dona Sara - e resolveu procurá-la. O dia acaba de despertar e ele ainda ouve as vozes e o barulho dos pés que acompanharam a procissão da noite anterior. Olha para dentro de si e vê meandros endurecidos em cada curva pela qual já havia passado. Na primeira curva, perde o colo para o irmão mais novo; na segunda, joga a chupeta na lata do lixo para se sentir amado; na terceira odeia a ausência do pai; na quarta, perde o irmão mais velho no qual buscava abrigo. Já moço, na quinta curva, precisa responsabilizar alguém pela sua trajetória de (v)ida que flui de forma idealizada ou não, percebida ou não. Culpa a mãe, detesta o pai, muda de casa e de religião. Conhece Ana e diz que a ama. Se apaixona e a abandona. Sofre mais uma vez por estar sozinho e passa a ter medo do silêncio que lhe trás significados. Precisa deitar seus murmúrios em algum Deus que explique todas as suas aspirações dissolvidas ao longo do tempo, que clarifique todas as revelações sobre-humanas que fazem ruídos dentro de si. Sai do seu labirinto. Do lado de fora, olha para trás e enxerga o campo. O prado está florido e o sol, depois de beijá-lo longamente, escorrega pelo telhado e descansa no último degrau da escada, agora morna. Caminha até o canteiro de narcisos que está descansado sob um manacá solitário, mas impassivelmente belo. Apanha uma rama já quase sem vida, mas que ainda sustenta algumas pétalas brancas. Olha para trás várias vezes enquanto caminha. Ouviu dizer que aquela rama seria benzida pela “mulher das amêndoas” e isto lhe traria renovação. A estrada é longa. Os mesmos meandros que percorrera dentro de si, surgem do lado de fora, insistindo para ele desistir no meio do caminho. Mas caminha firme e encontra a casa adornada com lindas palmeiras e plantas espalhadas por todos os lados. O cheiro que flui já no portão de entrada o leva àquela curva, na qual deixara Ana. A mulher magra, de pele alva com vários vincos, o recebe sorridente e o convida a entrar. 
_ Trouxe um ramo de narciso para a senhora benzer e quero comprar algumas amêndoas.
Ela sorri mais uma vez e estende a mão para cumprimentá-lo:
_ Gosta de amêndoas? – apanha a flor com a outra mão.
_ Não muito, quer dizer, não tenho o hábito de comê-las.
_ Pois bem, senhor....?
_ Yago – ele responde.
_ As amêndoas são daquele pé com ar senil – sorri e aponta para o fundo do quintal revestido com vários tons de verde.
_ Ah! Parece-me mesmo bem velho! – fala sem sorrir.
_ Sente-se! – coloca o ramo de narciso sobre sua perna e continua:
_ Yago, amendoeira, em hebraico, “sha•qédh”, significa “aquele que desperta” - sua voz é rouca e pausada. Reflete um tom mélico, mas seguro. _Muitas pessoas se identificam com o Cristo morto na cruz. Elas vêm aqui apascentar suas alcatéias de dores tentando se espelharem nas feridas de Cristo. A amendoeira é uma árvore que “desperta cedo”, digamos que floresce fora da estação. Eu não vendo amêndoas, como muitos acreditam, eu dou de presente uma semente para ser plantada. Daqui cinco anos, ela começa a dar frutos, se bem cuidada. Daqui há cinco anos, olhe para sua amendoeira e olhe para seu problema atual. Perceba se ainda são grandes da mesma forma como os enxerga hoje. Olhe bem devagar para sua amendoeira e veja se você conseguiu florescer igual a ela nestes cinco anos, florescer fora das estações, entendeu? Perdoe a vida para que ela possa te perdoar. Quando Cristo ressuscitou, ele não deixou suas feridas no calvário. Ele as levou consigo, sabendo que as marcas que lhe deixaram era um fardo só dele e que ele deveria prosseguir com essas marcas.
Yago a olha com os olhos marejados enquanto ela estica a mão, em concha, com uma semente.
_ Pegue sua semente e a plante no seu labirinto. Entenda que o ontem passou, mas que às vezes a vida e as pessoas nos deixam ruínas que nunca poderão ser reconstruídas. O segredo é entender que, por mais difícil que sejam os danos que nos causaram, não existe um remédio que os cure. Que nenhuma raiva ou mágoa vai transformar o que já aconteceu. Siga para o futuro com seu passado em ruínas e avance com suas cicatrizes.
Yago já havia limpado a face coberta de lágrimas várias vezes com a palma das mãos. Estica o braço e abre uma das mãos para receber a semente. Depois se levanta e dá um longo abraço naquela senhora de olhar terno e algumas mechas de cabelos brancos. Então ela fala com a voz mais rouca que o normal:
_ O ramo de narciso é uma troca! – sorri com acalanto – vou plantá-lo para me lembrar de você. Será lembrado como “o rapaz do narciso”...e quando ele florescer, eu sei que estará bem melhor que hoje.
Yago não responde, pois sabe que aquele abraço já disse muitas coisas. Olha longamente para o quintal antes de sair e virar as costas. Caminha e sente o caminho de volta mais curto.
No mesmo canteiro de narcisos, enterra a semente recebida momentos atrás. Passam-se cinco anos, a árvore que já em dezembro está coberta com lindas flores brancas, começa a dar frutos. Yago continua com seu passado, mas agora consegue sentir o gosto adocicado das amêndoas. Apanha algumas para levar de presente à dona Sara, a mulher que nunca vendeu amêndoas.
Conto: "Ressurreição"
Escrito por Maylah Esteves, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Havia se separado na quaresma há três anos. 
Naquele momento, sentada no chão de piso frio, Maria observava pouco animada as caixas da mudança.
Havia se casado aos trinta e três e casada permaneceu pela mesma ampulheta de sua vida, trinta anos.
Não chorava mais quando via nas redes sociais a foto do ex-marido, agora, bem-sucedido, ao lado de uma jovem, de mesma idade quando ela tinha quando se casou.
Faltavam três dias para a Páscoa. A televisão exibia inúmeros comerciais e novelas com lojas lotadas de coelhinhos, crianças lambuzadas pelos ovos de chocolate e pais orgulhosos parcelando em doze vezes.
Tudo isso era o que Maria queria, mas não pôde, seu único arrependimento durante o casamento fora nunca ter tido a audácia de engravidar.
Fechou o álbum de casamento, fechou o laptop onde estava logada em suas redes sociais e desligou a TV, em que passava o comercial de uma famosa chocolateria e seus ovos e crianças deliciosos. Não queria se martirizar mais.
 “Vou parar de ver essas fotos idiotas”, pensou consigo mesma com raiva, “idade não é tudo”, ponderou, amassando um panfleto de academia e comendo um dos últimos pedaços de pizza de calabresa. De manhã precisava estar decente para entregar a chave ao novo proprietário e se mudar com dignidade para o apartamento, de solteira.
“Solteira”, a palavra ainda lhe soou estranha, não levaria o álbum de fotos empoeirado, não queria velhas lembranças! “Vou recomeçar”. Essa frase era seu mantra diário de dois anos e trezentos e sessenta e dois dias.
Caminhou pela casa de seis cômodos, todos vazios, arrastando a pantufa pelo piso frio, passando as mãos pelas paredes, relembrando de cada detalhe, dos risos ao escolher as cores, das brigas bobinhas de onde martelar os quadros, aquele tato das mãos cansadas lhe trouxe mais uma lágrima, empoeirada e cansada como o cheiro ocre das paredes.
Os anos passaram de forma injusta para ela.
Parou em frente ao espelho do banheiro. Duas pias, uma banheira, que o ex-marido havia jurado que nunca entraria sozinho e ele cumpriu a promessa, mas com outra.
 “Somos o resultado de evoluções, guerras perdidas, amor robusto de reis e pobres plebeus, avanços e marchas descompassadas de herois desesperados, somos brasileiros”. Disse baixinho a si mesma. Afinal de contas era uma professora de história.
“Aposentada”, enxugou mais uma lágrima apertando com força a pia de louça branca. Agora iria deixar a casa e ir para o apartamento de solteira em Guarulhos, deixando a grande São Paulo na sua neblina fria, chuvosa e pesada.
Iria dar aula como voluntária, não estava velha para isso, não? Afinal, sabia mexer em computador moderno, mandar e-mail, escrever no Word e todas essas coisas! A falta que o ex lhe fazia nessa quaresma interminável de quase três anos teria um propósito.
Fechou os olhos, ouvindo as gotas do banheiro pingando. “Ah, eu avisei para consertarem essa droga”, fugiu de lá, como um desertor de guerra. O banho poderia ser no outro dia, iria esperar o caminhão de mudanças e pedir para o novo comprador pegar a chave com a vizinha; sim, era o melhor a fazer.
Deitou-se, mas não dormiu. Iria fazer três anos de separada, desquitada, deixada de lado por uma moça trinta anos mais nova. Virou na cama, puxou o lençol, revirou, abriu o computador. Iria preparar a aula para o voluntariado, mas antes, uma olhada no perfil social do ex-marido.
A quem ela queria enganar? Ele estava feliz, talvez como nunca havia sido com ela. Largou o computador e bufou irritada. Fechou os olhos bem apertados! Foram trinta anos! Como ele pode ter jogado tudo fora?
_POR QUÊ? – gritou no quarto, sozinha. Abafando a garganta arranhada e rasgada pela rejeição. Revirou na cama, colocou o edredom de lado, parecia estar suada pelo dia cansativo, “mais um dia”, seus pensamentos desconexos num som nostálgico vindo de lugar nenhum. Colocou o travesseiro no meio das pernas. Tirou o travesseiro dos meios das pernas.
Rolou na cama, abafou outro choro cansado, abatido e intermitente, as olheiras estariam mais profundas e os produtos de pele não fariam efeito sem o sono necessário, penso que tinha que pintas os cabelos brancos, a depilação por fazer, a dieta de segundas-feiras passadas.
O celular despertou às seis da manhã e ela tinha cochilado pouco e mal. Levantou-se exausta, mas designada a entregar as chaves. A vizinha a abraçou e lhe desejou “tudo de bom”, “seja lá o que isso queria dizer”, pensou Maria lhe desejando o mesmo.
Partiu para Guarulhos em seu apartamento de solteira e lá ficou esperando, enquanto fumava um cigarro o caminhão da mudança. Pediu comida por um aplicativo de celular, comeu, e foi se deitar no chão, sem cama, sem banho, sem higiene, sem esperança.
Dormiu encarando o teto do apartamento de solteira seus sonhos estraçalhados, como um vidro quebrado de lembranças distorcidas de um passado não distante.
No terceiro dia acordou querendo ficar no colchão, o resto da comida passada em um canto da sua boca, nenhuma notificação em seu celular, ninguém para visitar, ninguém para ver ou ser vista, chorou de novo.
 O apartamento desarrumado, desajustado e sujo lhe refletiam a alma. Era Páscoa, naquele mesmo dia e há três anos exatamente o marido havia lhe dito: “Conheci alguém”.
Daquele verbo e sujeito nasceram seu divórcio tão difícil. Advogados, datas, papeis, uma mulher na vida dos dois, repartição de bens. Maria havia entrado em piloto automático, parecia não ter freios ou volante, andando a esmo pelas ruas, como um carro autômato sem GPS.
À noite, depois de acordar suja, suada e ainda mais cansada, ela não soube o que havia lhe dado. Mas, uma vontade de comer ovo de Páscoa e arrumar a casa lhe bateu na telha.
São dessas coisas que a ciência não explica, sabe? Um sentimento agitando seu corpo, parecia um desejo de mulher grávida, bom, grávida nunca tinha estado, mas gostou da sensação.
Tomou um longo banho, se penteou, alisou um vestidinho e foi às ruas, arrumou a casinha como pode, os restos, jogou fora, tudo fora: móveis, roupas, coisas velhas de um casamento afundado.
 Iria recomeçar com um ovo de Páscoa, no aniversário de desquitada de três anos. “É hoje”, disse a si mesma calçando uma sapatilha, saiu na rua em noite alta. Crianças, chocolate, pais rindo, pessoas indo e vindo pelos aeroportos e os céus iluminados pelos aviões.
Ela se lembrou das viagens, dos sorrisos amorosos do ex-marido, a lua de Mel em Paris, tudo de baixo orçamento. Um sorriso tolo escapou, quando se lembrou de comprar um champanhe e brindar no chão abaixo da torre Eiffel, pois não tinham dinheiro para um restaurante nas proximidades da cidade do amor.
A lua alta e os aviões a guiaram até chegar em um hipermercado vinte e quatro horas. Maria entrou ali, o lugar estava lotado. Mas, depois de muito temer ser vista, aceitou a invisibilidade de recente “senhora aposentada”.
Andou pelas gôndolas, ousou dar uma olhada de solteira em rapazes que aparentavam ser solteiros e de sua faixa etária, caminhou pelo mar de chocolate em forma de ovos. Experimentou óculos escuros, separou um vestidinho para usar na nova residência, abriu um pacote de salgadinho e colocou na cesta para pagar depois.
Quando no meio da multidão, distraída, escolhendo o ovo que iria levar, ruminando o salgadinho, ela sentiu chutar algo, deu dois passos para trás, pronta para pedir desculpas, quando viu um ovo no chão, quebrado, bruto, sem respeito.
Pegou na mão, “veja só você, com semanas de vida, feito para fazer a felicidade de alguém, caído todo torto aí.” Riu da própria ironia, mas decidiu leva-lo.
Esperou sem ansiedade a longa fila do caixa, quando chegou sua vez:
_Boa noite. uma batata e um ovo de Páscoa, senhora? – perguntou mecanicamente a funcionária, sem levar os olhos. Quando virou o ovo em suas mãos.
_Senhora, esse ovo está quebrado e feio, quer que eu peça para a moça pegar outro? – Foi a primeira vez que Maria viu alguém estranhar chocolate, ora! Todos eles ficariam daquele jeito, não? De modo desafiador, Maria respondeu:
_Não tenho frescura e não quero desconto. É esse que eu vou levar mesmo.
A caixa a olhou sem entender. “Ela é doida?”, pensou consigo mesma, deu de ombros e indagou novamente:
_Senhora, é Páscoa. Não custa nada para pedir a uma mocinha que troque o ovo por um mais bonito.
Maria reavaliou o ovo. O chocolate lá dentro e as pessoas na fila a encarando. Um tremor lhe percorreu a espinha. A lembrança das últimas semanas de casada, o olhar de desdém do ex-marido no dia de assinar os papeis definitivos, a jovem mulher, no alto de sua jovialidade. Balançou negativamente para a moça do caixa.
_É esse mesmo que eu quero, por favor. – A funcionária não passou o ovo, advertindo-lhe que não era possível a troca do chocolate naquele estado, desaram-se feliz Páscoa. Maria pagou e saiu quase correndo do hipermercado.
Voltou ao apartamento apavorada com o Ovo de Páscoa nas mãos. Virou esquinas, apertou o passo. Aquilo em suas mãos era o símbolo de que poderia superar o casamento falido.
Mal chegando, encostou a porta da casa com o pé e sentou-se no chão, saboreando mentalmente os “crack crack” do lacre amassado. O laço sujo já estava desfeito, até que ela sentiu nas mãos o chocolate amassar mais, ficando subitamente pesado, diferente, amorfo, derretendo em suas mãos com gotas espessas escapando os lacres.
Não conseguia abrir o ovo!
Ela resolveu abrir à força. Rangeu os dentes, suou, uma unha sua chegou a sangrar, mas ela simplesmente estava fascinada, o que tinha dentro daquelas embalagens? Um chocolate derretido.
Praguejou a si mesma a ideia imbecil. “Como se comprar um ovo fosse lhe fazer superar trinta anos de casada”, estancou o sangue chupando o dedo, sentindo a embalagem se mexer. Pensou na hipótese de rato, mas continuou abrindo.
 Até que exausta retirou o último embrulho e viu a contemplação que jamais esqueceria.
Do chocolate se formava um bebê, sim, um bebê, o ovo se desenformava e formava, remodelava-se de amorfo para concreto, maleável, pequeno, a cor do chocolate forçava uma vida para fora de seus limites.
 Maria começou a chorar, estava ansiosa, inquieta, exausta, eufórica!
Enfim, um grito infante invadiu o apartamento.
Ela pegou o recém-nascido nos braços e com um gesto que até então desconhecia de um amor não familiar, mas genuíno, como nunca havia sentido na vida, suada, cansada, o vestido sujo, ela ninou o pequeno em seus braços.
Um amor tomou conta de seu peito estraçalhado pela inveja e seu coração se rejuvenesceu. No calor adocicado do momento, beijou a testa do menininho, que a olhou no fundo dos olhos, lhe tomando a alma para si. Aquelas mãozinhas, pezinhos, boquinha, aspirações de querer viver a inundaram.
Ali não havia ex-marido, amante, ciúmes ou inveja. Nada daquilo que viveu importava mais ao fazê-lo parar de chorar. A criança melecada de chocolate já havia lhe entupido as artérias de amor. Puro e inocente.
Divino.
_Ah, meu... meu... meu filho! – suas lágrimas juntaram-se ao chocolate meio amargo que ainda estava depositado no corpo do garotinho. Ele que saído do chocolate amassado e maltratado, se moldava nos braços da mãe.
Conto: "O homem do trem"
Escrito por Denise Cardozo, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Ressurreição
Trem da meia noite, tubarão, 01 de abril de 2018.
"de olhos vermelhos, de pelos branquinhos, de pulo bem leve, eu sou tão bonzinho. Sou muito safado, também sou guloso, por uma boa alma, já fico manhoso. Eu pulo pra frente, eu pulo pra trás, dou mil cambalhotas, sou forte demais. Levei sua alma, com casca e tudo, tão triste ele era, fiquei mais chifrudo!"
Piuíííííííííííííí!
- Acorda Mônica!
Nena berrou no pé do ouvido da amiga. Saliva ao sacanear a maquinista que tirava uma soneca em seu posto de trabalho. O problema é que ela berrou perto demais, perto o bastante para levar uma braçada involuntária de Mônica, que quase derrubou a cesta de ovinhos de páscoa que Nena tinha em mãos. Alguns deles, voaram pela cabine, mas nada que alguém fosse reparar.
Mônica que havia saído de um pequeno pesadelo com um coelhinho muito esquisito, quando acordou estava suando, pálida e com os olhos inchado. Parecia que havia chorado. Lá fora ainda tocava no sistema de som da estação a musiquinha irritante de páscoa que se misturou em seus pesadelos.
- Amiga brigada por me substituir hoje, minha família agradece. – Agradece Nena que sabia exatamente o esforço que sua colega estava fazendo.
- Não faço mais que a minha obrigação.
- Não Mônica, isso não é obrigação. É coisa de amiga! Você trabalhou a noite toda e agora vai aturar o passeio de pascoa só pra me substituir.
- Tá bom! De nada!
- Aqui estão os ovinhos pra caça. Se quiser já pode esconder agora, tá meio chuvoso então não vai derreter
- Tá bom Nena, tá bom. Manda um beijo pros pestinhas.
- Mando sim, te amo! Feliz páscoa!
Mônica não conseguiu responder, não era habituada a receber carinho, já morava sozinha há anos e nunca achou ruim. Trabalhava à noite, preferia esse horário não só por causa das festas que aconteciam no “Trem da meia-noite”, mas porque nesse horário era proibido crianças. Naquele domingo abriu uma exceção para Nena, que tinha 6 filhos.
A maquinista pegou sua cestinha de palha e entrou no primeiro vagão, que de tão vazio parecia estar isolado do mundo. Menos das musiquinhas de páscoa do sistema de som.
Apesar de não dar a mínima importância para a páscoa, Mônica não iria perder a oportunidade de se divertir vendo as crianças se estapearem por eles. Por isso, escondendo os ovinhos nos cantinhos mais ferrados do vagão. Banco por banco, nos porta malas, nos porta copos e até se agachou no chão com para esconder no chão. Foi lá, embaixo de uma das mesas de centro que Mônica encontrou um ovo. Dourado. “ué” pensou ela. Esticou-se toda para pegar o dito cujo, mais à frente encontrou outro, e outro...
“Que estranho, quem botou isso aqui? a Nena não foi...”
Mônica esqueceu dos próprios ovos e catou os dourados que foi encontrando, sem perceber que eles formavam uma trilha, que a levou até o último vagão. O vagão de festas.
Era nele que não oficialmente acontecia a parte mais hedônica das festas do “Trem da meia noite”. As melhores drogas, os melhores homens e as melhores mulheres, as melhores bebidas, as melhores comidas, as melhores bandas. No último vagão, decorado luxuosamente, não existiam regras e nem pudores, não existia vigilância e quem entreva lá sabia disso. Todos sabiam que no turno da maquinista Mônica, você assume os riscos e tem as melhores experiências pecaminosas da vida. Dessas que você não conta para ninguém. Wellcome to the Nigthtrain.
Foi lá que Mônica, que de tanto juntar ovos dourados, encontrou sentado no último banco um homem estranho. Com os pés na mesinha de centro vestia preto dos pés à cabeça, com um chapéu de mafioso e bota de fivelas prateadas, entre eles vestimenta de motociclista. Em seu colo o mais lindo coelho branco de olhos vermelhos, que ele levava e acariciava com as mãos vestidas de luvas de couro. Claro, não podemos esquecer o ray-ban quadrado modelo anos 80.
A maquinista ainda aturdida da ressaca da farra que acabara de sair, misturada com o cansaço de aturar as festividades da páscoa, demorou um pouco para ligar os pontos daquela cena e ainda dar conta de que vários outros coelhinhos branquinhos pulavam pelo vagão todo. Demorou para abrir seu bocão enorme e mostrar quem manda ali.
- Como tu entrou aqui?
- Bom dia em primeiro lugar. Como você está se sentindo hoje?
- Esse trem deveria estar vazio...
- Mas não está. Como você pode ver...
- Como tu entrou aqui?
- Isso não é relevante, porque eu entro onde quiser. Sente-se vamos conversar. Quer café?
- Não bebo nada que eu mesma não faça.
- Que desconfiada!
- Quem é você?
- O homem que já ressuscitou neste mesmo dia. E que agora está de volta.
Mônica respirou fundo e coçou os olhos que já ardiam há um tempo. Eles pesavam gostoso pedindo muitas e muitas horas de sono como era de costume. Mas não, ela tinha uma conversa para terminar e um trem cheio de crianças chatas para atender:
- Era só o que me faltava, tem mais maluco de dia do que na noite...que bosta.
Com o ânimo de um bicho preguiça de mau humor, seu desejo era largar tudo e ir embora. Principalmente depois que percebeu que ainda eram só seis horas da manhã e tinha um dia inteiro de trabalho pela frente. Mônica pensou em simplesmente fingir uma crise de coluna e ir embora de ambulância. Essa era sua melhor desculpa para uma fuga estratégica, já tinha escapado várias vezes de situações piores fingindo crises de coluna. Mas o homem parecia saber muito bem o que estava fazendo, pois percebeu o que ela estava planejando em fazer e agiu sem escrúpulos:
- Ovos de pascoa são legais, e a partir de hoje você está curada da coluna.
O homem estralou os dedos e ela sentiu um estalo no pescoço. Mônica se fez uma massagem no local e continuou:
- É o meu emprego... Não ligo pra eles.
- Quer que eu ajude a escondê-los?
- Não gosto que me ajudem.
- Por que não?
- Mas, que coelhada é essa?
- Deve fazer parte da festa sei lá, deixa eu lhe ajudar, não é trabalho nenhum.
- Todo favor tem sempre um preço.
Mônica fechou a cara e se armou de vez para o homem que chegava cada vez mais perto de seu rosto e isso lhe causava arrepios, mas não era só de medo, o jeito que aquele homem a olhava era um elogio, o jovem pegou alguns ovinhos da cesta e puxou conversa:
- Tá com medo de mim?
Ela disfarçou e se afastou com dois passos fugidos, tudo para poder se agachar e tirar um canivete do bolso e esconder na palma da mão.
- Não vai me responder?
- Olha filho, eu não costumo conversar com maluco...
O homem ainda com o coelhinho no colo, o acariciando pergunta as horas, ela responde:
- 6h da manhã.
- Pelo visto você não costuma conversar com ninguém!
- Me deixa trabalhar viu...
- Olha, eu sei como a solidão pode ser triste... quando eu morri foi o dia que me senti mais sozinho na vida.
- Agora e na hora de nossa morte... amém.
- Bem lembrado, sempre gostei dessa frase. Será que a morte de todos é assim?
- Acho que quando você morreu, seu pai tinha te abandonado.
- É, mas minha mãe estava lá...
Mônica fechou o canivete e enfiou no bolso da calça, e sentiu por um momento seus sentidos diminuírem, e voltarem na mesma velocidade. Como um tiro de sensatez toda a tontura, todo o cansaço, toda a ressaca sumiu instantaneamente e ela sentiu a lucidez adulta que há anos não tinha explodir em sua mente, talvez por isso ela deixou sua cesta de ovos cair...
- Quem é você seu filho da puta!
- Oooolha como fala da minha mãe!
- Isso é que dá ficar dando trela pra doido!
Monica puxou o canivete novamente só para mostrar que sabia se defender, e no mais adorava uma boa briga. Mas o malandro não estava ali para isso, provou isso quando puxou a mão daquela mulher com canivete e tudo. E mesmo depois de ela tentar se soltar sem sucesso, algo muito estranho aconteceu. Seu coração se apaziguou com o silêncio reconfortante que nunca havia experimentado, parecia heroína. As músicas de páscoa sumiram:
- Calma, somos todos iguais aqui, calma... Eu vim pra te dar luz.
- Luz?
- Sim, luz.
- Por que seu pai deixou?
- Deixou o que?
Já em prantos Mônica não conseguia mais se conter.
- Levar meu filho porra! Se você é quem diz que é, deve saber!
- Eu não sei...
- Meu filhinho, morreu ontem! Ahhhhhhhhh.
Aquele homem ainda meio malandro tentava disfarçar que não tinha o mínimo jeito de segurar uma mãe. Uma mãe que perdeu seu filho.
- Ele só tinha 23 anos...
- Eu estou aqui e sempre estive garota.
- Por que ele deixou? Esse merda de Deus!
- Será que é ele quem você está xingando?
- Como assim?
- Como, como assim? Quantas vezes ele te ligou desde os 13 anos e você não atendeu? Quantas vezes desde os 13 anos você pegou o telefone pra ligar pra ele e desistiu?
- Para com isso!
- Foram dez anos! E você? Virou as costas pra ele por que ele te chamou de vagabunda uma única vez?
- Para!
- Quantas vezes você abandonou o moleque com os parentes? Ou com os amigos? Ou sozinho!!
Mônica chorava com os dentes travados e com uma dor que ela nunca tinha sentido.
- Isso Mônica, não é nada! Essa dor não é nada!
Aquele homem misterioso abraçava aquela mulher sozinha como quem acolhe alguém sabendo que ela ainda nem começou a sofrer.
- Mônica, não temas. Mas você deve se preparar.
Ele respirou fundo e continuou:
- Agora você está achando que vai morrer, com essa dor desumana. Mas um dia, não muito distante você vai descobrir que não vai morrer, e vai ter que acabar seus dias aqui na Terra sem seu filho.
Mônica não conseguia imaginar coisa pior e ela só torcia para que aquele homem não a deixasse ali.
- Quem é você cara?
- Um amigo apenas... um amigo que tem mil disfarces.
Mônica foi embalada até adormecer no chão, pegou no sono depois que ele passou suas mãozonas por seus olhos e cantando ela apagou:
"de olhos vermelhos, de pelos branquinhos, de pulo bem leve, eu sou tão bonzinho. Sou muito assustado, porém sou guloso, por uma boa alma, já fico manhoso. Eu pulo pra frente, eu pulo pra trás, dou mil cambalhotas, sou forte demais. Levei uma alma, com casca e tudo, tão triste ele era, fiquei mais chifrudo!"
Piuíííííííííííííí!
A maquinista acordou 12 horas depois com o apito do trem estourando seus tímpanos e com uma voz familiar gritando em seu ouvido:
- Acorda mãe!
Faça isso hoje .
Conto: "Raposinha da Pascoa 
O que trazes pra mim? "
Escrito por J. C. Gray, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
 O ocidente era muito diferente em muitas coisas.
 Desde que tinha sido adotada por Tuomas, Fuyu aprendia coisas novas o tempo todo. Agora estavam em Nova York que era muito diferente de onde vinha no Japão.
 Fuyu havia sido adotada para a própria proteção, mas estava sempre em contato com sua família.
 Ela não era apenas albina, era uma menininha de 6 anos. Era uma menininha de 6 anos a pelo menos 10 anos. Nem se lembrava mais quando a maldição havia caído, mas nem todos na sua família tinham tempo, e paciência para cuidar da menina. Tuomas foi quase uma dádiva para a família dela. E agora lá estava ela, morando com ele e seu namorado Erick.
 Andando na Times Square de mãos dadas com ele, olhava as lojas com uma missão: Queria achar um presente de aniversário para um de seus irmãos.
 Fuyu tinha três irmãos: Aki, Haru e Natsu. Os nomes dos quatro eram relativos às estações do ano. Podia não parecer, mas eles eram importantes. Bem, pelo menos eram antes da maldição. Ela iria para o dojo da família para os rituais de equinócio de primavera que também era o aniversário de Haru. Que tinha que ser o irmão mais difícil de agradar.
 - Já tem alguma coisa em mente Fuyu? – ele perguntou andando segurando a mão dela, que parecia um bichinho de luz hipnotizada pelas vitrines, e balançou a cabeça negativamente.
 - Ainda não... – falou meio emburrada – O Haru é um chato, não gosta de nada! – foi quando o olhar dela foi atraído para dentro de um supermercado – O que é aquilo?
 - Aquilo? – Tuomas olhou na direção que ela apontou, e sorriu de leve – Ah, são ovos de pascoa!
 - Ovos de pascoa? – ela ficou olhando sem entender – Como um ovo pode ser daquele tamanho? Qual o tamanho da galinha que botou? – ele não conseguiu não rir.
- Não são de galinha! São de chocolate, você quer um? – ele perguntou entrando com ela no mercado.
 Passaram por um arco lotado de ovos de pascoa na entrada, ele a pegou no colo a levantando, para olhar mais de perto. Cada um daqueles ovos de chocolate tinha algum tipo de brinde, e por um momento ela quis levar todos. Quando estavam na fila do caixa, ela estava olhando o embrulho, e sacodindo o ovo para ver o que tinha dentro.
 - Porque são ovos ‘de pascoa’? – ela perguntou inocente.
 - Vocês não comemoram a Pascoa no Japão, não é? – ela meneou a cabeça negativamente – Bem, existem várias comemorações diferentes para a pascoa. A mais comum no ocidente é cristã, onde eles comemoram a ressurreição de Jesus. As famílias se reúnem e comemoram juntos. E tem o coelhinho da páscoa, que deixa ovos de páscoa escondidos para as crianças acharem.
              A minha família, celebra Ostara, que é a Deusa da Fertilidade celta. Nós decoramos ovos com cores da primavera e oferecemos a Deusa. Nas caças aos ovos daqui, usam cascas de ovos pintadas como fazemos, mas recheiam com pequenos chocolates.
 - Isso parece tão legal!!! A gente pode caçar ovos de pascoa? – Ela o olhava toda animada.
 - Bem, acho que na pascoa você vai estar com a sua família, mas quem sabe? – ele piscou para ela um dos olhos bem azuis.
 Voltaram para casa naquela noite sem o presente, mas ela gostou tanto do ovo de pascoa, que dormiu abraçada a ele.
***
 Quando acordou, o ovo não estava lá. Podia jurar que tinha dormido com o ovo ali! Como ele podia ter sumido? Levantou num pulo, e encontrou uma pista do culpado! Uma pegada de coelho! E um bilhete que dizia: “Boa caça. Ass. Coelhinho da Pascoa”
 - Esse coelho safado roubou meu ovo! – reclamou em sua legitima revolta infantil.
 Seguiu pegada por pegada: até o canteiro da varanda, onde achou um ovo decorado e mais pegadas. Atrás da mesinha de canto, mais um ovo. Atrás da cortina, e na gaveta da cômoda, até por último, encontrar o seu ovo de páscoa escondido atrás da porta do seu quarto: Esse coelho safado ainda fez ela rodar a casa inteira!! Mas foi quando colocou todos os ovinhos e o ovo grande na cama que se deu conta: Ela caçou ovos de pascoa!
 Finalmente ela desembrulhou o ovo de chocolate, e quando separou as duas metades, encontrou o brinde: um coelhinho de pelúcia. O tal coelho safado da pascoa.
 Quando tirou ele do plástico ficou o olhando: era pequeno, de olhos vermelhos e pelo branquinho. Ela se olhou no espelho, olhos rosados pelo albinismo e toda branquinha. Aquele coelho parecia ela! Foi então que ela teve a grande ideia.
 Correu até o quarto de Tuomas e Erick como um furacão, e pulou na cama no meio deles, que acordaram no susto, mas ainda cheios de sono e com enormes olheiras por terem passado grande parte da noite deixando ovos e pegadas no apartamento:
 - Eu já sei o que vou dar de presente pro Haru!!! Vou fazer uma pascoa no dojo!!! – ela falou alto e saiu correndo do quarto da mesma forma que entrou.
 - Ela parece animada... – falou Tuomas tirando uma mecha de cabelo escuro do rosto.
 - É – Erick bocejou e esfregou os olhos, e passando a mão nos cabelos – Quem vai limpar todas aquelas pegadas de farinha?
 - Par ou ímpar?
***
 O dojo estava exatamente do jeito que ela lembrava: tradicional, disciplinado, organizado. Mas os planos da raposinha iam a fazer a maior bagunça.
 Ieran era a matriarca da família. Era uma mulher ainda jovem, por volta de seus 40 e tantos anos, esposa de Aki, um dos seus irmãos. Estava na área externa, treinando Ayame, sua filha, Kabuki, seu primo, e mais alguns jovens kitsunes.
 Fuyu em sua forma de raposa, se esgueirava, com suas técnicas ninjas. Carregava pacotinhos com a boca. Se escondia em arbustos, troncos e partes da casa. Afinal sua técnica era infalível! Ninguém a veria! Esquecendo que sua pelagem branca a fazia aparecer onde se escondesse.
 - O que ela está fazendo? – Perguntou Ayame baixinho.
 - Não tenho a menor ideia... – respondeu Kabuki pouco antes de terem a atenção chamada por Ieran.
 Mas continuava sua missão, entrava e saia, cavava buracos, escondia no meio dos arbustos, acreditando que não era vista.
Mas foi vista por todo mundo: Aki, concentrado no dojo de lutas, Haru mal-humorado na biblioteca, Natsu na cozinha tentando fazer algo que pelo menos parecesse comestível. E ninguém entendia o que tanto ela fazia entrando, saindo e se escondendo.
 A parte final ela só conseguiu fazer depois que todos já haviam ido dormir, e essa era a parte mais importante do plano.
***
 Era manhã do equinócio, e tudo parecia estar na mais perfeita ordem. E cada um tinha suas responsabilidades para as festividades de Shunbun no Hi.
 Ieran estava limpando e preparando o altar da família quando percebeu um bilhete, mas antes que pudesse o ler, ouviu passos correndo até a porta do salão.
 - Ieran-sama, não consigo encontrar as máscaras ritualísticas!
 - Ieran-sama, não encontramos as lanternas para de noite!
 E mais pessoas chegavam. A kitsune mal conseguia mais ouvir o próprio nome com tantas reclamações. Tudo que precisavam tinha desaparecido. Foi quando ela finalmente parou para ler o bilhete, que Kabuki chegou correndo passando no meio de todas as outras pessoas reclamando.
 - Ieran-sama, não consigo encontrar a.... – mas ele nem terminou de falar.
 - FUYU!!!!!!!!!!!!! – a matriarca gritou desvendando o mistério.
***
“Estou com as coisas que sumiram, mas vão ter que seguir as pistas pra achar elas!
Boa sorte!”
 - O que ela quis dizer com pistas? – Natsu perguntou depois de ler o bilhete.
 - Será que era isso que ela estava fazendo ontem? Achei que era só uma brincadeira! – comentou Aki.
 - Que maravilha! –Haru revirou os olhos.
 - Eu tô achando a ideia ótima! – disse Kabuki que levou uma olhada feia de todos os mais velhos e deu de ombros – Ou, podemos esperar ela cansar...
 A ideia de esperar ela cansar ou ficar com fome e aparecer pareceu ótima para Ieran, mas precisavam iniciar os rituais, e entrar na brincadeira era o modo mais rápido de terminar com aquilo.
 - Vamos nos separar e procurar essas pistas.
***
 Encontrar as pistas não foi um trabalho rápido, mas a cada pista, encontravam junto um ovinho cheio de chocolates, pintado a mão com desenhos infantis, mas que lembravam momentos que passaram em família.
 Kabuki a levando para passear. Natsu queimando a comida era fácil de identificar! Aki com Ieran na cerejeira do jardim. Haru lendo para ela dormir.
 Os desenhos nos ovinhos, trouxe a todos um momento em família como não tinham há muito tempo, e mesmo sem Fuyu estar ali, ela estava presente em toda a brincadeira gostosa que ela tinha feito.
 Era final da tarde quando encontraram a última pista:
“As vezes, é preciso voltar a ser criança, mesmo sendo adultos”
 - O que isso quer dizer? – perguntou Ieran olhando o papel que não tinha nenhuma pista. Foi Haru que entendeu, pegando o papel, e sorrindo.
 - Eu sei onde ela está – ele falou e olhou os outros irmãos – Onde tudo começou e evitamos ir.
 Haru nunca imaginou que um aniversário dele pudesse ser tão divertido. Não via razoes para comemorar nada desde que a maldição o deixou completamente sem poderes. Mas o pequeno templo que evitavam visitar, ainda estava lá nos fundos do terreno.
Quando abriu a porta de correr do pequeno templo encontrou todas as coisas que tinham sumido, e Fuyu, em forma de raposa, enroladinha dormindo debaixo de um quadro dos quatro irmãos. Como eram antes da maldição. As vezes até esqueciam que Fuyu era na verdade a irmã mais velha.
Quando Haru a pegou no colo e a abraçou ela voltou para a forma humana bocejando, e sorriu abraçando o irmão.
- Parabéns Haru!
- Obrigado Fuyu! – ele sorriu saindo com ela no colo.
- Ieran vai brigar comigo não vai?
- Ela ia! Mas você conseguiu nos fazer ter um dia em família como não tínhamos há muito tempo. Obrigado! – Ela sorriu, ainda abraçando forte o irmão enquanto a carregava.
- Isso significa que a Natsu não fez o bolo ruim de aniversário?
E se ela já estava feliz por ter arrancado um sorriso do irmão mal humorado, explodiu de felicidade quando o ouviu rir do seu comentário. Fuyu deitou a cabeça no ombro do irmão, e viu um coelho branco e de olhos vermelhos pular para um canteiro de arbustos do dojo.
- Obrigada coelhinho da pascoa!
Conto: "A LÂMPADA"
Escrito por Letícia Cavalcante, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Depois das crianças ganharem ovos de manhã e a família ir para um clube de banho para almoçar e curtir o feriado, comendo peixe como mandava a tradição cristã. Marian e Vítor decidiram sair para curtir um pouco a paz do dia de Páscoa com alguns amigos.
Marian encarou seu reflexo no espelho, tentando entender a si mesma, olhando as rugas que despontavam no canto dos olhos e que ela se esforçava em apagar com cremes e tratamentos caros. Olhou o vinco entre as sobrancelhas, que lhe mostravam quanto tempo passava com a expressão fechada. Encarou seus olhos, mas desses desviou o olhar.
Agitou o pequeno frasco, escutando a bolinha lá dentro. Tirou o pincel de ponta fina e, com extrema delicadeza e concentração, ela abriu a boca em O, firmou os pés no chão e começou a passar o delineador, sua precisão era cirúrgica, um traço fino e longo, quase reto. Fim do olho direito, sorrindo para seu trabalho. Iniciou o segundo olho; a luz do quarto piscou, fazendo-a olhar para cima por impulso.
Quando percebeu o que tinha feito, já era tarde. Olhou no espelho o resultado, um risco preto enorme em sua pálpebra e, para completar, o outro lado, que não estava totalmente seco, também havia manchado. Suspirou fundo, pegou seu demaquilante e começou a limpar a bagunça com calma. A lâmpada piscou mais uma vez e apagou de vez; Marian fechou os olhos, respirou fundo e jogou a cabeça para trás.
— Vítor! — gritou.
— Que é? Tô vendo jogo — a voz vinha preguiçosa.
— Vítor, vem logo aqui, que queimou outra lâmpada e não dá pra me arrumar no escuro — o tom de ameaça foi claro.
— Pera aí, deixa fazer comercial que eu vô — a calma que escutava fez Marian se estressar. Enfiou o rosto nas mãos e bufou.
Páscoa é renovação, havia dito o padre na missa daquela manhã. Como poderia, sozinha, renovar um casamento? Bufou.
— Ótimo, desisto de sair, porque se for esperar cê levantar daí... ah, querido... — Fechou o estojo de maquiagem com mais força que o necessário e o colocou no lugar, resolvendo acrescentar mais um comentário: — não vou sair de madrugada, não, que eu tenho muito o que fazer.
Ah, claro que tem, Vítor pensou com ironia enquanto se levantava, jogando o controle da TV no sofá antes de ir até o quarto. Viu o contorno de sua esposa pela pouca luz que vinha da janela. Encostou-se no batente e cruzou os braços.
— Deixa de frescura, é só se arrumar no banheiro da cozinha, amanhã eu troco isso. — Respirou fundo, esperando que sua vista se acostumasse ao breu.
— Ah, vai trocar, é? Como trocou a do quarto das meninas? Como trocou a do quintal? Como consertou a pia do banheiro? Me poupe. Se eu quiser que algo se conserte aqui, tenho que fazer eu mesma... — Vítor abriu a boca para responder, entretanto ela continuou. — Eu te falei pra não comprar lâmpada naquele mercado, mas me escutou? É claro que não, e olha aí o resultado, essa porra deu defeito depois de menos de uma semana de uso e metade da casa já tá no escuro.
— Eu não tenho culpa se queimaram. Ou cê acha que eu escolhi sabendo que ia queimar, por acaso? — o tom baixo não mudava em nada a raiva.
— O problema não é queimar, Vítor! É que você não resolve nada até que esteja tudo se acabando — Marian explicou, pausando as palavras. — Mas o que esperar de um cara que a mãe ainda corta as unhinhas dele, né?
— Ah, tava demorando... — Ele revirou os olhos e entrou mais no quarto, vendo a silhueta dela andar de um lado para o outro, enquanto arrumava as coisas e se despia. — Ela faz isso porque você não faz.
— E eu tenho que fazer isso?
— Deveria, e das crianças também — Vítor falou baixo, apontando em direção aos quartos dos filhos.
— Eu queria um marido e ganhei mais um filho, que beleza... — A mulher parou no meio do quarto, pondo as mãos na cintura e ficando em posição defensiva. — Um marmanjo de quarenta anos querendo que eu seja mãe dele... Aqui não, amor.
— Você nem trabalha, Marian. O mínimo que pode fazer é cuidar de mim, da casa e das crianças, já que eu te dou essa vida de dondoca. — Marian foi rápida, socando o peito de Vítor antes que ele pudesse perceber o que estava acontecendo. — Para de me bater! — gritou e ela só parou por medo de que ele devolvesse a agressão.
— Eu não trabalho, ô seu babaca? Então troca por uma semana de lugar comigo, faz tudo que eu faço antes de dizer que eu não faço nada — ela gritou, com ódio, as mãos fechadas em punhos e a respiração ofegante. — O mínimo que você tem que fazer é dar dinheiro pra gente.
— Ah, agora eu tenho obrigação?
— Não tem? Que eu me lembre, quem me impediu de trabalhar foi você! Quem me impediu de fazer faculdade foi você! Foi você quem me tirou da casa dos meus pais, me engravidou e me deixou em casa todas as noites, enquanto ia pegar puta. — Ela não conseguiu controlar as palavras, que jorravam de sua boca com força, com raiva, uma barragem que explodia, inundando tudo que havia pela frente.
— Eu não te obriguei a transar...
— Seu filho da puta! E ainda tem a cara de pau de dizer que me ama.
— Eu pedi desculpa, não pedi? Eu melhorei, mas tu não consegue esquecer. Eu tô tentando, Marian, juro que tô tentando, mas cê não colabora.
— É, melhorou, no dia que eu pedi o divórcio e te botei pra fora. E, ainda assim, foi só um pouco pra tudo... — A mulher se virou e foi até a janela. — Eu era uma menina alegre, feliz, simpática com todo mundo, inocente, eu podia não ter dinheiro, mas tinha meu orgulho, Vítor. Olha pra mim agora... e-eu... — Ela parou, sua garganta estava fechada, a voz embargada. As lembranças passavam em sua mente como um filme em alta velocidade; tantas humilhações, tantas palavras que teve que engolir, todas as vezes que um ato de boa vontade sua era descartado como se fosse nada...
— Eu também era um menino! — Vítor soltou a respiração, a voz mais baixa, tentando restabelecer o controle. — Eu também era um menino... Eu só queria que cê esquecesse o que aconteceu, que a gente começasse do zero.
— Você não pode querer que eu esqueça os quinze anos que vivi sendo humilhada por ti e pela tua família. — O corpo dela se retesou. Mesmo depois que eles aceitaram que ela ia mesmo fazer parte da família, vez ou outra, havia comentários sobre a má educação que ela dava às crianças.
— A minha família? Sempre tavam lá, dando tudo que a gente precisava. — Vítor se sentiu ofendido pelos pais, que sempre estavam dispostos a ajudar, ainda que com críticas.
— Não, a minha! De quem mais? Toda vez que tua mãe vinha aqui em casa me trazer algo, fazia questão de dizer que tu não tinha nada e me contavam depois que ela dizia por aí que eu tava interessada no teu dinheiro e que mulher de verdade pra ti era a Patrícia. E isso porque tu nunca me defendeu, mas defender pra que, né? Se tu mesmo acha isso de mim.
— O que é que tu quer que faça? — Vítor não aguentava mais aquela conversa, era a mesma de sempre, como um loop de ofensas sendo jogadas de um lado para o outro.
— Quer que eu repita quantas vezes? — Marian tremia mais a cada palavra gritada. — Dar atenção pros teus filhos, conversar com eles, me ajudar a criar, botar eles pra fazer as coisas aqui em casa, sair com eles, me respeitar e pensar na gente primeiro.
— Eu tô tentando fazer isso, eu penso em vocês o tempo todo, caralho! — Vítor trancava o maxilar com força, tentando não gritar. — Por que tu acha que tô trabalhando de domingo a domingo?
Marian continuou como se Vítor nem tivesse falado:
— Aquele dinheiro que você pegou podia ter ajudado tanto agora, mas não, deu pro teu pai comprar o carro do ano, porque o coitado precisa trocar de carro todo ano, né?
— Meu pai trabalhou a vida toda, ele merece poder ter as coisas que quer agora.
— Merece, merece mesmo. Teu pai trabalhou de sol a sol, construiu o nome dele, mas ele não precisava desse dinheiro, Vítor! Todo mês ele ganha o dinheiro que tu deu, teu pai ainda trabalha, tá ficando cada vez maior a empresa dele, mas olha aqui pra casa, Vítor! Metade da casa sem luz, água vazando no banheiro, a despensa vazia porque faz quase um ano que não fazemos o mercado direito, as crianças usando roupa menor que elas porque agora tu não tem dinheiro nem pra isso.
— Se tu fosse pra empresa me ajudar, tudo seria mais fácil, a Roberta também, já tá com quatorze anos, já dá pra ir, mas ninguém aqui quer me ajudar. A Débora foi por uns dois meses e só não cobro dela porque tá na faculdade, mas e tu? Quer dinheiro? Vai ajudar lá, porra, tâmo precisando! — a voz dele se alterava cada vez mais. — Minha mãe trabalhava, cuidava dos filhos e nem a comida ela deixava faltar, todo dia tinha, agora aqui eu chego meio-dia e só tem ovo e arroz. Não é falta de carne, que isso eu compro toda semana.
— Eu não sou a tua mãe! — Ela se aproximou novamente dele, os punhos levantados, porém desistiu no último segundo, enfiando apenas o dedo indicador no peito largo ao continuar. — Minha mãe fazia plantão atrás de plantão e a gente se virava lá em casa, fome a gente nunca passou, mas tinha dia que a gente só tinha café pra tomar de manhã, antes de ir pra escola. Meu pai também trabalhava e nunca deixou de cuidar da gente por isso, nem de ser um bom pai.
— Pois é, por que não se inspira na tua mãe? — Tirou a mão dela de seu peito e se afastou, respirando fundo.
— Esse não é o assunto! Você fica aí tentando provar pros teus pais que é um bom filho, mas tu é... subsente... submissente... ah, não sei, algo assim que a Débora falou, fica tentando agradar teus pais, faz tudo que eles pedem e eles só reconhecem o que teu irmão faz, mesmo ele só indo trabalhar quando quer, mesmo tu dando tudo que tem. — Marian sentia raiva por ela, pelos filhos e pelo marido, nesse momento. — A prioridade da tua vida é eles, a gente pode morrer de fome aqui, mas eles, não, então por que tu não vai morar logo lá? Leva tuas coisas e deixa a gente se virando aqui, é melhor do que eu ficar sempre esperando que tu mude e pense na gente.
— Ah, pelo amor de Deus, Marian, eles são meus pais...
— E aqui tão teus filhos, não falo de mim que eu sei que tu nem se importa, mas pensa nos teus filhos, porque quando a gente vai lá, eles ainda ficam falando que as crianças tão molambenta, porque é verdade. Enquanto tá todo mundo lá indo comprar nas lojas mais caras, eu tenho que fazer das tripas coração pra conseguir comprar umas roupas pra gente aqui com o dinheiro que tu me dá.
O silêncio que pairou foi opressivo, tóxico, tão pesado que até respirar era penoso. Vítor tremia de raiva e Marian ainda estava na defensiva. Ele suspirou, se controlando.
— Quer saber? Não vou discutir isso de novo contigo, eu tô cansado e só quero me divertir um pouco. Não quer ir? Não vai, então, eu vou sozinho. — Vítor só queria uma noite de paz, uma noite... Virou-se para sair, mas a risada de Marian o impediu.
— Sozinho? Faça-me o favor, tu nunca sai sozinho.
— Eu não quero mais escutar...
— Mas vai, porque a humilhada sou eu. A que veio de família pobre, a interesseira, a que não estudou, a que não cuida dos filhos nem do marido, a vagabunda, né? Não sei o que tu pensa de mim, que eu sou muito otária...
— Marian...
— Não, mas tá certo, eu sou muito otária mesmo, uma idiota. E sabe por quê? — Marian queria parar, mas não conseguia, as lágrimas começavam a arder em seus olhos, querendo sair. — Porque eu deixei tu fazer isso no passado comigo e tá fazendo agora de novo, porque eu sou burra, burra. Estúpida. Mas não vou deixar mais, não vou! Tu não me conhece, Vítor, passou anos comigo, mas não sabe quem eu sou e eu vou te mostrar.
Minutos inteiros se passaram. Marian não chorou. Tinha chorado muito pelos anos que passaram, agora não tinha mais vontade; Vítor acalmou a raiva, não gostava de brigar e não sabia como controlar seu ciúme, nem agir como ela queria.
A lâmpada piscou e ligou de novo. Ambos a encararam, sem olharem um para o outro. Sem enxergarem a si mesmos. Era mais difícil com a luz. Vítor virou a cara e saiu; Marian abriu os punhos e respirou fundo.
Na porta estavam as crianças lhe observando. O mais novo, desacostumado, soluçava. A do meio tinha os olhos embargados. A mais velha encarou Marian, inexpressiva, balançou a cabeça em negativa, deu a volta e saiu.
Conto: "A multiplicação dos pães partidos"
Escrito por Aldenor Pimentel, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Depois de um dia intenso de trabalho, Emanuel e seus amigos atravessaram a ponte de bicicleta, distanciando-se da cidade, em busca de um lugar deserto para descansar. Chegando lá, no ponto mais alto, de onde era possível ver todo o povoado, perceberam que não estavam sós. Emanuel viu nos olhos da multidão o cansaço por levar a vida que levavam e teve compaixão daquele povo.

Alguns amigos de Emanuel lhe disseram que deveriam rezar para que aquelas pessoas mudassem de vida. Elas, que trabalhavam duro, de sol a sol, para receber um dinheiro pingado, que mal dava para sustentar tantas bocas em casa, que, de segunda a segunda, andavam de lá para cá, pela cidade, dentro de ônibus lotados, e que, depois disso tudo, só queriam saber de assistir à novela e dormir, para, como sempre, acordar bem cedo no outro dia.

Um amigo sugeriu que arrecadassem comida para doar àquela gente faminta, mas Emanuel fez diferente, porque sabia que isso não mataria a fome do povo. Emanuel perguntou a eles o que tinham e recebeu como resposta: “muita fome, pouco pão e muitos braços.” Sem contar inutilidades como promessas não cumpridas, um lado de uma sandália, chaveiros, camisas de candidatos e botons.

Emanuel, então, orientou o povo a se reunir em grupos, alguns menores, outros maiores, e que, nesses grupos, tudo fosse partilhado. E assim fizeram. Eles tinham tudo em comum: comida, bebida, suas dores e angústias, e sonhos, muitos sonhos de uma vida melhor.

Foi então que perceberam que juntos poderiam acabar com aquilo que lhes causava fome. Decidiram não confiar em quem só lhes dava cesta básica a cada quatro anos. O tempo passou e a vida deles mudou da água para o vinho. Milagre? Não, não foi milagre. Eles apenas resolveram colocar a mão na massa, em vez de esperar que o pão nosso de cada dia caísse do céu. Não só fizeram questão de decidir os nomes de quem estaria à frente do lugar, como passaram a participar ativa e cotidianamente das decisões sobre o que era melhor para o pedaço de chão em que pisavam.

No lugar de expressões de cansaço, apareceram sorrisos e esperança. E no lugar da fome, trabalho digno, crianças na escola, filhos na universidade. Mas nada aconteceu de um dia para o outro. E é por isso que até hoje eles seguem as palavras de Emanuel.
Conto: "A Passagem"
Escrito por Marilise Terra, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Você sabe o que a Páscoa representa?
Este é um breve conto de Páscoa, sem jantares em família, coelhos mágicos ou ovos de chocolate. Trata-se apenas de uma pequena lembrança preservada por um menino que cresceu e passou adiante. E tudo aconteceu durante uma breve passagem, em um pequeno território desfigurado pelos conflitos de guerra. Em meio a tanta tristeza e caos, um menino ainda corria o quanto podia para alcançar o caminhão do exército que havia levado o seu único irmão mais velho. Ele se distanciou muito de sua velha casa, onde ninguém o esperava. Tudo o que ele tinha estava partindo, estava a veras adiante. O caminho que percorria, ele já não reconhecia, pois naquele lugar tudo se destruía da noite para o dia. O quão distante do ontem já estava, e quanto mais ainda faltava para chegar aonde precisava? Cada passo seguinte fazia com que o solo parecesse cada vez mais duro. Não havia bons odores no ar para lhe fazer lembrar a fome nem uma pista à vista para lhe reforçar o que era mais importante. O caminhão que levara o seu irmão. Para onde fora o caminhão? Ele já não sabia. Nada mais atrás ou à frente. Nada. O menino estava sozinho no nada, chutando os cascalhos na beira de um lago negro com raiva, até que acabou arremessando algo diferente. Não era duro e seco como todo o percurso por onde pisara, mas ao oposto, era mole e molhado. 
– Arg!... Porque tudo é tão horrível? 
 – Acha mesmo que sou tão horrível para me chutar de forma tão prescindível?... 
A voz peculiar foi à primeira coisa que havia feito o menino finalmente parar. 
 – Quem disse isso? 
 – Quando o nível da água baixou... Presa na margem ela me deixou... 
 – Você é...? O que exatamente eu acabei de chutar...?
O menino rodou em seu próprio eixo, mas só conseguia enxergar a escuridão do lugar.  
 – Eu encaro como um salvamento, e lhe agradeço a contento. 
 – Ora, que seja! Encare como quiser... Só estava de passagem, mas agora com quem estou falando afinal? – o menino respondeu irritado sem saber ao certo de onde vinha aquela voz que insistia em continuar falando com ele. 
 – Devo dizer muito prazer!... Mas agora eu quero mesmo é saber... O que me torna assim tão horrível para você? 
Uma planta musgosa de formato circular deslizava para lá e para cá a fim de que o menino pudesse lhe enxergar, boiando perto da margem onde o menino havia parado. E ao perceber o movimento ele enfim se aproximou para identificar de onde vinha afinal, aquela voz diferente que se pronunciava tão estranhamente. 
 – Eu estou falando com uma planta?... – ele resmungou se curvando em direção a ela, com as mãos calejadas apoiadas nos joelhos sujos – Ah, fala sério... Como eu ia imaginar que uma planta carrega sentimentos? 
¬ – Certamente isso não é algo que se intui... Mas uma planta eu nem sempre fui.
 – E quem se importa?! Não creio que sua história seja pior do que a minha... Mas... Por outro lado, pelo menos eu não virei uma planta feia e faladeira! 
 – Um menino revoltado, que acha ainda pior o meu estado... Pergunto-me qual mudança seria do seu agrado... 
 – E eu lhe pergunto se mudanças fazem mesmo alguma diferença nesse mundo horrível...
 – A descrença do menino talvez seja o que lhe afeta em predomínio.  
 – E que diferença faz o mal que predomina? Não existe nada de bom nessa maldita vida... – ele finalmente cedeu ao cansaço e sentou-se no chão de cascalhos. 
A peculiar plantinha que falava em rimas não se pronunciou naquele momento, igualmente ao menino, que por sua vez, mantinha seu olhar perdido. Era uma noite estrelada de clima abafado, sem qualquer sinal de outra vida humana ou mesmo animal naquele pedaço de chão coalhado de cascalhos. Mas o pequeno lago ou mera poça larga, mesmo com a superfície escura e quase inteiramente encoberta pelas musgosas plantas aquáticas, era o único espelho que se tinha do esplendoroso brilho que a lua cheia exibia. O que ajudou o menino a ver o que ele nunca notou antes, pois não perdia tempo a olhar para o céu, a menos que os aviões de bombardeio o obrigassem a ver para qual lado ele deveria correr. Assim, ao reparar no clarão refletido pelo lago, ele estranhou o tamanho farol que vinha do céu sem os terríveis sons das turbinas dos aviões. 
 – Waw... Olha só o tamanho dessa lua... E essa imensidão de estrelas... Eu não sabia que as luzes do céu podiam ser tão bonitas... 
 – Eu também era uma estrela bonita, antes de renascer nesta nova vida... – ela respondeu calmamente após ouvi-lo se deslumbrar pela primeira vez com o céu – Estando lá em cima nós não éramos tão parecidas, mesmo que tão unidas... Brilhávamos mais em meio ao escuro e até realizávamos os desejos mais puros. Mas também brincávamos de ser algoz, com quem zombasse ao apontar o dedo para uma de nós... 
O menino riu, ouvindo a planta, sem deixar de mirar aquele imenso céu iluminado. 
Mas apesar da graça de relembrar as travessuras de ser estrela, ela então revelou o seu maior defeito. Que antes não era sequer notado por ela mesma, mas desde a sua mudança, pôde enfim reconhecer que sua curiosidade era exagerada e sempre achou muito mais interessante olhar para a vida alheia. Lá de cima, não reparava no próprio lar ou na própria vida, mas na vista de onde queria estar. Sempre acreditando que a grama do vizinho era mais verde até que finalmente havia se dado conta de que viver era o mais importante. As coisas mais distantes sempre podem parecer melhores, quando não se aproveita o que tem ao seu próprio redor. 
 – E o que aconteceu?... – ele perguntou interessado. 
 O domingo de Páscoa seria ao amanhecer daquela noite da primeira lua cheia do equinócio de outono. E a estrela bisbilhoteira acreditou que os muitos clarões que via lá embaixo, tão brilhantes e sonoros eram uma maravilhosa comemoração de vida nova e quis fazer parte. Debruçando-se sobre as nuvens mais baixas, cada vez mais perto. Até que, enfim, despencou do céu. Mergulhando então na mudança de vida que tanto queria, passando a boiar naquele espelho do céu como uma planta chamada Vitória-régia. 
  – Ora, que irônico... Uma estrela se encantando com meros clarões da Terra... – o menino riu com certa tristeza após ouvir a história da planta que antes era estrela. – Comemoração de Páscoa, você disse? Isso sequer existe mais! O que você viu foram explosões de guerra, sua burra... Não é coisa para se encantar... 
– Disso você sabe bem... Mas algo para se encantar você sequer tem. 
Então, pela primeira vez o menino ponderou. Ele sempre lamentou, e jamais olhou para além do sofrimento. Sua tristeza só piorava porque nas alegrias ele jamais se apegava. Em quê se encantar? Ele finalmente se perguntou, mas nenhuma resposta encontrou.
 Voltou a olhar para a lua em meio ao céu estrelado. O cheiro da brisa. Óh! Havia uma brisa no clima abafado, e era uma brisa fresca e suave... Mas porque ele não havia notado? O coração não estava disparado... Era isso que era estar calmo?
 – Então... Toda essa luz lá do alto... E essa sensação de paz que traz... É a premissa da Páscoa?
 – A Páscoa é a grande promessa da mudança... Sempre marcando o renascer da esperança. 
De olhos fechados, o menino respirou fundo. A calma que ele sentia ainda estava ali e era boa demais para se perder. A brisa no rosto, a água nos pés, e a luz no escuro. Tudo estava ali enquanto ele se dispusesse a sentir. E ao voltar a abrir os olhos, o escuro já quase não mais existia, o céu clareou e as estrelas sumiram, embora a lua continuasse visível. 
 – Waaw! – o menino suspirou profundamente, admirando-se mais uma vez, ao deslumbrar todas aquelas lindas flores brancas com formato de estrelas cintilando ao brilho do sol na superfície espelhada. 
– Mas... Planta?... Planta, cadê você? 
 – Estou aqui, como sempre... Misturada às minhas irmãs cadentes. – disse uma das flores que repousava sobre a mesma bandeja verde musgosa de formato circular. 
 – Que lindo presente vocês me deram... – o menino secou os olhos umedecidos de gratidão – Saíram todas do céu, para continuarem brilhando na água durante o dia!... No céu ou na água, vocês são o de mais belo que já vi nessa vida. 
 – O menino me salva e agora nos elogia... Já são duas bondades com as quais soma a minha alegria. – disse a flor com igual gratidão – O que posso fazer para que a sua alegria se iguale a minha? 
 – Fique bem longe da margem! Todas vocês! Para que não corram risco de morrer... Pois se tornaram um encanto admirável que eu desejo jamais perder... E por isso irei sempre voltar para lhes agradecer. 
 – Está marcado então! Pois sua volta, será para nós, sempre uma comemoração! 
O menino se despediu com uma reverência às flores que boiavam no lago e seguiu adiante. Profundamente agradecido com a paz que recebera, sem se importar em não conhecer os novos caminhos que traçaria, uma vez que agora já sabia para onde voltaria. Pois voltar nem sempre significa retroceder, mas sim nascer de novo, com a certeza de que a sua raiz não germinará em um corpo castigado, e sim renovado, para suportar as novas turbulências da vida. 

Feliz Páscoa.  
Conto: "A FLORESTA"
Escrito por Udine Tausz, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Não era dia de bobagens. Sexta-feira Santa, dia da Paixão.
Não olhe para os lados, não fale com estranhos. Não é dia de se descuidar...
Mas Alice queria olhar para os lados e ver por que as sombras na beira da estrada pareciam cochichar. Sentiu um puxão no braço e apertou o passo para acompanhar a mãe.
Apressadas, Alice e a mãe seguiam passos diferentes e de quando em quando mãe tinha que puxar Alice, pois ela ia ficando pelo caminho.
Sexta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão... só mais um pouco, só mais um pouco... ia resmungando a mãe, sob o olhar curioso de Alice.
- Por quê? – perguntou finalmente, sem deixar o passo.
- Sem perguntas! – respondeu a mãe, puxando-a pelo braço – Vamos!
A avó não queria que fossem embora. Era fim de tarde, Sexta-feira Santa. Não é bom caminhar pela estrada deserta.
- Preciso ir! – respondeu a filha, com lábios trêmulos – Preciso voltar!
A avó ficou à porta, terço na mão, até que a filha e a neta sumiram na curva da estrada.
- Sexta-feira Santa...
Apressada, Alice não conseguia ver bem o que corria pela beira da estrada. Se tentava, ralentava o passo e a mãe a puxava.
- Vamos! Vamos!
- Por que essa pressa, mamãe? Sempre fazemos esse caminho, o que há demais?
- Está tarde! Demoramos muito! Vamos!
Alice começou a prestar atenção no próprio passo. Isso a distraía, mas mantinha seu passo apertado... em compensação, deixava sua mente livre...
“Alice! Você quer um ovo de chocolate?”
- Quero! – respondeu Alice, atrapalhando o passo.
- O quê?! – a mãe se voltou, sem entender.
- Você perguntou se eu quero um ovo de chocolate!
- Não perguntei! – a mãe olhou em volta, a tarde se perdia em noite, ela se preocupou – Vamos!
Já podia ver as luzes do povoado. Já enxergava a torre da igreja, na sua imaginação podia ouvir os sinos.
- Mas a hora da missa já passou! – disse entredentes, segurando firme a mão da filha.
“Alice, você não quer brincar com o coelho?”
- Quero brincar com o coelho! – repetiu a menina, com um sorriso que não era seu.
A mãe arregalou os olhos e apertou ainda mais o passo, segurando firme a filha pelo pulso. Não podia pegá-la no colo... Agora ela tinha que fazer a estrada com as próprias pernas.
- Alice! – chamou – Veja, estamos chegando. Não quer ver papai?
“Alice, o coelho vai lhe dar chocolates e doces”
- O coelho vai me dar doces... – repetiu a menina, mecanicamente.
Desesperada, a mãe puxou-a novamente. “Vamos, falta tão pouco...”
“Me de a mão, Alice! Vamos brincar e comer doces na floresta!
- Quero brincar na floresta!
A mãe respirou fundo e, sem jamais deixar de caminhar, apenas disse:
- Alice, se você for brincar na floresta, nunca mais vai ver a mamãe, o papai e a vovó. Você quer ficar sem ver a vovó?
Alice parecia um autômato. Olhava agora para beira da estrada e mais além para o bosque.
- Floresta. Doces. Brincar.
- Alice!
A mãe apertou o punho da filha. Sentia uma angústia profunda. Como fora esquecer da hora? Como fora se permitir esquecer? Já não acontecera antes? Já não havia perdido um filho para a floresta?
- Alice!
A criança de olhos vidrados ameaçou parar e voltar. A mãe disse, quase desesperada:
- Alice, por que não vamos brincar e comer doces lá em casa? Olha, já está pertinho. E seus irmãos estão esperando por você.
- Floresta... – repetiu Alice, retardando o passo.
As sombras na beira da estrada pareceram crescer. Para ela, era divertido, tanto que sorriu; para a mãe, era ameaçador.
- Não! Alice! – gritou, puxando de novo a menina pela mão e retomando o passo corrido.
Para seu alívio, Alice a seguiu, mas ainda murmurava de florestas e doces e coelhos com chocolates.
Não ousava correr. Da outra vez correra... e correndo na estrada mal cuidada tropeçara e caíra. E perdera seu filho para a floresta.
- Alice? – chamou a mãe ao sentir o silêncio.
- Não vou ter chocolate? Não vou brincar com o coelho?
- Não hoje! – disse a mãe, tentando manter a calma – Hoje vamos cear com papai e seus irmãos – disse a mãe e, numa tentativa desesperada, prometeu – amanhã mamãe te dá doces. E você pode ir com seus irmãos ver o coelho do Samuel.
- Coelho? Doces? – Alice apertou o passo – Posso mesmo?
- Sim!
Alcançaram a ponte e atravessaram o rio. A mãe já sentia o frio das sombras da floresta roçando o vestido e o rosto de Alice.
- Não, não... disse para si mesma – Falta tão pouco!!!!
Ao fim da ponte, o Portal do Lobo. Nem dera o último passo, a mãe lançou a filha à frente e fez com que tocasse o Portal. As sombras recuaram. Um uivo levantou-se na noite. O vulto do marido assomou sobre elas, agigantado pela luz de um archote.
- Vocês estão bem?- disse ele – Você se atrasou! – tentou não parecer zangado.
- Conseguimos!
- Um coelho me ofereceu um ovo de chocolate! – disse Alice, parecendo curiosa – coelho bota ovos? Ovos de chocolate?
Mãe e pai riram.
Para além do Portal da Ponte, a noite caíra densa e pesada. Sombras ainda se moviam, mas não ousariam passar.
Alice acompanhou os pais para casa. Depois de alguns minutos não se lembrava de nada.
Mas desde aquele dia, ficou-lhe uma estranha angústia no peito cada vez que passava pela estrada que margeava a floresta.
Conto: "Coração Saciado"
Escrito por Emily Cheryl, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
- Estou dizendo, Leila, eu vi com meus próprios olhos. – Asafe sentou-se colocando as mãos sobre a cabeça, atordoado. 
- Como pode? – Ela indagou. – E os chefes dos sacerdotes deram todo esse dinheiro a vocês para contarem que o corpo foi roubado?!
- Sim, tudo isso. Inclusive o governador precisa ser convencido de que foi isso mesmo o que aconteceu. Jonas, Danilo e eu temos que ser bem convincentes.
Asafe estava muito confuso sobre se deveria mesmo fazer o que lhe fora ordenado. No outro cômodo, a filha do casal de apenas oito anos percebeu que seus pais conversavam e correu para escutar com atenção as palavras ditas, mordendo seu dedo indicador.
- Mas, Asafe, seria mesmo certo fazer isso? Você viu o anjo...
A criança levou um susto, cobriu a boca com as mãos.
- Vi, não consigo nem ao menos descrever a sensação que passou pelo meu corpo, Leila. Tive medo, muito medo, mas ao mesmo tempo parecia que meu corpo estava em paz, na presença da luz. Eu senti que estava morto, mas vendo tudo ao meu redor.
- E Maria Madalena, aquela prostituta que foi defendida por Jesus, ela foi a primeira que viu o lugar vazio? – Ela sentou-se ao lado do marido.
- Sim, nós não vimos Jesus saindo, não vimos nada! E ficamos de guarda o tempo inteiro, Leila!
A garotinha sentiu o coração palpitar. Jesus tinha saído daquele lugar, afinal? Depois de dois dias, desde a crucificação que fora obrigada a assistir, a menina sorriu.
Ela lembrava-se sempre daquele dia, há quase um ano, em que chorava na cidade olhando para o seu pão caído no chão. Queria tanto ter acabado de comer aquele pão, mas deixara ele cair por descuido, portanto, pôs-se a chorar. Uma sombra perdurou logo atrás dela, abaixando-se para ficar do seu tamanho.
“Por que está chorando?” O homem perguntou com a voz amena.
“Meu pão caiu no chão sem eu acabar de comer.” Ela limpou as lágrimas.
“Não se preocupe, menina. Agradeça pela parte que você já comeu, imagine se você nem o tivesse experimentado? Nunca saberia qual era o seu sabor.” Ele passou a mão nos cabelos da pequena, levantando-se para ir embora. “Outras coisas podem te saciar. Às vezes, suprir o coração é mais importante do que a barriga, não é mesmo?”
“Espera.” Ela pediu, sentindo uma súbita necessidade de mantê-lo por perto. “Eu acho que conheço você.”
O homem sorriu, trazendo a sensação da mais aconchegante paz.
“Talvez conheça, um dia todos conhecerão. Fique com Deus, Sara.” Ele se virou.
“Ei, mas eu não te disse o meu nome!” Sara argumentou, mas o homem já havia seguido seu caminho, sem olhar para trás.
Aquelas palavras tinham sido acolhedoras e, desde aquele dia, Sara procurara sempre preencher seu coração, fazendo o que a deixava feliz. Foi um choque para ela seguir sua mãe para o meio daquele local horrível, onde crucificavam três homens e todos falavam de um tal de Jesus, o pior dentre os três.
“O que ele fez, mamãe?” Sara perguntava, mas eram tantas pessoas que se ela tornava inaudível.
Ao finalmente conseguir uma visão daquela cena e ver, ao centro, o homem que todos gritavam para que fosse morto sem piedade, Sara chorou. Chorou em silêncio, chorou em agonia, chorou de medo e de tristeza. Queria gritar, mas nada saía. Seu coração estava de luto, seu coração estava faminto.
Era ele, era Jesus, aquele homem era Jesus. E ela sabia que ele não merecia estar naquela cruz. Não entendia o que estava havendo. Tentou falar com sua mãe que era ele quem havia dito para que ela enchesse seu coração. Mas as palavras não saíam. Ela estava aturdida, sem chão. Viu aquele homem tão pacificador morrer bem na sua frente enquanto era humilhado.
Assim, ao ouvir aquelas palavras de seu pai, um dos guardas que fora designado a guardar o túmulo de Jesus, sentiu-se confortada.
- O que disse o anjo? – Leila perguntou e Sara voltou ao momento presente.
- Que Jesus ressuscitou e encontrará seus discípulos na Galileia.
- Ressuscitou... Como alguém volta dos mortos depois de três dias?!
- Eu não sei, Leila, mas, sinceramente, tenho medo de alguém que tenha esse poder.
- Asafe, não minta sobre isso, uma maldição vai cair sobre a nossa família se o fizer! Você vai estar mentindo sobre Deus!
Asafe coçou o couro cabeludo, em constante dúvida interior.
- Que Deus me perdoe, Leila, mas já nos deram o dinheiro, não posso deixar de mentir agora, vão ameaçar você e Sara. Eu não posso permitir isso.
- Pense bem, Asafe. Mas te apoiarei no que decidir. – Ela o abraçou.
Preocupados como estavam, os dois não perceberam quando a pequena Sara correu até a mesa da cozinha. De lá ela pegou um pedaço de pão e, correndo até a janela, olhou para o céu. A menina tinha certeza de que Jesus podia ouvi-la, mesmo sem vê-lo por perto.
– Eu poderia comer esse pão em uma só mordida para ele não cair, mas não consigo, porque meu coração nunca esteve tão cheio! – Ela disse, pensando em como aquele domingo passou a ter um significado jamais imaginado por ela antes, que cobria seu peito da mais pura esperança. – Meu Deus, obrigada por ter feito meu amigo Jesus ressuscitar!
Conto: "A Páscoa de cada um"
Escrito por Neka Martins, agenciada pela Vivendo de Inventar.
Raul e Júlia- 1998 
— Tem certeza disso, Júlia?
—Já pensei muito e... não quero que você sofra, Raul.
—Não se preocupe comigo – ele diz tentando disfarçar a voz embargada- Se é o que você quer, eu aceito. Não quero que nossa relação seja uma prisão para você.
—Eu... Só quero um tempo, a gente namora há seis anos e- Ela fala cutucando as unhas- Nossos objetivos são diferentes, a faculdade de medicina está tomando seu tempo...
Raul interrompe a conversa, a dor rasga seu peito. Não quer demonstrar fraqueza diante da mulher que ama e com quem sonhou se casar.
—Você terá todo o tempo que precisar, Júlia.
Ela desencosta do balcão da loja de discos da Galeria do Rock e deposita sobre ele o disco que acaba de ganhar: Raul Seixas “Krig-há Bandolo”. Pega um lenço da bolsa e seca as lágrimas, pois mesmo ensaiando dias e dias em como desistir do noivado, não imaginou que seria tão dolorido. Já ele, pego pela surpresa desagradável, volta-se para a prateleira de discos, mesmo já não enxergando nada à sua frente. Respira fundo buscando estancar a dor e conter as lágrimas que teimam em inundar seus olhos. Sente as mãos de Júlia em suas costas e vira-se com medo de olhar para ela:
—Estou indo, acho melhor a gente seguir sozinhos daqui...
Ela beija a ponta dos dedos e toca os lábios do agora ex-noivo. Depois tenta tirar a aliança do dedo anelar direito, mas ele a impede:
—É sua. Se não te serve mais, doe para alguém, derreta, venda... Mas não me humilhe mais; comprei pra você!
Ela desiste da ação que tomaria, faz um muxoxo e se retira da loja. Raul a acompanha com os olhos sem conter as lágrimas que precisam desocupar seu corpo para que o ar atinja seus pulmões e ele busque sobrevivência. Nesta noite, ele encheu a cara no boteco da esquina, afinal levara um baita golpe, lascara a cara na lona e achava que jamais se levantaria. O dia seguinte seria de Páscoa, que se fodessem todos aqueles que viessem lhe falar de paz e harmonia; seu coração exalava treva. Enquanto isso, Júlia brindava com uma taça de champanhe num restaurante fino, onde Raul jamais teria condições de levá-la. Estava triste, mas aliviada por poder assumir seu novo amor e passar com ele o Dia de Páscoa...
Júlia- 2018
—Miga, sua loca, pisa menos! Lacrou neste look, nesta make! O crush vai pirar!
— Bee, só você pra me atender num domingo de Páscoa. Adorei o hair!
—Você merece, Juju! Vai lá, arrasa e prende este bofe!
Tiram uma selfie, postam na rede social e os likes disparam. Para Thalessah, a cabeleireira, atender Júlia é sempre uma festa e bônus para o salão. As selfies com ela são chamariz de novas clientes, sem contar que Júlia possui cartão ilimitado e nunca pergunta o preço, apenas digita a senha.
Despedidas feitas, a cliente se dirige apressadamente para o estacionamento. Recebe seu Jaguar e dispara pela rua; já está em cima da hora para almoçar com o terceiro marido, do qual não pretende se separar. Anda exausta da vida que escolheu para si, às vezes se pergunta se não deveria ter feito opções diferentes, já que expor sua vida nas redes sociais trouxe ganhos, mas a fez abdicar da privacidade. Faz sucesso como digital influencer, tem parceria com academias e lojas de grife, não paga pelos produtos de beleza que usa, sempre das melhores qualidades; mas é difícil suportar os haters. Quando descobrem uma celulite no seu glúteo esculpido na academia, ou um centímetro a mais no seu abdômen invertido, atacam cruelmente. As pessoas não imaginam quanto custa estar linda e invejável aos 43 anos, por isso, de vez em quando, investe numa dose de champanhe acompanhada de tarja preta.
Júlia segue para o restaurante, está apaixonada por Alfredo e o relacionamento de seis meses caminha de vento em popa. Quando os malditos faróis forçam sua parada, ela aproveita para checar seu iPhone. Lê os desejos de Feliz Páscoa e confere que os dois filhos estão com seus pais. No outro farol, compartilha no grupo das amigas um áudio maravilhoso que recebeu, convocando para a manifestação contra a corrupção na semana seguinte. Pensa em ir, quer lutar para o país sair desta merda, basta olhar para as ruas e ver o tanto de malucos que atrapalham o trânsito fazendo malabarismos ou vendendo tranqueiras. Sente raiva destes governantes que não pensam nos cidadãos de bem, que trabalham duro como ela e fazem caridade de coração aberto. Esta semana doou ovos de Páscoa para uma creche e gastou o tanto quanto costuma gastar num final de semana na Argentina. Além disso, doou um dinheirão para a pintura da igreja; enfim, o que mais querem? Sabe que merece transitar em paz pela rua, usufruir do seu direito de ir e vir sem ser incomodada. Seus pensamentos são dispersos por um negrinho remelento que bate no vidro pedindo dinheiro e lambuzando seu vidro blindado. Nesta hora ela só consegue pensar: onde estão os humanos direitos para protegê-la? Logo num dia de Páscoa passar esta raiva?
No farol seguinte, ainda estressada, ela observa na praça um bando de drogados tresloucados. Aumenta o ar condicionado de medo que o fedor deles invada seu espaço. De repente, seu olhar reconhece alguém e seu coração dispara. Segue o fluxo do trânsito, mas ainda não acredita no que acha que viu. Faz o retorno, estaciona na praça e reconhece Raul, seu primeiro amor. Faz anos que não se reencontram, nunca mais soube dele. Não consegue acreditar que Raul tenha se tornado um mendigo e sente um pouco de remorso, provavelmente a falta dela o tenha jogado na sarjeta. Mas não tinha o que fazer, já que o noivado a impedia de realizar seus sonhos. Observa mais um pouco e constata que, pelo menos, ele está com roupas limpas. Será que desistiu da faculdade? Será que toma banho em algum albergue? Será que os pais morreram? Para seu desconforto, alguns de seus parceiros apontam para ela e Raul se vira. Seus olhares se cruzam, mesmo que os dela estejam protegidos por um Ray-Ban. Olham-se por alguns segundos que parecem horas. Ela sente o coração acelerar, provavelmente por comoção de ver seu primeiro homem, primeiro beijo, suas primeiras juras de amor eterno; abandonados num banco de praça.
Para se proteger, Júlia sobe os vidros e arranca dali, foge deste encontro inesperado. Está tal e qual a Páscoa de 1998; triste, mas aliviada por saber do que se livrou. Rezará por Raul, ele precisa encontrar a paz.
Raul- 2018
O relógio desperta às cinco da manhã e Raul se levanta. Coloca água para ferver, enquanto isso vai ao quarto de Pedro e Francisco e cobre seus gêmeos de seis anos. Em seguida, vai ao quarto de Ana e Maria e faz o mesmo, afasta mechas de cabelo do rosto de Maria de quatro anos; depois desliga o celular de Ana da tomada, vai orientar a filha de dez anos quanto aos riscos desta atitude. Côa o café que perfuma a casa e se depara com Marina, que chega à cozinha antes que ele acabe de arrumar a mesa.
—Feliz Páscoa meu amor! —Diz estendendo os braços para ela.
Trocam o primeiro beijo do dia e se demoram um pouco mais no abraço. Sentam-se à mesa e tomam o café da manhã de todo dia: café, pão integral, manteiga Ghee e mamão com mel. Em silêncio ele contempla o belo rosto de sua amada, companheira de treze anos. Conheceram-se na faculdade e, como costumam dizer, foi amor a perder de vista. Do primeiro beijo à junção das escovas de dentes foi um caminho de horas. Depois vieram os consultórios, a compra da casa no bairro que imita uma vila antiga, a opção por alimentação saudável e os quatro filhos, o melhor projeto de ambos.
Raul deposita a xícara sobre a mesa fazendo barulho e Marina faz gesto para que tome cuidado, se levantam e saem pé ante pé. Lá fora, a brisa suave do dia que amanhece beija suas faces e eles colhem pequenos arbustos, com cuidado para não dilacerar o pequeno jardim dos sentidos, que as crianças cuidam com o máximo zelo.
Meia hora depois ambos admiram a obra de arte que fizeram: o caminho feito pelo coelho da Páscoa está perfeito, as crianças vão amar encontrar os ovinhos. Gostam de alimentar certas fantasias nos filhos, gostam que eles sejam apenas: crianças! Sabem que, inclusive Ana, fará de conta que ainda acredita no Coelho da Páscoa e se divertirá.
Dez horas da manhã, já energizado com a alegria de seu lar e a farra dos filhos, Raul estaciona sua espaçonave na praça. Adora o apelido dado ao seu carro, já que para transportar sua grande família com conforto, todo investimento é pouco. Tira a grande bolsa térmica que preparou com Marina e, rapidamente, seus amigos correm em sua direção. Organizam-se para o grande piquenique e, depois que eles comem vorazmente, Raul se desliga do mundo e se liga em cada um deles. Empresta seus ouvidos, dá atenção, valoriza pequenos ganhos de cada um; desde o banho que o Zeca resolveu tomar, à facada que Isaias desistiu de dar, ao furto que Isabel não fez. O cheiro de fezes e urina, misturados ao de nicotina, pinga e cáries com baforadas de crack; ainda embrulham seu estômago, mas ele aguenta. Faz parte da rotina que escolheu para si: ir até onde os sem nome, cacos da sociedade e fodidos estão. É um exercício que faz para ganhar humanidade, assume o ônus e o bônus, sabe que estes arremedos de cidadãos perderam tudo, inclusive o tempo que não perdoa, engole vidas e não passa recibo.
Hoje, especialmente, aconteceu certa agitação durante a roda, por causa de um jaguar amarelo estacionado. Viu dentro dele uma madame observando a reunião, a encarou aguardando que descesse para doar algum resto de consumismo, já que nestas datas as pessoas fazem caridade para se livrarem de suas culpas. Mas não, ela apenas obervou e, ao perceber que começou a irritar o grupo, fugiu covardemente. Raul continuou sua ação, sem dar importância à loira do carrão. Precisava verificar se todos tomaram a vacina contra a Febre Amarela, era sua função prezar por um pouco de dignidade para eles.
Mais tarde, voltou para casa em tempo de receber seus irmãos e sua mãe para o almoço de Páscoa. Brindou à família, à esperança e ao sentimento de paz que a Páscoa é capaz de trazer, mesmo que só por um dia, é ganho!
Conto: "À Sombra"
Escrito por Paloma Brito, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Nicolas observava sua mãe discutir com o homem que bateu no fundo do carro deles na saída do estacionamento do supermercado. O menino havia escapulido do assento sem ser percebido, e estava entediado pela disputa sem fim dos adultos para saber quem estava mais errado, e como o conserto do que a leve colisão causou seria pago.
Agarrado ao saco plástico, onde seu ovo da páscoa estava aninhado, Nicolas se distraiu observando as outras pessoas, que caminhavam tão apressadas que nem desejavam bom dia umas para as outras. Pensou que elas talvez não desejassem mesmo que tivessem tempo.
A atenção do menino foi capturada quando ele avistou um cachorro correndo para um canto do estacionamento onde fazia sombra. Os pés ligeiros foram naquela mesma direção sem demora, deixando para trás as vozes alteradas dos adultos. Ele só brincaria um pouco com o cachorrinho.
Alcançando o lugar, tudo que Nicolas queria era enterrar os dedos no pelo marrom do animal e acarinhá-lo. Sua mãe não aprovaria tal coisa, no entanto; já o tinha alertado que animais de rua podem transmitir doenças, mas aquele tipo de alerta lhe escapava da memória quase sempre.
Lembrando-se de Carolina, que ainda devia discutir fervorosamente como a boa advogada que era, Nicolas levantou os olhos, finalmente livre da distração do cachorro, para notar onde estava. Percebeu um homem sentado sobre pedaços de papelão alimentando o animal com dedos sujos.
— Bom dia, senhor. – O menino cumprimentou com a voz aguda, e logo ficou acanhado com a expressão de surpresa do velho. – Eu não tinha visto o senhor aqui quando cheguei mais cedo.
Nicolas recordou o trajeto que fizera com sua mãe até o mercado. Tinha certeza de que ele e Carolina deram algumas voltas por todo estacionamento até encontrar uma vaga, e aquele pedaço não havia ficado de fora. Depois de uma risada rouca, como se a voz do velho fosse pouco utilizada ultimamente, Nicolas foi respondido.
— Tudo bem; dificilmente as pessoas me veem, garoto.
Arregalando os olhos, o menino se aproximou sem medo algum, curioso sobre o homem.
— Não te veem? O senhor tem um superpoder ou algo assim?
— Mais ou menos. – Sorrindo com os lábios selados, os olhos castanhos se enrugaram.
Ainda mais interessado, Nicolas sentou ao lado do novo amigo, que se apressou em afastar os pertences, roupas e cobertores que estavam espalhados por ali. O menino arriscou fazer carícias breves na cabeça do cachorro enquanto perguntava ao homem sobre o superpoder da invisibilidade.
— Não nasci assim, meio invisível aos olhos de todos. Fui me tornando deste jeito ao longo da vida. – Fez uma pausa, com as lembranças da juventude o invadindo. Mas ele sabia que histórias tão tristes não devem ser contadas para um ouvinte tão inocente. – A maioria das pessoas não me enxergam, só algumas como você que são capazes de me notar.
Nicolas sentiu-se importante e se aprumou, inflando o peito com orgulho. Mas a satisfação inicial logo deu lugar à dúvida e à confusão.
— Não é um pouco solitário viver assim? Quer dizer, ficar invisível é legal, mas não o tempo todo. – Argumentou, pensando nos super-heróis que conhecia, e como os poderes deles às vezes os afastavam das outras pessoas e se tornavam motivo de tristeza.
— Não tenho muita escolha.
O assunto pareceu encerrado. Nicolas refletia sobre as palavras do velho enquanto o cachorro lambia sua mão e farejava, aproximando-se do ovo da páscoa que o garoto ainda segurava firmemente junto a si. O saco plástico se abriu para o cachorro que fuçava para lá e para cá.
— Veio comprar isso?
— Sim. Minha mãe me deixou escolher este aqui, vem com um brinquedo incrível. - Nicolas respondeu animado.
— Você parece mais interessado no brinquedo do que no doce. - O velho acusou com um riso fraco. - Como a maioria das pessoas, também não está interessado no que é mais importante.
O garoto pestanejou em confusão, tentando manter seu ovo de páscoa a salvo do cachorro insistente. Questionou o que o homem queria dizer com aquilo quando cansou de tentar entender por si mesmo.
— A páscoa não é uma data só para ganhar ovos de chocolate de presente, garoto…
O homem pretendia continuar, mas foi interrompido pela impetuosidade do menino. No auge da destreza dos seus 6 anos de idade, Nicolas falou o que sabia sobre a páscoa.
— É uma data para os cristãos, para celebrar a ressurreição de Jesus. - Repetiu as palavras de sua mãe. Mas, sentindo que elas carregavam pouco significado do que ele realmente queria dizer, continuou com as próprias – É o momento pra gente ser grato pelo que Deus fez e faz por nós todos os dias!
O questionamento do velho veio alguns segundos depois, dissipando o orgulho que o menino teve pelo que dissera.
— E você acha que tenho motivos para ser grato por alguma coisa? Olhe só para mim.
Nicolas estava olhando. Atentamente. A situação do velho não era boa, é claro, e nem poderia ser vivendo naquelas condições. O menino quis rebater de alguma forma. No entanto, pensando que talvez fosse soar mal-educado, preferiu se calar, como Carolina o advertia a fazer quando não tinha nada de bom para dizer.
— Você sabia que o ovo da páscoa representa um túmulo vazio? Foi isso que aprendi quando ainda era jovem.
Surpreso, o menino não soube o que responder para aquilo. Abriu a embalagem do ovo de páscoa e ofereceu o chocolate ao velho de olhos embriagados de tristeza.
— Agradecido. - O homem falou em uma pronúncia fraca, contrastando com o sotaque forte do interior, ao pegar pedaços do chocolate.
— Aí está… o senhor ficou grato. Se procurar bem, tem motivos para ser grato a Deus mesmo nesta situação.
O velho sorriu em constrangimento, cobrindo a boca com a mão sem sutileza, envergonhado pelos dentes que já não tinha mais.
— O senhor pode ter desistido de tentar ser visto por todos, mas Deus não desistiu do senhor. Ainda está vivo, respirando e falando. Enquanto estiver assim, o senhor tem escolha sim. Pode escolher continuar lutando.
Pela primeira vez, Nicolas esperou em vão o homem rebater o que ele dissera. O cachorro, agora deitado ao lado do menino, lambia-lhe os dedos sujos de chocolate.
Logo se ouviu um grito de mulher chamando pelo nome do menino repetidas vezes. Nicolas havia passado mais tempo do que planejara ali, e agora sua mãe procurava por ele. Estava encrencado. Encolheu-se e se manteve quieto, encarando os carros no estacionamento.
Com o corpo entrevado, o velho se ergueu com dificuldade, apoiando-se na parede e onde mais o braço enrugado alcançava. Murmurou um “vamos lá, garoto” antes de começar a andar. Nicolas se adiantou e caminhou ao seu lado ouvindo os berros da mulher.
Não demorou para que Carolina avistasse os dois e corresse na direção de Nicolas. Ela o abraçou tão apertado que o menino protestou, ainda com o rosto coberto pelos cabelos bagunçados da mãe. O homem com que ela estava discutindo minutos atrás também apareceu, com expressão cansada e a testa brilhando de suor.
Depois de ralhar com o menino, Carolina terminou dizendo que conversariam mais sobre o que aconteceu em casa e Nicolas engoliu em seco. A mulher capturou e apertou a mão do velho entre as suas, agradecendo e desculpando-se pelo trabalho que seu filho havia dado.
O velho estava espantado demais para responder-lhe qualquer coisa, e apenas observou Carolina se despedir do homem que a ajudara a procurar por Nicolas depois de dizer que poderiam resolver o conserto do carro depois.
A mãe e o garoto começaram a se afastar dali sem demora, apressados para alcançar o carro. Nicolas mal notou que esqueceu o restante do ovo de páscoa e o brinquedo que vinha com ele, percebeu o velho.
Levantando o rosto para o sol, seus olhos protestaram e se enrugaram ainda mais ao tentarem se fechar, desconfortáveis com a mudança de luminosidade. O velho sabia, no entanto, que tal mudança é necessária. Já tinha vivido tanto tempo envolto pela sombra que se esquecera do quão bom é encarar o dia e ser banhado pela luz.
— Tchau, senhor!!! - Ouviu o berro de Nicolas, que tinha acabado de colocar a cabeça para fora da janela do carro.
— Até logo, garoto! - O velho respondeu com a voz ainda rouca, porém mais firme e clara.

Conto: "O conto mais fantástico 
de todos os tempos "
Escrito por Pedro Branco, agenciado Wolfpack da Vivendo de Inventar.
Aconteceu sem prévio aviso, num fim de tarde outonal em que jovens andorinhas piavam sobre os altos prédios do centro de Osasco. O estagiário da agência, um rapaz de dreads que passava mais tempo jogando Gameboy do que de fato trabalhando, abriu um e-mail tardio com um anexo incluso. Ali na agência eram quatro, todos responsáveis por ler os trabalhos de jovens escritores novatos que pagavam mensalmente para serem treinados.
 O e-mail recebido naquele momento, o estagiário confirmou, trazia consigo um conto de quatro páginas que foi imediatamente aberto. Ao correr os olhos pelas primeiras linhas, o jovem de dreads se sentou na ponta da cadeira com estardalhaço e grudou a cara na tela do computador. Após sete minutos e meio de leitura, voltou para a primeira página e, acompanhado de uma xícara de café, releu o conto inteiro se esquecendo até mesmo de respirar.
 - Duduzinho, Dudu! – Chamou o amigo do outro lado da sala, às pressas, num movimento largo de empolgação. – Corre, rapaz, vem ver isso!
 O segundo estagiário, um rapaz de cabelos compridos presos num rabo de cavalo, sentou-se ao lado do companheiro sem muita empolgação, se pôs a ler as primeiras linhas do conto na tela e suspirou sem nem perceber.
 - Quem que enviou isso aqui? – Perguntou sem despregar o olhar da tela.
 - Foi esse moleque aqui, você conhece? – O primeiro estagiário mostrou foto e nome do autor na tela do celular.
 - Conheço não. Tá na lista?
 - É assinante Paperback, é um dos nossos. Tá tudo certo. – Confirmou o estagiário de dreads batendo as informações com o banco de dados de jovens autores assinantes. – Chama as meninas. Ô meninas!
 Duas outras estagiárias se aproximaram e se puseram a ler o conto recebido. Uma delas se esvaiu em lágrimas antes do fim da primeira página enquanto a outra saracoteou rápido para sua própria mesa e ligou para sua supervisora.
 - São seis e meia da tarde, eu não vou voltar para o escritório! – Ralhou Bernardeth, chefe dos meninos. – Me manda por e-mail que eu leio.
 O erro de Bernardeth foi ler o conto rapidinho, na hora do jantar, enquanto esperava o marido terminar o banho. Mal pousou os olhos nas primeiras linhas e foi obrigada a lê-lo até o fim. Uma, duas, três vezes, até que se atirou na cama fitando o teto e de repente se perguntando por que jamais pensara em algo como aquilo. Por que não tivera aquela idéia antes? Se tivesse tido, poderia estar famosa. Poderia muito bem até vender aquela idéia ao Flixnet e transformar em série.
 Leu o bagulho? dizia uma mensagem de texto mandada pelos estagiários no grupo do trabalho.
 Li respondeu Bernardeth simplesmente, ainda inerte, e depois de um momento pensativa, marcou uma reunião de urgência para o outro dia de manhã.
 Foi uma noite mal dormida e de sonhos invadidos pelas palavras astutas do escritor novato, portanto passou lenta, e por isso que os cinco se encontraram, na manhã seguinte, de olhos inchados e caras cansadas. O estagiário de dreads imprimiu o conto e o repousou cuidadosamente sobre a mesa redonda onde todos estavam sentados, então pôs-se a equipe a encarar o dito cujo.
 - Que faremos? – Perguntou uma das meninas, a de cabelo ruivo, mordendo a ponta do dedão como se nervosa.
 - Chamaremos o Andrei. – Sentenciou Bernardeth com a voz lúgubre. Estendeu a mão e tocou a história impressa com a ponta dos dedos, tal qual encostasse o manto sagrado de Cristo. – Sim, liguem para o diretor.
 Andrei, a contragosto, chegou ao escritório com uma camiseta furada, uma bermuda larga e um boné das eleições de 98 que depositou sobre a mesa antes de olhar a todos com uma sobrancelha erguida. Coçou a careca, fez uma careta e pegou o conto displicentemente com uma das mãos.
 - Sei não. – Disse ele após ouvir os relatos da equipe. – É tão bom assim?
 - Sim! – Disseram dois estagiários em uníssono, outro deles se pôs a chorar e Bernardeth roía as unhas.
 - E quem é este menino?
 - O portfólio dele inclui duas histórias curtas, uma fanfic de vampiros gays, um soneto sobre melões e segundo lugar no Prêmio de Autor Mirim do Bairro do Jacarezinho em 2007. – O estagiário de rabo de cavalo leu o currículo por cima dos óculos. – Aqui na agência ele já produziu... nada.
 - É o primeiro conto do moleque? – Perguntou Andrei abrindo uma latinha de cerveja e deixando duas gotinhas caírem sobre o papel à sua frente. Uma estagiária desmaiou e outra ligou para a mãe aos prantos pedindo que fosse lhe buscar. Bernardeth se levantou, apanhou o conto impresso e esfregou na cara do chefe.
 - Você TEM que ler isto aqui! – Bradou enérgica, os olhos saltando para fora das órbitas.
 Andrei largou a latinha de cerveja, lentamente pegou os óculos no bolso da bermuda e os colocou sobre a ponta do nariz. Apanhou o conto e leu primeiro o título sem conter um sorriso sarcástico.
 - O título é bem ruim. – Disse mostrando os dentes e encarando os companheiros por cima das lentes.
 - LÊ! – Disseram todos. Uma das estagiárias parecia estar tendo uma convulsão.
 Andrei baixou os olhos e os correu por algumas linhas. Quando quase um minuto inteiro se passou e nenhuma reação veio dele, o resto da equipe começou a trocar olhares ressabiados. De repente, pegando a todos de surpresa, o diretor socou a mesa e urrou de raiva:
 - LIGUEM PARA MEU EDITOR AGORA! – E bufando com os dentes à mostra, resmungou. – Eu devia ter tido esta idéia antes...
 - Diretor... – Chamou um dos estagiários amedrontado.
 - Calado! – Xingou Andrei erguendo um dedo, os olhos correndo vertiginosamente por cada linha da história. Depois de terminar, baixou as quatro folhas grampeadas com as mãos trêmulas e tirou os óculos. Apoiou o cotovelo na mesa e escondeu o rosto atrás da mão que suava frio.
 A estagiária ruiva fez menção de chamá-lo, mas Bernardeth sacudiu a cabeça em negativa, segurando a pupila no lugar. Deram ao diretor o tempo que ele precisava, que se findou com um suspiro triste. Ergueu a cabeça, olhou para o conto em suas mãos e passou a lê-lo novamente, desta vez com mais cuidado. Repetiu o processo mais uma, duas, três vezes, às vezes lendo-o baixinho, para si mesmo. Pela janela, podiam ver o sol baixando e se escondendo no horizonte. O telefone tocou o dia inteiro, mas ninguém ousava deixar de acompanhar aquele momento sacro.
 Quando finalmente parecia satisfeito, Andrei tirou os óculos e se levantou, o conto ainda em mãos. Circulou a mesa com as mãos para trás, mordeu o lábio, parecia prestes a chorar, mas nunca chorava. Os estagiários e Bernardeth o acompanhavam com os olhos, ora pelas costas, onde sua camiseta trazia os dizeres “Eu sou o bichão memo”, ora pela frente, com uma foto sua e escrito em letras garrafais “Vampirão Chefe”.
 - Não. – Disse ele simplesmente e todos se endireitaram nos assentos. – NÃO! NÃO! NÃÃÃÃO!
 Andrei berrou de raiva, amassou o chumaço de folhas e o atirou com forças na parede. Todos protestaram em voz alta, saltaram atrás do conto impresso, seguraram o diretor pelos braços e lutaram para controlá-lo. Um processo difícil e penoso, mas que terminou como ele tentando se controlar, sentando-se numa cadeira e esfregando o rosto.
 - Você não gostou? – Perguntou o estagiário de dreads.
 - Nós podemos... podemos pedir... – Bernardeth tremia e suava muito. A palavra engasgou muitas vezes na sua garganta, mas conseguiu cuspi-la. – Podemos pedir... uma... alteração.
 Uma das estagiárias saltou pela janela.
 Andrei sacudiu a cabeça negativamente, rangeu os dentes e chorou.
 - Eu adorei. – Disse ele.
 - Então o quê? O QUE, HOMEM?!
 E com o coração pesado, o diretor encarou cada um dos colaboradores, as lágrimas escorrendo copiosamente pelo rosto, e juntou todas as forças que tinha.
 - Tem mais de 10.000 caracteres.

Conto: "Almoço de Páscoa"
Escrito por Thaís Arkchimor Lucena, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
S. Alcides acordou alguns minutos mais cedo do que o normal, talvez por conta da ansiedade que sentia. Costumava ser assim quando seu dia fugia do marasmo habitual. Eram 4:50hs da manhã quando levantou vagarosamente da cama, calçou os chinelos que ficavam alinhados à frente do criado mudo e seguiu para o banheiro para sua higiene matinal.
Instantes depois estava na cozinha para preparar seu desjejum. Passou o café no coador de pano, ferveu o leite na velha leiteira de alumínio amassada e fatiou o pão amanhecido, que seria besuntado com manteiga logo mais. Enquanto o café passava, ele separava os comprimidos que deveriam ser tomados assim que o estômago estivesse forrado. Eram oito ao todo, que seriam engolidos um a um com ajuda do leite. O jornal, deixado todos os dias em sua porta, era folheado até a parte de esportes, que merecia um pouco mais de atenção. O esforço para enxergar as letrinhas era tamanho, que não merecia ser gasto com notícias de violência ou política. Já o futebol… ah, esse merecia até a lupa que ficava estrategicamente guardada na gaveta do armário da copa.
S. Alcides tomou seu café com toda a calma que o tempo havia lhe ensinado a ter. Mastigou seu pão até que esse se transformasse em uma massa segura a ser engolida e tomou seus comprimidos matutinos, que lhe asseguravam uma vida com um pouco menos de dor, um pouco mais de vitalidade e, quem sabe, mais um tempinho de vida.
Antes de o dobrar o jornal e levantar da mesa, S. Alcides retirou de seu miolo o encarte de ofertas do mercado. Dobrou-o em quatro e guardou-o no bolso do casaco que seria colocado mais tarde, juntamente com uma lista que já estava guardada no mesmo bolso desde o dia anterior.
Lavou a louça com esmero como sempre fazia e, enquanto enxaguava-a pela segunda vez para eliminar qualquer resquício do sabão, lembrou de Ofélia. Mesmo tendo falecido há mais de vinte anos, ela ainda estava muito viva em sua memória, principalmente quando ele lavava a louça, sua tarefa oficial que fazia com prazer para agradar a esposa enquanto ela cozinhava. Lembrou-se da casa cheia, dos barulhos, discussões, risadas, da música que se misturava com o som da televisão sempre ligada deixando-o atordoado, da bagunça generalizada e principalmente dos aromas que saíam da cozinha. Por um breve momento quis que o tempo voltasse. Não costumava sentir isso. Na verdade, esforçava-se para não sentir, mas naquele momento não pode evitar. Desde que se viu sozinho na vida, prometeu a si mesmo viver sem se lamentar. Foi uma escolha que estava dando certo. As datas comemorativas, porém, eram um pouco mais desafiadoras. A Páscoa era, em especial, uma data que a família toda esperava. Depois do Natal, era quando todos faziam questão de se reunir em volta da mesa. Desde a escolha do bacalhau que seria assado com batatas, cenoura e brócolis, até a escolha dos ovos de chocolate, que seriam escondidos para a diversão das crianças. Tudo lhe veio à mente naquele momento e, de repente, S. Alcides sentiu fortemente a presença de Ofélia ao seu lado. Podia até jurar ter sentido seu perfume na cozinha, como se ela estivesse ali, do seu lado.
Há alguns anos, muitos na verdade, não conseguia reunir a família em sua casa. Moravam longe e estavam sempre todos ocupados. Muito embora se esforçassem, estava difícil reuni-los em volta da mesa, como ele e a esposa faziam questão. Esse ano, porém, ele decidira que faria de tudo para que a reunião acontecesse. Sua saúde estava cada dia mais frágil, ele sentia sua vitalidade se esvaindo dia-a-dia e não sabia se teria outra Páscoa, outro aniversário, outro Natal. Havia ligado para todos com bastante antecedência para que se programassem. Todos prometeram comparecer, mesmo que estivessem sem tempo, mesmo que estivessem longe, mesmo que a passagem estivesse cara ou que o trabalho estivesse os consumindo. Ele estava especialmente animado.
Vestiu sua roupa de passeio: calça social marrom, camisa bege, meia fina, sapatos — que estavam engraxados desde a última vez que os usara — e seu chapéu Panamá. Ainda havia um restinho de colônia no vidro e tomou o cuidado de usa-la de forma que sobrasse umas gotas para o domingo.
Então abriu a janela, um de seus momentos favoritos do dia. Assistir ao nascer do sol era sempre um momento de contemplação e comemoração. Adorava ver o dia nascer, os raios despontarem no céu rompendo as nuvens e levando embora a escuridão da noite. Ali ele costumava ficar por um tempo. Debruçado no parapeito da janela, S. Alcides respirava vagarosamente e com um pouco de dificuldade, o ar puro do interior e orava, agradecendo por mais um dia de vida.
 Antes de sair, certificou-se de que o folheto do mercado e a lista estavam no bolso de seu casado e vestiu-o, sem se preocupar com o calor que fazia lá fora — coisa que já não era mais sentida por aquele frágil corpo, que não tinha quase gordura nenhuma para manter sua própria temperatura.
Sentou na cadeira de fio de plástico azul que ficava em frente de casa e abriu o folheto para conferir as ofertas. Precisava esperar o mercado abrir. Com grande esforço olhou uma por uma, todas as ofertas, entre um aceno e outro cumprimentando a vizinhança que passava apressada por ele. Por ter passado mais da metade de sua vida ali, era natural ser tão conhecido. Não havia uma só pessoa que não passasse na rua sem acenar e dizer “Bom dia S. Alcides”, todos os dias.
Como seu andar era lento, seguiu para o mercado bem antes deste abrir, de forma que precisou esperar mais alguns minutos ao chegar. E, assim que as portas se abriram, lá foi ele, todo feliz, com o folheto e sua listinha nas mãos, comprar tudo o que precisaria para seu tão esperado almoço de Páscoa.
Escolheu, sem demora, o melhor pedaço de bacalhau do mercado, juntamente com os brócolis, batatas, cenoura, cebola e azeitonas pretas. Escolheu também um bom azeite e um vinho branco que sabia que iria agradar seu filho Roberto. Não esqueceu do refrigerante para as crianças.
A melhor parte foi escolher os Ovos de Páscoa. Para isso, tirou do bolso sua lista para não correr o risco de esquecer ninguém. A família não era grande: três filhos, duas noras e quatro netos. Mesmo assim, não queria confiar na sua memória, que estava falhando cada dia com mais frequência. Ele fez questão de escolher ovos de chocolate para todos, até mesmo para os adultos. Sabia que tudo aquilo custaria uma boa parte de sua aposentadoria, mas, prevenido como sempre foi, já havia poupado no mês anterior e guardado o dinheiro.
Chegando em casa, tratou de colocar o bacalhau para dessalgar na água e guardou todas as compras na geladeira. Foi ainda de manhã que recebeu a ligação de seu filho Alex, o caçula. Empregado de uma multinacional, morava há anos em Nova York e havia prometido se esforçar para visitar o pai na Páscoa. Eles não se viam há pelo menos três anos. Mas Alex infelizmente não conseguiria viajar devido a um compromisso de trabalho, mas prometeu ir ao Brasil em breve, antes mesmo de seu aniversário. S. Alcides ficou triste, mas, no fundo, já esperava por isso. Sabia que não era fácil para o filho viajar a hora que bem quisesse.
A tarde foi preenchida pela escolha dos lugares onde os ovos seriam escondidos. Na verdade não seriam muito diferentes dos lugares onde sempre foram escondidos: dentro da estante da copa, do microondas, embaixo da cama, atrás do vaso da sala, embaixo do sofá. Mesmo sendo os mesmos locais, ainda assim era sempre divertido ver as crianças correndo atrás dos chocolates.
No final da tarde foi a vez de Ernesto, seu filho do meio, ligar para o pai. S. Alcides começou logo a falar como havia sido divertido seu dia fazendo as compras para o domingo, até o filho interrompê-lo:
— Pai, sinto muito, não conseguiremos passar a Páscoa com o senhor. A Marcela já havia combinado de ir na mãe dela, que está muito doente, como o senhor sabe. Ela não está nada bem, não tive como negar isso a ela, pai.
— Claro que não, meu filho. Você fez bem. Deixe ela passar a Páscoa com a mãe. Não faltarão oportunidades para virem aqui. Comprei ovos de chocolate para a crianças. Vou guarda-los para quando vierem.
Seu entusiasmo murchou um pouco mais e S. Alcides parou por um momento para descansar, mas não queria desanimar. Precisava fazer um belo almoço para o resto da família, mesmo que sobrasse mais comida. E olhando o lado bom, eles poderiam até levar comida para comer no dia seguinte.
No domingo, ele acordou novamente mais cedo para colocar o bacalhau no forno. Gostava de assar no fogo baixo, sem pressa, para os sabores se fundirem enquanto eram assados. Logo aquele cheiro de Páscoa já tomava conta da cozinha, junto com todas as lembranças. Novamente lembrou-se da esposa e sentiu sua presença, como se ela estivesse ali, ao seu lado, implicando com ele da bagunça que fazia sempre que estava na cozinha.
Eram dez horas da manhã quando o telefone tocou e S. Alcides ouviu a voz do filho Roberto, o mais velho, o mais parecido com ele e pai de três de seus netos. Ao contrário do que ele imaginou, Roberto não havia ligado para perguntar o que precisava levar ou para avisar a hora que chegariam. Ligara para avisar que Maria ardia em febre, vomitara a noite toda, virose brava. Não tinham condições de sair de casa e nem poderiam correr o risco da menina passar a virose para o avô, que já tinha a saúde frágil.
— Claro, meu filho, não se preocupe comigo. Cuide dela. Isso é o mais importante. Ficarei bem.
E assim ele ficou. Arrumou a mesa e tirou o bacalhau do forno, mas guardou o vinho para o caso de Roberto aparecer mais tarde, se Maria melhorasse e ele conseguisse sair. A mesa estava vazia, como sempre, mas a presença de Ofélia era tão forte que ele até se encabulou quando os olhos ameaçaram marejar de lágrimas. Nunca havia se fragilizado na frente da esposa. O resto do almoço foi guardado na geladeira, a louça meticulosamente lavada e os chocolates guardados no armário, esperando as visitas que quando tivessem tempo, apareceriam.  
Conto: "Não dance sobre mim, Sophia!"
Escrito por Eliane Reis, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Ela precisava falar. Olha para os lados, torce o pescoço na diagonal, mas não vê ninguém. Diante desse vácuo, entre paredes solitárias, Sophia percebe que as cores tem perdido a vivacidade; percebe que não tem acordado com a aurora adentrando pelas frestas da sua janela e que não tem dormido com o som das conversas proferidas no decorrer do dia, tampouco sentido o calor das mãos que procuravam as suas ou o abraço apertado de quem sentiu sua falta. Mas precisava falar mais alto que ela mesma. Arrasta uma cadeira e a coloca defronte ao espelho, onde se acomoda. Olha profundamente para os sulcos do seu rosto e em cada um deles enxerga todas as Sophias que por ali passaram. Trava uma conversa consigo mesma e resolve registrá-la no papel. As mãos duras, cobertas com a pele cheia de vincos, agarra a caneta que se espreme entre seus dedos. Pensa um título: “De mim para mim mesma”. Depois responde em voz alta: “_ Título não me é importante!” 
“Escrevo quando já é quase noite, e ao fazê-lo tenho o cuidado de olhar bem devagar para o céu. Não me pergunte o porquê, Sophia. Talvez seja para compor um cenário para cada linha que escrevo. Antes que me pergunte novamente, sim porque você pergunta muito, a noite é alva e cristalina; a lua branca está lá, quieta, e se derrama sobre as letras que escorregam pelo papel. Sophia, minha linda, como gosto de recebê-la aqui, dentro das minhas rugas. Sei também que isso te deixa feliz.
Olha para o espelho e passeia os olhos pela testa: - Aqui o tempo anda diferente do seu, anda devagar; as tardes têm sido longas demais. Como já sabe, tenho tentado preencher os espaços vazios com os mesmos afazeres de sempre; é o que faz acomodar as coisas que ainda se movem dentro de mim.
Sabe que às vezes fico a imaginar a sua antiga rotina? Tento desvendar o que os meus olhos não mais enxergam, mas que estão vivos como se fosse ontem: o jardim que visitava todas as manhãs, os amigos do colégio, os colegas da faculdade, o casamento, filhos, as pessoas que eram próximas. Ah! e é claro, a menina, a moça, a jovem senhora e a mulher que ainda habitam meu corpo no caos da “terceira idade”. (Esse termo soa tão forte!)
Para e descansa os olhos na paisagem da janela aberta. Depois encara o espelho, espremendo os olhos: Estou agora aqui, refletindo sobre a homenagem que a entidade fez a nós, mulheres do asilo. Entendo perfeitamente sobre sensações de abandono. Às vezes, quero sentir o gosto das palavras perto dos meus ouvidos... Será que nesse ciclo de palavras resumidas e digitadas em aparelhos eletrônicos, só eu quero ouvir uma voz de verdade chamando pelo meu nome? Ou que diante de tantas relações que nascem através de fotos e conversas distantes, só eu quero acordar e ter o prazer de sentir que alguém respira o mesmo ar que eu respiro? E as flores, minha querida, quantas recebi pelo celular nesse dia! Cadê aquelas com cheiro de coisa viva? As primaveras têm fugido do ciclo das estações, Sophia! Será que fui traída pela vida? Eu e você, que está estampada nesse espelho? Posso vê-la nessas ondulações bem abaixo dos olhos atravessando uma ponte em tempos distintos e distantes.
Ademais, quero dizer sobre o meu quarto. Ele tem recebido sol todas as manhãs. Sophia, lembro muito bem das cores das cortinas compradas na véspera daquele último sábado que antecedeu nossa 24ª primavera: alegres e fortes! Quanta coisa mudou, Sophia! Ah! recebi mensagem de Giovanni parabenizando pelo nosso dia, mas confesso que houve um misto de alegria e de tristeza, pois me sinto como uma mercadoria fora do prazo de validade...Ele não me pede mais nada, nem aquele pudim que você sempre queimava a calda, lembra? – Ri alto -
Ah! como sinto saudades da nossa casa quando ainda era preenchida com muitas pessoas. E esta é a parte que mais dói: essa coisa de perceber que estamos sendo substituídos por outras pessoas; sentir que não produzimos o suficiente para mantermos quem amamos próximos de nós. É isso: perder a importância que um dia já tivemos na vida de alguém. Sophia, nós mulheres somos um amontoado de coisas indefinidas, e é por isso que sabemos incorporar com maestria cada fase dessa nossa vida tão cheia de coisas! Porque somos sempre uma incerteza e uma surpresa para nós mesmas. Gosto quando você vem à tona, de saia plissada, às vezes de uniforme e meias três quartos, muitas vezes descabelada ou cheirando alho e pó de arroz e, ainda, de salto alto e batom vermelho...e daí? Fomos e somos mesmo muita sabedoria para uma só Sophia, você não acha? - Passa a mão pelo cabelo várias vezes - Já fomos uma criança insegura choramingando pelos cantos, fomos adolescentes de faces rosadas e joelhos lisos, fomos mocinhas comportadas nas missas de domingo e namoramos escondidas sob algumas árvores frondosas que nos serviam de escudo para beijos quentes. Ah! Que saudade, Sophia!
Às vezes é preciso olhar para essas lembranças que se agarram nesse teto que hoje me cobre e que jamais será meu. Às vezes preciso ouvir minha própria voz, Sophia, e imaginar as coisas que um dia foram grandes, resumidas nas pregas da cortina que balança à brisa de madrugadas solitárias. Ouvi dizer que isso é poético! E já que hoje me presenteou com sua visita, vou dizer só mais uma coisa imprescindível: as pessoas têm a mania de olhar para nossas rugas como se nunca tivéssemos tido passado, como se fôssemos ocas, como se já tivéssemos nascido velhas. Mas estou aqui para dizer a você que a mulher que habitou em ti não morreu. Ela ainda vive. Aliás, ela nasce e renasce todos os dias. E quando você volta, percebo o quanto ainda sou grande!
De repente ela abandona a caneta, apóia as duas mãos nos joelhos e se levanta com algum esforço. Afasta a cadeira com uma das pernas e arrasta os passos até a cômoda velha de madeira manchada, abrindo a primeira gaveta:
_ Sempre tive vontade de escrever com um batom. - Caminha novamente até o grande espelho que ocupa uma das paredes do quarto, para e o encara. Retira a tampa e faz um bico com os lábios, depois os pincela várias vezes, fazendo movimentos com a boca para que a cor se espalhe de modo uniforme. Exprime um sorriso largo antes de beijar longamente seu próprio reflexo. Então levanta um dos braços e registra a frase no aço que estampa seu retrato: “De vez em quando você pode até me visitar e me jogar ao chão, mas nunca dance sobre mim, Sophia” Jamais! – sua ninfeta do caralho!
Conto: "A mulher de verdade"
Escrito por Thaís Arkchimor, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
— Larissa nasceu para ser uma mulher de verdade e vai ser o que ela quiser.
Essas foram as palavras de sua mãe em seu primeiro dia de vida.
Parecia uma princesa, mesmo que sua mãe se recusasse a chamá-la dessa maneira. — Princesa não! Super-heroína!
Pele alva, olhos azuis, cabelinho loiro, bochechas redondas e rosadas. Não havia viva alma que não perdesse ao menos dez minutos contemplando sua beleza na maternidade. Seu choro alto, destoando dos demais bebês do berçário, já indicava que seria uma mulher forte, daquelas que exigem seus direitos nem que fosse no grito. Bastava a barriga esvaziar que Lari esgoelava. Chegava até a morder o bico do peito, parecendo penitência pela demora, para desespero de sua mãe. Se a fralda sujava, imediatamente a criança reclamava. Não ficava suja um minuto sequer. Ao acordar, já avisava a todos que ali no berço não queria mais ficar. Fazia valer sua vontade com seu choro alto, fazendo com que qualquer um que estivesse por perto, corresse em círculos procurando pelo motivo do escândalo.
Com um ano brotaram-lhe cachos dourados, que enfeitavam ainda mais sua beleza. Sua mãe, orgulhosa, queria-os soltos e nunca nem sequer ousou colocar-lhe um dos laços que a filha ganhara de presente dos parentes. A menina vivia descalça, roupas largas de cores neutras, muitas vezes, reaproveitadas do irmão mais velho, antes guardadas em uma caixa no alto do armário. Nada de flores, corações, unicórnios, cor-de-rosa ou lilás. Sua mãe tinha horror a estereótipos, queria sua liberdade! “Essa menina vai ser o que ela quiser”.
Adorava dançar. Não podia ouvir uma música que já começa a rebolar.
— Essa menina vai ser bailarina — diziam.
— Ela vai ser o que ela quiser.
Quando ardia em febre, gostava de pegar o termômetro e coloca-lo em sua mãe, imitando-a.
— Ah, ela vai ser médica — diziam.
— Ela vai ser o que ela quiser — insistia a mãe, às vezes de forma grosseira.
Não podia ver cachorros e gatos que queria agarrar.
— Veterinária, com certeza!
— Ela vai ser o que ela quiser, já falei! Que saco!
Seus brinquedos eram todos improvisados pela mãe ou reaproveitados do irmão. Potes de plásticos, bolas de meia e chocalhos feitos de garrafas recheadas de arroz. Enrolava a toalha no pescoço para brincar de super-heroína, como a mãe ensinara, enquanto o cabo da vassoura se transformava em espada, cavalo ou até guitarra. A mãe evitava as lojas de brinquedos, não queria influenciar a criança com a abundância de brinquedos separados por gêneros: rosa para as meninas, azuis e pretos para os meninos.
Até que Larissa teve sua primeira festa de aniversário e ganhou sua primeira boneca e seu primeiro jogo de panelas de plástico cor-de-rosa. Radiante, a menina imediatamente se agarrou à boneca e passou a imitar a mãe, embalando-a e mexendo as colherzinhas nas pequenas panelas cor-de-rosa. A mãe, contrariada, tentou persuadi-la colocando à sua frente os mais coloridos livros ilustrados, tintas, pincéis, jogos de montar e caixas de papelão, que poderiam facilmente transformar-se em carros e castelos, como ela insistiu. Mas Lari queria mesmo era brincar de mamãe e filhinha com a boneca e fazer suas comidinhas. E aí começaram os atritos.
Na fase escolar, passou a reclamar pois suas amigas usavam meia-calça, tiaras coloridas e trança no cabelo, enquanto o seu estava sempre desarrumado. Mas a mãe era enfática:
— Você não precisa ser como todas! Não é porque elas usam que você tem que usar. Você é livre, minha filha!
Mesmo assim, não eram raros os dias em que a menina vinha com alguma presilha ou tiara emprestada das coleguinhas, às vezes escondida na mochila.
No dia de levar brinquedos, ela queria levar sua boneca e a mãe tentava convencê-la a levar os fantoches feitos de papelão. No choro, Larissa ganhava.
Tinha excesso de energia, a menina, e sua mãe achou que seria bom colocá-la em aulas de esporte. Como gostava mais de correr do que andar, pensou que as aulas de futebol poderiam dar conta de toda aquela disposição. Mas Larissa queria fazer balé, como suas amigas faziam. Achava lindo aquelas meninas todas de rosa, dançando e rodopiando.
— Minha filha, você precisa experimentar coisas diferentes. Não precisa ser como todas!
A mãe insistiu no futebol, basquete e até judô, mas a pequena só queria o balé.
Na adolescência começou a se interessar por um menino da sua classe. A vaidade aflorou ainda mais e ela começou a se maquiar, mudou o corte de cabelo e customizou suas roupas, deixando-as a seu gosto. Não queria mais usar as saias longas monocromáticas que sua mãe lhe comprava e as roupas velhas de seu irmão. Queria minissaias, rendas, decotes e salto alto.
— Como estou? — Perguntou à mãe, ao se arrumar para seu primeiro encontro.
— Você já é linda minha filha, não precisava de nada disso. Está como todas as outras agora — responde a mãe desapontada.
Então chegou a maioridade, e com ela a hora de Larissa escolher o queria fazer para o resto de sua vida. E ela sabia o que queria. Tão forte quanto o choro que anunciava suas necessidades e vontades na infância, eram suas decisões.
E naquele dia, sua mãe chorou vendo-a partir de malas cheias o suficiente para muito tempo. O quarto vazio refletiu o eco em seu peito. Sabia que aquele dia chegaria, mas não esperava que fosse tão cedo. Não sabia que não estava preparada.
— Por quê tão cedo? Ela tinha tudo o que queria aqui.
— Ah mulher, não foi você mesmo que a ensinou a ser livre? — Disse o pai, que enfim cansara de ficar calado e assistir a tudo de longe, sem poder expressar suas opiniões. — Pois deixe de uma vez que sua filha seja quem ela quiser, oras!
E foi o que Larissa fez. Foi ser quem ela queria ser, mesmo que fosse uma princesa com laços de fita cor-de-rosa, em busca de um príncipe encantado, cercada de panelas e, quem sabe, fraldas para trocar. E sua mãe, passado o susto, enfim compreendeu que a lição ensinada apenas havia sido aprendida. Larissa era Larissa, uma mulher forte que traçaria seu caminho e seguiria seu coração.
“Não importa o que digam, mulher pode ser o que ela quiser!”
Thaís Arkchimor

— Larissa nasceu para ser uma mulher de verdade e vai ser o que ela quiser.
Essas foram as palavras de sua mãe em seu primeiro dia de vida.
Parecia uma princesa, mesmo que sua mãe se recusasse a chamá-la dessa maneira. — Princesa não! Super-heroína!
Pele alva, olhos azuis, cabelinho loiro, bochechas redondas e rosadas. Não havia viva alma que não perdesse ao menos dez minutos contemplando sua beleza na maternidade. Seu choro alto, destoando dos demais bebês do berçário, já indicava que seria uma mulher forte, daquelas que exigem seus direitos nem que fosse no grito. Bastava a barriga esvaziar que Lari esgoelava. Chegava até a morder o bico do peito, parecendo penitência pela demora, para desespero de sua mãe. Se a fralda sujava, imediatamente a criança reclamava. Não ficava suja um minuto sequer. Ao acordar, já avisava a todos que ali no berço não queria mais ficar. Fazia valer sua vontade com seu choro alto, fazendo com que qualquer um que estivesse por perto, corresse em círculos procurando pelo motivo do escândalo.
Com um ano brotaram-lhe cachos dourados, que enfeitavam ainda mais sua beleza. Sua mãe, orgulhosa, queria-os soltos e nunca nem sequer ousou colocar-lhe um dos laços que a filha ganhara de presente dos parentes. A menina vivia descalça, roupas largas de cores neutras, muitas vezes, reaproveitadas do irmão mais velho, antes guardadas em uma caixa no alto do armário. Nada de flores, corações, unicórnios, cor-de-rosa ou lilás. Sua mãe tinha horror a estereótipos, queria sua liberdade! “Essa menina vai ser o que ela quiser”.
Adorava dançar. Não podia ouvir uma música que já começa a rebolar.
— Essa menina vai ser bailarina — diziam.
— Ela vai ser o que ela quiser.
Quando ardia em febre, gostava de pegar o termômetro e coloca-lo em sua mãe, imitando-a.
— Ah, ela vai ser médica — diziam.
— Ela vai ser o que ela quiser — insistia a mãe, às vezes de forma grosseira.
Não podia ver cachorros e gatos que queria agarrar.
— Veterinária, com certeza!
— Ela vai ser o que ela quiser, já falei! Que saco!
Seus brinquedos eram todos improvisados pela mãe ou reaproveitados do irmão. Potes de plásticos, bolas de meia e chocalhos feitos de garrafas recheadas de arroz. Enrolava a toalha no pescoço para brincar de super-heroína, como a mãe ensinara, enquanto o cabo da vassoura se transformava em espada, cavalo ou até guitarra. A mãe evitava as lojas de brinquedos, não queria influenciar a criança com a abundância de brinquedos separados por gêneros: rosa para as meninas, azuis e pretos para os meninos.
Até que Larissa teve sua primeira festa de aniversário e ganhou sua primeira boneca e seu primeiro jogo de panelas de plástico cor-de-rosa. Radiante, a menina imediatamente se agarrou à boneca e passou a imitar a mãe, embalando-a e mexendo as colherzinhas nas pequenas panelas cor-de-rosa. A mãe, contrariada, tentou persuadi-la colocando à sua frente os mais coloridos livros ilustrados, tintas, pincéis, jogos de montar e caixas de papelão, que poderiam facilmente transformar-se em carros e castelos, como ela insistiu. Mas Lari queria mesmo era brincar de mamãe e filhinha com a boneca e fazer suas comidinhas. E aí começaram os atritos.
Na fase escolar, passou a reclamar pois suas amigas usavam meia-calça, tiaras coloridas e trança no cabelo, enquanto o seu estava sempre desarrumado. Mas a mãe era enfática:
— Você não precisa ser como todas! Não é porque elas usam que você tem que usar. Você é livre, minha filha!
Mesmo assim, não eram raros os dias em que a menina vinha com alguma presilha ou tiara emprestada das coleguinhas, às vezes escondida na mochila.
No dia de levar brinquedos, ela queria levar sua boneca e a mãe tentava convencê-la a levar os fantoches feitos de papelão. No choro, Larissa ganhava.
Tinha excesso de energia, a menina, e sua mãe achou que seria bom colocá-la em aulas de esporte. Como gostava mais de correr do que andar, pensou que as aulas de futebol poderiam dar conta de toda aquela disposição. Mas Larissa queria fazer balé, como suas amigas faziam. Achava lindo aquelas meninas todas de rosa, dançando e rodopiando.
— Minha filha, você precisa experimentar coisas diferentes. Não precisa ser como todas!
A mãe insistiu no futebol, basquete e até judô, mas a pequena só queria o balé.
Na adolescência começou a se interessar por um menino da sua classe. A vaidade aflorou ainda mais e ela começou a se maquiar, mudou o corte de cabelo e customizou suas roupas, deixando-as a seu gosto. Não queria mais usar as saias longas monocromáticas que sua mãe lhe comprava e as roupas velhas de seu irmão. Queria minissaias, rendas, decotes e salto alto.
— Como estou? — Perguntou à mãe, ao se arrumar para seu primeiro encontro.
— Você já é linda minha filha, não precisava de nada disso. Está como todas as outras agora — responde a mãe desapontada.
Então chegou a maioridade, e com ela a hora de Larissa escolher o queria fazer para o resto de sua vida. E ela sabia o que queria. Tão forte quanto o choro que anunciava suas necessidades e vontades na infância, eram suas decisões.
E naquele dia, sua mãe chorou vendo-a partir de malas cheias o suficiente para muito tempo. O quarto vazio refletiu o eco em seu peito. Sabia que aquele dia chegaria, mas não esperava que fosse tão cedo. Não sabia que não estava preparada.
— Por quê tão cedo? Ela tinha tudo o que queria aqui.
— Ah mulher, não foi você mesmo que a ensinou a ser livre? — Disse o pai, que enfim cansara de ficar calado e assistir a tudo de longe, sem poder expressar suas opiniões. — Pois deixe de uma vez que sua filha seja quem ela quiser, oras!
E foi o que Larissa fez. Foi ser quem ela queria ser, mesmo que fosse uma princesa com laços de fita cor-de-rosa, em busca de um príncipe encantado, cercada de panelas e, quem sabe, fraldas para trocar. E sua mãe, passado o susto, enfim compreendeu que a lição ensinada apenas havia sido aprendida. Larissa era Larissa, uma mulher forte que traçaria seu caminho e seguiria seu coração.
“Não importa o que digam, mulher pode ser o que ela quiser!”
Thaís Arkchimor

Conto: "Mulher de verdade (?) "
Escrito por Emily Cheryl, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Mia vestia um vestido azul escuro, colado em seu corpo. No início, não se sentiu muito 
confortável, parecia estar usando uma máscara. Mas agora parecia que o vestido tinha sido feito
exatamente para ela.
Ainda dentro do carro, quase chegando, Mia digitou uma mensagem de texto para sua mãe.
“Estou quase chegando, beijos, mãe”. Pouco depois teve sua resposta: “Beijos, filha, me dê
notícias. Boa festa, aproveite suas amigas”.
Ao chegarem na entrada, Mia se espantou. Era um lugar muito bonito, todos muito bem
arrumados. Ficou feliz por estar ali.
Ela estava junto com mais três amigas. Juntas, elas se dirigiram ao bar. Nathy e Catarina pediam
as bebidas enquanto Priscila se dirigia a Mia.
- Tem um cara te olhando bem ali. Muito gato.
Mia olhou para trás, indiscreta. O rapaz fixou seus olhos nos dela involuntariamente.
- Não, Mia! – Priscila suspirou. – Não pode ser tão na cara!
- Como faço? – Ela perguntou, sincera.
- Aqui estão as bebidas. – Nathy disse.
- O que é isso? – Mia olhou para seu copo, que estava meio rosa.
- Não pergunte, apenas beba. Você vai se soltar rapidinho e curtir mais a festa! Estamos aqui
com você, fica tranquila.
Mia olhou para Priscila procurando apoio.
- Vamos, Mia, você vai poder conquistar aquele cara, não está tudo perdido.
Pensou um pouco, balançada. Mas ela estava ali para rir e para experimentar coisas novas,
dando uma chance para ela mesma. Pegou o copo e deu um gole. E mais um e mais outro.
Quando viu, seu copo já estava vazio.
- Estamos vendo aqui uma nova mulher! – Catarina gritou, erguendo seu copo.
Todas brindaram.
Depois do quarto copo e de estar conversando com o terceiro rapaz da noite, Mia se sentia
revigorada como nunca. Após dois anos de faculdade, finalmente estava em uma festa com suas
amigas. Segura de si, jogava uma conversa descontraída com o acompanhante, que se intitulava
Jhony. Nathy estava ao seu lado, conversando com uma garota.
Mia beijou o rapaz, que retribuiu com vontade. O local era bem escuro, era mais de uma da
manhã. Sentiu uma empatia boa com ele e segurou forte seus cabelos. Ele levou seu corpo para
junto ao dela.
- Vem comigo? – Ele perguntou.
- Para onde?
- Meu carro, a gente fica mais a sós.
Mia olhou para Nathy, mas ela estava entretida na sua própria conversa. Pegou o copo da mão
da amiga, chamando sua atenção, e virou todo o conteúdo em sua garganta.
- Ei! Minha bebida!
- Estou saindo. – Entregou-lhe o copo vazio.
- Onde vai?
- Pro carro com ele. – Mia apontou para Jhony e Nathy arregalou os olhos por um instante. –
Não se preocupe. Eu nunca estive melhor. É rapidinho, se eu demorar, ligue para a emergência.
– E riu com sua brincadeira.
- Tudo bem então. – Virou para Jhony. – Estou de olho.
E os dois seguiram até o carro.
Mia sentia-se tão segura que estava se desconhecendo. Estava ela, finalmente, sendo a mulher
que queria ser? Uma mulher sem medos, sem traumas?
Dentro do carro, ela e Jhony trocavam longos beijos enquanto ele colocava a mão abaixo da sua
cintura. Era difícil para ela acreditar que no início do dia não sabia se 
Sem responder, parecendo que tinha levado um tapa, Mia saiu do carro. Resolveu não passar
perto das amigas. Só queria sua casa, seus livros, suas séries. Pediu um Uber tremendo e foi
embora desnorteada, com a cabeça pulsando.
Bateu a porta do quarto e arrancou aquele vestido do corpo, colocando um pijama enquanto
deitava em sua cama. Agarrou o travesseiro e chorou. Mia sentia-se mal, incapaz, vulnerável.
Aqueles fantasmas nunca a deixariam, ela nunca seria uma mulher de verdade.
- Filha? – Era sua mãe batendo na porta. – Está tudo bem? Por que não me avisou que estava
chegando?
Mia não respondeu, não tinha forças, apenas puxava o ar fortemente para suprir seus pulmões.
Com a falta de resposta, sua mãe resolveu entrar no quarto. Ao ver a filha, correu e sentou-se
ao seu lado.
- Mia, o que você tem? Aconteceu algo na festa, filha? Alguém te machucou?!
- Não, mãe, ninguém me machucou. Eu que não faço nada direito. – Sua maquiagem se borrava
com suas lágrimas.
- O que você não faz direito? Você faz tudo tão bem.
- Eu não sou igual às minhas amigas, mãe. Eu não sou. Não me encaixo. Também não sirvo pra
ser respeitada sem ser julgada...
O coração da mãe se apertou. Ela sabia sobre o trauma da filha, uma das coisas que mais a
atormentava. Sua filha era uma mulher perfeita, ela tinha certeza disso, independentemente de
qualquer coisa. E sempre seria.
- Filha... Você se lembrou de algo durante a festa?
- Sim.
- Sentiu medo?
- Muito.
A mãe engoliu em seco. As memórias vibravam em sua mente, sempre parecia que algo
esmagava seu coração quando pensava que foi a responsável por deixar a filha na casa da tia
para que pudesse trabalhar poderia ter causado tantas mudanças, que o sobrinho abusaria da
menina e a obrigaria a ficar calada.
Ao viver nessa sombra, a mãe também sofria, sofria muito. Mas ver Mia daquela forma era sua
maior dor. Como o primo era menor de idade, nada foi feito pela justiça, a família entrou em um
conflito e os dias foram difíceis de suportar. A mãe tinha que ser forte, tinha que convencer sua
filha de que ela era mais guerreira do que imaginava. Juntou forças e disse:
- Mia, vou te falar algo muito sério, você vai me ouvir?
- Vou tentar, mãe, prometo.
- Primeiro, meu amor, você não tem que ser igual a ninguém para se sentir bem. Não tem nada
de errado em querer ficar em casa ao invés de sair para as festas. Todos nós somos diferentes,
tenho certeza que suas amigas também são diferentes umas das outras. – Ela respirou fundo. –
Caso elas sejam mesmo suas amigas, não vão deixar de te incluir em outros programas só porque
você não tem uma conexão legal com esse tipo de evento. E isso não te torna menos e nem mais
que elas.
- Mas, mãe, elas são tão confiantes.
- E você também é. Mas caso queira, filha, podemos voltar com as sessões com a psicóloga, o
que acha? – Ela acariciou os cabelos de Mia, preocupada.
A mãe não teve dinheiro para poder pagar sessões para ela mesma, devido a culpa que
carregava, mas juntou o que pôde para conseguir auxílio psicológico para a filha durante um
bom tempo, até que Mia disse que queria parar as sessões para ver como ficaria sem elas. Tinha
dado certo, até agora. Porém a mãe tinha consciência que um trauma deve ser curado ao seu
tempo, sem pressão, mas sim com compreensão.
- Acho bom, me faria bem. – Mia suspirou, tentando parar de chorar. – Hoje na festa um menino
ficou meio bravo comigo porque eu falei que queria ir embora e parar de ficar com ele...
A mãe demorou uns segundos para formular uma resposta. Engoliu o choro, ela era uma mulher
forte. Queria compreender a filha, ajudá-la, ter sua confiança, e faria de tudo para isso.
- Ele tem que te respeitar, não importa quando você queira parar. Não é não. Você sabe disso,
não sabe, Mia? Ninguém tem direito de te obrigar a nada. Ninguém.
- Sim... – Baixou o olhar. – Sabe, mãe... Às vezes me sinto muito bem, mas outras vezes me sinto
despedaçada, buscando como colar meus pedaços um a um... Sinto que não sou uma mulher de
verdade, como aquelas mulheres bonitas que parecem ser tão felizes, ou mesmo como as
meninas que vejo diariamente. É difícil ser comparada assim. Elas parecem ser tão respeitáveis...
Tão seguras de si.
- Mia, me escute. Você é tão mulher quanto qualquer outra. Diferenças não definem mulheres
piores ou melhores. São apenas diferenças. Todas continuam mulheres, lindas, fortes e inteiras,
assim como você. Você é uma mulher inteira, Mia.
Mia fechou os olhos, sentindo o coração afagado pelas palavras da mãe, que a puxou para um
abraço apertado. Quando Mia parava para analisar o carinho da mãe, suas conquistas diárias, a
amizade de suas amigas, era evidente o quanto era amada e o quanto merecia ser feliz. Sempre
feliz. E com a última frase da mãe, Mia pôde abrir um sorriso genuíno, concordando, em seu
íntimo, com aquelas palavras verdadeiras, cheias de ternura.
- Não existe isso de mulher de verdade, filha. Você tem que ser você. Isso já basta para ser
mulher. Isso já basta para ser respeitada.
Mia vestia um vestido azul escuro, colado em seu corpo. No início, não se sentiu muito 
confortável, parecia estar usando uma máscara. Mas agora parecia que o vestido tinha sido feito
exatamente para ela.
Ainda dentro do carro, quase chegando, Mia digitou uma mensagem de texto para sua mãe.
“Estou quase chegando, beijos, mãe”. Pouco depois teve sua resposta: “Beijos, filha, me dê
notícias. Boa festa, aproveite suas amigas”.
Ao chegarem na entrada, Mia se espantou. Era um lugar muito bonito, todos muito bem
arrumados. Ficou feliz por estar ali.
Ela estava junto com mais três amigas. Juntas, elas se dirigiram ao bar. Nathy e Catarina pediam
as bebidas enquanto Priscila se dirigia a Mia.
- Tem um cara te olhando bem ali. Muito gato.
Mia olhou para trás, indiscreta. O rapaz fixou seus olhos nos dela involuntariamente.
- Não, Mia! – Priscila suspirou. – Não pode ser tão na cara!
- Como faço? – Ela perguntou, sincera.
- Aqui estão as bebidas. – Nathy disse.
- O que é isso? – Mia olhou para seu copo, que estava meio rosa.
- Não pergunte, apenas beba. Você vai se soltar rapidinho e curtir mais a festa! Estamos aqui
com você, fica tranquila.
Mia olhou para Priscila procurando apoio.
- Vamos, Mia, você vai poder conquistar aquele cara, não está tudo perdido.
Pensou um pouco, balançada. Mas ela estava ali para rir e para experimentar coisas novas,
dando uma chance para ela mesma. Pegou o copo e deu um gole. E mais um e mais outro.
Quando viu, seu copo já estava vazio.
- Estamos vendo aqui uma nova mulher! – Catarina gritou, erguendo seu copo.
Todas brindaram.
Depois do quarto copo e de estar conversando com o terceiro rapaz da noite, Mia se sentia
revigorada como nunca. Após dois anos de faculdade, finalmente estava em uma festa com suas
amigas. Segura de si, jogava uma conversa descontraída com o acompanhante, que se intitulava
Jhony. Nathy estava ao seu lado, conversando com uma garota.
Mia beijou o rapaz, que retribuiu com vontade. O local era bem escuro, era mais de uma da
manhã. Sentiu uma empatia boa com ele e segurou forte seus cabelos. Ele levou seu corpo para
junto ao dela.
- Vem comigo? – Ele perguntou.
- Para onde?
- Meu carro, a gente fica mais a sós.
Mia olhou para Nathy, mas ela estava entretida na sua própria conversa. Pegou o copo da mão
da amiga, chamando sua atenção, e virou todo o conteúdo em sua garganta.
- Ei! Minha bebida!
- Estou saindo. – Entregou-lhe o copo vazio.
- Onde vai?
- Pro carro com ele. – Mia apontou para Jhony e Nathy arregalou os olhos por um instante. –
Não se preocupe. Eu nunca estive melhor. É rapidinho, se eu demorar, ligue para a emergência.
– E riu com sua brincadeira.
- Tudo bem então. – Virou para Jhony. – Estou de olho.
E os dois seguiram até o carro.
Mia sentia-se tão segura que estava se desconhecendo. Estava ela, finalmente, sendo a mulher
que queria ser? Uma mulher sem medos, sem traumas?
Dentro do carro, ela e Jhony trocavam longos beijos enquanto ele colocava a mão abaixo da sua
cintura. Era difícil para ela acreditar que no início do dia não sabia se 
Sem responder, parecendo que tinha levado um tapa, Mia saiu do carro. Resolveu não passar
perto das amigas. Só queria sua casa, seus livros, suas séries. Pediu um Uber tremendo e foi
embora desnorteada, com a cabeça pulsando.
Bateu a porta do quarto e arrancou aquele vestido do corpo, colocando um pijama enquanto
deitava em sua cama. Agarrou o travesseiro e chorou. Mia sentia-se mal, incapaz, vulnerável.
Aqueles fantasmas nunca a deixariam, ela nunca seria uma mulher de verdade.
- Filha? – Era sua mãe batendo na porta. – Está tudo bem? Por que não me avisou que estava
chegando?
Mia não respondeu, não tinha forças, apenas puxava o ar fortemente para suprir seus pulmões.
Com a falta de resposta, sua mãe resolveu entrar no quarto. Ao ver a filha, correu e sentou-se
ao seu lado.
- Mia, o que você tem? Aconteceu algo na festa, filha? Alguém te machucou?!
- Não, mãe, ninguém me machucou. Eu que não faço nada direito. – Sua maquiagem se borrava
com suas lágrimas.
- O que você não faz direito? Você faz tudo tão bem.
- Eu não sou igual às minhas amigas, mãe. Eu não sou. Não me encaixo. Também não sirvo pra
ser respeitada sem ser julgada...
O coração da mãe se apertou. Ela sabia sobre o trauma da filha, uma das coisas que mais a
atormentava. Sua filha era uma mulher perfeita, ela tinha certeza disso, independentemente de
qualquer coisa. E sempre seria.
- Filha... Você se lembrou de algo durante a festa?
- Sim.
- Sentiu medo?
- Muito.
A mãe engoliu em seco. As memórias vibravam em sua mente, sempre parecia que algo
esmagava seu coração quando pensava que foi a responsável por deixar a filha na casa da tia
para que pudesse trabalhar poderia ter causado tantas mudanças, que o sobrinho abusaria da
menina e a obrigaria a ficar calada.
Ao viver nessa sombra, a mãe também sofria, sofria muito. Mas ver Mia daquela forma era sua
maior dor. Como o primo era menor de idade, nada foi feito pela justiça, a família entrou em um
conflito e os dias foram difíceis de suportar. A mãe tinha que ser forte, tinha que convencer sua
filha de que ela era mais guerreira do que imaginava. Juntou forças e disse:
- Mia, vou te falar algo muito sério, você vai me ouvir?
- Vou tentar, mãe, prometo.
- Primeiro, meu amor, você não tem que ser igual a ninguém para se sentir bem. Não tem nada
de errado em querer ficar em casa ao invés de sair para as festas. Todos nós somos diferentes,
tenho certeza que suas amigas também são diferentes umas das outras. – Ela respirou fundo. –
Caso elas sejam mesmo suas amigas, não vão deixar de te incluir em outros programas só porque
você não tem uma conexão legal com esse tipo de evento. E isso não te torna menos e nem mais
que elas.
- Mas, mãe, elas são tão confiantes.
- E você também é. Mas caso queira, filha, podemos voltar com as sessões com a psicóloga, o
que acha? – Ela acariciou os cabelos de Mia, preocupada.
A mãe não teve dinheiro para poder pagar sessões para ela mesma, devido a culpa que
carregava, mas juntou o que pôde para conseguir auxílio psicológico para a filha durante um
bom tempo, até que Mia disse que queria parar as sessões para ver como ficaria sem elas. Tinha
dado certo, até agora. Porém a mãe tinha consciência que um trauma deve ser curado ao seu
tempo, sem pressão, mas sim com compreensão.
- Acho bom, me faria bem. – Mia suspirou, tentando parar de chorar. – Hoje na festa um menino
ficou meio bravo comigo porque eu falei que queria ir embora e parar de ficar com ele...
A mãe demorou uns segundos para formular uma resposta. Engoliu o choro, ela era uma mulher
forte. Queria compreender a filha, ajudá-la, ter sua confiança, e faria de tudo para isso.
- Ele tem que te respeitar, não importa quando você queira parar. Não é não. Você sabe disso,
não sabe, Mia? Ninguém tem direito de te obrigar a nada. Ninguém.
- Sim... – Baixou o olhar. – Sabe, mãe... Às vezes me sinto muito bem, mas outras vezes me sinto
despedaçada, buscando como colar meus pedaços um a um... Sinto que não sou uma mulher de
verdade, como aquelas mulheres bonitas que parecem ser tão felizes, ou mesmo como as
meninas que vejo diariamente. É difícil ser comparada assim. Elas parecem ser tão respeitáveis...
Tão seguras de si.
- Mia, me escute. Você é tão mulher quanto qualquer outra. Diferenças não definem mulheres
piores ou melhores. São apenas diferenças. Todas continuam mulheres, lindas, fortes e inteiras,
assim como você. Você é uma mulher inteira, Mia.
Mia fechou os olhos, sentindo o coração afagado pelas palavras da mãe, que a puxou para um
abraço apertado. Quando Mia parava para analisar o carinho da mãe, suas conquistas diárias, a
amizade de suas amigas, era evidente o quanto era amada e o quanto merecia ser feliz. Sempre
feliz. E com a última frase da mãe, Mia pôde abrir um sorriso genuíno, concordando, em seu
íntimo, com aquelas palavras verdadeiras, cheias de ternura.
- Não existe isso de mulher de verdade, filha. Você tem que ser você. Isso já basta para ser
mulher. Isso já basta para ser respeitada.
Conto: "Serena"
Escrito por Udine Tausz, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Serena sonhava uma vida toda sua, de liberdade e surpresas, de caminhos sem dar em lugar nenhum, só parar para um gelato em Roma ou um chá em Londres ou um café em Paris.
Sonhava que voaria no mais alto dos céus ou desceria no mais profundo da Terra.
Desejaram para ela, porém, o que se desejava para toda a mulher: aprendeu a cozinhar porque a avó dizia que '“marido tem que ser bem alimentado, senão não volta”; aprendeu a servir com a mãe, porque “marido tem que ser bem servido ou vai embora” ; aprendeu muitas coisas de mulher ainda menina, mas seu sonho continuava a baterem seu peito.
Desejaram para ela modos, costumes, vestidos, atitudes. Que não lhe serviam, mas ela usava, porque senão vai ficar igual a tia, que não tem marido nem filhos nem nada, porque quem vai cuidar de você? Quem vai sustentar você? Quem vai prover sua velhice?
Serena um dia olhou a caixa de fotos da família. Não tinha fotos da tia-coitada-encalhada-não-tem-marido. Serena perguntou e todo mundo dizia “foi por aí. Disse que ia fazer sua própria estrada" e Serena sentia uma ponta de inveja no comentário de cada mulher. “Foi por aí fazer a vida, não é flor que se cheire, não é mulher pra casar”, ouviu dos homens, e cada frase tinha um quê de desprezo e desejo.
Serena achou um dia uma foto elegante com um endereço e um número de telefone. Ah, mas a foto era antiga, será? Perguntou a mãe, que respondeu azeda “minha irmã se perdeu no mundo, porque quer saber dela”. Só um nome, pedia Serena. A mãe, com olhos cheios d’água e a avó, com eles cheios de mágoa, responderam em coro: “Serena”.
Serena abriu-se em sorriso e abraçou a foto. A foto da tia elegante, com sorriso nos olhos e nos lábios, com pose de quem conquistou o mundo. “Nunca quis ser mulher pra homem nenhum”, repetia a avó, “mau exemplo, devassa, ordinária”. A mãe baixou os olhos e sorriu triste. “Bota essa foto de volta onde achou”, mandou.
Serena obedeceu, mas a mudança dentro dela já havia se movido. Seus sonhos começaram a gritar e a não se conformar. Um dia achou na mesinha um papel com um número. Um número de celular... como viera parar ali?, pensou. Só podia haver uma explicação, mas Serena não questionou o achado por muito tempo. Tomou coragem. Ligou.
O encontro foi o primeiro passo. A tia, a Serena da foto, não era tão mais jovem. E contou a Serena que o mundo não é para mulheres, mas que era preciso que fosse. E que as mulheres deviam conquistar seu lugar no mundo e não aceitar seus papéis preconcebidos pelos homens e repetidos pelas mulheres que não puderam (ou não tiveram coragem de) mudar.
Serena ouviu-a contar sobre as dificuldades, os medos, as ameaças, os terrores. Ficou assustada e aflita. Quando, porém, a tia começou a contar sobre as conquistas, as alegrias, os romances, as viagens e começou a brilhar como se revivesse cada momento, Serena perdeu o medo e tomou uma decisão.
Serena tem hoje a idade que sua tia tinha quando se encontraram pela primeira vez. Encontraram-se muitas vezes, desde então e, segundo a própria Serena, uma de suas melhores conquistas foi reaproximar as irmãs; as pazes com a mãe levou outros bons anos.
Serena hoje sabe na pele que a vida não é fácil para quem quer seguir seu próprio caminho. Enfrentou de tudo, de todo o jeito, muitas vezes teve que ceder e voltar atrás. Saiu de relacionamentos abusivos, de empregos opressivos, da casa da mãe.
Saiu de dentro de si mesma e, quando pensava em esmorecer, a imagem da tia reluzindo naquele primeiro encontro e falando de tantas outras mulheres brilhantes e livres voltava forte para tirá-la do chão.
Serena hoje olha para o passado com nostalgia e alegria e encara o futuro com determinação.
Serena casou-se mais de uma vez até que encontrou alguém que compartilhou sua liberdade. Teve filha e filho. Ensinou-lhes o que podia sobre ser livre. Serena tem a profissão dos seus sonhos e o nome da tia para motivar-lhe a cada novo desafio. Porque, não obstante esteja perto de ser avó, Serena ainda tem muito o que fazer.
Serena foi feliz. Teve bons e maus momentos, esteve perto de abandonar tudo, viajou pelo mundo, viajou em si mesma.
Serena ouviu sua liberdade e sua vontade. E, apesar das quedas, construiu seu próprio caminho. E agora quer ensinar aos seus filhos e netos, especialmente as netas, a construir o futuro a partir de seus desejos, quer seja ele casar-se e ter filhos, quer seja ele comandar uma empresa ou se artista itinerante.
Serena não é um caso único, mas também não é a maioria. Serena quis fazer o que seu coração pedia. Enfrentou tristezas, enfrentou rejeição, enfrentou solidão. Mas não se deixou abater. Serena foi Serena em todas as suas possibilidades.
E olha para a vida do jeito que ela é.

Conto: "Manoela"
Escrito por Néka Martins, agenciada da Vivendo de Inventar.
Manoela despertou, como sempre, às 4 da madrugada. Sentia uma queimação estranha no estômago como nunca sentira em seus 90 anos. Levantou, tomou um copo d’água e voltou para cama. Sabia que se ligasse para qualquer filho ou neto, imediatamente seria socorrida, mas preferiu esperar o sol raiar e a farmácia abrir. Não queria incomodar.
Às sete horas, já na farmácia, achou estranha a forma do atendente dizer que não era grave. Retornou para sua casa bem próxima dali, se recusando a ser acompanhada, ainda conseguia andar bem com sua bengala e não abria mão da sua autonomia. Mal sentou em seu sofá e logo começaram a chegar os filhos aflitos. Ela detestava passar por isso, mas entendeu que o farmacêutico ligara para um deles.
Não recusou ajuda desta vez, sabia que algo incomum acontecia, mas estava preparada. Apanhou sua malinha de hospital, sempre deixava pronta para alguma necessidade; olhou o vestido e as ‘roupas de baixo’ impecáveis, separadas para seu enterro. Cada filho tinha sua tarefa determinada, não queria correria, não queria choradeira, não queria gastos supérfluos, estava tudo sob controle. Correu os olhos pelo quarto ouvindo o falatório de mais filhos que chegavam, ajeitou a colcha da cama, os frascos de perfumes que ganhava, mas que só usava como decoração da sua penteadeira. Abençoou o retrato da neta, para ela sempre iam suas melhores orações. Amava a todos, mas esta era a mais especial, inclusive por sua patologia grave.
No hospital percebeu que fora levada para um quarto diferente, onde viu mais aparelhos que o normal; como estava cansada, não lutou contra a sonolência inesperada que a dominou. Logo ela que não dormia durante o dia, pois tinha mais o que fazer, sonhou! Sonhou muito e, cada vez que voltava do cochilo, reconhecia o rosto de um ente querido em sua companhia, velando seu sono. Imaginava a família aglomerada na porta do hospital revezando a entrada, mas desta vez não achou ruim. Sua mente reagia de forma diferente e mergulhava no tempo...
No tempo da infância, das histórias que seus pais contavam da fuga da grande guerra para o Brasil. Lembrou que seus irmãos eram espanhóis e ela a primeira a nascer em solo brasileiro. Reviveu a dificuldade dos pais em aprender uma língua diferente e começar vida nova num novo mundo. Sua memória entregou-lhe cheiros que ela adorava sentir: da comida no fogão à lenha, da carne de porco curtida na banha, do café torrado e moído na hora. Quantas memórias afetivas foram resgatadas neste dia: o olhar carinhoso do pai, a mãe penteando sua cabeleira negra... Sua primeira cavalgada e a sensação de dominar cavalo bravo pisando fundo no estribo; a alegria de alimentar porcos e galinhas; o cansaço na colheita do algodão; a preocupação em proteger o fruto do café na geada e, principalmente, o aparato usado para se proteger na colheita do arroz; a labuta mais perigosa da roça por causa das cobras que se aninham nas touceiras.
E teve flashes da mocidade: dos terços de São João, das caminhadas até a igreja, das modas de viola, dos tios contando histórias de lobisomem no terreirão e das inúmeras vezes em que, deitada em sua cama, na imensa escuridão do sítio, se iluminava de raios de luar e brilho de estrelas. Teve as suas preferidas, enquanto não mudou para a cidade e conheceu um céu anuviado de poluição.
Sem saber o motivo, avistou seu calçado mais usado naquela época: as botinas, ou sapatão como são chamadas por gente da roça. Ela nunca calçara um salto alto, nem sapato de cristal, seu calçado oficial foi o sapatão. Ele dava firmeza pra enfrentar a terra batida, pra montar no cavalo com destreza, pra se proteger das ervas daninhas e dos animais peçonhentos; bem como fixar as barras das calças que as mulheres usavam por baixo da saia.
Resgatou a vaidade de moça que ela tinha esquecido. Os cabelos longos, muito negros, a cintura fina, as pernas firmes nunca expostas e a pele morena que o sol maltratou. Depois reviu seu príncipe encantado chegando numa carroça e despertando-lhe a paixão. Casaram, construíram um lar, tiveram filhos na alegria de seu castelo.
Mas castelos não são realidades brasileiras. Ela sabia que na Espanha de seus antepassados existia, mas não aqui. Tinha uma casinha simples, enfeitada de flores que ela mesma plantava. Suas roupas eram quaradas ao sol, depois de lavadas com sabão de cinza que ela fazia. Os alumínios expostos serviam de espelhos, de tão bem areados com areia do rio. O leite fresco ficava junto ao fogão de lenha, para quem quisesse beber numa caneca de barro. Seu castelinho recebia de médicos a advogados da cidade, que se encantavam com a limpeza e cuidado que imperavam, mesmo com tanta humilde. Enquanto isso, seu príncipe prosperava como motorista e negociante; ela continuava na labuta do sítio e na criação dos filhos. Até sorriu ao constatar que, rotina dupla de trabalho para mulher, não é modernidade.
Voltou do sono, se remexeu um pouco, reconheceu o rosto da filha, sua companheira dos últimos anos e viu que estava assustado, mas mergulhou no oceano de lembranças que não conseguia dominar. Reviu seu castelo ruindo, dia a dia quando seu marido saía para fazer carretos e depois voltava com cheiro de perfume que não era dela, aliás, ela não usava perfume, porque não tinha. Ele era um bom homem, não bebia, não a agredia, era trabalhador, sempre fora pai amoroso; mas, talvez, nunca a tenha visto como mulher. Ela era somente a Manoela, mãe dos seus filhos, com calos nos dedos e sem esmalte nas unhas; a que criava, matava, limpava e cozinhava um porco sozinha, garantia de mistura por semanas. Naquela época era assim que faziam com os porcos, sabia que hoje era diferente, mas não podia mudar a cultura de seu tempo.
E sentiu a brisa fria do inverno, o calor escaldante do verão, a chuva macia do outono e a beleza florida da primavera. Depois ouviu o choro de cada filho, o sorriso de orgulho ao receber nos braços cada uma das quatro mulheres, para depois acolher cada um dos quatro machos. Oito vezes mãe, teve filhos para cada estação e para cada entremeio delas. E o pai deles ia e vinha, ensinado honestidade nos negócios, distribuindo carinho e doçura; coisas que ela não sabia oferecer. Tinha sido talhada no amargor, nas decepções, no aceitar sem reclamar, calçando botinas pra se manter de pé.
Novos tempos vieram, os filhos foram casando e a cidade os acolheu. Sentia falta da lida no campo, mas se há uma coisa que mulheres que calçam botinas são mestres em fazer, é se acostumar a toda e qualquer situação. A felicidade lhe sorriu inúmeras vezes com a chegada dos netos. Enxergar-se nas crianças que cresciam com conforto foi sua maior regalia. Gostava de ver os netos e netas se arrumando para os bailes, quantas moças bonitas brotaram em sua árvore familiar. Ela os aconselhava de diferentes maneiras: os homens tinham que se “encapar” pra namorar; as mulheres não podiam esquecer que “Deus colocou o lugar que se faz fio no meio das perna das muié prá levá junto e sentá em cima”; “Cêis nunca esquece que homi é leão de dois pé em busca de carne”. Sabia que tinha um jeito duro de educar as netas, mas queria que elas fossem melhores, tivessem menos filhos, estudassem e fossem livres pra conduzirem suas vidas; já que as mulheres de seu tempo não puderam fazer isso e foram infelizes.
Então, reviveu a dor daquele dia, triste dia em que ousou reclamar das traições frequentes do marido. Recebeu como resposta bofetões que nunca imaginara receber. E doeu. Doeu a dor que ela nunca imaginou existir. Foi maior que a dor dos calos, dos partos... Doeram os anos de submissão, de desejos amordaçados, de sonhos interrompidos, de servir de escada para o esposo. Foi aí que ela decidiu, sem pensar: simplesmente arrancou as botinas e, descalça, resolveu trilhar um novo caminho... Sozinha!
Dividiu a herança construída, comprou uma casa menor e prometeu ao ex-marido nunca mais lhe dirigir a palavra. Já renegara sua dignidade para se manter nos valores sociais, católicos, familiares; mas bastava. Despiu-se de preconceitos e vestiu-se do seu bem maior: sua retidão de caráter. Permitiu que seu rei deposto fosse livre para viver como quisesse e ser feliz, sem amarras, sem sua presença áspera; era também sua forma de demonstrar amor. E cumpriu sua promessa, mesmo quando ele partiu para outro plano e ela não foi se despedir.
Na nova casa passou a receber sua família, sempre oferecendo conselhos sábios. Tentou aprender a ler e escrever, mas achou complicado e desistiu depois de saber riscar o M de seu nome e identificar números. Votou, abriu poupança com o que sobrava da aposentadoria, manteve um baleiro repleto de docinhos e pacotes de biscoitos para os netos; era bom ver a alegria da molecada. Enfeitava a casa com seus vasos de flores e jamais abandonou o hábito de estar com seu lar impecável às sete da manhã. Sopas foram sua especialidade, para ela um bom caldo ajudava a resolver qualquer situação, quantas poções mágicas saíram de seu caldeirão!
Enfim, sentiu uma baita leveza depois desta sonharada toda e enxergou-se pisando num gramado macio, num belo jardim. Olhou para traz querendo voltar, mas do nada apareceu uma mulher que disse: −Manoela, filha, que bom que chegou! Estávamos à sua espera. Maravilhosa confiança, aconchego e paz abraçaram seu corpo. Pensou que reconhecera nesta mulher a mesma de alguns sonhos, em momentos que a vida fora muito dura, mas continuou a lhe ouvir: −O tempo de sofrimento acabou, você cumpriu com maestria sua missão na terra. Seu legado ficará nos seus filhos, netos, bisnetos e em todos os bons frutos que terão seu sangue correndo nas veias.
Lágrimas rolaram de seus olhos que raramente choravam. Já não precisava mais de óculos, nem de aparelho para ouvir; seus pés perderam os calos; sentia estranha disposição e estranhamente sumiram suas dores reumáticas. A mulher que exalava amor por todos os poros, continuou: −Bem vinda de volta minha menina brasileira, guerreira. Sou Maria, de Nazaré...
Para minha avó, fortaleza e ídola.

Conto: "A Mulher do Dia"
Escrito por Raíssa Dias, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Raquel saiu do trabalho, exausta. Carregava as flores e os chocolates que acabara de ganhar dos homens do escritório. Gestos vazios que significavam absolutamente nada. Se muito, apenas apontavam para uma infame tentativa deles de se sentirem bem consigo mesmos, como uma forma de compensar o descaso do dia-a-dia. No entanto, ela lutava para conseguir carregá-los, além da bolsa e da mochila do laptop, equilibrando-os pelo caminho até em casa. Sua expressão era indecifrável. 
É impressionante a cumplicidade entre os homens. Desde que se divorciara, Raquel percebeu que os homens do escritório passaram a tratá-la de forma diferente. Talvez porque ela passara a ser chefe do ex-marido, ou talvez simplesmente porque não tinha mais a figura de um homem ao seu lado, o fato é que seus colegas do sexo masculino de repente começaram a tratá-la com certo desdém.
Já fazia oito meses desde a separação, mas o divórcio legal só saíra há dois meses. Raquel recebeu a proposta para se tornar sócia antes disso, e havia assumido o cargo recentemente. Desde o início, ela sabia que outras pessoas – todos homens – também tinham interesse na vaga, porém o sócio majoritário, por algum motivo, a escolheu. A partir de então, ela era a única mulher a compor o quadro de advogados seniores.
Chegou ao prédio, e o porteiro a ajudou a levar até o elevador todos aqueles presentes, símbolos que demonstravam como o Dia da Mulher não significa nada para os homens além de um dia para fazer agrados, esperando, obviamente, receber gentilezas em troca. Levou algum tempo para encontrar as chaves na bolsa, e abriu a porta do apartamento, atirando as flores e caixas de chocolate no sofá, sem nenhuma cerimônia. Sentou-se na poltrona em frente e, enquanto observava detalhadamente cada um dos itens ali dispostos, repassou mentalmente o inusitado dia de trabalho que acabara de ter:
- Feliz Dia da Mulher! Cadê meu sorriso?
Foi assim que Raquel foi recebida no trabalho, já logo de cara, pelo chefe. Sorriu educadamente, enquanto pensava, internamente: “Aposto que ele não fica pedindo para os homens sorrirem”.
- Fala, Raquel! Hoje é dia de queimar sutiã, né?
Já essa veio de um dos amiguinhos do ex-marido e, a ele, ela nem se deu ao trabalho de responder. Apenas encarou-o profundamente, lançando um olhar fuzilante.
Ao longo do caminho até sua sala, se deparou com vários cumprimentos desse tipo. Não sabia se estava sendo parabenizada ou ironizada pelo Dia das Mulheres. E quando Raquel entrou na sala, os presentes já estavam ali, esperando por ela. É claro que nenhum deles entregaria pessoalmente, não dariam a ela esse mérito tão descaradamente. Todos os presentes eram absolutamente impessoais, nenhum cartão, nenhuma mensagem ou assinatura. Apenas flores e chocolates genéricos e provavelmente comprados na loja da esquina, poucos minutos antes de ela chegar.
Enquanto os analisava de longe, Marco Aurélio, sócio majoritário da firma e seu chefe, apareceu na greta da porta entreaberta e disse:
- Esses presentes são uma homenagem de todos nós do escritório pelo Dia da Mulher. Você sabe que é a única mulher aqui, além das estagiárias e da recepcionista, portanto, é motivo de orgulho para nós. Por isso, decidimos fazer uma surpresa à altura!
“A única mulher além das estagiárias e da recepcionista”, ela repetiu mentalmente. Então, claramente, não era a única mulher. Era como se eles se sentissem na obrigação de tratá-la de forma diferente porque ela era sócia agora. E porque havia se divorciado. Ela apenas acenou com a cabeça, agradecendo, e começou a tirar o laptop da mochila. Marco Aurélio saiu e fechou a porta.
Rachel e o ex-marido, Bruno, se conheceram na faculdade. No último ano, começaram a fazer estágio na mesma firma e, quando se formaram, ambos foram admitidos. Casaram-se quando completaram dois anos de escritório. E agora, três anos depois, divorciaram-se devido a uma suspeita de Bruno de que Raquel o estaria traindo. O que não era verdade.
Bruno também estava concorrendo ao cargo de sócio, junto com dois outros advogados. Raquel acha que foi escolhida menos por sua competência profissional e mais pela boa vontade que tinha em realizar até mesmo tarefas que não eram suas. Essa, aparentemente, era uma característica que Marco Antônio valorizava, pois estava constantemente pedindo que Raquel fizesse uma ou outra coisa para ele, como pegar um café, buscar um processo ou fazer a prestação de contas do mês. Como tinha múltiplas habilidades, Raquel estava, de certa forma, acostumada a ser explorada. Lembrava-se de ter sido assim desde sua adolescência. Sempre era solicitada a realizar atividades que não eram dela, e a se desdobrar para conseguir dar conta de tudo. Porém, hoje, adulta e mais experiente, Raquel entendia que isso estava errado e conseguiu colocar um limite nas outras pessoas – normalmente amigos e familiares – mas ainda não havia conseguido fazer isso no trabalho. Já era ruim o suficiente ter que ver o ex-marido todos os dias no trabalho e, como se isso não bastasse, ainda tinha que aguentar as ironias dos outros advogados, o assédio moral, gaslighting, mansplaining e todas as outras expressões em inglês que de repente ela passou a notar com mais acurácia no seu dia-a-dia.
Assim, desde que se tornara sócia, Raquel tem aguentado o abuso psicológico ao qual tem sido submetida diariamente no trabalho. E naquele Dia da Mulher, especificamente, parecia que tudo estava intensificado. Tanto as atitudes dos colegas de trabalho, quanto suas reações. Após ouvir tantas ironias e expressões disfarçadas da supremacia masculina, estava atingindo seu limite. O ápice foi quando, ao sair de sua sala para o almoço, encontrou no corredor o único homem do escritório que ainda não a havia “parabenizado”, seu ex-marido.
Assim que a avistou, Bruno lançou um sorriso malicioso e começou a caminhar na direção dela. Tirou do bolso um bombom em formato de flor, e entregou a ela:
- Feliz Dia da Mulher, Raquel! Que esta flor-chocolate possa transmitir a estima que tenho por você. – Disse ele, estendendo o bombom para ela.
Raquel, muito surpresa, pegou o bombom e agradeceu. Colocou-o na bolsa e saiu para almoçar.
Enquanto fazia uma refeição especial num renomado restaurante da região – pois achou que merecia esse luxo -, Raquel refletiu sobre os acontecimentos do dia. Sentia-se mal com a troça dos colegas, porém surpreendera-se com o gesto do ex-marido. Ele não entrou no combo de presentes junto com os outros homens do escritório, mas decidiu entregar o mimo pessoalmente.
Retirou o bombom em formato de flor da bolsa e admirou-o por alguns segundos. Colocou-o ao lado do prato, enquanto terminava de almoçar e, tão logo depôs os talheres no prato vazio, pegou o bombom e começou a abrir o papel alumínio vermelho.
Qual foi a sua surpresa quando se deparou com um bombom de chocolate branco? Após seis anos de relacionamento, Bruno sabia que ela detestava chocolate branco. Aquilo não passou de uma pegadinha do marido, para “transmitir a estima” que ele tem por ela. Pelo menos isso havia ficado bem claro no presente.
Tentou embrulhar o bombom da melhor forma possível e guardou-o de volta na bolsa. Fechou a conta do restaurante e se levantou, decidida, marchando de volta para o escritório.
Encontrou todos os homens na copa, almoçando e conversando banalidades, rindo. Apenas dispendeu um olhar demorado a cada um deles, sentados à mesa, e em seguida dirigiu-se à sua sala. Guardou o laptop e seus outros pertences de volta na mochila, agarrou as flores e os chocolates, e seguiu novamente em direção à copa.
Dessa vez, eles estavam todos em silêncio, à espera do que ia se suceder. Raquel, de pé, com uma expressão sublime e olhando para eles de cima, disse:
- Estou indo embora. Me dei o direito de sair mais cedo hoje. E, como eu trabalho o dobro, talvez até o triplo, do que todos vocês, acho que ninguém vai querer discordar disso, certo? – Ela manteve o olhar austero. Respirou fundo e continuou. – A partir de hoje, acabaram as brincadeirinhas maldosas, a exploração e o assédio. Sou uma advogada sênior, sou sócia desta empresa, e estou aqui para exercer minha função. Se quiserem um café, peguem vocês mesmos. Se precisarem de um processo, busquem vocês mesmos. Tenho certeza de que vocês são capazes! E tenho certeza que conseguem sobreviver sem mim pelo resto do dia, não é mesmo?
A expressão nos olhares deles era indescritível. Nunca haviam visto e, provavelmente, nem nunca imaginaram esta cena acontecendo. Mantiveram-se em silêncio, do início ao fim, apenas escutando o que Raquel tinha a dizer. Isso também era inédito.
- E quanto aos chocolates, vou comer todos! Inclusive o seu, Bruno.
Virou-se a caminhou, resoluta, em direção à saída. Em direção à liberdade.
Conto: "DIFERENTE"
Escrito por Irine C. Syrogiannis, membro da Wolfpack.
Nunca percebera o quanto era facilmente influenciada. O quanto se
deixava afetar pela opinião dos outros, sobre si mesma.
"Você é diferente das outras meninas" lhe diziam, com ar de
aprovação e, tola, enchia-se de orgulho.
Era diferente, de fato. Talvez por isso as outras meninas não
gostassem de brincar com ela, porque era diferente. Tudo bem, devia
ter orgulho disso. Era superior as demais, não é?
"Você não é como as outras, gosta de coisas legais", ouvia e se sentia
privilegiada. Podia não ter uma aparência como a delas, ser tão magra
quanto ou com o cabelo igual. Mas tinha acesso ao que mais
desejavam. Era próxima dos garotos, conhecia seus mundos. O que
mais uma garota poderia querer?
Pelo menos acreditava que conhecia. Aprendera a rir de piadas sobre
"coisas de mulherzinha", afinal não a afetavam. Ela era diferente,
certo? Conquistara a aprovação masculina.
Acontece que também gostava de "coisas de mulherzinha", gostava
de se arrumar e maquiar. Aprendera como queria se vestir e manter
os cabelos.
"De vez em quando até esqueço que você é mulher! Você é tipo
um brother pra mim"! Ouvia, mesmo arrumada de acordo com o que
lhe diziam que uma mulher devia usar, tendo a doce certeza de que
era diferente. Feminina sim, mas jamais como as outras, tinha
o status de garota legal, que privilégio.
Sentia-se feliz em não ser como as outras. Mulheres eram falsas e
fúteis, certo? Sempre competindo pela atenção dos homens.
Ah, era tão superior a tudo isso. Conhecia verdadeiramente os
homens e só andava entre eles. Nunca seria outra vadia burra,
merecedora de ser usada... Claro.
Viveu de forma confortável com isso a vida inteira, era uma mulher
forte e independente, criada por outra mulher forte e independente.
Dona de sua própria vida, sem precisar prestar contas a ninguém e
capaz de resolver tudo sozinha. Definitivamente não nascera para ser
uma donzela indefesa.
Esse era o papel das mulheres "normais", certo? Trancadas em suas
torres, aguardando o príncipe que lhe traria seu final feliz!
Pelo menos até que gerasse a próxima princesa. Então morreria, para
que seu marido casasse com a madrasta má, dando início ao próximo
conto de fadas.
Porém não nascera para isso, era diferente.
Viveu tranquilamente com suas certezas, sem jamais questioná-las,
até o dia em que as viu.
Em um evento qualquer, em um lugar simples, mas bem decorado,
elas conquistavam o espaço arranjado para apresentações, tomandoo
para si, como ninfas brincando no meio da floresta.
Dançavam e riam, enquanto compartilhavam doces e segredos.
Assistiu estupefata questionarem com graça e elegância verdades que
se forçara a engolir. Questionando padrões e comportamentos,
imbuídas de um poder e companheirismo que sempre ouvira não ser
natural das mulheres.
Eram lindas, poderosas e livres, sem que ninguém precisasse bater
palmas ou aprovar seus atos. Não buscavam aplausos, pois eram
plenas em si mesmas e para si mesmas.
Lá estavam, desmascarando as farsas, pulsando com tanto amor em
sua dança e atuação, que deixavam todo o ambiente com um ar
mágico.
De repente, sem que sequer entendesse os motivos, assistindo-as
falar de beleza em várias formas, afastando o feminino de maquiagens
e padrões, sentiu os olhos arderem e lágrimas rolarem por sua face.
Sentia que algo em seu interior, a muito esquecido, despertava e
queria fazer parte da magia que presenciava, mas não conseguia
adentrar naquela sintonia.
Entre risos, segredos e encantamento, tinham arrancado de seus
olhos o véu e constatava que não era tão diferente assim. Embora
achasse que sempre soube, ali viu se revelar a verdade sobre o ser
mulher e o que era o molde de boneca ideal, no qual jamais se
enquadrara.
Percebia a própria sacralidade em ser o que era, não por ser diferente
de todas as outras, mas sim por compartilhar com elas feridas e
batalhas, que apenas outras mulheres entenderiam.
Havia uma longa jornada para se travar, desconstruindo tudo que
aprendera até então sobre força e feminilidade, sobre padrões e ser
mulher. Porém ali começara sua libertação.
Não se preocupava mais em ser igual ou diferente, bastava ser ela
mesma.

Conto: "A QUINTA FILHA"
Escrito por Day Fernandes, agenciada da Vivendo de Inventar.
Sorbonne, França. 1894. 
Uma grande quantidade de neve cobria o chão enquanto Eve se preparava para a caminhada até o laboratório. Olhando da janela do sótão no qual ela morava havia dois anos, a camada fria e branca não parecia tão espessa. Ela respirou fundo, deixando o pescoço pender um pouco para o lado enquanto avaliava o quanto de suas botas afundariam ao descer do alpendre.
Talvez uns cinco centímetros. Não, sete. Sete centímetros.
A quinta filha dos ilustres professores parisienses Conrad e Meredith não era vista com bons olhos. Não depois que a mãe morrera e eles perderam toda a fortuna, sem qualquer esperança de conseguir um bom casamento. Não que Eve se importasse com o fato. Sua preocupação estava além das roupas e moedas valorizadas pela maioria da população francesa.
A fina capa de veludo não era o suficiente para aplacar o vento gelado de forma alguma, por isso ela tivera de vestir também dois xales de crochê, um por cima do outro. Pelo menos tinha conseguido seu diploma, pensou orgulhosa. Aquilo por si só era um feito e tanto. Ela era física, afinal! Uma mulher. Diplomada em física. E matemática! Às vezes, acordava a noite e se beliscava, pensando estar em um sonho. Mas era real. A quinta filha conseguira se diplomar. Aquela que ninguém imaginou ser capaz de ir muito além de um casamento arranjado. O trabalho de toda uma vida valera a pena. Cada minuto passado na sala de aula. Cada dia em que seu estômago doía até extrair o ar de seus pulmões por não ter nada com o que se alimentar antes de assumir o turno como monitora depois das aulas.
Um sorriso se alargou por seu rosto enquanto ela dava o primeiro passo em direção às ruas cobertas de neve. E seu pé afundou exatos sete centímetros, como ela previra. Eve era boa com números e teorias em geral. Sua vida não havia mudado muito após concluir a graduação, mas pelo menos agora ela ganhava o bastante para se manter de pé, trabalhando no laboratório do professor Jeremy Gabel. E ele ainda havia arranjado aquele encontro entre ela e o tal Pierre, instrutor da Escola de Física e Química. Só esperava que o sujeito não fosse um dos tipos arrogantes que não acreditam que as mulheres também tem cérebro. Seria muito mais difícil conseguir convencê-lo a ceder-lhe algum espaço se esse fosse o caso.
Eve ajeitou as mangas longas do vestido para que cobrissem o máximo de pele possível enquanto caminhava. Suas economias não renderam o suficiente para comprar luvas novas. Em vez disso, ela preferira gastar o dinheiro com alguns equipamentos que já passavam da hora de serem trocados. A passos apressados, ela torcia para que o inverno fosse embora muito em breve.
Vinte e três minutos e quinze segundos depois, Eve parava em frente às portas de ferro do laboratório de Pierre. A paisagem das construções de pedra se misturava com a neve e ela esfregava as mãos uma à outra numa fraca tentativa de aquecê-las.
E se ele não estivesse ali?
Ela conteve um gemido antes de bater com as costas da mão sobre a placa de metal. Chegara na exata hora combinada. Se o tal instrutor não aparecesse só podia significar uma coisa: ele não aceitaria dividir seu laboratório com uma mulher. E isso seria uma ofensa sem precedentes à dignidade de Eve. Não que o fato não ocorresse com frequência. Ela já tentara falar com outros três cientistas meses antes e sequer fora recebida.
Eve bateu na porta mais uma vez, usando um pouco mais de força que o necessário. Em seu interior, uma centelha de raiva pelo tal Pierre começava a nascer. Ela imaginava o rosto do homem, com um bigode alongado, olhos caídos e orelhas grandes que ela adoraria puxar enquanto dizia uma ou duas palavras que deixariam até os cavalheiros de uma casa de jogos envergonhados.
Maldito cient...
Antes que terminasse de praguejá-lo em pensamento, a porta se abriu.
— Bom dia. Posso ajudá-la, senhorita?
Ele não tinha bigodes. Nem uma barriga proeminente, e as orelhas eram de um tamanho normal.
— Eu sou Eve Swanisk.
— Ora, Eve, seja bem vinda! — Ela ouviu alguém se aproximar por trás de Pierre. Não precisou vê-lo para saber que era o professor Jeremy. — Que bom que veio.
— É bom vê-lo também, professor.
— Vamos, Pierre. Não deixe a moça congelar aí fora. — Jeremy riu e Pierre corou, abrindo passagem para Eve.
Ela entrou, imediatamente vasculhando o local com os olhos. Não era tão grande quanto imaginara. Talvez 30 metros quadrados. Mas sua mente começara a imaginar seus equipamentos e materiais espalhados no cantinho ao fundo, assim, por vontade própria.
— Eve, esse é Pierre Cougher, o instrutor de quem lhe falei. — Jeremy pousou uma mão sobre o ombro de Pierre.
— É um prazer conhecê-la. — O instrutor estendeu-lhe a mão para um cumprimento.
Nada de galanteios, sorrisos debochados, nem de olhares de soslaio. Ele a cumprimentou como se ela usasse calças! E Eve não poderia ter se sentido melhor. Ela apertou a mão dele com firmeza.
— Igualmente.
— Este é meu laboratório, como pode ver. — Pierre gesticulou para o ambiente. — Sei que está a procura de um lugar onde guiar suas pesquisas. Espero que possa considerá-lo como opção.
Opção? Desde quando Eve – ou qualquer outra mulher – podia se dar ao luxo de ter algum tipo de escolha?
É claro que ela havia percorrido um caminho incomum, indo estudar em uma universidade dominada por homens. Fora completamente excluída da sociedade por “se meter em ambientes impróprios para uma dama” e até acusada de praticar bruxaria por algumas das matronas da alta nobreza. O título de quinta filha era como um agouro sobre sua cabeça, uma sentença ao fracasso. Contudo, nenhum desses desafios a detivera de alcançar seu objetivo. Então sim, ela aceitaria a oferta de Pierre de muito bom grado.
— Fico-lhe muito grata, senhor. Eu poderia saber mais sobre a teoria que está estudando? — A empolgação impediu sua língua de ficar dentro da boca.
Em poucas horas, Eve e Pierre haviam conversado mais do que ela se lembrava de ter falado com alguém em sua vida inteira. Nem mesmo com seus pais ou sua irmã mais velha, Anne. Pierre guiava estudos químicos sobre uma descoberta do amigo Jeremy. De acordo com as pesquisas, os sais descobertos por Jeremy emitiam níveis de radiação mais fortes que o urânio. Não demorou muito para que toda a atenção de Eve estivesse sobre o assunto. E Pierre, naquela mesma tarde, encontrara outro tipo de minério com a mesma capacidade.
Nenhum dos dois notou o olhar de satisfação no rosto de Jeremy ao deixar o laboratório. A conversa se enviesou pelos anos de Eve na universidade, a morte da mãe aos dez anos e o carma da quinta filha que pairava sobre sua cabeça.
Ao fim do dia, o coração de Eve ainda batia rápido quando ela colocou os pés de volta dentro do sótão que era sua casa. Todo seu corpo tremia pelo frio e ela correu para perto da lareira improvisada. Não conseguia parar de sorrir. Tinha conseguido um laboratório, e até mesmo uma oferta de trabalho ao lado de Pierre. Pela primeira vez, ser mulher não fez diferença em sua conquista. Apenas seu esforço. Aquilo poderia dar certo. Pela primeira vez em muito tempo, Eve se deixou invadir por um sentimento que mantinha trancado há sete chaves: esperança.
Mal sabia Eve que, apenas quatro anos mais tarde, ela e Pierre fariam uma descoberta que mudaria todo o rumo da evolução humana. A quinta filha se tornaria a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel de física. E que, não obstante, Eve e Pierre estariam partilhando muito mais do que apenas o laboratório, mas também suas vidas.
Este conto foi escrito em homenagem a Marie Curie, uma das muitas mulheres pioneiras que quebraram tabus e mudaram os cursos da história da humanidade.

Conto: "Cindy"
Escrito por Zilda Mariano, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Cinderela corria escada abaixo. Até percebeu que o sapato caiu, mas não voltaria para buscar. Nem gostara tanto assim dele. Coisa dura e desconfortável do caramba. 
Antes de chegar em casa, já estava nas roupas simples de antes, os cabelos castanhos não ostentavam mais o penteado elegante e volumoso, mas escorria em ondas murchas pelos lados do rosto. Dos olhos escuros, o delineado havia sumido e ela nem notou. Lembrava dos detalhes da festa. Decoração, música, comida... Tudo tão impecável, bonito, cheio de brilho! Uma ideia fez cócegas na mente e a empolgação fez apertar o passo. A cabeça imaginação girava num caleidoscópio de imagens coloridas e uma nova vida se pintava diante de seus olhos.
Na manhã seguinte, quando a madrasta e as irmãs acordaram, não havia refeição preparada. Só um bilhete: ‘’faça seu próprio café’’.
A moça já ia longe, batendo à porta da única estalagem da vila. A dona do lugar, uma viúva gorducha, se surpreendeu ao ver a moça com a barra do vestido encharcada de orvalho e o maior sorriso que vira em muito tempo. Judite a recebeu com bondade e aceitou ouvir o plano, que pareceu ser muito bom para as duas.
Semanas depois, não se falava em outra coisa. A filha do falecido mercador, agora conhecida como Cindy, e a teimosa viúva do conde, dona da hospedaria, inauguravam seu negócio de organização para eventos. Nobres menores, comerciantes e fazendeiros se acotovelavam para terem nas festas de suas residências, os deliciosos petiscos e bom gosto impecável da moça, além das pratarias, porcelanas e tecidos finos de Judite, que compunham eventos dignos da realeza, mesmo para quem não vivia num castelo.
Não demorou para a velha estalagem ser vendida ao dono da taverna e as duas montarem seu novo escritório em frente à praça, onde alugaram a loja, um pequeno apartamento para as duas e o showroom de tirar o fôlego. Cristais, pratarias, tecidos, espelhos. Tudo para encantar os olhos e fazer os clientes sonharem com a vida de realeza ao alcance de suas mãos. Os negócios iam bem e não poderiam desejar mais que isso. As duas mulheres construíam mais que uma empresa. Significavam um futuro seguro para si e suas ajudantes, além de realizar sonhos de uma noite só.
Cindy fechava contrato para o jantar de noivado de um duque, quando a comitiva chegou à recepção do escritório elegante.
— O príncipe Ludovico II convoca todas as moças do reino a experimentarem este sapato. – o mensageiro trazia um único pé de sapato, acomodado na almofada de veludo vermelho.
— Aguarde um minuto, por favor – respondeu polida, enquanto se despedia dos clientes com m aperto de mão firme. – Sim. Em que posso ajudar?
— Sua alteza ordena que todas as moças solteiras experimentem este sapato.
— Por quê?
— Como assim, por quê? Sua alteza orden...
— Tá, essa parte eu entendi. Quero saber porque Sua Alteza espera que eu enfie meu pé num negócio que rodou o país todo.
— Ele precisa encontrar a moça que o perdeu. Vai se casar com ela.
— Não.
— Como assim, não?
— Não, eu não vou colocar meu pé aí.
— Senhorita, por favor, só estou fazendo meu trabalho.
— E eu tenho o meu a fazer. Não vou colocar meu pé aí. – O assessor a olhava chocado e, sem solução, foi embora do lugar.
Ao fim da jornada, o relatório foi passado ao príncipe.
— Não deu certo em ninguém? Todas experimentaram?
— Na verdade, todas menos uma, Vossa Alteza.
— Por que uma não fez?
— Acho que ela estava com nojo do sapato e meio ocupada cuidando de um negócio.
— Ela estava ocupada demais para tentar se tornar a rainha? – O príncipe franziu a testa e sorriu intrigado.
— Se me permite, ela não parecia muito interessada.
— Que tipo de moça prefere fazer negócios a ter a chance de ser a minha mulher?
— Acho que um tipo meio assustador, sua Alteza. Eu nem chegaria perto de novo.
Era o fim do dia. Cindy se preparava para encerrar o trabalho, quando o príncipe, dois soldados e o assessor ruivo e magricelo chegaram à soleira da porta.
— O que posso fazer por vocês? – a frase saiu no automático.
— Soube que uma jovem do meu reino se recusou a cumprir a ordem de provar este sapato – o príncipe tomou a palavra antes de ser anunciado. — O que a senhorita acha disso?
— Talvez ela não tenha visto motivos para obedecer. Vai prendê-la por isso?
— Não. Mas acha que ela atenderia a um pedido? – Ela encarou o rapaz. Bonito, sem dúvidas. Alto, forte, pele morena, grandes olhos negros e um sorriso gentil. Estaria mentindo se negasse estar interessada.
— Um pedido sempre é mais fácil atender. Mas desinfetem esse troço antes. Não quero que meu pé caia.
Logo depois de lavarem e secarem a peça, ela calçou. O rosto do príncipe se iluminou, e se inclinou para beijá-la.
— Opa, opa, opa, calminha aí, rapaz. Acha que vou sair te beijando e topando casar só porque um sapato me serviu? Você dançou comigo a noite toda e nem lembra da minha cara! Em nome do esforço de correr o reino todo, vou te dar a chance de um encontro. Amanhã às 8h você me busca aqui. A partir daí, conversamos.
Confuso, um pouco constrangido e um bocado curioso, o príncipe concordou com o encontro. Depois de um piquenique à beira do lago, os dois andaram descalços pelo gramado e conversaram sobre tudo o que esperavam da vida e perceberam que já gostavam um bocado um do outro, mesmo antes de trocarem o primeiro beijo.
Eles continuaram se vendo com a frequência que o trabalho de ambos permitia. Já estavam juntos há dois anos, tinham adotado um cachorro enorme e tocavam uma ONG para abrigo e educação de órfãos, quando ela finalmente disse sim ao pedido de casamento.
A festa foi a maior que o reino já presenciara até então. Fogos de artifício, temperos de terras distantes, artistas vindos de longe, tentando uma chance de entrar para o portfólio da organizadora de eventos mais influente do mundo conhecido. A lua de mel precisou ser rápida porque administrar um reino, gerir uma empresa e cuidar de uma ONG, eram trabalhos duros que não podiam esperar. Agora Cindy é empresária, rainha, esposa e mãe. A madrasta? Sei lá! Ninguém nunca mais pensou nela.

Conto: "O FIM DE NICOLAU"
Escrito por Jose Mauricio, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Batuques ribombavam cadenciados em tambores, enquanto cânticos e danças eram executados. Xamãs recitando palavras sagradas, lançando numa grande fogueira itens colhidos para a cerimônia sacra. Nunca antes um número tão grande de tchuktchi havia se reunido desta forma. Ohala, um jovem guerreiro, observava a toda a movimentação junto ao seu pai, Romandhu, que matinha uma expressão carrancuda na face, provavelmente aflito pelo que estava por vir e pela situação da tribo, desesperançosa devido a constante redução de seu rebanho causada pela intensa mudança climática do planeta.
 A cerimônia seguiu com cada xamã pegando potes cheios de leite ordenhados de 100 de seus animais reunidos no local, despejando todo o conteúdo no fogo. Com as vasilhas vazias, voltaram-se aos bichos. De olhos fechados, ergueram facas aos céus entoando alguma reza, baixando o braço logo em seguida e posicionando as lâminas nos pescoços das bestas. Com um rápido movimento, um profundo corte foi feito. Segurando os recipientes abaixo da ferida, os xamãs colhiam o sangue. Parte da coleta foi despejada nas chamas e o restante foi usado para pintar os rostos dos guerreiros. Em seguida, todos os homens deram as mãos e ergueram-nas, ressoando unissonantes as mesmas palavras, iniciando em um tom baixo, aumentando gradualmente até estarem todos clamando a plenos pulmões.
 Ohala podia sentir a energia fluir por ele. Era como se seu corpo amplificasse as emanações. O vento intensificou-se vindo de baixo para cima, empurrando a fumaça que aumentava cada vez mais para o alto, quando finalmente parecia tocar as nuvens. E então, lágrimas vieram aos olhos do menino quando presenciou o poder da conjuração finalmente se manifestar. A coloração dos gases expelidos da fogueira começou a mudar, até chegar em um tom verde brilhante que se propagou em todo o céu e assim uma magnífica e intensa aurora boreal se formou em plena luz do dia.
 O pequeno guerreiro olhava maravilhado a força descomunal da magia. A luz do fenômeno era tão forte que irradiava vigorosa no solo mesmo sob a iluminação solar. O efeito esperado não demorou a ser sentido. Diante dos olhos de todos, a realidade mudava enquanto a parede ilusória era desfeita. O horizonte enevoava-se, como um olhar míope a distância, até que a nitidez retornava agora diferente e toda a verdade se materializava. A lendária cidade mística finalmente se apresentava. Ohala, de boca escancarada, extasiava diante da revelação. A cidade há eras construída por um mago supremo e escondida do mundo por sua magia estava diante de seus olhos. Porém, após alguns momentos de puro deslumbramento, um murmúrio de dentro da cidade começou a ser ouvido, aumentando gradativamente até tornar-se uma sonora cacofonia vinda de uma grande massa negra agitada, aproximando-se mais e mais, até ser possível ver do que era feita: Elfos, aos montes, vinham para cima deles, uns a pé, outros montados em animais que magicamente alçavam vôo sem asas. Terrificado, Ohala fitou o pai. O bravo guerreiro retribuiu-lhe o olhar e abaixou-se.
 _ Meu filho! Este é um momento de grande honra. Seja bravo e terá seu nome para sempre contado nas próximas gerações.
 Com essas palavras, o guerreiro levantou-se desembainhando suas duas facas. Em instantes o exército tchuktchi era tomado pela horda élfica. Romandhu era atacado por todos os lados. Defendia-se de golpes pelos flancos e acima da cabeça, desviando o corpo enquanto contra-atacava, tudo em frações de segundos. Ohala não acreditava na rapidez do pai. Era algo... sobrenatural. Olhou em volta e contemplou elfos por todos os lados, muitos atacando um único homem, mas cada um de sua tribo parecia a encarnação de muitos guerreiros. Voltando a atenção ao seu pai, de repente, num impulso institivo, se viu no ar após um salto extraordinário, rebatendo uma flecha vinda diretamente a Romandhu. Ao chegar ao solo, percebeu o que tinha feito, mas não compreendeu como. Apenas fez. E enfim pode sentir. De alguma forma, a magia dos aciãos trouxe um grande poder. Era como se seu corpo não fosse dele, mas de muitos. Com movimentos rápidos, fortes e precisos, juntou-se ao demais na batalha. Não pensava, apenas agia. Os espíritos o comandava.
 A luta estava nitidamente desiquilibrada, a quantidade de elfos era superior, mas os tchuktchis precisavam suportar o suficiente para não serem eliminados em pouco tempo. Precisavam resistir até o momento certo. E então, de repente, algo supreendentemente veloz os atacou. Seus movimentos eram tão rápidos que eram impossíveis de captar. Ao reparar com mais atenção, percebia-se que a coisa não travava batalha em apenas um local, mas em vários ao mesmo tempo, como se tivesse réplicas dela espalhadas no campo de batalha. Olhando com mais afinco, Ohala pode reparar que, malgrado toda a agilidade, o homem aparentava ter uma idade avançada e um corpo avantajado. E então teve certeza: era o grande mago supremo. Uma trombeta foi soada. Era o momento de recuar.
 Alguns guerreiros tchuktchis permaneceram para ganhar tempo de modo que os demais pudessem retornar a grande fogueira. Ohala e seu pai corriam o máximo que podiam com diversos elfos em seu encalço. Já próximo ao destino do recuo, o menino olhou por cima do ombro e pode ver os últimos dos que ficaram caírem. O mago supremo e suas várias versões de repente se tornaram um só a observar a fuga. O velho começou a caminhar lentamente, até novamente ativar sua mágica, projetando-se num piscar de olhos a frente do grupo em debandada, multiplicando-se novamente, formando uma parede em seu caminho. Eles precisavam estar mais próximos da fogueira, mas, encurralados, não tinham o que fazer. A batalha reiniciou.
 A força combinada do mago e os elfos era demais. O grupo era dizimado vorazmente. Ohala e Romandhu lutavam costas a costas. Matinham-se firmes até que, desta vez, Ohala não teve como proteger o pai. Atacado por diversos elfos, não suportou as investidas, levando um golpe que perfurou seu peito. Quando Ohala percebeu, virou-se e deu fim aos adversários, mas já era tarde. Seu pai jazia moribundo no chão.
 _ Ohala, meu herdeiro! Você luta como merecedor do respeito de nossos antepassados. Irei ao encontro deles com orgulho de ser seu pai!
 _ Não pai! Aguente! Teremos vitória! Teremos nosso rebanho de volta e vamos comemorar nossa abundância!
 _ Filho! Não há o que fazer. Nossa única vitória é a dignidade de nossa bravura. Olhe a sua volta! Não apenas eu como você também se juntará aos espíritos de nosso povo hoje. A menos que...
 Romandhu ponderou um instante e recomeçou.
 _ Filho, vamos, levante-me. Me conduza e me proteja. Precisamos sair da batalha.
 _ Mas pai, não há como...
 _ Apenas obedeça! Olhe para mim! Olhe nos meus olhos! Nós podemos salvar nosso povo, sei que ainda podemos. Confie em mim!
 E assim, com espírito pesado, mas cheio de ânimo em poder honrar ao pai, Ohala levantou-o e ambos seguiram caminhando, com dificuldade, mas cheios de convicção. Com toda a disposição e sorte, conseguiram perpassar os inimigos sem chamar a atenção do mago supremo, distanciando-se trôpegos da batalha até próximo aos xamãs. Ali, Romandhu veio ao pé de ouvido de um dos feiticeiros e lhe soprou algo. O velho fitou-o com sisudez e segurou sua cabeça com as duas mãos. Fechando os olhos, recitou uma prece. Em seguida, foi ter com os demais xamãs, enquanto Romandhu voltou-se ao filho.
 _ Prometa que contará aos seus descendentes sobre o avó heróico e obstinado.
 _ Claro, pai! O senhor será lembrado sempre por todos, eu prometo – disse o jovem guerreiro com a voz trêmula.
 Com isso, Romandhu beijou a testa de seu filho e pôs-se de pé. Deu alguns passos cambaleantes até arrumar forças não sabe-se de onde e atirar-se na fogueira.
 Um forte e estridente grito foi propagado direto da alma de Ohala. O guerreiro voltava a ser um menino, agora órfão de pai.
 Assim, os xamãs que já estavam preparados, concentraram-se no novo poder que o sacrifício de Romandhu oferecia. Agora, mesmo à distância, poderiam finalizar o que tinham planejado. Da aurora boreal, protuberâncias começaram a se formar, aumentando mais e mais, esticando como tentáculos e, de repente, dispararam em direção a batalha. Um apavorado grito foi ouvido quando uma das versões do mago supremo foi enlaçado em seus quatro membros e no pescoço. Toda a batalha sessou. As variações do mago vieram ao chão convulsionando e logo todos desapareceram, restando apenas o original capturado.
 Aterrorizado, o mago olhava para os xamãs, suplicando pela vida. Estes cerraram os punhos em sincronia. Os tentáculos reagiram apertando o bruxo, impendindo-o de emitir qualquer som que não fosse um grasnado sufocado. E, novamente em conjunto, todos esticaram os braços. No mesmo instante, membros, tronco e cabeça foram grotescamente separados e lançados a distância uns dos outros. Imediatamente, por toda parte, elfos desintegravam-se como pó ao sabor do vento. A grande batalha estava encerrada. O restante dos guerreiros tchuktchi puderam finalmente entrar na cidade mística e tomar o grande rebanho de animais para si.
Poucos viveram para contar a história, mas enquanto os tchuktchis existirem, a lenda da grande batalha com o poderoso mago supremo e sua legião de elfos perseverá e, por um tempo, seus rebanhos estão restaurados. Diversas eram as renas agora em seus domínios. Um banquete foi organizado em comemoração à vitória. A espécime mágica ardia posta inteira para assar. Acreditavam que ao ingerir sua carne, absorveriam a magia que acendia seu nariz. Os xamâs revezavam usando o gorro vermelho do poderoso mago derrotado.
Por um tempo, os tchuktchi ainda festejariam. Para o mundo, nunca mais haveria a magia natal.

Conto: "FELIZ ANO NOVO DE NOVO. E DE NOVO. E DE NOVO."
Escrito por Barbara Bein, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Terra.
Ninguém diria que aquele globo flutuando ali embaixo, parecendo um mar sereno de nuvens e luzes, tinha 4,5 bilhões de anos de reviravoltas, catástrofes e extinções em massa.
É estranho olhar o planeta de cima e não sentir a energia de caos e correria que o permeia nesse momento, com a proximidade do fim do ano.
Minha sobrinha, Ella, era apenas um bebê quando a vi pela última vez, no colo da mãe, agarrada como um macaquinho cheio de laços. Dentro de alguns dias ela completaria dois anos.
“Uau. Dois anos? Deus, como o tempo passa! ”. É, é o que eu diria se ainda estivesse na Terra, na ceia de Ano Novo com a família, enquanto comia algumas batatas e um belo pedaço de torta de carne de Auntie Belle. Ah...fecho os olhos e lembro da suculência e da maciez da comida, enquanto engulo a saliva e a saudade. 
Dou uma mordida sem graça na barra de cereais que tinha na mão, olhando pela janela redonda, fitando o globo azul e o infinito negro além dele. Os cereais parecem areia na boca. Bem...pelo menos dessa vez eu não a esqueci no ar e ela saiu voando por aí até alguém encontrá-la em algum lugar do módulo canadense, como aconteceu alguns dias atrás.
Quer dizer...alguns dias atrás meus. Não seus. Se é que você me entende.
Não? 
*suspiro cansado*
A ISS, Estação Espacial Internacional, dá uma volta na Terra a cada uma hora e meia. Isso quer dizer que durante um dia seu, em que você vê o Sol nascer e se pôr uma única vez...bem...eu vi isso dezesseis vezes daqui do espaço. 
Dezesseis pores e nasceres do Sol em 24h suas.
No começo, quando você chega na estação, ah! Tudo é tão surreal e excitante! A Terra é a visão mais linda que você já teve em sua vida. E a baixa gravidade? É a sensação mais indescritível de todas, tudo voando em torno de você, quase nenhum esforço para nada, nada pesa. Poderia até ser uma metáfora para enfim livrar-se do peso dos ombros da vida diária e manda-lo todo para o espaço.
Bem, todo novato se sente assim, eu diria. Mas depois de 10 meses terrestres enterrado (perdão pelo trocadilho) nesse lugar, vendo os dias passarem sem realmente terem passado enquanto você vive para ser um experimento humano nessas condições, eu diria que o entusiasmo...ahn...meio que...também vai para o espaço. Talvez até para o container de dejetos do banheiro. 
Acontece que esses dejetos vão ser reciclados e renovados. O seu entusiasmo não.
Estamos sobrevoando a Europa, onde já é noite. Mas eu sempre gosto de pensar que são cinco da tarde na Inglaterra. Sim...em minha mente, minha irmã está tentando preparar o chá da tarde de uma muito exigente Ella e Autie Belle está aprendendo alguma receita nova na tv para a ceia da Véspera de Ano Novo. 
E de repente...lá se foi. Minha fantasia se acabou junto com o girar do planeta lá embaixo. Mas tudo bem. Em alguns minutos será “hora do chá” em algum outro lugar outra vez. 
Dou um suspiro melancólico enquanto abro o canudo do meu suco e dou uma leve espremida no saquinho prateado. Leio a etiqueta meio sem vontade, enquanto uma bolha amarelada se forma na ponta. “Suco de Abacaxi”. Certo. É. Tem gosto de abacaxi pelo menos. 
Logo acima de mim, vejo uma série de meias de Natal penduradas no teto (ou em qualquer lugar que você deseje que seja o teto. Não faz diferença). Alguém achou que seria uma boa ideia trazer aquilo para cá. Inclusive, na Véspera de Natal, algum engraçadinho até colocou doces dentro das meias (devidamente fechadas, afinal, ninguém gostaria de encontrar balas flutuando entre os cabos e pirulitos no meio dos equipamentos dos laboratórios).
(Esqueça o que eu disse. Alguns gostariam sim.)
Mas eu não consigo parar de me perguntar...por que?
Por que se importar com isso aqui? Será que o lugar de onde viemos faz alguma diferença no espaço? Países? Culturas? Estamos aqui para desbravar o desconhecido! Então, para que se agarrar tanto a estes costumes? Para que se agarrar às datas da Terra fora da Terra?
16 dias em um dia. 365 dias em 23 dias. Um ano na Terra. 23 dias aqui no espaço e...
- Ah!! Robinson! Aí está você outra vez remoendo a vida no espaço. Cuidado hein? Daqui a pouco a depressão vai te puxar pra baixo! HÁ HÁ HÁ! Sacou? Puxar pra baixo?
Ah, droga. Era Nickolai Petrov, o tripulante russo que chegou há pouco mais de três meses e cujo entusiasmo ainda não havia virado um pacotinho de merda para ser reciclado. 
- Petrov, agora não, me deixe em pa...
- De jeito nenhum! Agora é hora do chá! Olhe só o horário lá fora! – e ele apontou animado para a janela – Um bom inglês não pode perder a hora do chá, não é mesmo? Mas se apresse! Nós temos apenas alguns minutos antes que ele termine! 
Ele gargalhou outra vez e eu senti uma veia saltando em minha testa e meu rosto ficando vermelho. Era o efeito Camarão Raivoso, como chamava minha irmã. 
Eu gostaria de dizer que Petrov me incomodava dia e noite, mas isso seria quase um pleonasmo. Eu poderia até dizer que o inferno ficava acima da Terra, e não embaixo. Porque sim: ele infernizava todo mundo querendo comemorar todas as grandes celebrações de cada país de origem da tripulação a-cada-vinte-e-três-dias-terrestres!
Eu perdi as contas de quantas vezes eu fui lembrado da Páscoa e do quatro de julho, e também do Saint Patrick´s e Dia de Los Muertos. Houve uma vez em que ele promoveu um correio elegante entre os membros da estação em todos os dias dos namorados comemorados em datas diferentes e até mesmo quis comemorar a chegada da primavera japonesa!
PRIMAVERA! 
NO ESPAÇO!
E o pior: o resto da tripulação começava a ser contaminada por ele! Watanabe, da equipe japonesa, um cara sério, compenetrado, de repente estava de tempos em tempos fazendo rituais estranhos e comemorando alguma coisa que só ele entendia, com algo que ele fingia ser saquê. (Francamente, ele parecia acreditar que estava ficando bêbado).
Aliás, nada me irritava mais naquela bagunça que Petrov promovia do que suas comemorações efusivas de Ano Novo.
Certa vez ele chegou ao ponto de agitar e espirrar uma bolsa inteira de suco no ar, com toda a tripulação reunida na cozinha gritando e batendo palmas, desejando uns aos outros um ano próspero e cheio de realizações (???).
Eu confesso que fiquei completamente estático, embasbacado, quase em pânico, olhando aquela bolha laranjada enorme flutuando bem na minha frente, enquanto os outros se divertiam tentando bebê-la no ar antes que ela chegasse a algum componente eletrônico e...sei lá...desse um curto circuito e condenasse todos lá dentro à morte e ainda ter alguns bilhões de dólares se tornando mero lixo espacial. Nada demais.
Dá pra imaginar isso? 
“Gemini 3: destruída por incêndio causado por migalhas de pão de sanduiche de astronauta. ”
Então você pensa “puxa, acho que agora eles aprenderam a lição, não é?”
Aí vem a notícia: “ISS: destruída por comemoração mensal de Ano Novo com suco de laranja na fiação”
Depois daquilo, comecei a evitar Petrov. Para mim, ele era um agente do caos na estação! Juro que me passou pela cabeça pedir socorro Houston, igual uma criança que chora no portão da escola pedindo para ir pra casa, chamando pela mãe.
Eu estava uma pilha de nervos quando Petrov toca no meu ombro bem na hora do Camarão Raivoso tomando conta de mim.
- NÃO ME ENCOSTA, NICKOLAI! 
- Wow, calma lá amigo, eu só...
- CALMA NADA! E NÃO SOU SEU AMIGO! – fecho meus punhos e me viro no ar, bufando – Eu não aguento mais, EU NÃO AGUENTO MAIS AS SUAS COMEMORAÇÕES! POR DEUS, MINHA VONTADE É DE MANDAR VOCÊ PARA LONGE DAQUI JUNTO COM O LIXO ESPACIAL DA ESTAÇÃO!
A minha voz exaltada começou a chamar a atenção dos outros tripulantes e de repente, havia uma pequena reunião acontecendo em volta de nós.
- Robinson, que é isso? Olha, acho que você só está um pouco...
- Não estou nada! Chega de Dia do Trabalho e de Finados! De Ação de Graças e de comemorar o Ano Novo! AQUI NÃO É A TERRA, PELO AMOR DE DEUS! NÃO EXISTE “ANO NOVO AQUI”!
Houve um silêncio sepulcral, com exceção da minha respiração entrecortada. Por um longo minuto (ou algumas horas aí da Terra) parecia que nem os cabelos compridos e rebeldes da canadense Campbell se atreveram a se mexer.
- Mas...e se eu disser que...pelas minhas contas...É ANO BISSEXTO PESSOAL?? – Petrov de repente fala e uma onda de agitação e alegria percorre os outros astronautas. – FESTA EM DOBRO!!
Só que em mim, só percorreu raiva mesmo.
 - Petrov...EU VOU...ACABAR...COM VOCÊ! 
Tomo um impulso em um cabo com enormes letras reluzentes enfeitando-o com a frase “FELIZ NATAL” e me atiro com os dois pés contra aquela cara sorridente de Petrov.
Campbell reagiu rápido o suficiente e puxa-o antes que eu o acerte bem no meio daquele nariz enorme e vermelho. Ele sai batendo os braços feito um sapo, se agarrando a qualquer coisa que alcançasse para ganhar impulso.
Eu fiz o mesmo e aproveitei para atirar potes plásticos, cabos soltos, parafusos e ferramentas que encontrava no caminho. Ele é esperto, aquele desgraçado, voando em espiral e desviando de tudo em movimentos dignos de Matrix. Enquanto isso, os outros tripulantes vêm em nosso encalço, tentando apaziguar nossos ânimos e salvar as instalações e os materiais.
No exato momento em que consigo agarrá-lo...
...um bip ecoou por toda a estação e sabíamos se tratar de uma mensagem do centro de comando na Terra. 
- Houston para ISS! De acordo com os seus relógios sintonizados com Greenwich, faltam apenas 10 segundos para o Ano Novo! Peguem seus sucos especiais na despensa e vamos fazer a contagem regressiva, pessoal! 10, 9, 8...
E a tripulação veio a baixo. Fiquei tão confuso que esqueci completamente de Petrov.
...7,6,5...
E havia esquecido completamente que era MESMO Ano Novo na Terra!
...4,3,2...
- E não esqueçam pessoal! – a voz maligna de Petrov surgiu em algum lugar – É ANO BISSEXTO! COMEMORAÇÃO EM DOBRO!
     ***
- Auntie Belle, pode me ajuda com Ella aqui? Só queria terminar de ler uma notícia aqui no jornal. Pode ter algo a ver com John.
- Claro querida! O que diz aí?
- É sobre um tal de Nickolai Petrov que ganhou uma espécie de prêmio por seus estudos da psicologia humana durante longos períodos no espaço.
- Oh! Parece complexo!
- Sim! Aqui diz que infelizmente um dos colegas dele – não citaram nomes – vai ter de voltar às pressas para a Terra porque não aguentou a pressão e surtou, mas que graças a ele, Petrov pode concluir estudos decisivos e importantes. Ele é um herói da ciência!
- Ah querida, que notícia ótima, imagino! Quer mais um pedaço de bolo de carne, meu bem?
- Claro, obrigada tia. Só espero que Johnny esteja bem.
- Ah ele deve estar se divertindo muito com os amiguinhos dele! Imagina a farra que não foi a virada do ano no espaço hein?
      
Conto: "Feliz Ano Novo"
Escrito por Eliane Reis, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Quase noite. Só o vento roça o silêncio. Há cinco janeiros que ele disseca a ideia de que o mundo anda sempre se pondo. Cinco janeiros que o cheiro podre da latrina invade seu sono e seu estômago. Com um pequeno pedaço de pano, limpa o sangue ainda quente que mancha seu antebraço, depois retira a lâmina afiada do corpo imóvel estirado no chão de piso centenário e a coloca no bolso. A chave certeira já fotografara com seus olhos por dias a fio. Não há como errar. Coloca-a na fechadura e gira duas vezes. A mão suada escorrega pela maçaneta circular e só depois de várias tentativas, sente que as batidas estão fragmentadas nas pontas dos seus dedos. As pernas trepidam na mesma velocidade do vento que vem de fora. Já do outro lado da porta consegue alcançar a escada que deve levá-lo onde palpita seu anseio, ou a lugar nenhum. Lembra-se das cartas:
“_ Meu amor, já é o terceiro janeiro que as cotovias vêm descansar sobre aquele nosso vaso de barro.”
O primeiro degrau, pisoteado com cuidado, range como um grito, fazendo-o parar. Ele aperta os olhos e se ajoelha; sente o cheiro da morte adentrando por suas narinas dilatadas quando tudo parece imóvel e quieto como antes. Nunca chegara tão longe e tão perto do seu desejo, mas agora consegue ouvir o som do rio que se aproxima enquanto apalpa a terra úmida. O coração acelera a cada centímetro que ganha do lado de fora. Só precisa chegar às margens. Rasteja. Transpira. Respira. Devagar e pausadamente. Lembra-se novamente das cartas:
“_ ainda é dia 31 do quarto dezembro que você não vem. No lugar do vinho bebo água, pois estou seca por dentro. Mas agora os fogos explodem anunciando o novo ano...Será que estamos olhando para o mesmo céu? ”
Desvencilha-se dos pedaços da camisa puída que ainda cobriam parte do seu dorso rasgado pelo arame pontiagudo minutos atrás. Seus movimentos têm a estranheza de um bicho arisco no cerrado, sedento e faminto. O olhar é turvo. Então fareja o caminho que se asila no mato arredio e, indubitavelmente, ímpar. Precisa tocar o capim molhado que rodeia as margens. Entregar-se à correnteza da água doce e viva, antes que o dia amanheça. As cartas...
“_ meu amor, fechei as janelas antes que o sol descesse as escadas e nem percebi que o Natal banhou-se numa chuva fina e transparente o dia todo. Aguardo até o próximo janeiro. E, apenas...”
Quase nu, escorrega pelo barranco sinuoso e vazio. É tragado pelo rio fluente, deserto e fiel que passa indiferente as suas expectativas. Pela segunda noite, o canto alongado e melodioso de uma cotovia o acompanha pela orla, depois se perde no vale devolvendo sua solidão. Ele apalpa a bermuda fétida colada ao corpo enquanto olha o céu com muitas nuvens carrancudas que prometem desabar tão logo alcance a várzea do outro lado. Noite. Ruídos noturnos passeiam entre os prados e a várzea solitária, causando arrepio. Estampou cinco dezembros num quadro oco pendurado no canto da parede suja e sem espelho, mas que refletia a dissemelhança entre a beleza e a miséria que conhecera tão bem. Mas agora, sente-se um albatroz em pleno voo, deslizando sobre o mar aberto numa tarde de verão. De longe avista a fachada. É a mesma. Caminha muitos passos. As cotovias descansam sobre os vasos de barros esquecidos no jardim. Para e passeia os olhos pela escada desbotada de poucos degraus. Ela ainda é morna enquanto tudo é silêncio. A mão suada escorrega pela maçaneta circular várias vezes até que ela se rompe. A porta se abre e o convida a entrar. O mesmo rangido do assoalho que o colocou de joelhos há dias atrás, grita agora pela casa vazia. Ele espreme os olhos. Respira. Transpira. As batidas estão fragmentadas nas pontas dos dedos que seguram o bilhete:
“_ Meu amor, afasto os móveis, afasto os guizos, afasto os vãos e ainda me sinto grande. Hoje é o primeiro dia do sexto janeiro sem ti. Este espaço não mais me sabe. Não me reconhece. Feliz ano novo e felizes novos anos!”
- Anaaaaaaaaaa!!!
Seu grito ecoa e mistura-se ao grito da gralha que alça voo do lado de fora. Ajoelha-se sobre o corpo estirado no chão; toca seus lábios frios e ligeiramente abertos, depois os beija longamente. A lágrima quente cai em pingos apressados que percorrem seu rosto febril. Depois soluça enquanto sussurra o seu nome repetidas vezes:
_ Ana! Ana! Ana! – rasteja, contornando seu corpo.
 Com um pequeno pedaço de pano, limpa o sangue frio que mancha seu antebraço, depois retira a lâmina afiada do corpo imóvel estirado no chão. Faíscam luzes pelo jardim espantando as cotovias e uma grande luminosidade adentra pela fresta da porta cerrada. Ele corre enquanto ouve barulhos, feito fogos de artifício. Lembra-se das cartas:
_ (...) mas agora os fogos explodem anunciando o novo ano...Será que estamos olhando para o mesmo céu? ”
_ Feliz ano novo! Feliz ano novo! – Respira. Transpira. As mãos suadas escorregam pela maçaneta circular. São várias tentativas inúteis até que a algema fria as toca sem piedade.
_ O senhor está preso Sr, Wiliam. Em flagrante.
Amar, pode ser apenas uma forma trágica de vida, que ao mesmo tempo que aniquila, é a única capaz de fazer sentido.

      
Conto: "Interludio"
Escrito por Endrew Teles, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Me sentei em minha poltrona aveludada e me escorei confortável tentando espantar o frio, a chama do fogo na lareira a minha frente aquece o meu rosto em meio a escuridão da sala, o silêncio é quebrado apenas pelo crepitar da lenha, pelo ponteiro do relógio na parede, pelo ranger gelado da garoa que cai sobre o telhado e pelo vinil que coloquei para ouvir.
Na mesinha a minha direita, há um abajur que a muito tempo se queimou, sua cúpula antes branca agora é de um pérola-alaranjado pelo tempo e pelo fogo, um pouco desbotado, mas, ainda assim, lindo. Abaixo dele, um maço de cigarro que já não fumo à anos estava esmagado como um miolo de maçã velho, porém, o que move minha mão é um retrato meu, meu e de minha amada senhora, lindos eram aqueles olhos azuis quando os conheci, e quando os vi se fecharem pela última vez, lembro-me de quando estávamos no hospital, quando o doutor diagnosticou o câncer... implorei a Deus por misericórdia, por benção, um simples milagre, porém, depois de alguns meses, quando seu corpo estava magro e pálido, eu apenas me focava em lembrar de como era seu rosto lindo e jovial, como aquela cabeleira vermelha me encantou em Prada em 1987, lembro-me de como ela dançava naquela praça, de como seu vestido branco encantava os homens, quase tão apaixonados quanto eu...
Lembro-me também da música que nos uniu em 1988, Spring Waltz, obra de Chopin, foi num baile de fim de ano, a encontrei sem demorar muito, afinal, era só procurar a mais bela das joias, a flor mais linda dentre todas. Ana estava tão deslumbrante quanto antes, nas ruas de Prada, ela era dançarina, naquele baile, era uma rainha, e este humilde plebeu teve a pura sorte de ter sua mão aquele dia, de encantar-se com seu sorriso para sempre e dançar com ela ao som do piano... para superar este dia, só o nosso casamento, nunca achei que Ana pudesse ficar mais bela, porém, quando vi meu anjo entrando pelas portas brancas da igreja, todos se colocando de pé, pude jurar que havia asas douradas junto a felicidade que minha senhora trouxe a este pobre homem. Nunca disse um sim mais verdadeiro do que naquele dia, pois foi ali que meu coração foi dado a outro, foi nosso amor que trouxe a mais bela revelação que já tive na vida.
Limpo nosso retrato com os dedos, não havia poeira, só, queria ter essa lembrança para sempre, afago-a contra mim a fim de guardá-la no meu peito, eu não posso esquecer, jamais.
Talvez, eu posso... junto ao maço de cigarro, na gaveta da mesinha, ainda está lá, minha boa e velha amiga, seu tambor prateado ainda reluz com o fogo e, nela, há apenas uma bala, guardo ela para o dia que eu não suportar mais, pois, apesar do meu coração doer toda vez que relembro quando a deixei partir, mais do que lágrimas caem, me sinto morrer por dentro. 
Enxugo o rosto com o antebraço, o suéter arranha meu rosto levemente, mas, cumpre o serviço, pouso a pistola no colo enquanto fico revendo e revendo seu rosto sorridente, aquele vestido era simplesmente divino, como estávamos felizes... daria tudo para voltar naquele dia, no baile ou, para aquela rua de Prada, só uma vez seria o bastante, só mais um sorriso dela traria o meu sol de volta, porém, por mais que eu molhe a minha blusa, isso é impossível, é este o fardo do amor, eu estou acorrentado a esse ferimento pavoroso até o meu fim. Mas, porque não adiá-lo? Tenho uma forma tão simples de revê-la, tão fácil de redescobrir aquela felicidade que queimava dentro de mim.
Puxo o cão da arma, o som arrepia-me como um fantasma me assombrando, era isso, eu tinha que fazer logo, não posso ficar esperando, se não for agora, nunca mais conseguirei, preciso tomar coragem, eu preciso!
Então, ouço a porta atrás de mim se mexendo, minhas mãos perdem as forças, a pistola cai no chão enquanto me levanto, e como um anjo, vejo sua luz brilhando, minhas pernas tremem, meu corpo arrepia, porém, fico de pé para ver aquele ser de luz entrando em minha casa, com sua cabeleira rubra aquece o meu coração, com o sorriso, me desaba por terra.
— Ana! – era ela, igual como quando a conheci, era inegável. – Ana! Meu amor! – o sorriso volta em meu rosto, mas, como isso é possível? Não importa! Está aqui!
— Frederic... – abraço-a com o maior amor que posso dar, meus olhos escorrem eu...
— Você está viva meu amor! – seus olhos azuis se espantam, seus lábios finos sorriem brevemente enquanto acaricia o meu rosto.
— Querido... eu nunca parti, parecia que ela não se lembrava, mas.
Olho atrás dela, havia outra pessoa, não é possível! Havia outra Ana, era jovem como em Prada, não há erro algum! Puxo minha esposa para mim, preciso afastá-la do que seja. – Quem é você! – grito para o que seja. – Vá embora! Ana fica atrás de mim! – coloco meu amor ali, tenho que protegê-la, não posso perder meu sol nunca mais, não posso, de forma alguma!
— Calma, não se... sou eu pai. – pai? Que absurdo!
— Eu não tenho filhos! Saia demônio! – grito de volta, mas, Ana segura-me .
— Frederic, não reconhece nossa filha? – me arrepio todo, como isso é possível! Nego, eu tenho que negar, isso é impossível. Tudo isso é!
— Não, eu, eu te deixei no hospital ontem Ana, você e eu estávamos lá, eu te vi morrer lá Ana!
— Amor isso foi a cinco anos, eu estou bem, olha. – seu toque gentil leva a minha mão ao seu peito e sinto, um coração pulsa forte ali e em seus olhos azuis, vejo lágrimas escorrendo enquanto minha senhora me abraça com mais força que eu. – Meu amor... – sinto-a beijar minha cabeça, mas, eu não entendo...
Olho para a poltrona onde sentei-me, o abajur estava aceso, fico pasmo, pois, ele estava queimado a tanto tempo, como? – Pai... estava fumando de novo? – a outra Ana me pergunta agarrando o maço para si.
— Eu parei a anos. – olho para o meu amor que treme o queixo outra vez.
— Pai, o senhor prometeu a menos de duas semanas...
— Mentira! – volto-me a aquela mulher. – Você não sabe de nada! Não tente roubar a minha esposa! 
— Não se lembra de mim pai? Sou eu, Caroline... – ela se aproxima de novo, seu rosto era o de Ana, mas, algo muito mais familiar havia ali.
— Meu deus! Onde esteve filha! – seguro-a contra mim, seguro os meus dois anjos. – Estive com tanta saudade! – aperto-as com elas com tanto amor, com tanta saudade que nosso silêncio agora só e quebrado por uma coisa.
— Querido... essa música. Chopin? 
      
Conto: "Papai Noel"
Escrito por E. E. Soviersovski, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Pedro caminhava apressado pelas ruas de São Paulo, de mãos dadas com a mãe, como todos os dias aos sair da creche, em direção ao ponto do ônibus. Caía uma garoa fina e ele, no alto dos seus seis anos, apreciava as vitrines repletas de objetos e brinquedos que sonhava em ganhar do Papai Noel. Mas aí se lembrava da explicação da sua mãe, que para ganhar qualquer presente do bom velhinho, era preciso ter dinheiro para que ele pudesse fabricar o brinquedo.
Observando as centenas de pessoas que andavam em todas as direções, ele esticava a cabeça dentre as cinturas, ombros e peitorais, na sua linha de visão, em busca da loja cuja vitrine fazia seus olhinhos brilharem.
— Venha, Pedro. Não podemos perder o ônibus, senão vamos chegar tarde em casa.
Ele sabia disso, mas a vitrine se aproximava e ele não queria perder nenhum detalhe. Com o coração batendo apressado, chegava a hora de rezar para que o sinal fechasse. Assim ficaria, por alguns poucos segundos, de frente para os super-heróis, carros de corrida e para o caminhão dos seus sonhos. Igual ao do seu pai.
Fecha, fecha! — pensou ainda a tempo de ver a luz do sinal indo do amarelo para o vermelho. Imediatamente puxou a mãe para longe do meio-fio.
— Olha, mãe. Olha esse caminhão! Não é parecido com o do pai?
Nina, pega de surpresa pelas palavras do filho, precisou se esforçar para esconder a umidade que invadiu seus olhos.
— É, querido. É bem parecido. — lembrou-se do marido com um aperto no peito.
— Será que dá pra pedir esse pro Papai Noel?
Ela se aproximou do vidro à procura do preço do brinquedo de plástico colorido, e quando encontrou, sentiu um misto de mágoa, raiva e revolta.
— Venha, meu amor, precisamos ir. — respondeu, puxando o menino com firmeza, questionando aos céus por que o viver era tão difícil para alguns.
Pedro corria para acompanhar a mãe e ainda olhava para trás na tentativa de apreciar mais um pouco, o seu tão desejado caminhão.
Ainda com a cabecinha virada para trás, sentiu como se alguém o observasse. Olhou para cima buscando algum par de olhos que estivesse fixo nele, mas não encontrou.
— Corre filho, a garoa está aumentando.
Não que ele estivesse prestando atenção nisso, mas um banho de chuva não seria de todo mau, já que estava calor.
Assim que chegaram ao ponto do ônibus, Pedro olhou novamente para trás porque a sensação de estar sendo observado persistia, mas como não viu nada além de pessoas caminhando de um lado para outro, atentas no rumo que tomavam, acabou se distraindo e esquecendo o assunto.
***
Quase uma hora depois, já caminhando, Nina, como sempre, brincava de se alongar com o filho, depois de ficarem por tanto tempo espremidos no coletivo. Olhava o sorriso dele com muito amor e orgulho por ele ser tão bom e compreensivo, apesar de ela não saber até onde ia essa compreensão sobre as dificuldades que passavam, agravadas com a morte do marido há dois anos.
O dia seguinte seria a véspera de Natal e ela, com o seu salário de servente, tinha o valor certinho para o que serviria à mesa, ainda assim, sem nenhum dos agradinhos que tanto desejara para o seu menino.
— Olhe, mãe. Aquela luz hoje está acesa. — apontou para a janela do andar térreo do prédio da Cohab, onde moravam.
Nina agradecia todos os dias ao seu marido pelo apartamento que conseguira deixar para eles.
— Será que enfim encontraram um comprador pro ap? — Perguntou, enquanto pegava a chave da porta de entrada do prédio na confusão da sua bolsa. — Tomara que sim, né?
— É. — Pedro respondeu, já correndo escada acima.
— Devagar! — Gritou ela no momento em que o suposto novo proprietário abriu a porta do apartamento, puxando um grande saco plástico.
— Boa noite. A jovem senhora sabe onde posso pôr esse lixo? — perguntou com um sorriso enrugado, o franzino senhor de mais de oitenta anos, puxando com as duas mãos o grande saco preto.
— Claro. É ali. — Nina apontou para a porta que ficava atrás da escada. — Deixe que eu ajudo.
— Ah, obrigado. — Respondeu o velhinho, enquanto ambos arrastavam o saco até a lixeira. — Puxa, nem me apresentei. Meu nome é João, mas todos me chamam de Jô — limpou a mão direita na calça antes de estender para ela, que, prontamente, respondeu ao toque.
— Nina.
— E esse é o...? — Olhou para o par de grandes olhos castanhos que os observava da escada.
— Meu filho Pedro. — o menino voltara quando ouvira a conversa e agora encarava o novo vizinho com curiosidade.
— Olá, meu jovem.
Ele se escondeu atrás do corrimão, deixando apenas o topo do cabelo castanho e um pedacinho da testa à mostra, e o seu Jô riu com gosto.
— Pedro, pare de se esconder!
— Não se preocupe. Estou acostumado com crianças. Tenho seis netos, então esse tipo de comportamento não é novidade pra mim.
— Sua família é aqui de São Paulo?
— Não. São do sul do Brasil. Tanto o meu filho, quanto a minha filha moram no Rio Grande do Sul.
— Meu marido era de lá. Então só o senhor e a sua esposa moram aqui?
— Sou viúvo.
— Ai, me desculpe, seu Jô. — Nina pôs uma mão sobre a boca.
— Não se preocupe — disse, gesticulando com as mãos trêmulas. — E você, mora só com ele? — Virou-se para o Pedro, que descera todos os degraus e os escutava em silêncio.
— Moro. Também sou viúva — olhou com carinho para o filho.
— Puxa, tão jovem e já passando pelas provações da vida.
— Pois é — disse com um sorriso triste.
— E a sua família mora onde?
— No Nordeste, em Recife — respondeu ela.
— E vocês vão passar o Natal só os dois?
— Vamos, não é, querido? — perguntou para o menino, estranhando o comportamento arredio dele.
— Ah, não! Olha, esse ano também não vou poder estar com os meus filhos. Por que vocês não vêm jantar comigo? Podemos conversar um pouco mais, aí passamos um Natal diferente. E, o melhor, não ficamos sozinhos.
Nina ficou com o coração apertado, pensando na solidão do pobre senhor, mas se lembrou que talvez não tivesse comida suficiente para os três.
Não posso deixar esse pobre homem sozinho. Paciência! Se for o caso, eu como um pouco menos e tudo certo.
— Encomendei uma pequena ceia, mas dá para mais duas pessoas — o senhor Jô interrompeu seus pensamentos.
— Posso trazer o que tenho em casa. — respondeu prontamente.
— Se você quiser, tudo bem. Ah, — virou-se para o Pedro — vai ter pudim de leite. Você gosta?
Os olhos do menino brilharam quando ele confirmou com a cabeça e olhou para a mãe com um meio sorriso no rosto, pois era o seu doce preferido.
— E vai ter também bolo de chocolate.
***
Por volta das 20h do dia seguinte, Nina, com sua roupa para ocasiões especiais, blusa branca e saia colorida, estava à porta do senhor Jô com um Pedro ansioso, que falara o dia inteiro e pulara incessantemente por causa do pudim e do bolo de chocolate.
— Olá! Entrem. — disse o velho homem, ao abrir a porta.
Nina pôs os dois pratos que trouxera, o do arroz e o das batatas assadas, sobre a mesa simples mas arrumada, preparada para eles.
Notou os poucos móveis na sala, que estava impecavelmente limpa. Imaginou se ele teria alguém para o auxiliar com isso.
— Vocês me ajudam a pôr a comida na mesa? — perguntou olhando para o menino.
— Ajudamos. — ele concordou e o velho senhor lhe entregou os guardanapos e o refrigerante, enquanto Nina levava o peru recheado, a farofa, o canelone e a salada colorida.
Mãe e filho olhavam para toda a comida sobre a mesa e Nina, mais uma vez, precisou disfarçar a emoção, ao ver tanta fartura.
O jantar transcorreu tranquilo. Pedro repetiu mais de uma vez, deliciou-se com o pudim e com o bolo de chocolate e agora olhava pela janela com a pequena barriga estufada.
Enquanto Nina ajudava na limpeza da cozinha, seu Jô se aproximou do pequeno.
— Então, Pedro, você gostou da comida? — sentou numa poltrona próxima à janela.
— Ãhã. — respondeu sem tirar os olhos do céu.
— Você está esperando o Papai Noel? — o garoto cruzou os braços sobre a base da janela e apoiou o queixo sobre eles.
— Quando eu era pequeno, ficava assim, como você, esperando para vê-lo.
— E viu?
— Não, nunca. No começo ficava triste, mas aí entendi que ele aparece de várias formas diferentes, conforme o que as pessoas entendem ou desejam. A roupa vermelha é só uma fantasia que ele usa, mas não precisa estar com ela para vir até as pessoas.
O menino olhou para ele e Nina se aproximou para ouvir a conversa.
— Sabe, eu viajei muito e garanto que ele pode assumir qualquer forma. Às vezes, conversamos, brincamos ou até brigamos com ele, sem saber.
— O senhor viajava muito? — interveio Nina.
 — Eu era caminhoneiro e conheci muito desse país enorme.
— O meu pai também era — disse Pedro.
— Era? Que bacana. Na minha família, há vários caminhoneiros.
— O meu pai tinha um caminhão enorme. Uma vez eu viajei com ele.
— Ah, então deixa eu te mostrar algo. — Seu Jô foi até o quarto e trouxe um caminhão de quarenta centímetros de comprimento.
— Ele foi feito com a madeira e lataria originais do meu primeiro caminhão. — falou orgulhoso, apreciando-o.
 O menino nem piscava, hipnotizado pelo brinquedo de lataria azul, que era ainda mais parecido com o do pai.
— Tome, é seu — estendeu-lhe o objeto. — É claro, se você quiser.
Pedro olhou rapidamente para Nina, remexendo as mãos.
— Nós não podemos aceitar. É claro que ele é importante pro senhor.
— Ora, certamente o menino vai usufruir bem mais do que eu. Deixe ele ficar com o brinquedo. Confio em você para cuidar bem dele — olhou para o menino, que concordou com a cabeça.
Pedro batia uma mão na outra não contendo a ansiedade, com um olhar inquisidor para a mãe.
— Tudo bem, pode ficar. — disse, atenta às reações do filho.
Mal a mãe consentiu, ele recebeu o brinquedo das mãos enrugadas e não o largou mais.
— Obrigada seu Jô.
— Não por isso, garoto.
— Obrigada. — repetiu Nina, com a voz embargada.
Ele só abaixou a cabeça sorrindo.
— E você, o que faz? — Perguntou.
— Trabalho em um consultório medico como servente.
— Sei... e você gosta do que faz?
— Não muito, mas precisamos trabalhar, não é? — disse com um sorriso amarelo.
— Com o quê gostaria de trabalhar? — analisou a jovem sofrida à sua frente.
— Sempre quis costurar, mas preciso voltar para o curso de costura primeiro.
— Entendi.
Foram interrompidos quando ouviram os foguetes, e apreciaram os fogos de artifício que enfeitaram o céu à meia-noite.
Conversaram mais um pouco, quando Nina se levantou para ir embora porque percebeu que o filho deitara no chão para brincar com o caminhão e estava quase dormindo.
No dia seguinte, voltaram a almoçar com o seu Jô, devido à insistência dele e Nina ainda levou para casa um pedaço grande de pudim e quase todo o bolo de chocolate que sobrara.
Retornando do trabalho no dia vinte e seis, ela estava contente. Além de não permitir que um pobre homem de bom coração passasse o Natal sozinho, constatara que ele era uma companhia bastante agradável. De sobra, seu filho tivera um jantar como nunca antes e ganhara o presente que desejara. Para completar a onda de coisas boas, tivera a notícia de que fora sorteada para a aula gratuita de costura que sua amiga indicara e que seria aos sábados pela manhã, quando poderia deixar Pedro aos cuidados da D. Olinda.
Ao abrir a porta do prédio, Nina pensou em contar para o seu Jô a novidade e também ver se ele estava bem, mas como viram de fora que as luzes estavam apagadas, ela presumiu que ele havia saído.
Pedro, ao chegar em casa, correu para o brinquedo novo.
— Mãe, cadê a foto do caminhão do pai?
— Já pego. — respondeu, com uma risada de canto de boca.
Nina largou a bolsa e as sacolas que carregava e foi ao seu quarto, seguida de perto pelo filho. Pegou da prateleira mais alta do guarda-roupa, a caixa de papelão com as muitas recordações em forma de fotografias e a colocou sobre a cama. Enquanto procurava pela foto que o filho queria, uma amarelada no fundo da caixa chamou a atenção do menino. Ele a pinçou com os dedinhos e apertou os olhos estudando-a.
— Mãe, olha quem está nessa foto. É o seu Jô.
— Não é — respondeu sorrindo. — Essa foto é muito antiga e é da família do seu pai. Deixa eu ver quem está aqui. — Quando olhou, sentiu um gelo no estômago. Era igual ao seu vizinho, mas a imagem era do início do século passado. — Deve ser o avô do seu avô ou algo assim. Mas é parecido mesmo, não é? — comentou mais para si do que para o filho, enquanto voltava à busca. — Ah, encontrei. — entregou-a ao menino, enquanto continuava a contemplar a fotografia amarelada. Amanhã vou mostrar pra ele. — pensou, sorrindo por tamanha semelhança.
Na manhã seguinte, ao descer as escadas para ir ao trabalho, havia uma movimentação no apartamento do seu Jô e ela parou ali com Pedro para cumprimentar seu novo amigo.
— Olá, bom dia. — disse-lhe uma senhora simpática fechando a porta do apartamento.
— Bom dia. O seu Jô está? — perguntou-lhe Nina.
— Quem?
— O seu Jô, o novo proprietário.
— O apartamento está vazio, querida. Vim exatamente vistoriá-lo para uma visita que acontecerá mais tarde.
— Não, não está vazio. Estivemos aí há dois dias.
— Você deve ter se enganado de local — abriu a porta novamente, e Nina e Pedro entraram apressados.
Olharam para todos os lados e só o que viam eram as paredes brancas sobre um piso cinza. Com o coração disparado, a cabeça de Nina girava. E de tudo o que a mulher lhe falara, a única coisa que conseguira absorver era que o imóvel permanecia vazio há quase um ano.
Com os olhos brilhando de excitação e um sorriso largo no rosto, Pedro tinha apenas uma certeza: Eu conheci Papai Noel!

      
Conto: "Estrela da sorte"
Escrito por Day Fernandes, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
A brisa fresca da noite balançava as cortinas rendadas enquanto Estella aprontava seu equipamento na varanda. Do alto do décimo andar, a visão do céu noturno estava perfeita para observar a passagem da chuva de meteoros. E exatamente por isso, ela tinha que correr para montar tudo a tempo.
— Pai? Você mexeu na câmera outra vez? — ela gritou em direção à cozinha, frustrada. Os cabos de conexão tão embolados quanto uma teia de aranha.
— Eu só peguei emprestada pra tirar umas fotos do possante, gatinha! — respondeu Durval, com ar inocente.
A jovem fotógrafa bufou. Apesar de achar que seu pai estava enfrentando uma baita crise de meia-idade, ela não conseguiu segurar uma pontinha de sorriso enquanto ia passando as fotos na câmera. O homem alto e de pele escura fazia diversas poses ao lado do fusca 1971 azul-céu, como se fosse um modelo e não o advogado que ela via todos os dias. Ele mesmo restaurara o veículo até ficar completamente original. O fusca, assim como a saudade, foi tudo que ela deixara.
Estella espantou uma lágrima que escapuliu de seus olhos ao lembrar-se da mãe. Um ano já havia se passado. Ela ficaria orgulhosa ao ver seu fusquinha tão bem cuidado pelo marido.
— Mortadela, não esquece que as visitas estão chegando! — o pai a lembrou, pela terceira vez naquela noite. A garota revirou os olhos diante do apelido que seus pais lhe deram quando criança.
— Ah, pai. A Dorinha já é de casa! — ela se limitou a dizer, enquanto plugava o fio da câmera no notebook e calibrava a imagem. — Ela e a mamãe não se desgrudavam.
Durval entrou na varanda com cuidado, mantendo distância da aparelhagem da filha. Usava um avental xadrez e trazia consigo uma colher de pau com algo fumegante.
— Como vão os preparativos aí?
— Quase tudo pronto.
— Ainda não acredito que a chuva de meteoros coincidiu exatamente com a noite de natal! — ele comentou. — Não parece um verdadeiro milagre?
— Tudo é um milagre pra você, pai! — ela brincou, dando-lhe um abraço apertado.
— E é mesmo! Agora prove o tempero das batatas.
Ele estendeu o conteúdo da colher para sua mão e Estella assoprou algumas vezes antes de abrir a boca.
— Delicioso!
— Ótimo! Agora é só esperar nossos convidados! — comemorou ele.
— Convidados? — Estella se sobressaltou. — Não é apenas a Dorinha que vem jantar com a gente?
— Ela e o sobrinho. Parece que o rapaz veio do interior para fazer um tratamento de saúde.
— E por que você não me avisou antes? Eu teria vestido algo melhor que um moletom!
Durval se limitou a sorrir.
— Você está linda assim, princesa. Tenho certeza que ninguém vai se importar. — Ele lançou uma piscadela para a filha e um segundo depois disso, a campainha tocou.
Estella olhava de um lado para o outro, tentando decidir se terminava de ligar os últimos fios ou se corria para o quarto e trocava de roupa. Não era uma mulher tão vaidosa como a maioria das amigas que trabalhavam com ela na revista. Contudo, como uma boa anfitriã, também não queria passar uma má impressão para os convidados de seu pai.
Por fim, Durval acabou por resolver o conflito interno que a garota vivia e abriu a porta. Não tinha jeito, ela teria de receber as visitas vestindo o surrado moletom da faculdade. Pelo menos não tinha nenhuma mancha de molho.
— Estella! Você está tão linda! — Dorinha a puxou para um abraço apertado.
— E você deve ser o Danilo. — Durval ofereceu sua mão para o rapaz ao lado de Isadora, melhor amiga de sua falecida esposa. — É um prazer recebê-los. Entrem.
Dorinha finalmente soltou Estella e pousou sua mão sobre um dos braços de Danilo, caminhando em direção à sala de estar. Foi só nesse momento que a garota reparou no objeto estranho que o rapaz segurava. Seu coração palpitou de um jeito que ela nunca sentira antes.
Os convidados se sentaram e logo entoaram uma conversa. Estella mais ouvia do que falava, seus olhos vagueando vez ou outra em direção ao rapaz de cabelos castanhos e olhos claros como um céu nublado. Ele era tão bonito que uma parte de seu cérebro quase se negava a acreditar no que via. Mas ainda assim era verdade. A bengala de aço pousada ao lado do sofá provava isso.
Plim!
O barulho do forno elétrico capturou a atenção de todos.
— Eu vou colocar a mesa! — anunciou Durval, seguindo rumo à cozinha.
— Eu te ajudo — ofereceu Dorinha, seguindo-o.
Ela e o rapaz ficaram a sós. Estella não sabia como puxar conversa com o visitante. O receio a impedia de usar as palavras certas. O que poderia dizer sem parecer grosseira? Um suspiro nervoso escapou de seus lábios enquanto ela cogitava sair de fininho e voltar para o telescópio.
— Eu posso te ouvir, sabia? — ele falou, com um sorriso brincalhão.
— Ah... eu...
— Não precisa ter medo. Eu juro que não mordo. — O sorriso de Danilo se alargou ainda mais.
E dessa vez ela também sorriu, relaxando um pouco.
— Me desculpe. Eu nem sempre sou tão idiota assim — respondeu Estella, esfregando as mãos no casaco.
— Não se preocupe. Todo mundo tem seus momentos — sussurrou ele, inclinando-se na direção dela como se contasse um segredo. — Então você é fotógrafa?
— Como sabe disso?
— Minha tia passou todo o caminho falando sobre você e seu pai. E do quanto você ama as estrelas.
— A Dorinha sempre foi meio exagerada — falou ela, sentindo suas bochechas queimarem.
— Eu posso te ver? — ele perguntou de repente, com seriedade.
O quê?
— Como? — Estella sussurrou, curiosa.
— Eu tenho meus próprios meios — respondeu Danilo. — E então?
— Eu... tudo bem.
O sorriso de Danilo lhe provocou um arrepio e ele encurtou a distância entre os dois no sofá em questão de segundos. Logo estavam frente a frente. Estella notou suas veias pulsarem com mais força e sua respiração se acelerar como se tivesse acabado de fazer sua caminhada matinal.
Danilo estendeu as duas mãos sobre as pernas, com as palmas viradas para cima.
— Pode me dar suas mãos?
Hesitante, Estella moveu seus braços até que seus dedos tocaram os dele. Estavam quentes em contraste com os dela, mas a sensação era boa. Danilo segurou as mãos dela entre as suas, fazendo o coração da garota quase querer saltar para fora do peito. Com delicadeza, seus dedos foram subindo para os pulsos, antebraços, ombros. Até que por fim alcançaram o rosto de Estella.
Sua pele parecia formigar nos locais onde ele a tocava, numa mistura de calor e frio ao mesmo tempo. A garota fechou os olhos sem perceber. Os dedos continuaram a exploração por seu rosto, acompanhando os traços do queixo, da boca. E logo esbarraram em algo.
— Óculos?
Estella apenas assentiu, não confiando em sua voz. Naquele momento, todo seu corpo parecia ter fugido do controle.
As risadas de Durval e Dora foram ouvidas enquanto eles voltavam da cozinha, já carregando pratos e travessas.
— O jantar está servido, meninos! Venham logo! — falou Durval.
Demorou alguns segundos até que os dois se levantassem do sofá. Danilo alcançou sua bengala.
— Você... quer que eu...? — Estella não sabia como completar a frase. Tudo era novo ali. Ele era novo.
— Se puder ser minha guia, seria de grande ajuda.
Os quatro fizeram sua refeição, enquanto rememoravam lembranças antigas. Durval contou sobre a paixão da família por astronomia e mostrou para Dorinha o álbum de fotos de quando Estella era bebê.
— Ela até preparou a TV pra exibir a chuva de meteoros essa noite — ele comentou.
— Pai! — a garota o repreendeu, de repente sentindo-se envergonhada. Não imaginava que um de seus convidados não poderia acompanhar a exibição.
O silêncio recaiu sobre todos.
—Ah, não se preocupem comigo. — Danilo interveio, tentando acabar com o desconforto da situação. — É um espetáculo belo demais pra não ser observado.
— Isso mesmo — confirmou Dora. — Estamos aqui pra nos divertir. Vamos já pra sala!
Quando todos se acomodaram de volta na sala de estar, Estella ligou seu equipamento e o céu noturno preencheu a tela da TV. Os olhos de seu pai brilhavam com a mesma intensidade daqueles pontos longínquos.
— É lá que ela está. Minha Serena — falou ele, ao relembrar o sorriso da esposa falecida.
Estella olhou o relógio. Já era quase meia-noite. Os primeiros meteoros começaram a aparecer minutos depois, cortando o céu com raios alaranjados. A garota não resistiu e correu até a varanda, olhando fascinada direto da entrada do telescópio. Estava tão concentrada que mal percebeu a aproximação de Danilo.
— Então é aqui que a mágica acontece — comentou ele.
A garota sorriu e virou-se em sua direção, guiando-o até o monte de almofadas que ela havia espalhado ali antes. Quando estavam a sós, seus movimentos não pareciam tão desconcertados diante do rapaz. Na verdade, eram até naturais, como se seu corpo respondesse por vontade própria.
— Acho que sim. É uma pena você não poder...
— É realmente um saco. Mas não pelos motivos que você pensa.
Estella o observou, desejando desvendar os mistérios por trás daquele rosto. Sempre acreditara que os olhos eram a janela para a alma. Mas e quando a janela está coberta por uma cortina? Antes que perdesse a coragem, ela perguntou.
— Como foi que aconteceu?
— Um acidente de carro. Um ano atrás, também na véspera de natal. Eu não vi quando o caminhão cruzou a minha faixa, entrando na contramão. — Danilo sorriu, um sorriso triste dessa vez.
— Acho que nós dois perdemos algo importante no mesmo dia. Eu também estive em um hospital no natal — Estella revelou, a voz falhando. — Minha mãe sentiu uma dor de cabeça muito forte. Foi o último natal que passamos juntas.
Danilo escutava em silêncio, ainda sem saber ao certo como falar o que viera ensaiando desde que soube a verdade, através da tia. Queria poder olhar nos olhos escuros de Estella outra vez. Ele sabia. Ele se lembrava. Era impossível esquecer toda a dor que o envolveu naquela noite, um ano antes.
— Eu sei. Eu me lembro de você. E da sua mãe.
De repente o ar pareceu impossível de respirar para Estella. Seu corpo se retesou e os olhos se encheram d’água. Como ele sabia? Como se lembrava dela se nunca antes tinham se visto? Se ele mesmo não podia enxergar?
Não, havia algo errado naquilo tudo.
— Só estou vivo por causa dela — continuou Danilo, procurando as mãos de Estella. Ela estava gelada. — Quando cheguei ao hospital naquele dia, uma parte da minha visão ainda funcionava, embora outros órgãos começassem a falhar. Eu vi minha tia chorando, vi quando ela saiu da ambulância e deu de cara com outra emergência, se jogando em cima da maca logo à frente da minha. E então vi você. Seus olhos doces e desesperados, sem os óculos. Seu rosto foi a última imagem que meus olhos viram. Então, nunca mais.
Estella ouvia tudo em silêncio. Seu cérebro tentando ligar as peças do quebra-cabeças. Seu desejo de natal naquela noite foi que a mãe continuasse viva, mas nenhum esforço dos médicos poderia ter contido a hemorragia no cérebro de Serena. Foi então que um dos doutores perguntou ao seu pai sobre doação de órgãos...
A garota arfou, com o coração pesando uma tonelada em seu peito. Suas mãos tremiam enquanto ela encarava o estranho sujeito, agora quase familiar.
— Era você. — Sua voz não passava de um sussurro. — Ah, meu Deus! Era você!
Ela levou as duas mãos à boca e se levantou de súbito. Seu peito doía, a imagem da mãe voltando com força total de suas lembranças. Ela nem ao menos pudera dizer o quanto a amava, o quanto sentiria sua falta. As lágrimas rolaram por suas bochechas.
— Sou eu. O coração da sua mãe bate aqui dentro agora. Se não fosse por ela, e por você e seu pai, eu não sobreviveria ao acidente. — Ele confirmara as suspeitas, mas nem precisava. — É por isso que não importo por não conseguir ver o céu hoje, Estella. Eu posso estar vivendo na escuridão, mas estou vivendo.
Por um instante, Estella não sabia se os meteoros explodiam dentro ou fora de sua cabeça. O passado batera em sua porta tão inocente e causticamente ao mesmo tempo. Não estava preparada. Era doloroso relembrar a perda da maior estrela de sua vida. E agora, uma parte dela estava ali. Bem na sua frente! Como um milagre. Um milagre lindo, por dentro e por fora.
— Eu gostaria de agradecer a ela — Danilo continuou. — E também de poder vê-la lá em cima. Tenho certeza de que é a estrela mais brilhante. — O sorriso iluminou seu rosto outra vez, deixando Estella sem fôlego.
Seu corpo se movia como um imã em direção a Danilo, assim como a Terra chamava por aqueles pedaços de rocha magnética. Quando percebeu, estava parada diante dele, com o rosto do rapaz entre as mãos.
— Então me deixa te mostrar do meu jeito — sussurrou ela.
E seus lábios se encontraram pela primeira vez, trazendo ambos de volta à vida.
A noite de natal começara melancólica. Estella lembrava-se da mãe, que não estava mais ao seu lado. Mas naquele momento em específico, algo que parecia deslocado em seu interior voltou ao lugar, trazido pelo abraço do garoto desconhecido que, de algum jeito, fora enviado justamente por ela. É claro que ela daria um jeito de fazer aquilo. Era sua protetora, sua amiga, sua companheira. Sua estrela da sorte.

Conto: "Ho Ho Ho(rror)"
Escrito por Taís Ferttuno, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Crianças não devem esperar pelo Papai Noel acordadas, ou coisas ruins podem acontecer. Pelo menos era isso que a velha Mag, vizinha de Arthur, dizia. Mesmo assim, sem conseguir segurar a ansiedade e teimoso como era, o menino se escondeu atrás da árvore de natal, contra as ordens dos pais, e esperou pacientemente. Esperou, esperou. Esperou até dormir.
 Quando acordou, era por volta de duas da madrugada. Não havia nenhum sinal de presentes ou do Papai Noel. Mas ele não desistiria tão facilmente. Queria ver o Papai Noel e ninguém iria impedir. Ficou plantado esperando até o relógio bater três horas. Foi nessa hora que ouviu a porta da frente se abrir. Porém, Arthur percebeu que a velha Mag tinha razão.
 Grande e avermelhado, com chifres vermelhos, ele entrou pisando silenciosamente, rindo baixinho. Ho, ho, ho, ele ria. A visão do inferno. Arthur sentiu seu sangue gelar, mas o demônio já sabia onde ele estava. Ele sentia seu horror. Arthur correu até o quarto dos pais e abriu a porta desesperado. Não havia sinal deles.
Ho, ho, ho, o demônio ria, subindo as escadas da casa.
Arthur se escondeu no armário dos pais, na esperança de que o demônio vermelho não o encontrasse ali. Ele chorou baixinho quando sentiu a criatura respirar na frente do armário. Chorou até adormecer.
Do lado de fora da casa, a velha Mag estava junto dos pais de Arthur.
– Meu sobrinho é ótimo ator. – ela deu uma piscadela. – Garanto que Arthur nunca mais ficará acordado além da hora de dormir. 
Os três riram.
      
Conto: "O ALVO"
Escrito por Taís Ferttuno, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Alice estava discutindo de novo, o que por si só já era um indicativo de que o dia ainda ficaria muito pior. Cris gritava de volta com ela coisas que sabia que iria se arrepender depois. A tensão fazia com que o carro parecesse apertado demais para os dois. 
 – Você disse que toparia ir. – ela resmungava.
– Eu estou aqui e nós estamos indo, não estamos? – ele devolveu.
– Não sei por quê você topou se vai ficar com esse humorzinho desgraçado. Vai ser péssimo para todo mundo se você ficar com essa cara. Se você não quisesse ir, era mais fácil ter dito antes.
– Eu não pensei! Você... você... – ele tentava encontrar palavras em meio ao zumbido caótico de seus pensamentos. – Você me forçou a isso!
 Ele afrouxou a gravata tentando respirar. Alice sabia que ele odiava natal, e mais, odiava os sogros, sempre tão cheios de si. Ficar sorrindo a noite inteira fingindo ser uma família feliz não era seu estilo.
 – Eu te forcei? – ela estava irada. – Qual é o seu problema?
 – Meu problema é que você não respeita meus limites!
 – E que tal você respeitar os meus? O natal é só uma vez por ano! Desculpe se é um sacrifício para você sair comigo, fazer algo que me agrada uma vez por ano.
 Ela estava colocando o dedo na ferida, como sempre.
 – Você sabe que eu sempre faço o meu melhor para te agradar.
 – Então vê se para de fazer essa cara de merda.
 Cris bufou de raiva, apertou o volante com firmeza e pisou no acelerador. Sabia que Alice ficava desconfortável com alta velocidade, mas não diminuiu. Queria que ela se sentisse tão desconfortável quanto ele. Não era justo que ela não respeitasse seu espaço. E ainda tinha a cara de pau de dizer que ele não fazia nada por ela. Tentava se lembrar desesperadamente da razão pela qual tinha se casado com aquela mulher. Ele trocou de marcha e tornou a acelerar.
 – Você está ficando louco, Cris? Diminua a velocidade agora!
 Ele a ignorou, sentindo um estranho prazer crescer dentro de si. Começava a ver defeitos onde antes não haviam. Era sempre assim quando ficava estressado. O perfume dela se tornou doce demais e sua voz, aguda e metálica. Ele só queria que ela calasse a boca, queria chegar logo, passar o natal e vir embora logo. Ele queria...
 Foi interrompido por um som alto do lado de fora. Ele desacelerou até parar.
 – Acho que furou o pneu.
 Merda. Por que tudo tinha que acontecer com ele? Estava tentando ser o marido que Alice queria que ele fosse, ele estava indo no maldito jantar de natal no meio do nada, tinha pegado o caminho que ela queria, evitando o trânsito na rodovia principal, tudo do jeito dela. E ainda sim, como se não bastasse, parecia que a onda de azar não tinha limites.
 Cris desceu do carro e tentou ignorar o vento frio da rua vazia. Estava vestindo uma camiseta fina de mangas curtas, mas o clima mudava sem parar nos últimos meses. Alice desceu atrás, os braços envolvendo seu corpo magro, pisando com raiva.
 – E então?
 – Acho que passamos por cima de um prego, alguma coisa assim.
 – Mas furou mesmo?
 – O que você acha? – Cris retrucou grosseiramente.
 – Eu acho que se você não dirigisse como um louco, nada disso teria acontecido.
 Ele levantou a cabeça para responder, mas ela já tinha se afastado. Estava escuro, mas Alice não quis entrar de novo no carro. Em vez disso, saiu andando pela rua, tentando se concentrar. Não queria ficar perto dele, não queria pensar nele. Por que ele tinha que ser tão estúpido?
 – Se você não estiver aqui quando eu terminar de trocar o pneu, eu vou embora sem você! – ele gritou ao longe.
 Ela nem se deu o trabalho de responder ou virar para encará-lo. Seus olhos se encheram de lágrimas. Detestava quando ele agia dessa forma, sempre estragava tudo. Ela só queria ter um bom jantar, passar uma boa noite de natal em família. Era pedir muito? Ela tentava segurar as pontas, tentava se manter no controle da situação, como a mãe tinha lhe ensinado. Se estivesse no controle, tudo poderia ser resolvido.
 Uma lágrima escorreu e ela secou rapidamente. Não era hora para sentimentalismos. Além disso, chorar borraria a maquiagem que fizera com tanto cuidado. Lembrou-se do maço de cigarros guardado no bolso e pegou um. Estava tentando parar, mas Cris a deixava muito nervosa as vezes. Só uns tragos. A mãe a mataria se chegasse para o jantar com cheiro de cigarro.
Procurou o isqueiro nos outros bolsos e não encontrou. Estava tremendo, mas não sabia dizer se era pela ansiedade com o jantar ou pela raiva que sentia do marido. Ela pôs a mão na cabeça numa tentativa inútil de se acalmar e tentou respirar fundo. Olhou para o céu acima, onde não havia lua. Nunca havia visto uma noite tão estrelada. Esse era o bom de viajar para o interior. Ela fechou os olhos e pensou em seu apartamento no centro de São Paulo. A luzes dos enfeites de natal estavam por toda parte, nas janelas, em sua árvore, na porta. Ela gostava de luzes. Talvez fosse uma forma de compensar o fato de quase nunca ver estrelas na cidade. Lá, o céu tinha cor de merda.
 – Precisa de fogo?
 Ela abriu os olhos e se virou de sobressalto. Um homem forte vestido de cinza olhava para ela com olhos cintilantes na noite escura. Ela estremeceu. De onde ele tinha aparecido?
 – O que disse?
 – Seu cigarro – ele falou se aproximando e ela instintivamente deu um passo para trás. Ele percebeu. – Desculpe, não quis assustar. Seu cigarro está apagado. Precisa de fogo?
 Ela notou que ele estava fumando. Observou um crachá pendurado em seu pescoço. Tentou ler, mas não conseguiu enxergar a foto ou o que estava escrito. Ele olhou para o próprio crachá e sorriu.
 – Meu nome é Eric. Eu trabalho na Funerária Mavis – ele apontou o carro funerário estacionado do outro lado da rua.
 Ele notou o olhar dela para o carro e comentou rindo:
 – Não se preocupe, não estou levando nenhum passageiro agora.
 Ele guardou o crachá no bolso da calça e pegou um isqueiro guardado no mesmo lugar, estendendo para ela.
 – Eu acenderia para você, mas a sua desconfiança está me intimidando.
 Ela deu um meio sorriso sem jeito e pegou o isqueiro, tentando parecer mais relaxada. Deu a primeira tragada e se sentiu melhor.
 – Desculpe, você me assustou. Eu não vi de onde você saiu.
 – Eu te vi pegar um cigarro e não acender. Estava no carro.
 Ela recordou seu momento com as estrelas.
 – Está certa em desconfiar das coisas. Nunca se sabe quem anda por aí. – ele deu um sorriso amarelo. – É como dizem, de noite todos os gatos são pardos.
 Alice desviou o olhar do homem e viu seu carro a certa distância. De onde estava, não conseguia enxergar Cris. Mas o porta-malas estava aberto, então ele ainda devia estar trocando o pneu. Eric acompanhou seu olhar virando de costas.
 – Problemas com o carro? Precisa de ajuda?
 – Não, não preciso, meu marido está fazendo tudo.
 Ele pareceu desapontado.
 – Pensei que estivesse sozinha.
 Ela ficou nervosa com esse comentário. Não havia motivo. O homem estava sendo amigável até então. Mas ele lhe lembrava muito de seu pai.
 – Com licença, preciso voltar, talvez ele precise de mim, obrigada pelo fogo.
 Eric barrou sua passagem.
 – Espere um pouco, moça.
 Ela tencionou todos os músculos. Podia sentir a adrenalina, estava preparada para correr para onde fosse. Eric podia ser grande, mas ela era rápida. Tinha sido corredora antes de se casar. Podia não ter a mesma velocidade daquela época, mas tinha certeza que conseguiria correr mais rápido que o homem. Ele estava sorrindo.
 – Você não me devolveu meu isqueiro.
 Ela se confundiu. Olhou para sua mão suada e notou que apertava o isqueiro com força. Reparou na estampa de uma mulher de biquíni vermelho usando óculos e um gorro de Papai Noel. Ela o entregou rapidamente. Só queria voltar para o carro.
 – Você não me disse seu nome.
 Ela congelou.
 – Se eu disser, você vai me deixar passar?
 Ele pareceu surpreso com a pergunta.
 – Desculpe, moça. Só estava tentando ser simpático. Acho que muito tempo com os mortos fez com que eu me esquecesse de como agir com os vivos.
 – Não quis ser grossa, só estou irritada com outras coisas. Sou Alice. Muito obrigada pelo isqueiro, eu agradeço muito.
 – Não foi nada. Tenha um bom natal, Alice.
 Ela passou por ele rapidamente, nervosa demais para responder. Seus cabelos ao vento, deixaram seu perfume no ar. Eric estremeceu ao sentir o cheiro doce que vinha dela.
 Alice praticamente correu de volta ao carro. Estava agradecida pelo isqueiro, mas o homem era estranho demais. Estava dando graças a Deus quando chegou mais perto carro.
 – Cris, eu...
 Ela parou. Ele não estava ali.
 – Cris?
 Ela foi até o porta-malas. Estava aberto. O pneu parecia trocado. Onde ele se meteu? Ela sentiu a garganta fechar.
 – Cris! – chamou mais alto.
 Olhou sem querer para o fim da rua, onde tinha visto Eric pela última vez. Ele já não estava lá. O carro funerário ainda estava parado no mesmo lugar. Não conseguia ver pelos vidros escuros se havia alguém lá dentro.
 Mas que merda! Ela olhou para toda a sua volta. Não havia sinal de Cris. A maioria das casas na rua já estava apagada. Havia um terreno baldio ali perto, onde ela não conseguia identificar nenhum movimento. Se amaldiçoou por ter optado por esse caminho em vez das vias principais. Ela só queria chegar a tempo no jantar, e pensou que essa seria a melhor opção. Bateu o porta-malas com força, jogou o cigarro no chão e o apagou com o sapato. Entrou no carro com pressa, trancando as portas e deixando os faróis acesos.
 Procurou o celular na bolsa que havia deixado ali. Não encontrou. Tinha certeza de que tinha deixado ali. Sentiu tontura e ânsia. Por que Cris tinha saído sem avisar? Não havia muitos lugares para onde ir àquela hora. Por que tudo aquilo estava acontecendo com ela? Sentiu vontade de chorar.
 E então quase gritou quando viu alguém bater no vidro do carro, do seu lado da janela. Era Eric. Alice notou que ele estava com a mão na maçaneta da porta.
 – Tem certeza de que está tudo bem, Alice? Pensei que não estivesse sozinha.
 Ela sentiu o estômago contrair ao ouvi-lo dizer seu nome. Quase não respirava.
 – Eu não estou. Meu marido está comigo. Ele foi buscar alguma coisa que precisava em uma das casas.
 Eric se aproximou tentando olhar para ela. Sua respiração embaçava o vidro. Ela se sentiu nua.
 – Tem certeza? Não estou vendo ninguém. Quer que eu te ajude a procurá-lo?
 Alice segurou o choro.
 – Ele disse que não ia demorar.
 Os olhos claros dele brilhavam na noite e ele exibia um olhar sério.
 – Alice... – ela não queria mais que ele dissesse seu nome. – Você ainda está com medo de mim?
 – Não estou com medo de você.
 – Então abra a porta, vamos conversar.
 Não quero conversar. Ela não conseguia falar. Só queria que ele sumisse, queria que Cris aparecesse para que fossem embora.
 – Ei, o que pensa que está fazendo?
 Era a voz de Cris. Graças a Deus.
 Eric levantou o olhar e viu Cris vindo correndo, com uma expressão furiosa.
 – Dê o fora!
 – Desculpe, não sabia que a moça estava acompanhada. Meu nome é Eric, trabalho na Funerária Mavis. – ele apontou o carro de novo. – Só vim ver se ela precisava de ajuda.
 – Não quero saber quem você é e onde você trabalha. – falou Cris se aproximando. – Só quero que se afaste do meu carro, não precisamos de ajuda.
 Eric era maior que Cris, mas Cris também era forte. A postura dele era desafiadora, e Alice ficou extremamente aliviada ao ver Eric recuar. Cris também.
 – Está bem, desculpe, chefe. Não quis incomodar.
 Chris observou Eric se afastar e tentou entrar no carro. A porta ainda estava trancada.
 – Alice, abre a droga da porta!
Alice a destravou apressadamente, e assim que ele se sentou, ela os trancou de novo. Cris estava ofegante. Ainda bem que o homem tinha se afastado, pois pensando melhor, ele não tinha tanta certeza de que poderia enfrentá-lo em uma briga. Sequer sabia se o homem estava armado. Poderia ter atirado nos dois para roubar o carro.
 – Onde é você estava? – Alice berrou chorosa.
Cris percebeu.
 – Fique calma, – ele se preocupou. – estou aqui. Está tudo bem?
 – Eu perguntei onde você estava.
Ela tentou se recompor. Eu estou no controle, ela repetia.
Cris suspirou.
 – Foi uma coisa estranha – ele reconheceu. Uma mulher apareceu desesperada e me pediu ajuda. Disse que seu nome era Agatha e que um fusível de sua casa tinha queimado bem na hora da ceia. Contou uma história sobre os filhos estarem chorando desesperados e deu mil graças por ter me encontrado, que era uma sorte eu ter aparecido a essa hora na rua.
 Alice o encarou nervosa.
 – Qual é o seu problema? Você me largou sozinha na rua, sabia?
 Cris se defendeu.
 – Eu não te larguei. Eu... – ele hesitou. – Eu sei que não gosto de natal e tudo mais, mas como eu poderia deixar uma mulher e seus filhos no escuro? De qualquer forma disse que só iria terminar de trocar o pneu e poderia ajudá-la. Quando cheguei à casa que ela me indicou, eu chamei, mas ninguém respondeu. Eu toquei a campainha algumas vezes, mas nada aconteceu. Tudo parecia trancado. Eu olhei para ver se não estava na casa errada, você sabe como sou né? Mas eu sabia que você estava sozinha, então eu desisti e voltei para o carro. Foi quando eu vi o homem parado na sua janela. Tem certeza de que está tudo bem?
 – Eu estou bem, obrigada.
– Você está cheirando a cigarro.
Ela revirou os olhos.
– Vamos embora logo por favor, acho que ainda conseguimos chegar na hora se sairmos agora.
 Ele concordou. Ligou o carro enquanto Alice checava sua maquiagem. Não estava borrada. Os dois saíram dali rapidamente, observados pelo retrovisor do carro funerário.
 Eric acendeu outro cigarro. Ficou olhando seu isqueiro e o imaginando na mão da mulher que acabara de conhecer. A porta do passageiro se abriu. Uma linda morena de cabelos curtos e cacheados entrou.
 – Eric.
 Ele a olhou com indiferença.
 – Agatha. Você não o segurou tempo suficiente.
 Ela retrucou com raiva.
 – Eu fiz o que tinha que fazer. Você conseguiu?
 Ele tirou do bolso um celular e entregou à mulher. Ela ligou e viu a foto do casal que acabara de sair dali, sorrindo, na mesa de um restaurante que ela não conhecia. Várias mensagens chegaram de uma vez, do mesmo contato, “Mãe”.
– Alguém está atrasada para a ceia. – ela riu com sarcasmo, enquanto guardava o celular em sua bolsa de zíper. Olhou para a traseira do carro. – Ele já está começando a feder. O que faremos com ele?
 Eric tirou o crachá do bolso e pendurou cuidadosamente no espelho do carro. Podia ver a foto de um homem velho, bem mais gordo do que ele. Antônio, ele leu.
 – Jogaremos o corpo em qualquer viela.
 Ele deu partida e os dois seguiram ao longe o carro de seu próximo alvo.

Conto: "A Caçada Selvagem"
Escrito por Irine C. Syrogiannis, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Respirou fundo o ar gelado do fim da tarde e sentiu-se contagiado pela
energia ao seu redor. A imensa rena que montava tinha o corpo forte e quente, que
parecia vibrar de excitação diante da marcha que logo iniciariam. Suas bufadas de
ar produziam fumaça, devido ao frio intenso e os enormes chifres espalhavam
torrões de terra, cavando o chão congelado.
Seu exército de elfos ria e entoava cânticos sobre caçadas passadas,
ajeitando os últimos detalhes de suas selas, checando espadas, arcos e flechas.
Abriu um largo sorriso provocante, olhando o velho guerreiro calho que se
posicionava ao seu lado, seguido por seu exército de heróis mortos. Seu cavalo
também demonstrava estar contagiado pela atmosfera, batendo ansioso suas
quatro patas dianteiras no chão.
O velho retribuiu seu sorriso com um falso olhar de censura, buscando
manter a pose de Pai de Todos, mas incapaz de esconder o pequeno sorriso que
torcia a ponta esquerda de seu lábio. Mesmo ele, em toda a sabedoria e
experiência, sentia o arrepio quente de ansiedade pela luta.
Logo os cães da grande anciã uivariam, sinalizando mais uma caçada
selvagem.
Apertou as rédeas de sua rena, vendo o companheiro de milênios lançar
seus corvos, para que já se adiantassem em encontrar os alvos, o que significava
que o início estava realmente próximo.
- Não vale trapacear, Odin! – Gritou com sua voz grossa e alegre, fazendose
ouvir por cima da sinfonia predatória, provocando.
O outro guerreiro apenas balançou a cabeça, assistindo os corvos sumirem
pela ponte arco-íris.
- Isso não é uma competição, Frey! – Repreendeu, em seu tom paternal.
O Deus mais jovem riu, não se sentindo diminuído, pois estava acostumado
ao tratamento. Era simplesmente natural para aquele grande rei se sentir
responsável por todos.
Frey também não fugia de suas responsabilidades, tanto que estava ali, em
sua armadura vermelha e verde, com uma espada bem afiada e polida, preparado
para mais uma caçada de início de inverno, onde recolheriam todos os maus
espíritos, evitando que incomodassem os vivos durante o período mais árduo do
ano.
Sabia que não se tratava de uma competição de quem capturava mais elfos
negros, duendes traquinas, espíritos zombeteiros ou poltergeists, porém já não
sentia a animação das eras antigas.
A primeira senhora da caçada selvagem, Bertha, abdicara desta função há
muitos séculos, dedicando-se a cuidar dos mais ocultos mistérios do universo,
enquanto lhes delegava essa tarefa. Achara estranho na época, mas agora quase a
entendia.
A caçada era cansativa às vezes, quase ingrata e embora reconhecesse sua
importância, havia certo desanimo em realizá-la em um mundo que praticamente o
esquecera e não mais agradecia o feito.
Não controlou um pequeno riso, olhando para Odin em seus trajes azuis e
dourados. Em pensar que ousaram torná-lo um velho gordo, de roupa vermelha,
por culpa de uma empresa de refrigerante(!) e os sapatos que antes se enchiam de
cubos de açúcar para seu cavalo Sleipnir, agora aguardavam serem recheados de
brinquedos de plástico.
Vermelho era a sua cor, bem como as renas, mas as histórias foram
misturadas de forma quase risível, enquanto eram esquecidos e substituídos por
uma figura folclórica ridícula.
Diante de tudo isso, questionava-se se ainda valeria a pena realizar a
caçada? Não se orgulhava de pensar assim, mas era a noite mais longa do ano, o
frio intenso deixava úmido seu cabelo loiro e formava flocos de gelo na superfície
de sua barba, enquanto sua bela esposa o aguardava na cama quente, os motivos
de cogitar não ir eram bastante bons.
Ninguém jamais poderia dizer que Frey era um covarde, pois apesar de
tudo, quando os uivos dos cães de caça ecoaram na noite escura, não hesitou em
soltar os pés dos flancos da rena e relaxar o arreio, autorizando o início do galope.
Atravessar para Midgard era sempre uma experiência de tirar o folego,
pensou, pairando no céu encoberto de nuvens, enquanto seus elfos avançavam 
dando gritos de guerra, para anunciarem a todos os adversários sua furiosa
chegada.
Havia sempre uma beleza especial naquele reino, de vidas tão curtas e sutis.
O que faltava aos humanos em longevidade, eles compensavam em belíssimas
criações, como as cidades, com suas luzes que tornavam o chão tão estrelado
quanto o manto celeste.
Afastando a tristeza pela forma que aquelas belas criaturas se distanciaram
do resto da natureza, ajeitou-se sobre sua montaria e avançou, tornando a ganhar
a dianteira sobre seu exército.
Era uma marcha veloz e voraz, que não deixava vestígios em seu caminho,
enquanto arrastava tudo aquilo que já não era mais bem-vindo naquele mundo.
Espíritos errantes tinham a opção de irem por bem ou por mal e a maior parte das
criaturas trapaceiras mal tinham tempo de identificar o que lhes atingira.
O sol já estava prestes a nascer, anunciando o fim da caçada, quando ouviu
um grito assustado cortar a noite. Não havia nenhum sinal de influência espiritual
daquele ponto, ainda sim, não poderia ignorar um som tão repleto de
vulnerabilidade e medo.
Ordenou que seus guerreiros prosseguissem, enquanto seguia para o local.
Aproximando-se, ouviu novos gritos ecoando no entorno da elegante casa de
subúrbio, que poderia ser localizada a quilômetros, devido à quantidade de piscapiscas
festivos.
- Não, por favor, não! – A mulher gritava, de algum lugar no interior da
casa.
- Não? Não é o caralho, sua vadia! – Ouviu uma voz masculina responder,
repleta de ódio. – Que porra de roupa foi essa, que você inventou de usar na festa
do meu trabalho?!
Fazendo com que sua rena pousasse no telhado, desceu pela lateral da casa
e pela janela da cozinha, assistiu o desenrolar da cena. Uma bela mulher morena,
em um vestido vermelho de veludo vermelho, com o cumprimento pouco a cima do
joelho, e sandálias de salto-alto prateadas, recuava pelo cômodo, sendo espreitada
por um homem que devia ser seu companheiro.
- V-você disse que tinha adorado a minha roupa antes de sair. – Falou a
mulher, com a voz trêmula, enquanto grossas lágrimas negras borravam a
maquiagem em seu rosto.
- Adorei uma porra! Vestida assim e toda cheia de sorrisos pro meu chefe,
todo mundo no trabalho vai comentar, vão dizer que eu sou casado com uma
piranha, que deu mole pro viado do meu chefe! – Avançou um passo na direção
dela e a mudança de posição permitiu notar que tinha um facão na mão.
A mulher tentou recuar mais um passo, se desequilibrando ao arrastar o
salto no chão polido da cozinha e torcer o pé, dando um grito de dor e medo.
- Não diz isso, por favor, as crianças vão acordar assustadas. Ninguém vai
pensar nada! – Ela tentava argumentar, balançando a cabeça, com medo de olhá-lo
diretamente.
O homem deu mais um passo trôpego, claramente bêbado, sem parar de
proferir ofensas.
- Crianças? Filhos de uma putinha, isso sim! Ninguém tava pensando nada,
todos estavam vendo minha mulher de mamãe noel sexy, louca pra arrumar um
papai Noel açucarado e, de quebra, me enfiar uns chifres de rena no meio da testa!
Em condições normais, Frey não interferiria em relações humanas. Porém
não podia ficar parado, assistindo tal demonstração de violência. Sua irmã jamais o
perdoaria se deixasse uma mulher ser atacada de tal forma, ele não se perdoaria.
Viu o homem dar mais um passo na direção dela e erguer a faca para
golpeá-la. Então arrebentou a porta e invadiu a cozinha, fazendo com que a mulher
olha-se apavorada, enquanto o homem se voltava confuso em sua fúria, ainda com
a faca erguida.
- Mas quem é você, porra? – Perguntou aos berros, com o álcool o
impedindo de atentar para a imensa diferença de tamanho entre eles.
A caçada selvagem era uma limpeza espiritual, visando levar embora tudo
que não deveria permanecer no mundo humano. Bem, definitivamente aquele
homem abusara de todos os seus direitos e não merecia permanecer impune.
Pensou Frey, abrindo um sorriso largo e debochado, que deixava a mostra
as perfeitas fileiras de dentes brancos, com seus olhos muito azuis faiscando de
fúria. Apertou o cabo da espada e a desembainhou com fúria, em um assobio 
lamuriento, a erguendo da mesma forma que o homem fizera com a faca mais
cedo.
- Ho-ho-ho, filho da puta!
Afinal a caçada daquele ano tivera alguma novidade e garantiu menos um
idiota no mundo. Feliz Natal!      
Conto: "Horizonte de Eventos"
Escrito por Rafael Lima, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
31 de dezembro de 2017. Esse foi o dia em que eu descobri que há música preenchendo o vazio entre as estrelas.
Não entendo sobre física, matemática ou as leis cósmicas que regem essa orquestra vazia. Eu conheço música, e no meu sono mais profundo pude ouvir os sons que permeiam o cosmos. Pude tocar cada nota, cantar cada melodia com meus dedos pelo teclado de um piano enquanto inúmeros músicos invisíveis criavam uma harmonia indescritivelmente cheia e profunda, tão bela que perturba, onde cada nota se perdia em uma nebulosa de sons, cada harmônico dos grandes acordes sustentados do piano juntava-se na nuvem sonora e tornava-se parte de um grande crescendo até o apoteótico clímax, grotesco e belo
A primeira vez que ouvi o que o vazio queria mostrar foi logo após perceber o quão distante eu era do universo. Arte é sobre sacrifício, artistas abrem mão do mundo real para passar horas dentro do próprio universo onde as leis são paradoxais, sendo ao mesmo tempo infinitamente mutáveis e fixas. Um ator luta para abrir mão da própria pele para viver em outra enquanto ensaia preparando-se para um espetáculo, da mesma forma que um escritor abdica da realidade e mergulha na própria mente, chafurdando em devaneios guardados no fundo de si. Tudo isso seguindo regras impostas por uma técnica que visa a perfeição inalcançável. É esse chiaroscuro do calor visceral com a frieza da perfeição que cria o resultado que nós esperamos de uma obra-prima. É desnecessário falar que chegar nesse ponto demanda horas de prática e estudo, algo que, em alguns casos, nos desconecta do mundo ao mesmo tempo que nos dá uma sensação de estar no lugar certo. Foi nesse dia, nessa véspera de Ano Novo que eu percebi minha ausência. Lembrei da minha mãe me dizendo para sempre passar a virada de ano feliz e rodeado por pessoas amadas, isso porque a forma como você passa de um ano para o outro seria como você passaria o ano inteiro.
E eu estava sozinho. Ausente do mundo real e agora me sentindo desconfortável no meu próprio. Eu conhecia outros músicos, outros artistas de áreas diferentes, mas, por algum motivo, eu era o único a estar sozinho. Sabia que as coisas não precisavam ser assim, mas temia que fosse muito tarde para mudar.
Havia uma peça que eu toquei quando era jovem, possuía um caráter nostálgico e uma textura musical profunda e polifônica. Ao mesmo tempo que o peso de um baixo na região mais grave do piano criava a harmonia, havia sempre uma nota aguda que todos que ouviam relacionavam com um pássaro, mas eu sempre relacionei com as estrelas. A peça era uma grande constelação que ilustrava o luto de algo que não poderia ser expressado de outra maneira. Ela era como um céu noturno para o qual eu olhava em busca de alguma esperança, então, o que eu fiz tentando para tentar afastar minha solidão foi trazer a metáfora ao terreno. Tentei procurar conforto na imensidão do céu, ou pelo menos do que eu poderia observar do terraço do meu apartamento, na noite de Ano Novo. Eu tinha algum tipo de esperança de obter uma resposta milagrosa, algum tipo de resolução. Talvez algum velho amigo entrasse em contato, ou uma antiga namorada estivesse sozinha também. Talvez eu reunisse coragem e fizesse as ligações eu mesmo. Mas as únicas companhias que eu tinha eram as estrelas e uma garrafa de vinho.
Já havia perdido a noção do tempo e das taças quando comecei a reparar que o céu que eu estava vendo era inconstante, de alguma maneira parecia que as estralas se afastavam entre si, tornavam-se distantes e o vácuo entre eles começava a escurecer minha visão. Não sei se isso que vi foi literal ou somente meu cérebro embriagado tentando ilustrar o medo da imensidão que eu presenciava. Durante o dia o céu nunca está vazio, o sol o preenche com sua luz que nos dá a falsa sensação de estarmos seguros dentro da abóboda terrestre, nosso pequeno ponto azul flutuando no universo. À noite, principalmente durantes as madrugadas, vemos o vazio que existe entre as estrelas. Como eu já disse, não entendo muito do cosmos de uma maneira cientifica, mas nesse momento eu precisava entender alguma coisa então fiz a única coisa que eu sabia fazer. Eu fechei meus olhos e ouvi. Tentei concentrar minha audição para passar pelos sons que vinham da rua e das casas, o barulho das festas de fim de ano. Eu queria ouvir os sons das estrelas. E, para minha surpresa, eu consegui.
Começou como uma melodia suave e etérea em alguma tonalidade menor, era quase um sussurro. Um prelúdio disforme e progressivo. O som, que era algo entre um violino e um teremim, foi ficando encorpado, uma textura mais densa, porém frágil foi surgindo, conforme a música ia crescendo as referências de tonalidade iam desaparecendo e a peça se tornava uma sequência de notas aparentemente aleatórias, mas com um ritmo ternário fortemente marcado. A música ia ficando mais alta e ressoava por todo o meu corpo, o ritmo continuava marcado, mas a pulsação ia ficando cada vez mais rápida. Em poucos instantes o prelúdio delicado se transformou em uma valsa grotesca, mais e mais sons surgiam, não mais semelhantes aos de instrumentos musicais, mas sons como sussurros que soavam tão altos como gritos e sons sinestésicos, como se eu conseguisse ouvir a sensação de unhas arranhando a minha pele, ouço corações batendo, bocas salivando, os sussurros se transformando em gritos. E tudo explodindo em um magnifico silêncio.
Eu abro meus olhos, ainda estou no terraço do meu prédio, mas na minha frente vejo um homem. Ele é extremamente alto, não possui um fio de cabelo ou de barba, mas sobrancelhas grisalhas e grossas, possui um rosto absurdamente magro e uma pele branca como a de um cadáver, seus olhos são negros como o céu que eu encarava antes. Ele usa camisa e calça social preta por baixo de um fraque do estilo que era usado tipicamente por maestros em algumas orquestras. Sua presença era cercada de silêncio, de uma forma que os sons das festas próximas foram calados. Ele se aproxima de mim com passos longos e lentos e, de dentro de seu fraque, retira um calhamaço de folhas e as deixa cair no chão na minha frente. Ele mantém o rosto frio e sem expressão enquanto espera que eu pegue as folhas do chão.
Me abaixo para juntar as folhas e quando me levanto, o homem ainda estava lá, me encarando. A única cosia ali presente era uma frieza completamente desumana, olhar para ele era olhar para o escuro do céu e perceber que há algo olhando do outro lado.
Entro de volta no meu apartamento e acendo as luzes para examinar as folhas, se o homem ainda estava do lado de fora, não conseguia mais vê-lo devido à escuridão. Eram partituras antigas e amareladas, como se estivessem guardadas em um armário há décadas. Examinando as folhas percebo como são geladas, além disso, exalavam um cheiro que eu nunca havia sentido antes. O melhor que posso descrever é como se fosse o cheiro que eu imagino que você sente em uma área com alta radioatividade, era metálico e nauseante, a cada respiração eu sentia esse odor subindo pelas minhas narinas até o meu cérebro e se alojando no meu crânio. Mesmo depois que o cheiro passou eu ainda o sentia simplesmente por lembrar-me.
O conteúdo das partituras era extremamente familiar e igualmente enigmático. Era uma grande grade orquestral intitulada “Mov. I” e abaixo uma mistura de notação musical tradicional e um tipo de notação que deve ser própria do compositor, este que, a propósito, não estava indicado. Essa notação não tradicional consistia em formas geométricas, números e padrões em espiral que simplesmente interrompiam a partitura em algum momento, como se nascessem das notas escritas poluíssem a música e a transformassem em outra coisa, nunca pensei que uma simples notação não tradicional pudesse me passar uma sensação tão grotesca como esta. Quanto mais eu tentava analisar a partitura, mais eu me lembrava daquele cheiro metálico e mais ele se alojava na minha mente me dando uma sensação aguda de náusea. No entanto, reconheço a música que havia acabado de ouvir, o som que veio do vazio e impregnou minha mente, isso graças aos primeiros compassos, aquela introdução suave em tom menor, estava bem evidente e em notação tradicional antes de se perder em uma nebulosa escura de símbolos desconhecidos.
Continuei a beber enquanto examinava as partituras, minha atenção estava tão dedicada às partituras a minha frente que quase não ouvi o céu explodindo em luz na euforia da queima de fogos da virada do ano. O mundo renascia em uma explosão de cores, sorrisos embriagados enfeitavam as praias e as sacadas ao redor do globo, e eu estou isolado, bêbado e a parte do mundo.
Não me lembro exatamente como adormeci, mas, de repente, estava sonhando. Estava em um teatro, na primeira fila, a figura do maestro que apareceu para mim mais cedo estava ao centro, de costas para a plateia, em frente ao que imaginava ser uma orquestra invisível, um pouco à frente da orquestra havia um grande piano de cauda. O maestro começou a reger os músicos que eu não via, mas o som estava lá. A mesma sinfonia de antes, a mesma entrada, os mesmos sons disformes, no entanto, ele se virou para o piano, dando a entrada para o solista, e nada. Somente o silêncio. Mais uma vez, da capo, e, novamente, o grande silêncio depois da entrada do piano.
Mais uma vez.
Nessa terceira vez, no entanto, ele se virou e jogou seu olhar frio sobre mim. E eu entendi. Era o meu solo. Ele já havia me entregado as partituras, quando percebi isso, vi que as partituras estavam no assento ao meu lado, organizadas e encadernadas.
Subi até o palco e, mesmo sem ter certeza do que fazer, minhas mãos agiram sozinhas. Os sons produzidos por aquele piano eram diferentes de tudo que eu já tinha ouvido. Eram metálicos, tinham textura, cheiro, gosto. Mas eram vazios de cor. Conforme a música progredia, a orquestra, devagar começou a tomar forma. Formas opacas que, somente por instantes, ganhavam luz, cor e movimento, mostrando rostos humanos com olhos fixos no maestro.
E a música não parava. Horas se passavam e o Concerto ficava cada mais frenético, os sons mais imprevisíveis até aquela explosão final em um magnifico silêncio. E foi durante esse silêncio que eu fiz minha descoberta, a música não terminava nele. Tudo ao meu redor deu espaço ao nada. O teatro, a orquestra, o piano, tudo foi aos poucos desvanecendo e revelando um infinito vazio decorado com pequenas estrelas, separadas por nada além do vácuo e esse concerto que ainda soava, uma grande obra orquestral de silêncio, fria e eterna. Mas a minha frente, ele ainda estava lá, me olhando com aqueles olhos negros e vazios, tanto quanto a escuridão abissal que me cercava.
Eu comecei a sentir um frio que penetrava no meu corpo e percorria minhas veias, na minha boca, aquele mesmo gosto nauseante, e na minha mente eu ouvia uma voz metálica, ao mesmo tempo sussurrante e gritante, distorcida e rasgada, grave e gutural.
“Você pertence a mim.”
Ao meu redor eu revejo todos os músicos da orquestra de antes, novamente aparecendo por instantes e tornando-se nada logo a seguir, vejo minhas mãos se desfazendo em nada.
“Esse é o seu lugar agora.”
 A voz horrenda continuava na minha cabeça em um eco infinito conforme o peso do vazio me esmagava e me absorvia como em um buraco negro.
“Para Sempre.”
 Então, ao desaparecer por completo, eu acordei e lembrei da minha mãe e suas superstições de Ano Novo. Já era dia e o relógio marcava a data: 31 de dezembro de 2017.

Conto: "Beijei o Papai Noel"
Escrito por Néka Martins, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Sei que vocês adoram dezembro porque tem Natal, mas eu odeio. Por acidente da natureza nasci nele, justo neste dia vinte e quatro; portanto hoje completo mais uma primavera. Quer dizer, mais um verão de recorde de calor em São Paulo que está assim: trânsito caótico, vagões do metrô estrumbando de gente que cheira a suor, mulheres que passam ofegantes com sacolas lotadas da Rua 25 de Março e outras aberrações em prol do consumismo. Como encontram felicidade enchendo a casa de cacarecos inúteis importados da China? E ainda contemplam as “lembrancinhas raras”, puríssima dinastia Xing Ling. 
Desembarcar na estação São Bento nesta época é atividade paranormal, mas quando é sua única opção, você exercita esta luta diária: as consumistas tentando embarcar versus esta que vos fala tentando sair. É comum ficar entalada entre a porta e outra passageira, mas hoje foi demais! Orei muito para Nossa Senhora da Paciência, mas ela não atendeu minhas preces. Uma balofa carregada de sacolas, exibindo uma camiseta nude estampada com borrões de ketchup, me atropelou e quase me derrubou de cara no chão. Sim, o inferno existe! Pra me vingar desembarco gritando:
−Suaaa... GOR-DA!
Sei que você que lê isto agora já me aponta o dedo levantando bandeiras em defesa dos frascos e comprimidos, mas só uma informação: YES,I CAN! Posso e posso mesmo! Quando criança era eu quem chorava na escola porque me chamavam de baleia; quando adolescente querendo beijar bocas, ninguém beijava a elefanta; quando apresentei o melhor currículo e não fui aceita porque precisava eliminar peso, você estava aonde? Pois é! Agora guarde seu crivo do politicamente correto para si. Saiba que ele fere bem mais que os cortes que foram feitos no meu corpo para a cirurgia de redução do estômago. De lá para cá já foram eliminados quase sessenta quilos, mas logo elimino também este “quase”.
Caminho os trezentos metros inalando o cheiro de mijo dos moradores de rua e apreciando as lixeiras lotadas sem coleta, até alcançar a entrada de piso gorduroso do “Chapa Quente”, a lanchonete que serve o melhor churrasco grego do centro velho. Sim, usamos carne de terceira, mas nada que o truque do molho,, com pedaços de abacaxi, não amacie a carne. Este emprego foi o único que abraçou minha antiga capa de gordura, seria temporário, mas têm sido definitivo nos últimos dois anos. Pego o turno das 14 às 23h e, entre doses de pinga servidas para velhotes banguelas e lanches lotados de gordura saturada, vou pagando as contas devagar e...quase sempre.
Hoje o movimento está calmo, afinal é véspera de Natal! Logo mais os hipócritas estarão comemorando o nascimento do Menino Deus, na mais bela mentira inventada, já que o único motivo da reunião é a troca de presentes e a comilança desenfreada. A festa é, na verdade, um tributo a Baco! É nesta noite que a gente vive de faz de conta, fingindo que curtiu o presente brega da tia; abraçando o irmão briguento; beijando a prima invejosa; empurrando peru seco goela a baixo; comendo arroz com passas... E o mais grave: a gente finge que é rico e torra o cartão de crédito em futilidades, se endividando por todo o ano que virá. Enquanto penso nestas verdades que ninguém ousa dizer, escuto Joel:
− X-Tudo com muito bacon, Ana. No capricho que é o último!
Às vinte horas já espero o trem na mesma estação, agora vazia. Divido o vagão com um casal emo e uma família gorda: a mãe abocanhada a um churros, a filha lambendo um sorvete e o pai degustando cerveja. Idiotas que não sabem que vagão do metrô não é rotiserrie. Abaixo a cabeça evitando olhar a cena.
No apartamento, encontro um vaso de flor acompanhado de cartão de feliz aniversário de 34 anos e feliz Natal: economia de presente tipo “pague um e leve dois”. Sozinha, já que meus familiares foram abraçar os parentes e eu preferi fugir da falsidade familiar, tomo banho tentando me livrar do cheiro de bacon impregnado nos meus cabelos longos. Me produzo para competir com o clima da noite: vermelho e preto, salto alto e borrifadas de “Chance”, porque a vida sem um Chanel é desaforo. Em seguida, abro a geladeira e me sirvo de salada de alface, tomate e uma sardinha pra investir nos ácidos graxos; completo o banquete com gotas de azeite. Pego um espumante nacional e subo para a cobertura do prédio; onde me refugio quando preciso me esconder de mim mesma, onde me sinto mais perto do céu. Brindo aos desafetos, às mágoas e aos desejos contidos. Provavelmente eu e mais ninguém brinda à solidão nesta noite de encontros.
A cidade explode em festividades à meia noite. Os malditos fogos de artifício não param de invadir a negritude da noite. As janelas abertas mostram troca de presentes, abraços e colorido de pisca-piscas. O ar exala a mistura de aromas de panelas abertas e a largada para a ceia é dada. Começo a bailar para afastar tudo o que não me faz bem. Danço envolta em meu abraço fraco, sorvendo meu aroma sem graça, aproveitando a música de risadas entoadas por gente feliz. Esta gente feliz que enche o saco de quem não o é.
Assim que seco a garrafa o vazio torpe se apodera de mim, me preenchendo de coragem. Me aproximo do parapeito e as luzes piscantes dos dezoito andares abaixo me envolvem. Rio, como só os loucos são capazes de rir, quando investidos de sanidade. Os vinte centímetros de largura da parede me convidam para um bailado mais esdrúxulo. Topo o desafio: primeiro o pé esquerdo, depois o direito e as vozes das luzes gritando:
−Vem Ana, vem brilhar com a gente num mundo sem dor.
Puxo pelo ar fresco que enche meus pulmões e, sem refletir, me atiro na queda ao vazio.
−Ho-ho-ho! Olha só quem chegou!
Levanto-me sem jeito, notando que a queda foi rápida demais; logo percebo que fui puxada e caí em cima do...
−Papai Noel?
−Sim criança! Em carne, osso e pança trabalhada na cerveja.
Levanto-me rapidamente e dou de cara com o Santa Claus mais esquisito que já vi: chinelos de dedo, bermuda, camisa vermelha com botões abertos e barba bem feita.
−Você dança tão bem no solo. Por que subir no parapeito?
−Por que se meter na minha vida?
−Menina má educada não ganha presente, sabia?
−E quem disse que eu quero presente?
−Ah, olha que privilégio o seu. Não mandou carta pro Papai Noel, mas está com ele, apreciando o brilho da cidade!
−Ah, me poupe!
−Hei, Ana do 502, relaxa só por hoje! A vida é muito curta para gente perder tempo com insignificâncias.
−Você me... conhece?
−Claro! O Papai Noel conhece todo mundo! Ho-ho-ho-ho!
Fico com raiva e me dirijo para a saída. Ele me puxa pelo braço.
−Ana! Senta aqui e toma uma cerveja com o Papai Noel. Só uma. Depois você pode ir embora...
Me encara de um jeito desafiador me fazendo reconhecê-lo:
−Você não é o...
−O Carlos da padaria? Aquele que te dá desconto e tenta uma piada todo dia pra arrancar o seu sorriso? Sou eu, sim. Moro aqui também.
Olho para ele incrédula e, mais relaxada, aceito o convite. Sentamos no chão, ele me passa a cerveja que nem está tão gelada, mas sinto que ela acalma minha garganta seca. Ficamos um bom tempo em silêncio apreciando o barulho da cidade.
 −Ana, sinta no ar o momento de abraços e ode à união. Sim, por um breve momento, o universo emana uma lufada de ar e sossego para nós. Deixa ele te atingir, não resista.
Ele fecha os olhos, abre os braços sentado em posição de lótus e aspira o ar. Dali a pouco abre um olho, me espia e diz:
−Como ousa desobedecer ao Noel? Vamos garota, sua vez!
Eu, sem entender muito bem minha reação, me vejo fazendo o mesmo. Logo o sinto próximo, conduzindo meu relaxamento com voz doce em meus ouvidos:
−Isso, Ana! Permita-se, não tenha medo. Deixa o Natal mergulhar nas suas entranhas. O espírito do Natal é hoje... E amanhã também, e depois... Aproveite. A paz é uma dádiva.
Sua voz toca minha alma, invadindo meu território, derrubando minha muralha. Sinto o gosto salgado de lágrimas que caem sem minha permissão, mas não consigo abandonar este torpor.
−Isso menina linda, chore sem pudor. Deixe as lágrimas contidas lavarem suas mágoas, isso vai te fazer bem para abraçar 2018 com amor!
E, sem saber quanto tempo passou, abro os olhos me dando conta que estou amparada em seu abraço. Seu cheiro é uma mistura de suor e colônia de barba, exalando masculinidade e aconchego.
−Não acredito que estou abraçando o Papai Noel deste jeito!
Ele sorri e completa:
−Papai Noel solitário, que veio da visita à clínica de dependentes químicos. –me afasto para dar ouvidos ao seu relato −Fui lá fazer companhia aos seres humanos que estão abandonados, em depósitos à margem da sociedade. Também sou um “ex-viciado”, Ana. Se é que a gente possa afirmar isso. Sei como funciona: o preconceito, a revolta, a sensação de impotência. É minha forma de gratidão por ter conseguido sair dessa, já que não pretendo cair de parapeitos para fugir da minha humanidade em evolução...
O encaro e enxergo o rapaz que me trata bem na padaria, demonstrando interesse por mim, mas que eu nunca considerei por acreditar que minha gordura seria passaporte para desencontros. Nossos olhos dizem palavras mudas enquanto ele livra meu rosto das mechas rebeldes do meu cabelo. No horizonte, os primeiros raios de sol começam a iluminar a cidade que se aquietou, uma leve brisa fresca inunda o ar. Ele se aproxima resoluto, encarando meus lábios que sentem desejo de encontrar os dele. Nosso beijo começa lento e tímido, até nossos corpos explodirem em novas compulsões. Trocamos beijos e carícias por longo tempo, até o sol romper a escuridão de quase toda a cidade que descansa. Sinto meu corpo arrepiado de desejo e sedento por carícias mais afoitas. Ele fica de pé, me dá as mãos e convida:
−Vem, Ana! Vem brincar na casa do Papai Noel. Hoje é dia de Natal!
Incrédula, solto sua mão e volto correndo ao parapeito. Chego perto e antes que ele me alcance, grito com toda a força do meu coração para aqueles que ainda dormem:
−Eu beijei o papai Noel! E ele beija bem!!!
Ele me abraça gargalhando e, numa perfeita saudação ao amanhecer do dia de Natal, ganhamos juntos o retorno às nossas vidas.

      
Conto: "O lado de fora do Natal"
Escrito por Clóvis Nicacio, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
lugar colorido e barulhento devia ser quente, com tanta alegria e tantas pessoas.
Soltou as mãos do ferro, esfregando uma na outra para aquecê-las. Se tivesse bolsos nas roupas, seria a hora de usá-los. Os outros meninos que entravam a pé estavam com as mãos nos bolsos, quando não usavam luvas e eram guiados pelas mãos quentes dos adultos.
Continuou a caminhada ao lado da grade que cerca o Shopping, em direção da entrada de pedestres. Se o guarda não estivesse prestando atenção, talvez conseguisse entrar. É sábado. Logo será noite. Se o que ouviu for verdade, falta pouco para ele chegar.
Não conseguiu entrar no ano anterior. Um guarda o deteve quando estava passando pelo portão, e o obrigou a voltar. Esse ano seria diferente. Estava mais atento, cresceu alguns centímetros e corria mais ligeiro.
Ainda não havia se aproximado do portão quando ouviu o rangido, seguido do latido agudo e familiar. A carroça se tornou visível depois de virar a curva do caminho.
— Bolassete, você também veio ver o Papai Noel?
— Quem me dera, Neguinho. Num convidaram, nem eu e nem o que fais niversário.
— Num é festa de aniversário, Bolassete. Escutei que o Papai Noel chega hoje, voando naquela carroça dele.
O negro sexagenário de cabeça branca gostava de conversar com as crianças, tanto quanto gostava de conversar com os cachorros. Todos mostravam a mesma inocência, embora respondessem de forma diferente. Se aproximou do menino, baixando até o chão os varais da carroça que puxava, aproveitando o encontro inesperado para descansar alguns minutos.
— Intão ocê num sabe que o Natal é o niversário de Nosso Senhor?
— Minha mãe já contou uma história assim. Mas não acredito que o Papai Noel é Nosso Senhor.
— Num é. Esse véio barrigudo de barba branca só serve pra fazê as pessoa gastá dinhero. Nosso Senhor eles fala que é o menino dentro daquela caxinha de pau, junto das vaca e dos pastor. É nada. Nosso Senhor mora dentro dos coração das pessoa, quando acha um lugar.
— Até no meu e no seu, Bolassete?
— No seu pode sê. Deve tê bastante espaço. A Bolinha num é gente, mas deve tê um coração bem grande. No meu não, tá cheio de muita sem-vergonhice que já fiz.
— E porque a Bolinha está amarrada, em cima da carroça?
— Os guarda queria amarrá ela na cerca, do lado de fora, enquanto eu pegava os papelão. Ela ia ficá chorando dimais. Falei que cuidava dela. Acabaro deixando ela entrá, dispois de amarrada dentro da carroça. Pode sortá ela, mais vai ficá pulando nocê.
O menino magricela, negro como um graveto de carvão, usando apenas chinelos de dedo, um calção e uma camiseta estampada com a fotografia do último candidato a prefeito, o derrotado, fez a volta na carroça e desamarrou a cordinha que prendia a cadela. Ganhou uma lambida nas mãos como agradecimento, seguida de alguns latidos em tom alegre e imediatamente a cadelinha saltou para o chão, se embrenhando entre as perninhas raquíticas do menino. Os risos do garoto vieram sem convite.
— Bolinha, para com isso, vai me derrubar.
— Eu te avisei, Neguinho. Ela gosta d’ocê. Qué vim comigo, até o ferro veio discarregá essa carga? Pode continuá brincando com a Bolinha até lá.
— Mas e o Papai Noel?
— Num vai chegá agora. Depois vamo lá no campinho, onde dá pra ver o helicópto chegando. Sem nenhum aperto.
— Mas o Papai Noel não vem naquela carroça dele?
— Não, aquilo num é carroça e nem charrete. É só de infeite. Ele deve vortá todos os dia, até sábado qui vem. Pra vê ele, é mió ocê vim num dia de semana.
O velho de cabeça branca se agachou e pegou as traves, e com um baque, as trouxe de volta para o ponto de equilíbrio. Rompeu a inércia com um puxão, pondo a carroça em movimento. Alguns terrenos baldios, em bairros considerados zona rural, ainda são usados como depósito de sucata, onde se negocia materiais recicláveis. Outros terrenos são improvisados como campos de futebol. Muitos Shopping Centers, principalmente os situados nas margens de grandes rodovias, são ilhas de luxo cercadas por mares de miséria, propagando um aterramento lento em nome do progresso. Ferros velhos e campinhos são saudosas imagens em extinção.
— Tá certo. Vou com você e a Bolinha então. Está ficando muito frio.
Com muitos anos de prática, controlando a respiração, o velho ainda conseguia conversar, mesmo puxando a carroça pesada, acompanhado de perto pelo menino e pela cadelinha saltitante.
— Sua mãe dexô ocê saí sem agasalho?
— Estava quente de manhã, não foi preciso. Sabia que passei de ano, Bolassete? Minha mãe disse que vai me comprar uma chuteira.
— Parabéns procê. A Soraia num sabe o que fazê pra ti agradá. Sempre foi muito isforçada. Ela tá acabando com a vida dela, pra cuidá da sua.
O velho Pedro Bolassete, carregava o apelido desde que tinha cabelos negros como a bola mais escura do bilhar. Caminhava pelas ruas do bairro, recolhendo papelão e materiais descartados desde o tempo das carroças com tração animal. Conhecia todos os moradores, gente e cachorros, pelos nomes.
— Escutei uma vizinha lá nos barracos chamando ela de mulher da vida.
— Num liga. É coisa de inveja. Ocê é pequeno prá entendê isso. Mulher da vida pode sê um monte de coisa. Pensa na sua mãe como uma guerrera, que fais qualquer coisa pra criá um filho.
— Ela está lá na Pensão da Dona Maricota. Disse que vai trabalhar a noite toda, para poder comprar minha chuteira. Eu falei para ela que não precisa, mas ela não escuta.
— Eu sei como é, Neguinho. Mais num fica indo lá não, aquela pensão tá cheia de gente que num tem Nosso Senhor no coração. Num é lugar pra um menino igual ocê.
— Bolassete, tem umas meninas que moram lá, num quartinho separado dos outros. Como que é ruim para meninos e não é ruim para meninas?
— Ocê é muito esperto. Quantos anos tem?
— Onze.
— Lá num é bão prá ninguém, nem menina nem menino. Cotinha cria aquelas menina prá vendê. Hoje, no Natal e no Ano Novo, ela vê as que fais treze ano e vende pra quem tem o coração cheio de mardade. Tá cheio de home que paga muito dinhero prá fica com menina novinha.
— Eles compram elas e levam embora, para morar com eles?
— Não. Eles compra, usa prá fazê sem-vergonhice e deixa as pobre largada. Cotinha pega as menina di vorta e põe pra trabalhar pra ela. Por isso que a pensão tá sempre cheia de moça nova. As mais véia só fica lá, porque num sabe fazê outra coisa. Tomara que a Soraia consiga algum dinhero.
— Isso sempre acontece no Natal, Bolassete? Então o Natal é uma coisa ruim.
— Não, Neguinho. Num é culpa do Natal. O niversário de Nosso Senhor era prá sê uma festa das mais bonita. Quem estraga é os home, que só pensa em dinhero e esquece das pessoa.
— Vou falar para minha mãe não ir mais lá.
— Se pudesse ela não ia mesmo. Só vai pra podê cuidá d’ocê. Só tem um jeito de ajudar, Neguinho. Presta atenção na escola. Aprende a lê, escrevê e fazê conta. Depois arranja um emprego. Num é fácil, mais num tem otro jeito. Si dá certo, ocê tira a Soraia de lá.
— Tem hora que a escola é chata, Bolassete. Jogar bola no campinho com a turma é muito mais legal.
— Eu sei. É por isso que tô aqui, puxando carroça. Nunca gostei de estudá. Nem sei falá direito, igual ocê. Larguei estudo, o barraco onde morava, e tudo, pra ficá brincando na rua, jogando pião, correndo atrais de pipa. Tinha um monte de amigo. Até puxei cadeia pra livrá a cara de um deles. Sumiro todos. Os que ficaro me davam pinga, cigarro, droga. Levei chute, pisão, empurrão, dormí no chão duro, passei fome. Tirei pão duro da boca de cachorro, pra podê comê. Tive mãe dizendo que a escola era minha salvação, quando era muleque igual ocê, mas nunca escutei ela.
— Como você sabe que a escola podia te dar uma vida melhor?
— Num sei. Tive preguiça de descobrí. Eu me achava isperto, que os otro podia me dá tudo o que queria. Me dero, essa carroça e a Bolinha. Outro dia vi um cara do tempo da escola, um que morava na mesma favela que eu. Chegô lá no shopin num carrão todo brilhante. Tem mulher e tem filhos com ropa da moda. Me escondi, mesmo sabendo que não tinha jeito dele me reconhecê.
— Você ficou com inveja dele, Bolassete?
— Não, Neguinho. Fiquei com orgulho dele. Nois dois tinha a mesma chance, mais ele enfrentô e foi pra cima. O que doeu foi a raiva que tive por sê tão burro e tão covarde. Naquele dia me escondí na cachaça até num vê mais nada.
Um clima gelado se intrometeu na conversa, como se o ar frio do início da noite quisesse isolá-los. Bolassete tentou quebrá-lo.
— Neguinho, posso te pedí uma coisa?
— Claro. Nós somos amigos, certo?
— Tô sentino as perna fraquejano, nesses dia. A carroça tá ficando cada dia mais pesada.
— Quer que eu puxe um pouco? Ou que empurre?
O velho riu, pela primeira vez naquele dia, exibindo os dentes falhos.
— Não, menino. Ocê num tem força. A carroça é que ia puxá ocê. É otra coisa.
— Então fala. Claro que ajudo.
— A Bolinha gosta d’ocê. Se arguma coisa me acontecê, cuida dela pra mim?
— Claro, Bolassete. Gosto muito dela. Que tipo de coisa pode acontecer?
— Sei lá. Posso ficá doente.
Era uma forma delicada de dizer que podia morrer. Qualquer doença nas condições em que vivia seria uma viagem sem volta.
— Só dá um jeito de me avisar e venho buscar a Bolinha. Pode ficar tranquilo.
— Ocê é um bom menino, Neguinho. Soraia te educô direitinho. Olha o ferro veio ali. Vô lá vende o papelão. Tamo perto da sua casa, né?
— O barraco fica na segunda rua daquele lado. É perto da pensão. – O menino apontou para um trecho onde se podia avistar torres de alta tensão, na frente do sol em retirada. – Mas não vou agora. Quero ver o helicóptero passando por cima do campinho.
— Leva um papelão pra sentá. A Bolinha vai querê ficá junto. Depois que descarregá eu vô lá.
O menino não queria se afastar, como se quisesse esticar ao máximo aquele momento raro de conversa com alguém mais adulto.
— Bolassete, aonde você vai passar o Natal, sábado que vem?
— Eu? Dexa vê. Tive convite do Major, do Capitão, da Estrela, da Sucupira e de mais uns doze que não lembro o nome. Fora a Bolinha.
— Não estou falando dos cachorros do bairro, mas de gente.
— Peraí, tirando a cachorrada, fica mais complicado.
— Você está me gozando, Bolassete. Minha mãe vai trabalhar na Pensão. Não quero ficar com a turma da favela ou tentando invadir o Shopping. Posso vir ficar com você?
— Tá falano sério, Neguinho?
— Claro, acho que vai ser legal. Do campinho dá para ver os fogos do Shopping?
— Dá pra vê fogos do bairro intero. Mas preciso passá na Pensão e avisá a Soraia. Você só vem se ela dexá, combinado?
— Acho que ela pode arranjar uma garrafa de refrigerante para a gente.
— Pra ocê, né? Já tenho minha cachacinha guardada. Nessa urtima semana antes do Natal, costumo ganhá um ou dois panetone. Ainda tem gente com Nosso Senhor no coração. Vamo fazê uma festa lá no campinho, naquela parte onde tem grama. Dá até prá rolá no chão, no meio dos cachorro.
— Uau, adoro panetone. Teve um ano que minha mãe trouxe um para casa, mas precisei dividir com um monte de gente. Esse vai ser só para nós?
— Claro que não, seu guloso. Também tem a Bolinha e os outros cachorro. Os bichinho precisa comê. Vô vê se arranjo um pouco de pão ou de ração prá eles. No Natal, enquanto os dono vão pra farra, quase todos os cachorro do bairro vem ficá comigo. Ano passado consegui uns osso no açougue. Seu Manuel perguntô se era pra minha sopa.
— Tem jeito de convidar o aniversariante?
— Num precisa. Ele vai vê seu coração de longe e vem por conta dele mesmo. Ocê vai percebê quando os cachorro ficá alegre.
— Já conversou com Nosso Senhor, Bolassete?
— Ele já tento falá comigo, mais eu num entendi. Achei que era a cachaça.
— Se falar comigo, eu te conto tudo.
— Quer sabê? Amanhã descarrego essa carroça. Vamo lá pro campinho.
— Oba. Bolassete, esse vai ser o melhor Natal da minha vida. Vem Bolinha!

Conto: "ESTRANHOS"
Escrito por Rovana Chaves, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
               Pela janela, Ester observava silenciosamente alguns fogos de artifício clareando a noite negra, semelhante à sua pele. Sentiu lhe escorrerem pelos olhos aquela água salgada que em questão de segundos misturou-se ao vinho tinto seco que ela bebericava devagar. Abraçou a si mesma e assim ficou. Soltou aquele suspiro que a sufocava por muito tempo, pode-se até dizer, por muitos anos. 
 Parece que o tempo não passou... Ano passado, neste mesmo dia, lembro de ter vivido algo semelhante ao que vivo hoje. Até quando vou suportar? Até quando vou aceitar? Não sei... não sei. Estou cansada.... Cansada demais para pensar, para agir. O desânimo que se veste de cansaço me vence nas guerras diárias quase sempre. Também, quem sou eu para lutar contra ele e seu amigo, o medo? Sei lá...
 - Boa noite... – enquanto colocava o copo de uísque sobre a mesa, Carlos fechou os olhos na intenção de amenizar o clima.
 - Boa noite. – Tais palavras saíram tão secas quanto uma terra carente de água, sem dirigir o olhar a ele.
 - Como você está? - foi a única expressão que ocorreu a ele dizer. 
 - Bem. – O olhar não deixou de mirar o vazio. 
 - Como a noite está bonita hoje, você não acha? –
 - Não sei, não reparei. Mas você sim tem propriedade de dizer, pois hoje chegou tarde de novo. E ainda acompanhado de um uísque que trouxe da rua. - Pra mim, tanto faz. – Segura as lágrimas que por dentro afloram de maneira descontrolada por conta de tantos dissabores da relação. 
                - Certo... Já vi que hoje é mais um daqueles dias em que a conversa é difícil. Boa noite... – Sussurrou levemente enquanto afagava os ombros da esposa.
  Ela, encolheu os ombros, fechou os olhos como se isso fosse amenizar o cheiro do álcool. Ficou a contemplar aquele homem que agora seguia para o quarto. Enquanto via suas costas, falava baixinho consigo mesma:
- Quem é ele, afinal? Com quem eu me casei? Quem sou para ele? Estranhos. Nós somos dois estranhos dividindo o mesmo teto. 
Sem pensar duas vezes, ruminando a avalanche de desabafos que gostaria de dizer àquele homem, caminhou rapidamente em direção ao quarto. Abriu a porta, permitiu que o ar lhe enchesse os pulmões e a ponto de soltar as palavras, foi surpreendida pela reação de Carlos:
- O que você quer, afinal? Que eu lhe peça desculpas por lhe deixar mais uma virada de Ano Novo sozinha? Porra, foi mal! Ou quer que lhe deseje Feliz Ano Novo? Cansei de ladainhas, cansei de discutir relação, cansei.... Que saco! – Sentou-se na cama debruçando-se sobre a barriga já saliente de tanta bebida.
Neste curto espaço de tempo, ela engoliu novamente as palavras que não dissera mas pensara. Engoliu mais um Ano Novo sozinha. Contudo, vomitou a relação que mantinha com aquele estranho. Ela se importava realmente com ele? Não, acreditava que não. Afinal de contas, não dividiam mais suas confissões, conquistas, tristezas. Apenas dormiam na mesma cama e moravam na mesma casa. Só. Num breve suspiro, andou em direção ao closed, escolheu um dos vestidos mais sexys que haviam lá. Deixou a camisola de lado, tirou a palidez do rosto e se entorpeceu pelo cheiro açucarado do perfume. Já de salto alto, bolsa na mão, despediu-se daquela bela mulher diante de si no espelho. 
Disse apenas:
- Feliz Ano Novo.
Sem mais, saiu pelo apartamento. Munida do celular, ligou para o número até então evitado por medo. Medo do futuro, medo dos falatórios, medo de experimentar. Medo de gostar.
- Clara, oi? Aqui é Ester. Ainda está de pé o convite? 
Após desligar o telefone, com uma inexplicável alegria, sussurrou para si mesma: Feliz Ano Novo, Ester! Aproveite... Aproveite por você mesma. E se permita conhecer alguém que até então é estranha, mas pode deixar de ser...
      
Conto: "A DESCOBERTA DO NATAL"
Escrito por Thaís Arkchimor, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
João esperava a mãe dormir para poder sair de casa. Ela havia chegado mais tarde do que de costume naquela noite, e parecia mais cansada. Trouxera um panetone de frutas e jogara em cima da mesa, ordenando ao filho que comesse para matar a fome. Mas ele não estava com fome, a ansiedade acabara com seu apetite. Além do mais, já havia se garantido mais cedo com uma laranja, para que tivesse energia suficiente na rua para cumprir sua missão. 
 Ele sabia que depois que a mãe terminasse de tomar tudo o que estava naquela garrafa verde, logo deitaria no sofá e cairia no sono. Era só não contraria-la, para que não ficasse nervosa. Ele até já havia arrumado a casa e varrido o chão, para que quando ela chegasse em casa, não tivesse que se preocupar com nada. Era sempre assim e naquela noite não seria diferente, afinal de contas, ela mesmo havia lhe dito que aquela era apenas uma noite como todas as outras. Mas ele estava decido a descobrir o que era a Noite de Natal que tanto falavam.
 Como esperado, a mãe dormiu largada no sofá, instantes depois de chegar em casa e esvaziar a garrafa verde, deixando no ar o cheiro forte da bebida. Ele então saiu, em absoluto silêncio, colocando no bolso o pedaço de papel que estava guardando há dias. Com apenas cinco anos, ele era mais esperto do que os garotos de sua idade — muitos já haviam lhe dito isso — e estava certo de que na rua, teria as respostas que procurava. 
 Chegando ao centro da cidade, notou que tudo estava mais vazio e silencioso do que nos outros dias e não encontrou ninguém com quem conversar, ninguém para perguntar. O comércio todo estava fechado e até mesmo o bar, em que costumava buscar sua mãe quando ela demorava para chegar em casa, estava com a porta abaixada. Sentou então no banco da praça, em frente à gigantesca árvore que haviam montado, e ficou observando suas luzes piscando e suas cores brilhantes. Era linda, colorida e fascinante, e desejou ter uma daquelas em sua casa para que pudesse admirá-la todos os dias.
 Depois de um tempo — que João nem percebeu passar — olhando hipnotizado para a árvore brilhante, ele notou aumentar o tráfego de carros na rua. Eles paravam em frente as casas e seus ocupantes, bem arrumados e animados, logo entravam com pacotes e sacolas nas mãos. As casas estavam mais acesas e decoradas com cordões brilhantes e coloridos como os da árvore da praça, e João se perguntou porque sua mãe não havia colocado aquele cordão de luzinhas em sua casa também.
 Na maior casa da cidade — a que ficava em frente à praça e onde moravam pessoas ricas, que sua mãe dizia não gostarem de ninguém — uma grande caminhonete preta parou e, de dentro dela, saiu um velhinho gordo, de enorme barba branca e roupa vermelha comprida, muito quente para o calor que estava fazendo naquela noite. João ficou eufórico e correu em sua direção o mais rápido que pode, mas o velhinho logo entrou no casarão, depois de vestir uma touca que ornava com a roupa e tirar, de dentro da caminhonete, um grande saco vermelho. Decepcionado, ele resolveu espiar pela janela para tentar descobrir o que aquela família tinha de especial para receber uma visita tão importante. Pegou na rua um caixote que guardava sacos de lixo e, encostado-o à parede, subiu, pendurando-se no parapeito, até conseguir enxergar um pedacinho da sala. Ficou encantado ao ver a casa cheia de gente, com uma enorme mesa forrada de comida e crianças felizes, abrindo vários pacotes de presentes. Ele podia sentir o cheiro da comida saindo pela janela e se arrependeu por não ter comido o panetone que sua mãe havia trazido. Seu estômago roncou.
 — Então é isso mesmo o Natal! — pensou o garoto, animado — É o dia em que o Papai Noel, entrega os presentes que as crianças boas pediram na cartinha!
 Ao lhe contarem, em um outro dia, que ele teria que escrever uma carta ao Papai Noel e esperar a noite de Natal, — que era uma noite muito especial — João se animou, mas quando sua mãe falou que era tudo bobagem, apenas uma mentirinha de quem não tinha mais com o que se preocupar na vida, uma dúvida ficou em sua cabeça e era isso que ele fazia ali. Precisava descobrir se aquilo era verdade ou mentira. O que afinal, era o Natal? Existia o tal Papai Noel? 
 João sentou na calçada em frente à casa, feliz em saber que a história da cartinha e do Papai Noel era verdade, mas decepcionado, pois não entendia porque ele só atendia às famílias ricas. O que elas tinham de especial? Tudo que ele queria era uma chance de entregar sua carta para o velhinho de roupa vermelha, mas não sabia como. 
 João tirou o pedaço de papel do bolso, que já estava amassado, quase esfarelando devido ao tempo em que guardou-o secretamente e olhou para o desenho que havia feito. Como não sabia escrever, desenhou a família que tanto sonhava em ter — com direito a um pai, uma casa e um cachorro — e pensou se um dia teria chance de entregar seu pedido. Ele havia sido bom, isso ele sabia. 
 Triste, João voltou a andar pelas ruas, certo de que ainda não seria nesse ano que ganharia seu presente. Mas ao menos descobriria que a história que sua mãe insistia em dizer que era mentira, era mesmo verdade. Ele tentaria no ano seguinte. Quem sabe, se conseguisse entregar sua carta antes que todo mundo, o Papai Noel atendesse seu pedido? 
 Dobrando a esquina, a caminho de casa, João percebeu uma movimentação grande na igreja, o estacionamento lotado de carros, e viu que, muitas pessoas bem vestidas, ainda estavam entrando. Sua mãe nunca havia deixado-o assistir a missas, pois não tinham roupas para isso. Mas ele tinha muito tempo até sua mãe acordar e resolveu entrar escondido, mesmo com sua roupa rasgada. 
 Sentou atrás de um enorme pilar de mármore nos fundos da igreja e, curioso, passou a ouvir atento o que o padre falava com tanta alegria. Ele contava uma história e João adorava histórias. Sempre pedia para sua mãe contar histórias antes de dormir, mas ela estava sempre cansada e acabava dormindo antes que ele. 
 João ficou ali, quietinho para que ninguém o descobrisse, olhando à sua volta, as imagens enormes e pinturas no teto e ouvindo a história contada pelo padre, que para sua surpresa, era sobre o Natal.
 Pouco mais de uma hora depois, João voltou para casa feliz e satisfeito, como se tivesse descoberto um novo mundo. Seu sorriso ia de orelha a orelha e até sua fome tinha passado. Entrou em casa em silêncio e ficou aliviado ao ver que sua mãe ainda dormia, na mesma posição, largada no sofá. Ele pegou o panetone que estava em cima da mesa, enfiou no meio a vela que havia guardado de seu último aniversário como lembrança, e levou para seu colchão velho, jogado ao lado do sofá onde sua mãe dormia. 
 Ali, João cantou, baixinho, parabéns para o menino que fazia aniversário naquele dia que nascia e, como havia descoberto na igreja, era ainda mais importante do que o Papai Noel. E ele, um dia, poderia trazer seu presente de Natal, mesmo sem que precisasse escrever uma cartinha. Ele só tinha que fechar os olhos, juntar suas mãozinhas, conversar com seu novo amigo e fazer seu pedido. 
 Ao lado de sua mãe, João dormiu feliz e satisfeito pois havia descoberto que o Natal, ao contrário do que sua mãe ela havia lhe dito, era sim uma noite muito especial.
      
Poema: "NATAL"
Escrito por Eliane Li, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Natal. Há estrelas rotas no mar. Eu as olho, como a degustar uma história que eu nunca li. Uma paisagem sem verbos e sem ritmo. Um dia disseram-me que os dezembros eram ladrões de poetas, quando abandonei alguns fonemas pelo caminho, entre tilintares de copos e de sinos, para que nunca mais fossem ouvidos. E as estrelas nunca mais foram as mesmas, afogadas entre o sal das águas e o doce do champagne que tocaram minha boca. Um dia, disseram-me que os Natais serviam para caçar a crença que escorrega em cada gemido. Então, eu dei as costas às estrelas rotas quando ainda era setembro. Deixei meus segredos alojados num par de sapatos velhos, no vão da janela do meu quarto. Porque um dia me disseram que os dezembros serviam para as esperas que nunca se acabam. O Natal chegou sem as estrelas rotas espelhadas no mar, porque chovia. Pelo vão da janela e descalça, por onde se avista o mar, olhei os sapatos velhos que já não me serviam. O eco do mundo se acomodara entre um ponteiro quebrado e um ruído instável que ainda toca dentro de mim. Hoje descobri que os dezembros servem para lamber ausências, quando os homens caminham sob o que atormenta e mata, quando a ferida rasga e sangra nossas vidas... inexatas.       
Micro Conto
Escrito por Aldenor Pimentel, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
No reveillon, pulou sete ondas. Só não conseguiu pular aquela interminável maré de azar.      
Conto: "E para você. Te espero em 2018. Feliz ano novo!"
Escrito por LadyEdie, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
      - 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1... Yeeeeeeeeeeeeeeeeeh! Wellcome to 96!
Leandra Gomes Gonzaga contava apenas com 18 anos de vida na passagem do ano de 95 para 96. No momento em que botei o olho nela senti imediatamente que ali estava uma bela oportunidade de negócio. Naquele momento ela era apenas uma moleca sonhadora e rebelde de família rica. Muito rica. Muito rica mesmo. O que fez com que fosse mimada e cheia de estrutura na vida. Isso pode ser bom, quando e se você concorda com as regras da família que a acolheu.
O que não era o caso de Leandra.
Como já disse ela tinha planos diferentes dos da família para sua vida. Então a menina se viu forçada a largar tudo de bom e se arriscar na vida. Leandra era corajosa e bem-humorada demais para viver a tradicional vida burguesa e comum de seus pais, no fundo eu sentia o cheiro do medo todas as vezes que ela pensava nisso. Leandra sabia que seu destino era ser Star. Mais precisamente uma Rock Star. E mais exoticamente ainda uma Rock Star brasileira. Leandra era talentosa, forte e extremamente disciplinada, só por causa disso já conseguiria o mundo. A não ser por um probleminha.
Leandra, era uma azarada da porra. E tinha medo de pronunciar a frase “Eu quero ser uma RockStar” em voz alta.
 A filhinha de papai, quando morava com sua família era protegida desse azar todo e seus pais estavam sempre por perto dando todo suporte que ela precisava. E consertando as cagadas que o azar a presenteava. Assim que Leandra foi se virar sozinha na vida, aos 16 anos, começou a perceber que tudo era muito mais difícil para ela do que era para outras pessoas. Para Leandra sempre dava mais trabalho e principalmente as coisas davam mais errado mesmo. Eram coisinhas simples do dia a dia, que ninguém percebe, mas que podem acabar com a paciência de qualquer um.
Leandra começou até mesmo a colocar em dúvida sua inteligência, até que desistiu de ter empregos chatos dos quais era sempre demitida por "incompetência" e foi assumir sua banda de vez. Na época esse conjunto de músicos ainda não tinha nome, e o pior é que seus colegas nem perceberam que depois que Leandra chegou para ficar de vez, as coisas começaram a demorar para acontecer.
Mas Leandra era queima filme. Havia sempre uma sombra negra rondando a energia dela e tudo sempre dava errado quando estava por perto. E por causa disso tinha que trabalhar sempre mais que todos para não dar nenhuma falha na hora do show. Mas não adiantava, A gota d’água aconteceu num show de merda, numa casa pequena.
Sua banda já estava conquistando fama de maluca e de shows explosivos, naquela noite além de seu pequeno público cativo (parentes), também estavam lá seus primeiros fãs e principalmente: o olheiro da maior gravadora do Brasil. Gravadora sonho de consumo de qualquer banda da época. Meu chefe.
Leandra se preparou de todas as maneiras que conhecia. Para não correr o risco de chegar atrasada, já estava na casa desde às 13h. Ficou testando o som e sua voz para a apresentação. Na hora do show tudo estava impecável.
Quando o grande momento chegou Leandra estava insegura. E ao entrar no palco levou um tombo bem na frente do diretor da gravadora, parando de quatro no chão. Já se sentiu uma titica ali. A garçonete ofereceu uma caipirinha e ela aceitou. Deu uns goles e colocou o copo ao lado da mesa de som, quando Renan começou a tocar a bateria, ninguém sabe como, acabou mexendo numa tábua solta do palco, o que fez com que levantasse o suporte da mesa de som e derrubasse a caipirinha de Leandra em tudo. A banda ficou com metade dos canais fudidos. Seus amigos pediam calma, mas ela não acreditava no que estava acontecendo.
Um amigo técnico tentou ligar o microfone dela na mesa reserva, mas o dito cujo travava e nada o fazia funcionar. O silêncio na casa já era constrangedor quando Leandra parou na frente da mesa escangalhada e chorou escondido. Ela só pensava que havia testado tudo mil vezes.
No mais, Leandra já estava tão cansada que cogitou em desistir ali mesmo e voltar para casa do pai. Pedindo arrego com o rabinho entre as pernas. Só de pensar nessa desgraça sentiu um enjoo fora de hora, vai ver era por causa do cheiro do limão azedo da caipirinha que espalhou pelo chão.
O cara da Gravadora começou a ficar incomodado com o atraso até que Pedro, o guitarrista, no desespero foi tentar resolver e deu umas porradas na mesa de som. E como num milagre tudo passou a funcionar.
Não era o som perfeito que ela tinha programado, mas a música da menina impressionou o cara mesmo assim. Tanto que, encantado com a banda ainda sem nome, mandou fazer um termo de compromisso de sigilo, até marcar uma reunião na DevilHorses para conversar sobre as possibilidades. Ele só precisava imprimir o contrato que estava num disquete. Leandra tinha trauma de disquetes, podemos imaginar o porquê, só que ela era a única que sabia mexer em computadores naquela época. E claro que a impressora da casa adivinhou que era Leandra que estava ali, e que aquilo era muito importante para ela. Por isso mesmo resolveu não funcionar.
Depois de uma hora tentando o cara da gravadora foi embora. Deixando Leandra exausta, sentada e imóvel da frente do computador. Olhando pela janela do escritório a Limo dele ir embora. Assim que o carro virou a esquina as folhas começaram a pular da impressora que parecia rir de sua cara. Leandra não podia fazer mais nada. A não ser dar um soco na mesa que fez ela ficar bamba.
Ficaram de assinar outro dia. Ele pensou melhor e cancelou a reunião com banda.
Ninguém ligou o azar a Leandra, só ela sabia que se não estivesse lá, teriam conseguido. Cansada e decepcionada com a situação, rezou um pai-nosso naquela noite, coisa que só fazia em caso de emergência. Pedro, até tentou tirar ela da fossa e convidou sua menina para passar o réveillon na casa do pai.
Alguns dias se passaram até a viagem ao litoral para que Leandra, enquanto isso, visse muita gente que não era tão boa assim ter mais sucesso que ela, e assinar o contrato que era dela na DevilHorses. Vivia deprimida. Tinha medo de não conseguir. Queria o sucesso. Que para Leandra se resumia a Fama e dinheiro, mais nada! Para isso convenceu a si mesma que precisava se livrar do azar.
Em 24 horas a vocalista procurou todas as religiões que conhecia e tomou seus benzimentos em todas. Toda e qualquer reza, mandiga, promessa, propósito, ritual, oferenda e o que mais fosse necessário para mudar sua situação estava valendo. Para tal missão, Leandra chamou sua melhor amiga, que era viciada nessas coisas. Jack até tentou alertá-la do perigo de se mexer com o livre arbítrio sem o devido conhecimento. Mas eu, no lugar dela, faria a mesma coisa.
E é assim que Leandra, e muitos de vocês começam a progredir. Nós encontramos pessoas como Leandra e você! Aliás não é à toa que você está aqui e agora. Mas vamos voltar para Leandra.
Quando a cantora estava na praia naquela virada de ano, no exato momento em que o relógio mostrou a meia noite, os atabaques e tambores soaram e ela pulou as sete ondas pedindo sorte. Leandra voltou do mar e acendeu sua vela junto com as demais oferendas aos santos daquela praia. Escreveu na vela branca seu nome completo, com o primeiro nome perto do pavio, sinalizando que queria pedir alguma coisa. O sinal final autorizando nosso contato foi dado. E agora era só esperar.
Porém, meses depois os shows ainda eram medíocres e o cara da gravadora nunca mais entrou em contato.
E numa dessas noites, Leandra voltava para casa sozinha com seu Maverick velho. E apesar do som no volume máximo com seu guitarrista favorito Dommark, se sentia mais deprimida do que nunca, até que foi interrompida por um estrondo já familiar ao seu corpo e que nem assustava mais. Por incrível que pareça mais uma vez alguém tinha batido em seu carro. Leandra nem desceu para ver o estrago. Apenas aceitou as desculpas do cara e pegou seu cartão de visitas, ela não acreditava que ele iria pagar, mas vai que...
Leandra só queria sair dali, até que o motorista acabou pedindo para ela descer. O cara percebeu que a moça estava pálida, depois ela mesma sentiu algo quente, gosmento e vermelho pingar em sua camiseta branca. Ela, que não podia ver sangue, deu uma tonteada e desceu com a ajuda do cara.
Do nada também desceram da Van que bateu nela, um monte de caras vestidos de preto. Um deles em especial chamou a atenção de Leandra. Era ninguém mais ninguém menos que James Dommark. Ele mesmo. O ídolo e sex symbol maior de Leandra. Bem ali na sua frente. Que a ajudou a sentar no chão para esperar uma ambulância. Como desculpas ele se ofereceu para pagar o concerto. Leandra não quis, dias depois ela preferiu mandar fazer um adesivo com os dizeres: Dommark bateu aqui. Mordam-se!
Dommark aguardou a assistência chegar e depois de alguns minutos Leandra já tinha um pequeno curativo na testa. Ele também a convidou para assistir ao seu show daquela noite. Mas com a condição de ir sozinha. Leandra que não é boba nem nada, entendeu a proposta e iria aproveitar. Já que ela tinha ouvido na MTV que ele era o mais novo solteiro do pedaço, tinha acabado de levar um pé na bunda da terceira esposa. Fazer o que. Tadinho.
Leandra estava mais animadinha, apesar de a perda daquele contrato e o azar que a acompanhava tirarem sua energia, pois os fatos não paravam de invadir seus pensamentos. No mais foram só três pontos na testa. Bem acima de outra cicatriz de três pontos que ela ostentava com orgulho. Essa aliás era mais um sinal de seu azar. Leandra estava saindo do Maksoud Plaza em 92, quando Axl Rose resolveu jogar uma cadeira lá de cima para espantar a imprensa e alguns fãs. A maldita cadeira se espatifou no chão e um dos pés de metal ricocheteou bem em sua testa, abrindo um corte no terceiro olho. Sorte que a imprensa não viu, estavam todos olhando para cima procurando por Axl, e ela conseguiu fugir. Não pergunte o que ela estava fazendo lá...
Agora as duas cicatrizes juntas estavam formando uma cruz. E a lembrariam todos os dias das noites mais deliciosas de sua vida.
Bom, continuando... Chegando ao show tudo estava dando certo e Leandra até esqueceu da tristeza. Era bom demais para ser verdade ela estar ali, até que um bêbado qualquer esbarrou nela e lavou a cantora de cima a baixo com cerveja. Pronto a chance que tinha de dar para o Dommark tinha acabado. As lágrimas já pulavam dos olhos e suas mãos tremiam loucamente. Era a oportunidade que eu queria.
Eu não perdi tempo, Leandra me deu um trabalho danado até chegar ao ponto de chorar e tremer de ódio, ou medo. Você já sentiu isso?
Fui em seu socorro e ofereci a ela um vestido preto que sempre levo no carro. Leandra agradeceu apenas e nem pensou no perigo que é acompanhar um desconhecido até o carro. O desespero faz coisa. Já no banheiro, Leandra me contou tudo, como se eu não soubesse de sua história, e depois eu expliquei o que acontecia da forma mais direta possível. Nessas horas sempre lembro que duvidei do meu chefe na primeira vez que ele me ofereceu um pacto para me livrar dos problemas. "Que cara doido!" Pensei. Mas não existe mesmo outra maneira.
Ofereci o pacto. E a lembrei dos pedidos de virada de ano que ela mesma tinha feito. Repeti cada palavra que ela falou em pensamento. Assim ela passou a desacreditar menos.
A espertinha antes de se comprometer me pediu uma amostra do meu trabalho. Eu falei que no dia seguinte seu telefone iria tocar e um cara chamado Mobi ofereceria um show fechado em Porto Alegre. Ela, óbvio duvidou. Mas me comprometi a dar a ela trinta dias de vida sem o azar que tanto fazia ela sofrer. Era só pronunciar a palavra.
Senti que ela não acreditava muito em mim, ou no mínimo não entendia o teor da palavra sacrifício. Mas Leandra não disse não. E finalmente, pela primeira vez na vida, pronunciou a frase de que teve medo. Ela disse: “Eu quero ser uma rock star”.
Assim, o combinado foi feito.
Mal tinha terminado a frase e Dommark apareceu atrás dela dizendo:
- Wow! I found you girl!!
Depois de uma noite memorável com Dommark, na suíte dele no Maksoud, às 6h da manhã o telefone tocou. Ele pediu:
- Can you answer please? I guess it´s our breakfast.
Leandra quase desmaiou, ainda não estava acostumada a ser bem tratada e bem servida:
- Alô?
- Quem fala?
- Leandra.
- Oi Leandra, meu nome é Mobi e você não me conhece mas...
Leandra deu um pulo na cama e ouviu imóvel a proposta dele. Sabia que estava livre do azar. Sabia disso depois de poucas horas que teve uma amostra do que é viver sabendo que tudo dará certo sempre.
Quando os 30 dias acabaram Leandra deu o braço a torcer e fechou conosco. Ela também sabia que era bom estar preparada para arrasar.
No dia 31 de outubro, Leandra e sua banda já eram o maior sucesso do Brasil. Assim feito e pago, Leandra teve seu caminho livre e fácil.
Como tudo deve ser. Sempre.
No Reveillon seguinte Leandra deve ter muito a agradecer.
E para você. Te espero em 2018. Feliz ano novo!
Conto: "SUMIÇO DE NATAL"
Escrito por Augusto de Brito, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Dia 25 de dezembro, 2:53 da madrugada, em algum lugar do mundo. 
Impaciente, ele aguardava ser atendido, enquanto no fundo tocava uma música natalina de péssima qualidade.
TU DUDU DUDU DARA, DARA, RAN RAN RAN RAN DARAN DARAN DARAN RAN RAN…
- Serviço de atendimento da N.ATA.LI.NA, Nacional Atacadista Limitada do Natal, boa noite. Meu nome é Noelmia, em que posso ajudá-lo?
- Boa noite Noelmia, meu nome é Leo... Leonardo, estou ligando para reclamar que não recebi o meu presente esse ano.
- Pois bem senhor Leo, esse número que o senhor ligou é para queixas quanto a presentes que vieram errado, ou com defeito. Você tem que retornar ao menu princip....
- EU NÃO VOU RETORNAR A MENU NENHUM! E PARE DE ME CHAMAR DE SENHOR, EU SÓ TENHO 11 ANOS! – Gritava a criança do outro lado da linha.
Antes mesmo que a atendente pudesse retomar, ele prossegue aos berros:
- TEM DUAS HORAS QUE ESTOU TENTANDO FALAR COM VOCÊS! JÁ APERTEI TODOS OS BOTÕES POSSÍVEIS DO MENU, EM TODAS AS ORDENS POSSÍVEIS DO UNIVERSO. NÃO AGUENTO MAIS OUVIR ESSA MUSIQUINHA MALDITA DE NATAL! OLHA AÍ NOS SEUS CADASTROS TIA, MEU NOME É LEONARDO SILVEIRA ANDRADE, EU FUIM UM BOM MENINO O ANO INTEIRO, E AGORA EU QUERO MEU VIDEOGAME!!!!!!!! CADE ELE????? MEU DEUS DO CÉU!!!!!!! AHHHHHH
Ofegante, ele respirava de forma audível para a atendente do outro lado da linha, que também conseguia ouvir os quiques das pernas do garoto contra o chão, enquanto ele esperneava, com o fio do telefone enrolado pelo corpo.
- Aguarde um minuto que vou checar os dados, senh... caham, Leo. A linha vai ficar muda, por instantes, mas não desligue o telefone.
- TÁ!
Longos 93 segundos de espera se passaram...
- Perfeitamente Leo, conferi nos cadastros, e você não tem nenhuma baixa de comportamento e palavrões registrada no nosso sistema, para o último ano. Seu “nada consta” de maldades está zerado, e também sua ficha de antecedentes de malcriações está limpa. Vou te passar o número do protocolo, você poderia anotar por favor?
- POSSO. – Respondeu de má vontade.
- Ótimo, para sua segurança esta ligação está sendo gravada. O número do seu atendimento é: 854123456789423452 traço 55234542345423423 mil de ré 854838534 jogo da velha 270005343445834 asterisco 321535 número da besta 142857 raiz quadrada de 58465342 arroba PI.
- PI?
- Sim, PI, com 6 casas decimais. 3,141592. Deseja que eu repita?
- NÃO. E AGORA EU FAÇO O QUE? – Ele olhava para o rodapé da parede, onde tinha anotado o número com giz de cera, gastando para isso mais de três metros consecutivos.
- Agora eu vou transferir sua queixa para a central, e lhe retornaremos com uma avaliação do seu caso em até setenta e duas horas.
- SETENTA E DUAS HORAS? EU VOU VIAJAR AMANHÃ MOÇA! EU QUERO LEVAR MEU VIDEOGAME NOVO! E EU QUERO RESOLV...
- Não esqueça de participar da nossa pesquisa de satisfação ao final da ligação. A NATALINA agradece o contato, tenha uma boa noite.
Abruptamente a ligação cai, e Leo sai aos berros dentro de casa, arrastando atrás de si o aparelho, cujo fio espiralado estava preso em um de seus calcanhares. Leonardo já estava pensando na explicação que teria que dar ao seu pai, quando a conta de telefone chegasse, e houvesse nela uma lista inteira de horas de ligações internacionais para o polo norte.
Da central de atendimentos da NATALINA, de onde as luzes de alarme, formadas por pisca-piscas vermelhos oscilavam ininterruptamente, uma ocorrência foi enviada até a diretoria, mas não sem antes passar pela “SUPER” ou Sub Unidade de Presentes Extraviados (o R havia sido colocado como exigência do chefe do setor, para dar estilo ao nome).
A impressora industrial da sala da diretoria já havia impresso milhões de ocorrências daquele mesmo tipo, que não paravam de chegar desde que passaram os primeiros minutos após a meia noite de natal de Greenwich.
A secretária pegava o imensa tira de papel sequencial que era cuspida da matricial, e ia empilhando lado a lado, enquanto atrás dela, homens de terno vermelho e gravatas verdes conversavam ao lado de gráficos, pilhas de documentos, e vários telefonemas simultâneos.
- Como assim ninguém viu ele? Já ligaram pra Mamãe Noel? Tenho certeza que ela sabe onde ele está! – Falava impaciente um executivo no celular.
Um outro argumentava em uma outro telefonema:
- Já checaram na Coca Cola? Se ele não está lá gravando algum comercial com os ursos? – unhinhenhenheuennhe (som incompreensível do outro lado da linha) - Já? E com o Nicolau? – duvifiiiffinhen - É! O Nicolau é o duende mais próximo dele. – fuinhhanhenehi - Não? Então vai atrás dele! – vivinhunhalulai - Como assim não sabe onde ele está? Se vira, encontra!
Ao lado um estapeava a mesa, enquanto fumava cigarros no formato de bengalinhas listradas.
- O Rudolf sumiu também? Mas o trenó vocês acharam né? O que? Coberto de neve? Você tá me dizendo que alguém viu ele cavalgando uma Rena ontem? Desde quando ele sabe montar?
Um mais paciente, tentava argumentar com a INTERPOL:
- Como assim tenho que esperar mais de vinte e quatro horas para dar queixa de desaparecimento? Ele pode ter sido sequestrado! Você tem filhos? Tem? Eles estão correndo risco de ficar sem presentes!
Em meio a toda aquela bagunça, nervosismo, e gráficos de ações despencando, o presidente da empresa pede silêncio a todos, batendo com o osso de uma coxa de Peru em bolas de natal, fazendo-as explodir, e por consequência, ganhando a atenção de todos.
- Senhores, já é tempo de aceitarmos o fato: Papai Noel sumiu, e mesmo que o encontremos, para muitos o natal já está perdido. Temos que remediar essa situação.
Um dos executivos levanta a mão, mas não espera que lhe concedam a palavra e dispara a falar:
- Senhor, mas veja bem, ainda dá pra salvar algum natal pelo menos. Os fusos estão a nosso favor!
- Sim – Grita mais um – A linha internacional de datas, do lado de lá ainda é mais de um dia pra trás, ou alguma coisa do tipo! Talvez se conseguirmos um substituto...
- SUBSTITUTO! – Berra o presidente da empresa! – Como não pensei nisso antes? Ainda bem que tenho as melhores ideias – Enquanto ele se apropria da sugestão alheia, a secretaria solta mais uma de suas más notícias:
- Senhor presidente, já contatei todos os sindicatos natalinos ao redor do mundo, e nenhum deles demonstrou solidariedade a causa, aparentemente, todos estão apoiando a greve do Noel.
- Como assim não querem nos ajudar? Não é possível que nenhum deles tenha um bom velhinho precisando trabalhar hoje! Já usou o argumento de “pense nas milhares de crianças”?
- Já sim senhor! Mas não surtiu efeito.
- Me dá esse telefone aqui, que eu vou dar um jeito, sou sempre eu a resolver tudo. Cadê o telefone vermelho?
- Senhor presidente, todos os telefones dessa sala são vermelhos... – Responde a secretária encabulada.
- Então me dá qualquer um!
A secretaria prontamente entrega um telefone vermelho, desses com dial rotacional, mas antes que o presidente comece a rodar os números, ele firma o dedo sobre o painel redondo, e pergunta:
- Qual o prefixo do Brasil mesmo?
- É “mais” cinquenta e cinco.
- Ótimo. Vou ligar aqui pro Hermeto Pascoal, ele engana bem, e não vai me deixar na mão. Bom que ele leva jeito com brinquedos e tal, já vi ele fazendo música com patinhos de borracha. Você sabia que ele é capaz disso?
- Não senhor. – Responde a secretária.
Dali instantes, ele bate o telefone no gancho.
- Mas que Saco! Caham, de presentes... O Hermeto não pode vir, disse que tem compromisso! Alguém aí já tentou ligar praquele sósia que aparece no clipe do Skrillex?
- Já! Mas ele disse que se aposentou! Não tem mais idade pra isso – Berra alguém, sem que ele soubesse quem foi.
- Não tem mais idade? Como não tem mais idade? Quantos anos ele tem? – Pergunta indignado o presidente.
- Uns setenta e um – Responde o mesmo incógnito.
- Setenta e se aposentou? Jovem assim?!!!! Ele não trabalhou nem 6 anos! ABSURDO! Todo mundo sabe que essa carreira só se começa aos 65! Esse mundo tá perdido mesmo... Qual a desculpa pra isso? Perseguir a carreira dos sonhos? Valha me deus!
Enquanto ele tenta outras ligações, com a secretaria segurando o corpo do telefone para ele, alguém entra correndo pela porta, derrubando as guirlandas que a enfeitavam.
- Vocês precisam ver isso! Grita um funcionário dos estábulos. Achei uma carta dele, pregada no mural de EPI’s do trenó principal.
- Leia-a para nós. – Orienta o presidente.
- Mas senhor, o conteúdo é meio inapropriado para o loc...
- Leia essa merda logo de uma vez rapaz!
- Tudo bem, o senhor é que manda, senhor presidente.
Inseguro, o funcionário do estábulo começa a ler a carta, dando um pigarro antes de começar.
Caham...
“Senhores, não me procurem pois não vão me encontrar. Cansei do natal. Pra mim já deu de trabalhar em feriado. Se quiserem, meu advogado pode renegociar para que eu trabalhe nos outros 361 dias do ano, no dia de finados, dia do trabalho, no ano novo, ou no dia do caralho. No natal não trabalho mais! E também não tentem me ligar, não levei o telefone corporativo, joguei ele dentro de alguma caixa endereçada pra alguma criança que pedia um novo iphone.
PS: HO HO HO, um feliz natal para todos, e um saco com as minhas bolas! BANDO DE OTÁRIOS!!!”
Abismados com o conteúdo da carta, alguns executivos deixam escorregar das mãos os telefones. Um engoliu o próprio cigarro, pondo-se a tossir desesperadamente, dois se jogaram pela janela em desespero, e outro mais sensível teve a cabeça explodida imediatamente após o fim da leitura, tingindo todo o vermelho da sala, com mais vermelho.
Chocada, a secretária entre em mal súbito e desmaia, caindo como um pinheiro recém cortado, levando com ela o telefone, cujo fio esticado fez com que o falante voasse das mãos do diretor e batesse direto na cabeça de um duende que estava passando ao lado, carregando uma pilha de cartinhas de crianças de comportamento reprovável, que eram usadas para alimentar a lareira no fundo da sala.
O duende caiu derrubando a tela de proteção da lareira, alguns papéis em chamas caíram para fora, fazendo com que a fumaça chegasse até os sprinklers no teto da sala, que prontamente começara a cuspir flocos de neve, conferindo ao ambiente um aspecto de globinhos de vidro, desses que compramos em lojas genéricas para presentear pessoas que não gostamos, e cuja razões para presenteá-las nos é completamente desconhecida.
- Só me faltava essa! Tem mais alguma novidade bombástica pra alguém soltar? - Esbraveja o presidente – Ele nunca se queixou da função!
- Na verdade senhor, ele se queixou sim...
- Quem falou isso?
- Fui eu senhor. – Timidamente, de trás de um executivo de quase dois metros, sai uma pequena mulher. – Prazer, Natalia, do RH.
- Anda mulher, desembucha.
- Faz algum tempo já, que o Papai, digo, o Senhor Papai Noel vinha se queixando comigo.
- E sobre o que eram as queixas?
- Ah, o senhor sabe... coisas de sempre: Falta de modernidade nos acessos, hoje em dia já não tem tantas chaminés por aí, e algumas tem grades de segurança.
- O que? Essa história de chaminés de novo? Não foi pra isso que pagamos pra ele um curso de alpinismo industrial? Pra habilitar ele a escalar muros e descer por prédios? Cadê a cópia da NR2512?? Ele inclusive foi treinado a usar corta-vidros, pra entrar em arranha-céus!
- Pois é senhor presidente... Tinha os aditivos de insalubridade que ele alegava, por conta de cercas elétricas e cães raivosos...
- Ele tem um trenó voador! Porque diabos ele tem que lidar com muros???
- Sinceramente não sei, senhor presidente... Mas ele também se queixava das adaptações culturais, sabe? Aquela ideia que tivemos de dar um aspecto mais regional pro natal. Ele vivia falando que não conseguia controlar o trenó puxado por búfalos selvagens no interior da África, e que no nordeste do Brasil os jumentos empacavam com frequência e ele tinha que acionar o seguro pra requerer um reboque. E também que na Índia uns dois ou três transeuntes da madrugada de natal começaram a atirar pedras no trenó, quando viram que ele era puxado por vacas, e também teve aquele caso no Peru com as Lhamas e Alpacas que não se adapt...
- Já chega! Pelo amor de deus! Alguém me traga alguma solução e não mais mil problemas de presente!
- Presidente! Eu tenho a soluç... BOFT...
Um mais exaltado que estava prestes a dizer algo, tropeça no corpo da secretária caída, que aparentemente ninguém notara, e vai de cara no chão.
Todos olham para o corpo imóvel, e não emitindo mais nenhum sinal sonoro, prosseguem em suas funções desesperadas, enquanto os sprinklers continuam cuspindo flocos, deixando todos com o aspecto que tem aqueles que sofrem com caspas excessivas
- E o Disque Noel, presidente? – Pergunta o responsável do setor de embrulhos - Será que ele se livrou deste também? Era uma linha direta com ele, no telefone pessoal, a ideia dele ganhar quatro e cinquenta por minuto na época fez com que ele aceitasse a proposta, acréscimo de renda e tal, talvez ainda funcione...
- Já tentei! – Responde um outro – Está caindo na casa de um tal de Mário...
- Que Mário?
- Melhor deixar pra lá! – Responde o executivo que tinha acabado de ligar pro Disque Noel.
Sem saber o que fazer, e vendo as horas passar, o presidente calcula que um quarto do mundo já estava com o natal comprometido. A impressora cuspia mais e mais notificações, que estavam agora sendo usadas para embalar os presentes que chegariam atrasados.
Contenção de custos – Ele pensa, olhando para os presentes embalados com folhas de protocolo – Dá pra alegar que é responsabilidade sócio ambiental, fazer um filme com as ONGs, reaproveitamento de papel... – Maquinava em seu cérebro.
- Klaus! Vem aqui! – Berra ele para seu assessor principal.
- Sim senhor!
- Vamos ter que partir para o plano B – Preencha o formulário de requerimento de uniforme, tamanho SP.
- SP senhor? Super pequeno?
- Sim, super pequeno! E talvez ainda tenhamos que fazer alguns ajustes. Não vai ter jeito mesmo, vamos ter que chamar um recruta de outra área. Um rápido e furtivo! E me arruma um trenó a jato!
- Outra área? Um duende? Gnomo? Anão famoso do GOT?
- Não, que duende porra nenhuma Klaus, anão do GOT o escambau! Anda logo, pega minha agenda, meu talão de cheques, e me bota no telefone com o Coelinho da Páscoa!

Conto: "DESEJOS DE NATAL"
Escrito por Daniela Rosa, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
     Exatamente as quatorze horas, o grande portão de ferro rangeu, a espera findou-se, e o momento tão aguardado passa a ser também o mais temido. Mudar de perspectiva pode ser assustador.
Aquele ambiente não confirma nenhuma amabilidade ao receber novos moradores, tanto quanto ao reintegrá-los ao seio da sociedade. A botoeira provisória cuspiu, depois de mastigar é claro, um homem feito que chegou ali ainda menino. Um menino doce, bom filho, amigo e irmão. O mesmo garoto que deixou a vizinhança chocada e escandalizada diante de um crime que alarmou a pequena cidade onde morava.
Mônica estranhou não ter ninguém por perto naquele momento, ela sabia, por experiência própria, o quanto as pessoas costumam ser cruéis quando acreditam que estão agindo em nome da justiça. O mundo está apinhado disso hoje em dia, justiceiros morais que não praticam aquilo que defendem.
Encostada em um sedã vermelho, que a acompanha há alguns anos, aquela garota de dezoito anos amargou longos quarenta minutos de espera. A cada segundo parada ali, sentindo o frio lhe cortar o rosto, ela lembrava de todos os anos em que a espera fez parte de sua vida como uma tatuagem, daquelas que você se arrepende tarde demais. O ar congelante não a fez abortar a missão que traçou quando soube da liberdade do rapaz. Finalmente armaria uma árvore e enfeitaria a casa com luzes piscantes como nos velhos tempos. Não poderia ganhar presente melhor.
Quando já tinha os dedos dormentes, mesmo sob a grossa luva, a garota o vê caminhar a passo e sorrindo. Não podia ela imaginar como fora sua transição de menino para homem nesta clausura, mas era fácil presumir que os anos de confinamento lhe afetavam de forma transformadora. Um menino de doze anos ao entrar e um rapaz de dezoito, embora com uma aparência madura demais para a idade, ao sair. Ela o observa e vê mais do que um homem caminhando para a liberdade, vê sua convicção se abonar a cada passo.
—Nem acredito que está aqui. – disse o rapaz.
—Eu disse que não te abandonaria. – a garota sorrindo responde o envolvendo em seus braços.
Samuel, na tentativa de um abraço sem jeito, de quem não mais sabe coisa alguma sobre demonstrações de afeto, conseguiu aquecer o coração de Monica mais uma vez. Samuel, que havia chorado tanto e por tanto tempo imaginava ter secado por dentro. Mas, à revelia de suas expectativas, lágrimas escorriam pela face gélida.
—E para onde vamos agora? – ele tentava manter a voz firme apesar do nó na garganta.
—Onde mais iriamos? Vamos para casa. – respondeu ela entusiasmada.
Já no interior do carro vermelho, Samuel se esticou para alcançar o rádio. O som ficou mais intenso e a música era horrível, sorrindo ele recostou-se no banco. No rosto pairava um sorriso novo, nada se comparava aquela sensação. Era como sentir a vida, há muito perdida, voltando ao corpo.
Monica dirigia, algumas vezes o olhava e sorria, tentando transmitir apenas tranquilidade, ainda que se sentisse tensa como quem caminha sobre facas. Seriam os cinco quilômetros mais longos da sua vida.
Samuel sentiu o incômodo se achegar e se encostar cada vez mais perto. Mas a vida é complexa e aquele rapaz conhecia muito bem os gravames de viver. A tensão aumentava a cada curva, qualquer olhar, ainda que despretensioso, em direção ao carro o fazia se encolher como uma criança com medo do escuro. O coração da garota se apertou ao perceber a inquietação de seu passageiro. Queria dizer que estava tudo bem, que a fase do inferno havia passado. Mas ela não tinha tanta certeza, apenas esperava que o espirito de natal ajudasse as pessoas a receberem o rapaz de maneira mais amena.
Os buchichos cessaram há muito tempo, mas certamente alguns vizinhos ainda tinham recortes de jornais em caixas empoeiradas sobre o guarda roupa, documentando a grande tragédia que terminou com a vida de um diplomata no ápice de sua carreira. Noticiaram o caso como um crime bárbaro de natal, sem provas ou testemunhas que indicassem outro suspeito, o menino foi acusado e condenado pelo assassinato do pai encontrado morto em sua garagem. Nada foi roubado, a única coisa que a mãe deu por falta foi a aliança do marido, de resto, nada foi levado. Sequer haviam sinais de luta ou arrombamento no local, a única pessoa em casa, era o filho de doze anos. Uma denúncia anônima foi feita naquela noite, desconfiam do velho que mora na casa azul no fim da rua, mas também pode ter sido a própria viúva que chegou em casa minutos depois do crime. Quem podia saber?
—Sami, não se preocupe tanto. Está tudo diferente, acredita que ano passado nosso vizinho quase matou uma mulher a socos durante uma briga de trânsito lá na cidade? - disse ela com um sorriso dispensável no rosto. —Não tem como fugir de tudo isso, está em toda parte. Esse é o mundo de verdade. Passamos tanto tempo nos mudando que não tivemos tempo de conhecer a verdadeira face das pessoas.
Samuel sempre foi tímido e de poucas palavras, porém o tema o fez se lembrar de pensamentos antigos.
—Mesmo há seis anos atrás, ou bem antes disso, o mundo já seguia um padrão. As proporções se alteram, mas a dinâmica continua a mesma. – disse o rapaz olhando pela janela do carro.
Ele tinha razão, pensou Monica. Não houve luta em defesa da paz, tão pouco, música inspiradora em prol de um mundo melhor. O mundo apodreceu como um queijo velho, se diferenciando apenas no processo. Não houve introdução deliberada de larvas como método, porque elas já nasceram dentro desse queijo e vêm há anos promovendo a fermentação. Isso é a vida afinal.
Quando apontaram na rua de sua antiga casa, Samuel se ajeitou no banco e recebeu um olhar de Monica que dizia “vai dar tudo certo”.
A porta da casa estava aberta, luzes coloridas piscavam ao redor da grande janela da sala de estar. No canto da sala a grande árvore enfeitada com bolas brilhantes fez Samuel se emocionar com a sensação de estar em casa finalmente, mesmo sabendo que após as festas ele voltaria a habitar a pequena cela fria, pelo menos por mais alguns meses. Ao menos ele sabia para onde voltaria quando estivesse definitivamente livre.
—Olha só Samuel, estamos em casa. Não vamos mais nos mudar daqui. Este é o nosso lar agora. – disse Monica batendo palmas entusiasmada.
Mudar o tempo todo sempre a incomodou, ela queria fazer amigos, criar laços, mas se via sempre recomeçando de novo e de novo.
A porta atrás deles se fechou os fazendo dar um pulo de susto. Mariane estava parada bem ali na sua frente, e o rapaz não soube o que dizer para a própria mãe. Tampouco a pobre mulher soube o que fazer, e, por fim, apenas saiu em direção a cozinha. Tudo era muito intenso para ela conseguir digerir, exatamente naquela mesma noite seis anos atrás, sua vida tinha mudado para sempre.
De cabeça baixa, Samuel sentiu a emoção de estar em casa dar lugar a uma enorme tristeza. Monica o conduziu para o lugar onde o menino sempre buscava como abrigo. Desde de muito pequeno, ele se deitava na cama da irmã quando se sentia assustado ou triste, mesmo aos dezoito anos, ele sentiu-se aliviado por estar mais uma vez em seu refúgio. O que ele não sabia era que Monica encontrava nele a mesma sensação de paz, o irmão era a única constante em sua vida. Ela ainda lembrava da sensação de vazio que sentiu ao ouvir o irmão contar aos prantos, que os pais o levaria para uma escola especial, para crianças inteligentes como ele. O mundo inteiro perdeu a cor naquele dia. Mas o seu pai sempre dizia que os desejos de Natal eram poderosos e sempre se realizavam se fossem do fundo coração. E não havia nada que ela desejasse mais do que manter o irmão por perto.
Monica decidiu que seria melhor dar um tempo para sua mãe se acostumar com o retorno de Sami, ela sempre soube que ninguém sofreu mais do que Mariane. A pobre perdeu de uma só vez o marido e o filho querido em uma noite de Natal. Um filho dotado de uma inteligência incomum para a idade e que sempre demonstrou fragilidade e abnegação. Claro que ela mesma também passou por muito sofrimento; afinal perdeu o pai. No entanto, diferente de sua mãe, a garota não perdeu o irmão, já que nunca aceitou seu dolo. Como poderia? Seu irmão gêmeo jamais teria amarrado o próprio pai na garagem de sua casa e esfaqueado o homem por nove vezes até que a vida esvaísse de seu corpo. Não o Samuel, um menino doce e inegavelmente bondoso. Hoje ele não era mais esse garotinho tímido e amável, havia em seu olhar marcas profundas de quem conheceu muitas faces de uma mesma vida, mas ainda era o seu querido irmão. O garoto nunca alterou sua versão sobre o ocorrido, ele simplesmente não sabia o que tinha acontecido na garagem enquanto estava pregado a frente do seu vídeo game, e isso era o bastante para ela.
De maneira alguma ela teria o seu pai de volta por isso escolheu ficar ao lado do irmão mesmo quando todos o acusavam. As pessoas comentavam sobre a força da ligação de irmãos gêmeos, muitos diziam que um dia a ficha da menina cairia e desataria esse laço. Mas Monica aos dezoito anos tinha a mesma convicção que demonstrou aos doze, quando minutos depois da morte do pai, correu assustada pela rua até se aproximar do rio que circulava a pequena cidade para jogar em suas águas turvas um artefato que brilhava sob o luar e cortou o rio em direção ao fundo lamacento.
—Finalmente esse é o nosso lar. – disse a garotinha enquanto segurava outro objeto brilhante, circular e com um nome muito familiar gravado com letras engalanadas, que logo teve o mesmo destino do anterior. Para sempre aquele rio guardaria a história nunca contada naquela noite fria de Natal.

Micro Contos: "NATAL"
Escrito por Vagner Neubert, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
Micro conto 1
Véspera de natal, a mãe escutou barulhos vindo do andar de baixo, deveria ser seu marido preparando os presentes, mas com essa barulheira ele iria acabar acordando o pequeno John.
A mãe desceu as escadas a tempo de ver, saindo pela janela, uma criatura peluda, verde e de chifres imensos, nas suas costas um saco grande, para fora do saco os pequenos pés de John balançavam.
Micro conto 2
O pequeno John escutou barulhos vindo da sala no andar de baixo, seu pai tinha dito para ele não levantar se ouvisse barulhos aquela noite, mas John nunca escutava seus pais, então ele se levantou e desceu as escadas, queria ver o papai noel e saber se ele tinha trazido o presente que ele tinha pedido.
Aquilo que estava pisoteando os presentes e arrancando os galhos da arvore de natal, não se parecia com o papai noel, o seu fedor se sentia da entrada da sala onde John estava parado, a criatura coberta de pelos, olhou para John com grandes olhos e sorriu com uma bocarra cheia de dentes pontiagudos.

Conto: "A MORTE EMBULHADA PARA PRESENTE"
Escrito por J.R Valadares, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
   Marcelo acordou bem cedo. Mesmo sabendo que as aulas já tinham acabado, sua ansiedade não lhe permitia manter os olhos fechados. Mesmo que o corpo ainda implorasse por mais um pouco de descanso, ele precisava saber o que estava escondido dentro daquele pacote.
Sua emoção era tanta que por um instante não conseguia nem mesmo lembrar o seu nome, mas o adesivo na porta de seu quarto o tirou daquela estranha amnésia momentânea.
Desceu as escadas de seu quarto na ponta dos pés vestindo suas meias amareladas na parte de baixo pelo costume de andar sem sapatos pela casa. As luzes estavam apagadas, apenas a luminosidade mágica envolta na árvore predominava na sala, luzes vermelhas, verdes e amarelas, alternando entre si piscando em diferentes velocidades.
Atraído pelas luzes como uma mariposa cega, ele foi caminhando até aquela planta artificial de um metro e meio de altura. Haviam três pacotes embrulhados com papel laminado colorido que refletia as luzes em seus olhos que brilhavam na mesma intensidade.
Havia um pacote retangular branco com estrelas vermelhas, uma etiqueta com letras garrafais colada bem no centro com seu nome escrito. Esse era o motivo para ele estar ali, era por isso que mal tinha dormido aquela noite, seu objeto de desejo estaria ali dentro.
Começou a rasgar o pacote, mal podia esperar a hora de saber o que o Papai Noel teria deixado para ele, mas antes que pudesse terminar ouviu um barulho na cozinha, só poderia ser um deles. Precisava agir rápido. Levantou-se e correu até lá e diante dele surgiu uma sombra fantasmagórica de um homem segurando em sua mão uma enorme faca de churrasco. O homem foi caminhando em sua direção com dificuldades, mancando na perna esquerda que sangrava e deixava um rastro do líquido vermelho escuro por onde passava.
Logo agora que ele estava tão perto...
Ele já ouvira falar daquele homem. Um assassino cruel que agia no dia vinte e cinco de dezembro, invadindo a casa de alguma pobre família desavisada e matando todos antes que pudessem abrir seus presentes.
Sempre acreditou que não passava daquelas lendas urbanas contadas apenas para assustar as pessoas da sua idade. Mas agora sua incredulidade havia se dissipado, apenas o medo dominava seus pensamentos enquanto seu coração acelerado batia descompassadamente.
Gritou chamando por seu pai e sua mãe, mas ninguém respondeu. Começou a correr procurando por algum lugar em que pudesse se esconder, o assassino misterioso continuou a persegui-lo com a faca em mãos. Subiu as escadas para tentar fugir e ao segurar no corrimão sentiu o líquido pastoso, mesmo no escuro teve a certeza do que era.
Marcelo subiu cambaleando pelos degraus o mais rápido que conseguiu, abriu a porta do quarto de seus pais e o que viu foi a cena mais assustadora de sua vida, sua mãe estava amarrada na cama envolta por uma poça de sangue enorme que havia lavado o lençol de vermelho.
Quem poderia ter feito uma atrocidade daquelas? Abriu a janela para tentar pedir ajuda a algum vizinho. O sol ainda não havia dado o ar da graça, o vento soprou em seu resto quando empurrou a janela para fora, as casas estavam todas iluminadas pelas luzes de natal.
Antes que pudesse gritar, sentiu uma pontada forte nas costas, era a primeira facada.
Marcelo se virou e estava diante de seus olhos aquele que deveria protege-lo, o homem que deveria manter acesa a magia do natal, seu pai estava irreconhecível, tomado pelo ódio partiu para cima dele para tentar dar mais uma facada. Mas dessa vez Marcelo conseguiu desviar e usando uma força que jamais imaginou que tivesse o empurrou pela janela.
Horrorizado, sem saber o que estava acontecendo ele inclinou-se para ver o que havia acontecido. Lá embaixo esparramado no chão jazia o corpo de seu pai, mas Marcelo não chorou, ele decidiu que não iria derramar uma só lágrima por aquele homem.
Suas costas ainda ardiam pela facada, foi até o banheiro onde encontrou uma atadura e fez e pôde enfaixar o local para estancar o sangue.
Olhou bem para o espelho e não via o rosto daquele menino inocente que estava prestes a receber seu presente de natal. Ao invés disso via um homem formado, de cabelo escuro desgrenhado, cavanhaque e pele branca. Tão branca que em nada se parecia com sua mãe e seu pai que tinham a pele negra.
Lavou o rosto e desceu as escadas novamente, nada iria estragar seu natal, tudo o que importava era seu presente. Podia ouvir o som da sirene da polícia que se aproximava. Algum vizinho deveria ter visto o homem caindo pela janela. As luzes dos pisca-piscas agora eram acompanhadas pelo giroflex que invadiu a janela da sala colorindo as cortinas brancas que estavam parcialmente abertas.
Ele sorriu por que aquelas luzes deixavam a sala ainda mais bonita. Seu presente não poderia ser melhor.
Na parte de cima da casa, um garoto negro com a boca amordaçada e os braços amarrados encontrava-se preso dentro de seu guarda-roupas onde a cama impedia que pudesse abrir a porta como fizera na noite passada para um desconhecido qualquer.
Conto: "INDULTO DE NATAL"
Escrito por Ana S. Varella, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
     Francisco prendeu a respiração ao segurar o documento que o diretor lhe estendia, e só soltou o ar ao perceber que o carimbo de DEFERIDO havia borrado um pouquinho reagindo a umidade de suas mãos trêmulas, então era real.
 Depois de oito meses encarcerado, o juiz compadecido de sua situação resolvera conceder-lhe liberdade não só para passar o Natal com a família, mas isentá-lo de qualquer crime que houvesse cometido, não que estivesse lhe fazendo algum favor, era inocente e todos sabiam, mas tinham medo da pessoa que exigira sua prisão.
 Saiu dali e foi direto pegar seus pertences, controlando as lágrimas para que não lhe saltassem aos olhos, aquele lugar não era muito propício para se ter um ataque de euforia, era melhor assim, afinal sobrevivera aqueles meses por ter esse auto controle. Agora era vital não se constranger evitando a intensidade da alegria que o invadia.
 Ao chegar ao pátio de entrada, deu uma última olhada para trás, não que sentiria saudade, seu olhar estreito foi desafiador àquelas paredes que testemunharam oito longos meses de horror, só sendo acalentados pelo desejo de reencontrar Isabel.
 Apesar de tudo, sentia-se bem, finalmente estava livre e poderia retomar sua vida. Era Natal, provavelmente a família de Isabel estaria reunida em comemoração e sabia que não ficariam muito felizes ao vê-lo, mas agora que saíra da prisão, iria recomeçar da maneira certa, ao invés de encontros furtivos com a amada, iria pedi-la em casamento.
 Isabel nunca fora vê-lo e a perdoara por isso, só não entendia por que não lhe respondera a nenhuma das dezenas de cartas que lhe escrevera, afinal foram oito meses. Pedira a irmã que falasse com ela, porém a mesma dissera que nunca mais havia visto Isabel, nem mesmo na missa de domingo. Queria muito acreditar que a família à proibira de manter contato, por isso se sentia culpado por coloca-la naquela situação, ainda mais com uma família como a dela, única filha mulher no meio quatro irmãos. A prioridade agora era rever Isabel, arrumar um emprego e casar com ela. 
 Andou no meio de um calor escaldante por mais de um quilometro até chegar a um ponto de ônibus que passaria mais a noitinha. Lá, pelo menos, tinha uma cobertura para se proteger do sol.
 Voltou a olhar a estrada que percorrera e coçou a cicatriz feia que tinha no lado esquerdo da face, graças a ela desistira de Isabel por algum tempo, tivera medo da reação violenta do pai e temera pela amada, não antes de ter lutado muito.
 Fora jogado numa prisão pensando que ficaria enjaulado um dia, uma semana no máximo. E foram meses. Mas em breve tudo estaria resolvido, pelo menos era no que tinha que acreditar, estava resolvido a fazer qualquer sacrifício que quisessem, se humilhando se fosse preciso, mas não se afastaria mais de Isabel.
 Com o tempo correndo a passos miúdos, suspirou ao olhar os dentes de leão que plainavam na brisa refrescante e o sol que mergulhava atrás das montanhas ao longe. Saiu do torpor com a aproximação do ônibus, o único que passava por ali. Teria que pegar outro assim que chegasse à cidade e passaria a noite toda na estrada. Ficaria sem a ceia de Natal, mas e daí? Logo de manhã estaria na casa de Isabel, isso seria recompensador.
***
 O suor escorria pelo rosto de Isabel, naquela semi escuridão que predominava seu quarto, ergueu-se com dificuldade escorando-se na parede e firmando os pés no chão de terra batida, precisava se refrescar e a única ventilação que entrava era pelas frestas da parede de tábuas de madeira, aonde passava a maior parte do dia buscando o sol, as árvores, a vida que corria lá fora.
 Com passos arrastados foi até a portinha que separava aquela peça pequena de outra menor ainda, nesta havia uma bacia e dois baldes, um certamente mantinha fechado com uma folha de latão, já que seu estômago fraco não suportava o cheiro, mesmo que a mãe fosse limpá-lo duas vezes ao dia. A bacia servia para se lavar, mas nem sempre era possível, tinha medo que a água acabasse antes da mãe vir trazer mais. Uma pequena abertura na lateral, permitia que o ar circulasse, insuficiente, porém melhor que nada.
O outro balde continha água, e para não desperdiça-la, molhou um pano e passou pelo rosto, pescoço e braços. Apesar da água estar um pouco morna, já aliviava o calor que estava sentindo.
Voltou à sua fresta favorita da parede, a mais larga, aquela em que podia ver um pedaço maior do dia lá fora, mas que a noite precisava juntar uns trapos e tapá-la para que o cômodo não se enchesse de insetos fugindo da frescura da noite em busca de um local mais abafado. Amaldiçoava o dia que o pai havia pregado aquelas ripas na janela.
Alheia à sua triste realidade, quase nem percebeu a entrada da mãe, trazendo seu lanche da tarde que se resumia no mesmo mingau de alho do café da manhã, porém neste não foi acrescentado um ovo destroçado, como se referia aos ovos que sua mãe mexia no fundo da panela com o alho, antes de colocar a farinha de milho.
Desde que fora trancada no casebre no meio da mata pelo pai e pelos irmãos, a mãe era a única a ter contato com ela. Ainda a amava, não porque dependia dela para comer, mas porque o que via em seu olhar cada vez que entrava no casebre, era uma tristeza profunda, eram olhos de quem já havia passado por muito sofrimento e que sabiam que a filha estava fadada a passar por coisas piores ainda.
Há umas duas semanas, a mãe tem vindo com mais frequência. Isabel, sempre sentada na beirada da cama, a mãe deixa o balde com água limpa no quartinho, volta com o vazio e com o outro balde tapado com a folha de latão, abre a porta e deixa num instante, os dois para o lado de fora. Puxa a porta e retorna ao cômodo, se curva ao lado de Isabel e coloca a mão na barriga volumosa da filha. Sabe que está quase na hora do parto e a mãe tem se preparado para esse momento, desde que o marido soube que a filha estava carregando um filho na barriga, sabia o que estava por vir. Com um suspiro sai do cômodo e vai ter com seus afazeres diários na fazenda.
Isabel comeu um pouco do ensopado que a mãe trouxe de janta, não estava se sentindo bem, não queria arriscar a botar tudo para fora de madrugada, não teria água suficiente para o início da manhã que com certeza, seria mais quente que a anterior.
Sem mais nada para fazer, a não ser se absorver nos próprios pensamentos, lhe veio à mente o nome Francisco, já se passara tanto tempo, temia esquecer suas feições, mas ainda tem fresco na memória o juramento que ele havia lhe feito: voltar para busca-la, custasse o que custasse, só que isso nunca aconteceu. Se existia algo em que acreditava, era que nunca mais iria vê-lo, desde que o pai e seus irmãos o expulsaram.
Já era noite quando as dores começaram. Isabel sabia que passaria por maus momentos a partir de agora, mas sabia também que toda mulher passava por isso, lógico que nem todas passavam pelas mesmas condições em que se encontrava, mas sentia que conseguiria sozinha. Assim que o bebê nascesse teria que ser rápida, não queria que ninguém tocasse em seu bebê, não depois de tudo que fizeram.
É manhã de Natal, Francisco mais uma vez sente as lágrimas prestes a cair ao não encontrar a amada em casa, atônito agarra a chave que a mãe de Isabel lhe entrega e dirige o olhar para onde a mesma aponta com tristeza, percebe que algo não está bem. Sai numa corrida ensandecida embrenhando-se da mata que circunda a casa da fazenda até chegar ao casebre lúgubre, cenário de inúmeras juras de amor trocadas entre ele e Isabel.
Ao tirar a corrente e abrir a porta, se depara com Isabel em condições miseráveis, sentada na cama, olhando para o vazio, com um bebê em seus braços ainda com o cordão umbilical e os resíduos do parto. Uma das mãos de Isabel cobre o rostinho miúdo, tentando conter a respiração do pequeno, sem saber que o bebê já se encontrava sem vida após os primeiros minutos que colocara a mão firme sobre seu rosto.
Francisco sente seu peito comprimir e, imediatamente reconhece como seu, aquele pequeno corpo inerte. Com a respiração falha, se aproxima da cama e se junta num abraço à amada e assim permaneceram, com a criança firme nos braços até a chegada do pai e dos irmãos, que vieram selar o destino dos dois amantes. Ambos receberiam o verdadeiro indulto de Natal.
Conto: "Seja um bom menino - A Lenda Krampus"
Escrito por Leonardo Born, agenciado da Vivendo de Inventar.
Marco se ajeitou na cadeira, cruzou a perna e pousou as mãos no colo sem saber muito bem o que fazer com elas. O recrutador o encarou como se observasse um peixe em um aquário. Acariciou a gravata, recostado em uma poltrona atrás de uma mesa que deveria valer mais do que a quitinete de Marcos que não sabia se encarava ou desviava o olhar do entrevistador. Afinal nunca imaginou que na véspera de Natal, o chamariam para uma entrevista. Um belo presente natalino que não deixaria escorrer pelos dedos, feito as últimas chances que desperdiçou. Precisava daquele emprego. Por ele, por Nina e Beatriz.
— Tem experiência como arquivista? – o recrutador olhava o currículo que Marco enviou para a L.Lawyers Advocacia há mais de seis meses.
— Trabalhei como arquivista em uma imobiliária por dois anos. – sua voz saiu firme. Então se permitiu respirar.
— É casado?
— Há três anos. Nina, minha esposa, teve que deixar o emprego para tomar conta da nossa Beatriz. Menos de um ano e já tem passado por maus bocados. Tem leucemia. – droga Marco! Falou demais. Leu dias atrás um artigo que orientava os candidatos a não responderem mais que o necessário. E muito menos chorarem seus problemas para o entrevistador. Duas regras que acabara de quebrar. 
— Quais seus planos para o próximo ano? – o entrevistador encarou Marcos mais uma vez. Vestia um terno cinza impecável, o oposto de Marco. Nunca precisou de um, por isso teve que pegar o do vizinho. Um número maior que o dele. Devia estar perecendo um defunto. 
— Estar empregado, voltar para a faculdade e crescer na empresa. – falou ao estufar o peito e erguer a cabeça. Também lera no artigo que se deve mostrar autoconfiança. O entrevistador acenou em positivo com a cabeça.
— E para hoje, tem planos?
— Hoje? Não, por quê? – foi inevitável não arregalar os olhos.
— Parabéns. – o entrevistador estendeu a mão para Marco que a pegou sem muita convicção. — A vaga é sua. Pode começar hoje?
Depois de descer dez andares do arranha-céu, Marco se olhou no espelho do elevador e percebeu que seu cabelo exibia pontas desgrenhadas que em nada combinavam com o paletó de seu vizinho. Mas apesar disso, um sorriso bobo grudou em seu rosto. Considerava-se o um sortudo, afinal acabara de conseguir um emprego. Desceu no andar dos recursos humanos onde entregaria alguns documentos. Segundo Jordan, o recrutador, precisavam de alguém urgente para organizar antigos arquivos, pois assim que começasse o próximo ano, sofreriam uma auditoria e tudo deveria estar em ordem. Marco enfiou a mão no bolso para pegar o celular e contar a novidade a Nina. Ela ia ficar orgulhosa. Mas sua mão achou outra coisa no bolso da calça que o lembrou que precisava agradecer alguém.
Com cuidado, puxou o chaveiro vermelho em forma de bola de Natal e continuou a caminhar pelo corredor, decidido que quando acabasse o expediente, procuraria o homem que lhe deu aquilo. Um velho mendigo com uma barba cinzenta e comprida que o parara na porta do prédio a cerca de uma hora atrás, dizendo que queria lhe dar um presente. Marco perguntou por que e o maltrapilho disse que na noite anterior, ele o chamara em suas orações e pediu um emprego a qualquer custo. Mas ao entregar o souvenir advertiu que Marco deveria se comportar, ser um bom menino e não ceder as tentações. Marco riu, aceitou o presente, lembrando só de na noite anterior ao ver uma estrela cadente, pedir ao “Papai Noel” que se lhe desse um emprego, desta fez faria tudo do jeito certo. Uma antiga mania que trouxera da infância, apesar de já estar crescido para acreditar no “bom velhinho”. Antes do mendigo ir embora, Marco perguntou seu nome e onde morava. “Claus Krampus” disse o velho barbado que afirmou morar nas imediações.
Após preencher alguns formulários e dar a boa notícia a Nina, o dia correu como esperado. Não era nada de excepcional, mas diante das dívidas que se acumulavam devido a avalanche de decisões precipitadas que o levaram aquela situação, se sentia um afortunado ao conseguir um trabalho naquela época. E pelo que dissera Jordan, com grandes chances de efetivação após o período de experiência. Se fizesse tudo certo, logo destrancaria a faculdade, poderia se candidatar a um cargo melhor e dar uma boa vida a Nina e Beatriz. Mas de imediato, ter um emprego já era mais que suficiente, pois a L.L Lawyers oferecia plano de saúde. Agora poderiam tratar a leucemia de Beatriz com tranquilidade. 
Quando o relógio deu seis horas, ainda faltavam uns dez arquivos para Marco terminar a letra “C” e mesmo sendo véspera de Natal, se impôs que só sairia dali quando completasse ao menos aquela letra. Resolveu fazer uma parada e foi até o outro lado do andar pegar um café. Enquanto selecionava um expresso curto, foi impossível não ouvir a conversa na sala ao lado.
— Vamos repetir tudo então. Depois de esfaqueá-la, o senhor foi para o lado contrário do corpo, deixou a faca em cima da mesa e então abriu a porta com as mãos sujas de sangue, correto? – falou uma voz feminina.
— Eu estava atordoado, sem saber o que fazer, para onde ir. Eu só queria sair dali. – respondeu outra voz. De um homem bem velho por sinal. — Vocês podem concertar isso, não podem? Afinal é por isso que os pago. E pago bem.
— Fique calmo, já resolvemos tudo. Quando a polícia perguntar já sabe o que dizer. Na hora que aconteceu, estava no bar com nossa querida Karen. Está claro?
— Sim, está. E quanto as digitais, o sangue?
—O senhor só precisa dizer que estava com a Karen. O resto é conosco. – frisou a mulher com a voz tão gelada quanto um iceberg.
Marco arriscou uma olhadela e pelo vão da porta pode ver de costas um senhor vestido em um terno que colocaria o de Jordan no chinelo. Atrás dele, havia quadros que estampavam o que pareciam ser antigos cartões de Natal. Talvez parte da decoração de final de ano do escritório. Um deles chamou a atenção. Formavam uma sequência de duas gravuras, onde em cada, uma estranha figura acompanhava o Papai Noel. A figura tinha chifres, uma língua pontuda e cascos no lugar dos pés. Enquanto o Papai Noel dava presentes as crianças, a criatura as puxava por uma corrente e lhes castigava com um tipo de ramo cheio de gravetos. Havia frases acima das duas gravuras. A da primeira não conseguia enxergar. A da segunda estava em uma língua que Marcos não conhecia, mas dizia: “Brav Sien”.
— Marco? – chamou uma voz conhecida. Ao se virar deu de cara com Jordan e quase derrubou o café.
— Olá Sr. Jordan, me desculpe. Fiz uma pausa e vim apenas pegar um café e aí eu...
— Tudo bem Marco, está tudo bem. – disse o recrutador com a mão no ombro de Marco. — Quero apenas te fazer uma proposta. Fiquei comovido com o que contou sobre sua filha, por isso queria lhe propor algo para ganhar um extra nesse Natal. Eu faço parte de um site, na verdade um clube, onde fazemos alguns jogos de fim de ano. A única coisa que precisa fazer é ir a um quarto de hotel e entregar um envelope para alguém. Só não pode fazer perguntas e nem saber do que se trata. Mas garanto que não é nada ilícito. Apenas uma brincadeira de fim de ano, tipo um amigo secreto no qual será o mensageiro. Se topar, leva dois mil. Mil na sua mão agora e mil na volta. O que acha?
— Eu não sei. Já consegui o emprego, está tudo bem. – dois mil parecia um bom dinheiro para algo tão simples. Será que devia aceitar? Afinal aquela era uma firma de advocacia séria. E o que ouviu na sala ao lado, devia ser apenas mais um dos casos difíceis com que os advogados tem de lidar.
— Vamos Marco, dois mil. Irá garantir um belo Natal para sua esposa e filha.
Afinal qual seria o problema. Era só entregar um envelope. 
— Está bem, eu aceito.
Uma hora mais tarde, Marco entrava em um quarto de hotel com um envelope em mãos, que deveria entregar a um homem, o qual não sabia o nome, mas que segundo Jordan o esperava. Marco tinha o cartão de acesso da porta e teve de passar pela entrada de serviço do prédio, pois não deveria ser visto. Mesmo assim, ao subir no elevador e passar pelo corredor, viu que câmeras o observavam. Dentro do cômodo, o qual recebeu ordens expressas de não acender a luz, deveria deixar o envelope em cima de uma mesa e sair. Apenas isso. Mas assim que colocou o envelope na mesa, ao se apoiar nela, algo melecou sua mão. Com o celular acendeu a lanterna e o que viu o fez tropeçar e quase cair. Sangue. Desesperado ignorou todas as regras e apertou o interruptor. Com as luzes acesas, viu o corpo de uma mulher ensanguentado com diversas facadas deitado em uma cama. Na mesa onde colocou o envelope, uma faca jazia também ensanguentada. Marcos correu para a porta, enfiou a mão suja de sangue na maçaneta e ao abrir percebeu que seu mundo acabava ali. Para sempre. 
— Mãos onde eu possa ver! – gritou o policial de arma em punho, acompanhado de mais três. 
Eles o deitaram no tapete da suíte, o algemaram e o levaram para o camburão sem sequer ler seus direitos. 
Dias depois, já na penitenciária enquanto aguardava o dia do julgamento por um crime que não cometeu, no refeitório, um velho maltrapilho de barba cinzenta sentou do lado de Marcos.
— Eu lhe avisei filho. Disse que não devia ceder as tentações. Você não foi um bom menino.
Depois, o velho se levantou e deixou dois cartões postais em cima da mesa. Ao vê-lo de costas, Marcos percebeu que pequenas protuberâncias pontudas saíam em meio aos cabelos mau lavados do velho e os pés faziam barulhos como cascos de cavalo. Pegou os postais e os examinou com atenção. Eram as mesmas gravuras que viu na sala do escritório de advocacia no dia que começou empregado e terminou preso. E lá estava a criatura demoníaca ao lado do Papai Noel, castigando as crianças. Na segunda gravura, em baixo da Frase “Brav Sien”, estava a tradução escrita a mão: “Comporte-se”. E na primeira, a que não conseguira ler da primeira vez, havia os dizeres “Gruss vom Krampus”, onde abaixo estava a tradução: “Saudações de Krampus”. E esta foi a última vez que Marco agiu sem pensar. Pois se o fizesse mais uma vez sabia que Krampus o acharia.
Conto: "O Presente"
Escrito por Lia Cavaliera, assinante Hardcover da Vivendo de Inventar.
          Rômulo parou na porta do quarto de Bruna, a escutando respirar com tranquilidade. Sua filha estava ficando cada vez mais parecida com a mãe, apesar dos maneirismos serem todos dele.
          Era 24 de dezembro e em poucos minutos seria Natal. A noite mais esperada do ano, quando o bom velhinho traria o presente de sua filha por ter sido uma boa menina, e quando o pai a daria um presente por seu décimo segundo aniversário, colocando-o junto do presente do velho, como todos os anos, sem dizer qual era o dele. Nem precisava, ela saberia. Bruna era esperta.
          Quis entrar, dar-lhe um beijo de boa noite, a abraçar e chorar, mas não podia. A pressão estava chegando, como em todas as noites, subindo do ventre para o estômago e dali para o peito, se expandindo até tornar difícil respirar, pensar ou agir. Afundando suas costelas e apertando seus pulmões. Travando a garganta e fazendo arder os olhos.
          Ouviu um arquejo vindo dali de dentro e abriu um pouco mais a porta, sua cabeça doía e ele queria ir ver Celina logo. Deu um sorriso amargo para si mesmo... como se ela fosse ligar se eu demorasse uns minutos.
         "Tu vais ver ela novamente, certo?" Bruna perguntou, baixinho, por isso Rômulo não pôde decifrar seu tom de voz.
          Ficou calado, afinal, o que poderia falar? Entrou no quarto e puxou o ar, pensando no que dizer.
          "Sei que vais, mesmo hoje, no Natal, no meu aniversário." outro sussurro, podia ser a imaginação se Rômulo "Não vá mais, papai, ela te faz mal. "A menina sentou na cama, chorando.
          "Não fales assim, ela é..."
          "Nada! A minha mãe morreu. Mo-rreu. Aquela mulher de nada sabe sobre minha vida e fica com os olhos brilhando como se me conhecesse a cada vez que nos vemos. Ela não me conhece, não sabe nada sobre mim e nem saberá, porque não pode se lembrar."
          "Poderíamos resolver isso, apenas..."
          "Não, pai! Já chega disso, para nós dois." Bruna soluçou. "Ela está te matando aos poucos, te olha no espelho, parece adoentado, e está matando o meu pai, que some e não tem tempo pra mim." 
Rômulo suspirou e entrou, indo se sentar ao pé da cama.
          "Esse ciúme é desnecessário." falou, tentando entender como ela podia não gostar de Celina.
          "Não, pai, não é ciúme. É... preocupação." Era difícil entender Bruna, seu choro, como sempre, fazia as palavras se misturarem. "Se continuar com isso, ela vai acabar matando quem és, ouve bem o que te digo." Ela esfregou o nariz e o encarou nos olhos. "Ou tu vais me abandonar de vez, então ficarei sem pai e sem mãe."
          "Jamais te abandonaria. "Rômulo sabia que não era de todo verdade, e já estava fazendo, não? Passando horas com Celina e esquecendo do resto de sua vida. "Falarei com Celina sobre isso." O pai falou, depois de alguns minutos.
"Não faz sentido falar isso para ela, pelo amor de Deus, pai, essa conversa é entre nós."
          Rômulo estendeu a mão para acariciar a cabeça da menina, mas ela lhe deu um tapa na mão e voltou a deitar, virando-se de costas para ele. Quis ficar, esperar que dormisse e lhe assegurar que isso jamais aconteceria, afinal fazia apenas um ano que pôde se reencontrar com Celina, depois de tanto trabalho para conseguir e de tantos anos sozinho, a menina não precisava fazer tudo isso. Bruna era muito ingrata, voltaria para o internato assim que as celebrações acabassem.
          Suspirando, Rômulo fechou a porta e desceu as escadas, e parado em frente ao espelho da sala, tentava ignorar o pinheiro enfeitado pela filha. Arrumou-se, alinhando o colete cor de vinho e penteando seu cabelo escuro e cacheado do jeito que Celina gostava, mesmo que não fizesse diferença alguma. Estava esgotado, mas precisava vê-la. Sempre precisava. Deu uma olhada em volta, só para ter certeza que nenhum empregado estava à vista, pegou a chave no bolso e foi até a porta de seu escritório, o destrancando e voltando a trancar depois de ter entrado.
          O cômodo, abarrotado de livros, tanto os que escrevia quanto os que estudava, já lhe parecera como um ninho antes, aconchegante e tranquilizador, mas, agora, apenas os braços de Celina traziam essa sensação, da mesma forma que quando se conheceram, mais de quinze anos atrás, antes de o destino os separar, antes de Bruna nascer, antes dele se afundar no trabalho para esquecer a morte da esposa, antes da vida mudar como bem queria. Também era o único lugar onde a decoração natalina não havia se instalado.
          Pôs uísque em um copo e continuou a beber até estar ébrio, mas ainda lúcido. Nesse mesmo estado levantou-se de sua poltrona, colocou uma pesada viga de madeira na porta, limpou a testa com um lencinho de seda e olhou seu relógio de bolso, de formato curiosamente intrincado. Já era hora.
Com o relógio em mãos, caminhou até a estante maior, de frente para sua mesa e, puxando o grande e antigo Ilíada, em grego, do lugar, viu a fechadura, enfiou o relógio no local e o girou. Ouviu o estalar das engrenagens e a estante foi um centímetro para frente.
          Passou as mãos no colete, alisando dobras que não existiam, tomou uma vela em mãos, abriu a passagem e desceu. Seu laboratório era moderno, equipado com os melhores maquinários da época. As engenhocas eram perfeitas para o uso de Rômulo e, quando não, ele as desmontava e refazia de um jeito que aproveitasse.
Nunca precisou trabalhar, nasceu numa rica e antiga família de fazendeiros, e, no ócio, encontrou tédio e curiosidade que lhe fizeram revirar os livros que enfeitavam sua casa, depois os que davam vida à biblioteca da cidade. Leu sobre tudo, de todos os lugares, aprendeu que nada sabia, mas que sua curiosidade era insaciável.
Depois não era mais suficiente ler, queria fazer, experimentar. E fez. Deixou as fazendas para os irmãos, pegou dinheiro e viajou o mundo. Criou coisas, conheceu pessoas, se relacionou bem e se apaixonou, criou mais que nunca depois disso e seus inventos deram certo.
          Agora vivia de suas patentes, eram muitas e lhe rendiam mais dinheiro do que precisava. Depois que Celina foi embora, depois da morte de sua esposa no parto e tendo um bebê precisando dele, perdeu a vontade de inventar e passou anos se dedicando a criação de Bruna. A visita de um velho amigo, certa vez, lhe trouxe luz em meio ao luto. Luz essa que o fez voltar ao mundo dos inventos. Botou a filha num internato e passou três anos até chegar à bela máquina que ali ficava, escondida dos olhos do mundo.
          Acendeu duas lâmpadas de magnésio e apagou a vela. Com o cômodo iluminado, foi até o armário, vestiu as luvas e o avental de chumbo escamado. Do outro lado, pegou barris da substância energética que tanto lhe dera trabalho em criar, depositou nos motores, ligou a primeira chave e o líquido começou a se espalhar pelos tubos, fazendo-os brilhar.
          Não demorou a arrumar o resto, usando, como coração da máquina, a pedra, supostamente mágica, que faria a ligação. Mágica, ou não, funcionava e, ligação feita, logo um Rômulo preso dentro de uma escotilha de metal viajava até outro Natal, muito diferente desse. Um que tinha festa, alegria e um motivo para comemorar.
          Viu o brilho nas janelas, amarelado e quente, parecendo delicioso na época gélida em que se encontravam, graças a chuva forte e constante, ao menos não havia neve ali. Se aproximou da casa e bateu na porta, decorada por um guirlanda de galhos secos e flores que Celina mesmo havia feito. Enquanto esperava que alguém abrisse, arrumou a roupa mais uma vez e conferiu se as embalagens dos presentes estavam perfeitas, apesar de saber que estava.
          Celina abriu a porta, como sempre, sorrindo do jeito que fazia o corpo de Rômulo se contorcer de... Tudo. Amor, desejo, carinho, ansiedade, saudade e plenitude, tudo junto. Se abraçaram sem dizer palavra, as bocas que se encontravam sabiam mais em seu silêncio do que qualquer frase que pudesse ser produzida pela mente.
         "Tu estás linda" falou, era verdade, em seu longo vestido bordô de festa combinado às joias douradas e a bela luva de renda branca, Celina parecia uma pintura clássica de alguma deusa antiga. Ela sorriu e ignorou o comentário.
"Alguns minutos atrás comecei a pensar que não te veria mais hoje." falou, o abraçando.
          "Desculpe, estava com Bruna." Rômulo deu um beijo em sua cabeça e entraram.
          Os olhos de Celina brilharam e ela esfregou a enorme barriga, na qual a criança deles se encontrava.
          "Como ela está?"
          "Muito bem, estamos programando um dia para que venha falar com todos e contigo, vai adorar a conhecer." Mentiu, sorrindo, elas já se conheciam, mas ela não lembrava de Bruna, que era o melhor, visto a bagunça que foi o encontro.
Celina balançou a cabeça, feliz e apontou para a sala.
          "Estávamos apenas esperando sua chegada para começar o festejo."
          Andaram até lá abraçados, encontrando os amigos e parentes de sempre. Rômulo tirou as mãos de Celina apenas para abraçar e cumprimentar os amigos, que fizeram as mesmas felicitações e perguntas. Eles, é claro, também não sabiam que já tinham feito aquelas perguntas.
          Comeram a ceia deliciosa natalina e igual a todas as outras, com direito à Celina perguntando se ela havia preparado a mesma coisa de novo, Rômulo mentiu. Presentes foram trocados, Rômulo fingiu surpresa, tudo foi sorrisos e animação. Os convidados foram embora depois da meia noite, já era Natal e, enfim, estavam sós.
          "Quantas vezes já viestes aqui?" Celina sabia que não lembrava, Rômulo a tinha preparado para a situação um par de meses antes.
          "Quantas foram necessárias." Respondeu, a trazendo para seu peito e deitando na cama.
          Ficaram um tempo assim, aproveitando a presença um do outro. Rômulo acariciava a cabeça de Celina e ela, por sua vez, a barriga inchada.
          "A criança está para chegar, não é?" A mulher encarava o teto, sorrindo com placidez.
          "Tu já estás com nove meses, então..."
          "Bruna deveria vir assistir, se quisesse, acho que seria uma interessante experiência." Rômulo riu, aquela ideia era nova.
          "Não acho que ela apreciaria, não é como nós, prefere a companhia de plantas." Celina suspirou.
          "Sinto falta dela." Sentou-se na cama e o encarou. "É normal sentirmos falta de alguém que ainda nem conhecemos?"
No seu caso, sim, Rômulo pensou, entretanto apenas sorriu e a puxou de volta para o peito. Se Celina soubesse tudo que fez para estar com ali...
          "Claro, meu amor."
          "Tu deverias passar o Natal com ela." Ela se levantou de novo, parecendo preocupada. "Ao menos o Natal."
          "Não comece, Celina."
          "Quanto tempo tens passado com ela?" Rômulo passou as mãos no cabelo, impaciente.
          "O suficiente, querida."
          "Não acredito em ti, tua voz e postura quando fala de Bruna não são boas, parece... que nem gosta dela." Celina fechou o semblante, parecendo confusa e chateada, abraçou a barriga. "É assim que vai ser quando meu bebê nascer? Largado em um internato qualquer durante o ano e, nas férias, sem tua atenção, sendo criado pelos empregados?" Rômulo fez uma careta, não esperava ter essa conversa.
          "Celina..."
          "Isso não é justo, Rômulo. Como podes fazer tal coisa?" E começou a chorar.
Abraçou-a até que ela se acalmou. Pela primeira vez surgiu a chance de Rômulo fazer a pergunta que sempre quis fazer, mas estava hesitando. A resposta mudaria sua vida, por fora e por dentro e, sendo covarde para decidir, daria à Celina o poder de escolha.
          "Querida, se soubesse que vais morrer no parto, escolheria salvar tua vida ou a do bebê?"
Ela se afastou de seu peito com os olhos escuros arregalados, entendendo tudo. Rômulo esperou a resposta, sua curiosidade doía em seu corpo tal qual uma enfermidade. A resposta que sempre quis, se ela se arrependia, o que faria se tivesse como escolher viver?
          "É isso, então..." Ela falou, enfim, deitando na cama e respirando fundo. Ele apenas assentiu. "Vou morrer no parto da minha filha." Celina riu com amargura.
          "Sim, amanhã." O marido a encarou, Celina parecia reflexiva com aquilo.
          "E tu queres que eu escolha entre ela e eu." não era uma pergunta, ele assentiu, retorcendo as mãos no colo.
          Ela o olhou nos olhos, da cama, as olheiras fundas por causa das noites mal dormidas, a pele pálida por nos últimos meses não poder sair muito, os cabelos longos espalhados na cama. Só os olhos brilhavam, cheios de calor, de promessas... Tão cheios de vida. Assim como os de Bruna.
          "Muito bem, eu-eu escolho a minha vida." Rômulo a fitou, sem saber o que falar, algo estava vindo de dentro, lá do fundo, irradiando tremores da boca do estômago para o peito, para a mente, para o corpo todo.
          "Tu me escutasse? Eu me escolho." Celina repetiu, com a voz firme.
          Rômulo apenas anuiu, não se sentia com capaz de pensar, muito menos falar. Ele já sabia como reagir à morte de Celina, mas nunca havia pensado no desaparecimento de Bruna, afinal ela nem chegaria a existir. Sem primeiros passos, sem aquela coisinha quente para carregar no colo, sem histórias contadas antes de dormir, sem bolos feitos em tardes quaisquer, sem abraços apertados quando voltar da escola. Sem. Ela.
          "Como resolveremos isso?" Celina levantou, tão determinada, amarrou os cabelos e, quando viu que o marido continuava parado, pôs as mãos na cintura e levantou uma sobrancelha.
          "A melhor, hm, melhor forma de fazermos isso é" Rômulo limpou a garganta e tentou organizar suas ideias "é voltar no tempo e não deixar que tu engravides."
"Tudo bem, não sabemos o dia exato, mas sabemos a época, portanto regressaremos nove meses e alguns dias, não ficarei grávida, e não morrerei." Ela falou, sendo prática.
          "E Bruna não existirá." Sussurrou o homem, encarando a parede.
          "Não, mas não faz diferença, não é?" Celina comentou, enquanto calçava meias, porém parou e virou para ele. "Eu preciso me vestir?" Rômulo engoliu em seco, Celina parecia se arrumar para passear. Negou. "Por que tu estás me olhando desta forma?" Ela se aproximou, devagar, mas Rômulo só conseguia ver a barriga enorme, só conseguia ver Bruna.
          "Não sei. E-eu acho que não esperava que tu desistisse dela."
          Celina riu e beijou o marido "Meu amor, podemos adotar, eu nunca vi Bruna, de qualquer forma, e tu, bem sei, passa mais tempo comigo e prefere minha companhia à dela, então não há outra forma de prosseguir." O rosto de Rômulo era lido pela esposa como uma página de livro, ela suspirou e colocou as mãos em volta do rosto dele "Querido, nossa filha ficará muito melhor não nascendo, vive em um internato, tem um pai ausente ligado a esposa... morta e não lhe dá atenção, cresce sem mãe. Sem mencionar que bem vejo que tu a culpas pela minha morte" deu de ombros.
          "E-eu sei que, para ti, isso é deveras fácil, mas, Celina, a vi crescer e-e dar os primeiros passos e..."
          "Eu sei, é difícil, mas logo tu verás que meu amor e nossos filhos adotivos serão o suficiente para que tu a esqueças." Celina afagava o cabelo do esposo com ternura, enquanto falava. "Vamos, faças logo, voltes no tempo."
          "Já?" Rômulo começava a sentir uma pressão insuportável nas costelas, lhe tirando o ar. "Eu deveria me despedir dela, não?"
          "Não, meu amor, isso só piorará teu estado, e já estás tão triste." Ele a encarou, talvez fosse mais fácil se Celina e Bruna não fossem tão parecidas. "Faças logo."
          A respiração dele acelerou e o estômago começou a esquentar.
          "Espere um pouco."
          "Agora, Rômulo."
          "Espere." Sua mão tremia.
          "Rômulo."
          "Calma." Ele não podia pensar.
          "Agora!" Celina gritou.
          "Eu não quero!" Rômulo gritou de volta.
          "Depois de tudo isso, por quê?" A mulher perguntou, espetando-lhe o peito com o dedo.
          "Não quero perder Bruna, não é justo." Começou a chorar, abraçando a barriga dela. "Eu a amo, amo nossa filha, Celina e sei-sei que você quer viver, mas ... a Bruna têm esses teus olhos castanhos e-e cabelos cacheados escuros, tem um nariz empinado e largo e quando sorri tu tens vontade de dar o mundo inteiro para ela, porque ninguém com aquele sorriso pode ser ruim." Rômulo esfregou o rosto no colo da esposa, ainda chorando. "Ela gosta de chocolate quente de manhã com uma pitada de canela, come o bolo primeiro e a cobertura depois, gosta de cuidar de flores e pinta nas horas vagas. De tarde sempre dorme um pouco e acorda sorrindo, tímida. Gosta de ver o sol se por e ir à praia no inverno. E sempre...'' ele soluçava "sempre se preocupa com os outros, até comigo."
          "De que adianta ela viver, se continuarás vindo aqui?" Rômulo continuava com os olhos fechados, por isso não viu que Celina chorava, baixinho, aliviada.
          "E-eu... Não quero te perder." Celina acariciou sua cabeça, bagunçando seus cachos.
          "Meu amor, tu nunca vais me perder, mas já está na hora de viveres o teu presente, com a nossa filha." Ela puxou a cabeça do marido e fez com que a olhasse. "O meu tempo já acabou."
          "O que faço, Celina?"
          "Prometa-me que nunca mais voltará aqui." Rômulo deu um sorriso forçado.
          "Se eu voltar tu não vais lembrar disso."
          "Não, mas tu vais." Ela suspirou. "Faças dela a menina mais feliz do mundo. Bruna é nossa filha. Tivemos uma vida maravilhosa juntos, sim, mas, meu amor, agora tens de continuar a viver." Respirou fundo. "Sem mim."
          "E tu, como ficarás?"
          "Eu te espero em outra vida, não há outra solução." Celina sorriu, triste. "Só quero morrer sabendo que minha filha vai ter um bom pai, um presente, um que ela possa se orgulhar em ter e... aah." Rômulo se assustou, sua esposa havia soltado um gemido alto. Quando viu que um líquido havia escorrido por sua perna, soube que a bolsa tinha estourado.
          "Vais ficar comigo?" A mulher perguntou.
          "Até o fim, meu amor."
          "Tudo bem, até o fim." Ela sorriu, com dor.
          Rômulo estava em seu laboratório, suando, chorando, rezando. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado longe, nem quanto havia perdido ali, dentro da escotilha, mas, enfim, saiu. O ar frio o atingiu em cheio, fazendo seus pelos ficarem eriçados e acordando sua mente.
          Subiu as escadas com pressa, trancou a passagem e depois retirou a viga da porta do escritório. Sem se importar em trancar a porta, reparou que já amanhecia. Com calma, andou até a porta da frente e a abriu, respirando o ar fresco da manhã. O sol acabava de nascer, amarelo, radiante, enorme.
          Ficou olhando até que aparecesse completamente, um recomeço. O sol renascia todos os dias e para todas as pessoas e, assim como Jesus havia nascido trazendo perdão ao mundo, esperava que pudesse encontrar perdão para si próprio. Respirou fundo, dando um pequeno sorriso, pensando em sua esposa, agora descansando para sempre, e em sua filha, que teria o pai de volta. Respirou fundo de novo e se virou para entrar, notando então o presente ali na porta, em embalagem vermelho vibrante. Pegou, fechou a porta e o colocou embaixo da árvore.
          Subiu, indo até seu quarto e pegando o presente de Bruna. Era cedo, mas se encontrava elétrico demais para esperar, por isso entrou no quarto da filha e se sentou ao seu lado, chamando-a até que acordasse.
          "Pai, que horas são?" Perguntou, ao despertar.
          "Cedo, o sol acabou de nascer, mas queria logo dar-te seu presente de aniversário e de Natal." A menina sentou na cama, confusa com o desadormecer prematuro e o humor do pai.
          "O senhor está bem?" Bruna bocejou, mas seus olhos já estavam bem abertos.
          "Faz muito tempo que não me sinto tão bem, querida." Sorriu e afagou o cabelo da menina, porém ela afastou sua mão.
          "O que está acontecendo, diga-me agora." Rômulo engoliu em seco e olhou para o teto.
          "Falei... Hm, falei que ia falar com tua mãe" ele começou, era difícil fazer as palavras saírem "ela achou que deveríamos passar mais tempo juntos. Sem ela." A menina chorou. "Que tal se fizermos bolo de chocolate, é teu favorito, certo?"
          "Ah, papai." a filha se jogou nos braços do pai, e Rômulo apenas confirmou que aquela era a escolha certa, a mais certa de toda sua vida.
          "Então, vamos? Ainda tens vários presentes para abrir." Bruna riu, limpando as lágrimas.
          "Agora meu bolo favorito é o de morango." Avisou a menina.
          "Tudo bem, temos morango."
          "Quem me mandou presente?"
          "Teus tios, teus avós, seu Nicolau deixou o dele em frente à casa e tua mãe." A menina parou e o olhou, assombrada.
          "Mamãe!?"
          "Sim, tua mãe."
          "Hm, e o que seria?" Perguntou, curiosa.
          "Tu verás"
          Riram juntos e desceram, prontos para passarem o resto da tarde de Natal juntos.
Conto: "Aqui não se come pêssegos!"
Escrito por Pedro Branco, agenciado Wolfpack da Vivendo de Inventar.
          Foi num dezembro friozinho, quando às vésperas do Natal os cidadãos já cantavam alegres e decoravam suas casas com vistosas guirlandas, que a revolução começou.
          Em um lugar recluso numa fronteira esquecida, perto de alguns países pequenos e um mar sem nome, um diminuto reino perdido no tempo se mantinha forte a velhas tradições para as quais ninguém mais realmente ligava. O reino – que alguns chamavam de país, outras de fim do mundo – outrora se chamara "Osterloff", mas recentemente fora rebatizado de "Osterloff, onde não se come pêssegos!" assim mesmo, com uma exclamação no final.
          O rei de "Osterloff, onde não se come pêssegos!", era um homenzarrão grande e barbudo, burro como uma porta – com todo respeito a quaisquer portas que possam vir a ler este conto. Tão burro era o rei que perdera seu nome. Antes, chamava-se Otávio, mas no dia de sua coroação foi avisado o seguinte por seu conselheiro: “Meu senhor, não podes mais te chamar Otávio. Deves assumir o nome de rei!”. Assim, o rei declarou seu novo nome “Rei”, passando a ser O Grande e Majestoso, Brilhante e Secular, Primeiro de Seu Nome, rei Rei.
          A burrice do rei Rei era frequentemente um problema para a paz do reino. Todo ano, na manhã da Páscoa, por exemplo, a nobre majestade fazia questão de cavalgar pelas cidadelas próximas para colher pessoalmente os melhores ovos dos coelhos mais rechonchudos que pudesse encontrar. Isto era um contratempo desmedido, é claro, pois ninguém tinha coragem de avisá-lo que, na verdade, coelhos não punham ovos, o que obrigava uma quantidade absurda de serventes reais a passar o dia anterior à Páscoa grudando ovos de galinha ao bumbum de inocentes coelhos que não entendiam o que se passava. E quanto ao chocolate, ninguém podia comer mesmo, já que o rei era diabético.
           Outro feriado igualmente problemático era o da Proclamação da Independência de "Osterloff, onde não se come pêssegos!". Para começar, o pequenino reino sempre fora livre, então não havia sequer do que proclamar independência. Mas além disso, o rei Rei achava que todo ano era necessário proclamá-la de novo, o que causava um alvoroço de arrepiar os cabelos, pois todos os cidadãos eram obrigados a se reunir à praça pública e assistir ao Rei discursar por 2 horas sobre a importância daquele momento único na história. “Único até o ano que vem”, diziam alguns virando os olhos, mas bem baixinho para não serem pegos.
           Os cidadãos daquele ínfimo país quase odiavam cada feriado, cada comemoração, cada celebração. Até mesmo os atletas olímpicos se esforçavam para não serem muito bons, porque caso vencessem alguma competição de expressão, o rei Rei poderia querer criar alguma festança especial. Ninguém tinha coragem de dizer ao rei que a maioria das suas ideias quanto a... bem, quanto a tudo, estavam erradas. Vossa majestade não era apenas burro, era também impiedoso e sensível em demasia.
           Uma vez, ao comentar estipular um feriado nacional de Dia dos Namorados, um de seus conselheiros educadamente comentou que isto seria estranho, visto que nem todos os cidadãos de fato namoravam, nem o governo poderia forçá-los a tal. O rei Rei imediatamente mandou cortar-lhe a cabeça fora. Apenas dois minutos depois da execução, o grande soberano compreendeu o argumento do conselheiro. Pelas costas do rei, aquele dia ficou conhecido na corte como O Dia do “Uuuuh”, pois “uuuh” fora tudo que o rei dissera ao entender que, afinal de contas, o conselheiro decapitado tinha razão.
            Apesar de tudo, havia uma data com a qual o rei Rei não tinha problema nenhum: o Natal. De alguma maneira inexplicável, vossa majestade entendia aquela quase com perfeição. Dar presentes uns para os outros, enfeitar um pinheirinho, luzinhas coloridas grudadas nas casas. Tudo beleza. Certa feita tivera problemas para entender porque o Papai Noel não precisava pagar impostos pela importação de brinquedos do Pólo Norte. Esteve a ponto de mandar seus soldados espreitarem cada casa do reino para, à meia noite, capturar o velhote sacana. Seu ministro da economia, no entanto, conseguiu convencê-lo de que a importação era boa para a economia e gerava empregos, e graças a Deus aquilo bastara. Não que o rei entendesse muito de economia também.
           O Natal então era uma época serena, intocada pela bestialidade do soberano de "Osterloff, onde não se come pêssegos!" ou pelo menos era até uma certa manhã de dezembro. Por algum motivo não óbvio, o rei acordara de bom humor e gritara: “Homens, homens! Tragam-me café e algumas boas roupas, faremos compras de Natal”. Escoltado por uma modesta caravana, o rei Rei peregrinou pelo centro comercial em busca das melhores decorações natalinas, ansioso por enfeitar seu palácio.
            A revolução começou numa pequena lojinha de esquina, tão modesta que quase se passava desapercebido por ela a não ser que você não tivesse nada melhor para fazer do que olhar para a direita enquanto caminhava por ali. A portinha de madeira velha ostentava uma bonita guirlanda verde com sininhos dourados e dois ramos de viscos formosos com bolotinhas muito vermelhas penduradas para baixo. O rei parou diante da guirlanda, a admirou por um instante e abriu um sorriso. O sorriso que transformaria "Osterloff, onde não se come pêssegos! ".
           “Homens. Eu quero esta grinalda”, disse o rei. Seus súditos permaneceram estáticos, olhando para seu amo, alguns erguendo bem levemente uma sobrancelha, outros já com as mãos suadas. O rei os encarou e repetiu: “Estão surdos? Quero esta grinalda e agora!”. Um dos soldados engoliu em seco e sentiu as pernas frouxas, outro de fato desmaiou e outro se pôs a chorar. O rei já estava consternado em demasia quando um súdito, um rapagão de não mais que 20 anos, tomou coragem e adentrou a loja sozinho.
            “O rei exige comprar sua... grinalda”, disse ao dono da loja. O vendedor não entendeu e perguntou, “Oi?”. O soldado repetiu com a voz embargada e os olhos marejados “O rei está aí fora e exige comprar a sua grinalda”. O dono da loja, um velhinho já grisalho e cheio de rugas, sufocou o choro com uma mão e se atirou sobre o balcão de testa. Fora dado o tiro de misericórdia, o estopim de uma guerra civil.
             O rei Rei comprara sua bonita grinalda e pendurara na porta do quarto, alheio à transformação que seu reino sofrera naquele dia. A palavra correu solta pelas ruas, aos cochichos, pois ninguém ousava discordar do rei. “Guirlandas não se chamam mais guirlandas”, comentava um com os olhos arregalados. “Agora guirlandas são grinaldas!”, comentavam outros olhando ao redor, cuidadosos para não serem pegos. Outros sequer ousavam pensar que um dia grinaldas pudessem ter sido outra coisa senão aquela clássica decoração de Natal. “Hahaha...”, alguns riam nervosos, “...minha mãe sempre fez suas próprias grinaldas para pendurar à porta, eu as adorava”.
             As semanas que se seguiram desde então até o Natal foram tensas e imprevisíveis. O ministro da agricultura do rei, apenas por curiosidade, resolveu confirmar com o rei: “Como se chama aquele lindo ornamento em vossa porta, majestade?”. O rei Rei levantou uma sobrancelha e respondeu “É uma grinalda, oras, nunca viste uma?”. O ministro da pesca, apenas para confirmar, pegou uma velha foto de sua mulher no dia de seu casamento e perguntou: “Por acaso vossa majestade poderia me elucidar com tamanha sabedoria e me dizer como se chama este acessório de cabeça que minha mulher ostentava no dia de nosso matrimônio?”
            O soberano pensou por alguns instantes, coçou o queixo e respondeu com um sorriso satisfeito no rosto: “Creio ser uma guirlanda, não é? É sim! Uma guirlanda, todas as noivas usam”. A notícia se espalhou velozmente por todas as cidadelas do reino e naquela noite, muitos se suicidaram.
            A notícia afetou principalmente os Repaginadores, dedicados servidores públicos que existiam apenas em "Osterloff, onde não se come pêssegos!". Eles eram os responsáveis por reescrever todos os livros de todos os gêneros e todos os tipos para adequar as histórias à realidade do Rei. Certa feita o grande monarca havia ficado confuso ao ler Os Três Porquinhos, porque de acordo com ele, uma casa de madeira bem construída poderia aguentar vendavais ante os quais o concreto não teria a mínima chance. A partir de então, a casa do segundo e terceiro porquinhos foram invertidas em todos os exemplares disponíveis no reino. E só por via das dúvidas, resolveu-se mudar todas as histórias também para não dar problema.
           A revolução começou de fato com um homem chamado Alberto, um Repaginador de 52 anos que gostava de pão de queijo e Bee Gees – estava sempre com o radinho no bolso e os fones no ouvido. A notícia chegou para ele na hora do almoço, num memorando que dizia apenas “Trocar todas as palavras grinalda por guirlanda e guirlanda por grinalda”. Alberto suspirou e fechou os olhos. Em seguida, leu as letras miúdas no fim da folha: “Antes do Natal”.
          As crianças diriam que Albertou pistolou-se, enfureceu-se, perdeu as estribeiras. Ele mesmo se surpreendeu ao notar que um minuto depois de ler o memorando, estava sobre a mesa e discursava ferozmente contra o rei Rei. E outros tantos Repaginadores ali em volta, também já fartos da rotina enfadonha, se deixaram tomar pela rebeldia do momento e gritar contra a tirania do supremo senhor de "Osterloff, o lugar em que..." quer saber? Para o inferno com este nome!
         Foi naquele dia, com Alberto e as grinaldas-guirlandas, que o reino se transformou para sempre e o rei Rei foi deposto após uma cruel guerra civil que durou 5 horas. Na verdade, ninguém estava muito feliz com o rei Rei, então foi bem fácil tirá-lo do trono mesmo. Das cinco horas, três e meia foram apenas para organizar o pessoal e também teve quinze minutos para um lanche. Então você vê, né...
         Foi assim que o Natal, época mágica, abriu os olhos das pessoas e mudou para sempre "Osterloff, onde não se come pêssegos!'.
        
         Fim...
      
         Quê? Por que não se comia pêssegos em Osterloff? Ah, que bom. Isto é legal. Se você está se perguntando “por quê?”, talvez você esteja abrindo os olhos também. 

         Fim? 

Pedido de aniversário, rabiscos, delicadeza: Carta ao meu pai.
Crônica escrita por Ana Gabriela Rebelo, membro da Wolfpack.
Tenho tido o cuidado de me deitar sobre essa palavra: delicadeza. Em uma conversa de botequim, dois bêbados devaneiam sobre o mundo. Mundo redondo, mundo quadrado, mundo sob mundo... mundo grão de areia! Areia tamanho do mundo.

— Sabe que a embriaguez te cai bem?

 É embriagado que experimento aquele momento único de lucidez. Aquele fio, meio fio entre a calçada sólida e a água que escorre extensa pelo cantinho da rua. Gosto dos bares. Gosto de poder ir e vir pelos bares. As noites e dias são livres para ir e vir e, por isso mesmo, permanecem sempre na sua rotina milenar de infinitas viagens. Sabe, se eu pudesse pedir um presente, um só presente, pediria viagens. Penso nas viagens que faço, penso que daqui mais uns dias completo 30 viagens na Terra, girante astro solar! Mais de dez mil e novecentos sóis que se põem e nascem sempre no espanto de cada dia.

Sou adiantada na escola. Minha mãe me conta que, quando era pequena, as “tias” resolveram me pular de série. Pulei o maternal, maternal é série? Maternal não é aquele tempo em que fazemos rabiscos e colorimos e usamos purpurina? Por que pulei o maternal? As purpurinas são brilhantes e os rabiscos são as coisas mais gostosas do mundo! _ “Filha, você pulou o maternal porque na hora das historinhas que as tias contavam, sua turma fazia muito barulho e você não gostava. Ficava triste porque queria ouvir as histórias. ” Ah tá, entendi. É realmente ruim quando a história pára por causa de muito barulho. Não que eu não goste dos barulhos, não que eu não tenha meus próprios barulhos. Acho que o incômodo acontece quando tem um barulho sozinho, gigante, grandão! Um barulho muito alto e abusado que não dá espaço para mais nenhum outro barulho passar.

O Antoine de Saint-Exupéry, pai do pequeno príncipe, cuidou muito bem para que o menino continuasse rabiscando. Eu saí do maternal muito cedo por motivo de excesso de barulho. Meus pais tiveram o cuidado de cuidar do meu silêncio para não deixar parar as histórias do mundo. Meus pais tiveram a delicadeza de harmonizar barulhos e não me podar os rabiscos. Penso que o maior trabalho dos pais seja este: educar os filhos para que cuidem de seus próprios barulhos. Aprender a cuidar dos próprios barulhos é exercício diário de cuidado com o outro. Aprender a harmonizar silêncios sem perder os rabiscos é a delicadeza do cuidado que preciso ter sempre comigo mesma, para poder cuidar das histórias do mundo.
O cuidado, o cuidado, o cuidado sempre! O cuidado que aparece sempre de tantas formas, em todas as coisas. E agora, na hora de fazer um pedido de aniversário, ele aparece novamente.

—“Vai, faz um pedido! Um só, só vale um pedido! O que você quer de aniversário? ”

—“Eu quero viagens! ”

—“ Viagens? Ora, mas podia ter dito logo! Que ideia mais maçante escrever um conto inteiro, artigo, crônica ou sei lá... para fazer um pedido simples, direto. Para onde você quer ir?”
 
—Bom.... eu quero ir aonde eu quiser ir. Quero ir a Lisboa. Quero ir no bar aqui da rua, quero acompanhar a água que desce junto ao meio fio até chegar na padaria. Acho que meu pedido mais exato seria: quero liberdade para as viagens.

—”Ué, mas liberdade você tem. Você é livre para fazer o que quiser, passarinha. O que quiser.”
 
É verdade, pai. Mas aí eu me lembro que, na época do maternal, quando eu comecei a chegar triste em casa, você cuidou de mim. E o maior cuidado foi a delicadeza de perceber que eu precisava de espaço para fazer farfalhar meus próprios barulhos. Fico pensando no sentido que isso tem. Fico tentando entender como isso tem a ver com o aprendizado que tem sido cuidar de mim mesma e como, sempre e a cada vez que cuido de mim mesma, isso deixa o teu caminho mais tranquilo e leve. Meu pedido de aniversário é o mais simples e o mais difícil do mundo. Porque ser livre e fazer viagens para onde você quiser é um pedido por leveza. Assim, é preciso primeiro entender que as viagens para onde queremos estão ligadas a todas as outras viagens do mundo! É como se estivéssemos todos numa grande sala de maternal. Lá estão os barulhinhos e os barulhões. Os barulhões precisam aprender a não ocupar todo o espaço da sala. E os barulhinhos precisam aprender a se fazer escutar e cuidar para que não tomem seu espaço de rabiscos. Nenhuma das duas tarefas é fácil, as duas precisam de delicadeza porque, afinal de contas, as histórias do mundo não podem parar.
Eu nunca deixei de desenhar. Eu nunca deixei de gostar de escutar histórias. O meu pedido hoje é o mais difícil e o mais simples: o meu pedido é que você cuide do seu espaço de rabiscos. E esse é o melhor presente que você pode me dar. Porque a cada vez que você chega em casa triste, o meu caminho fica menos leve. O maior cuidado que posso ter com o outro é o cuidado que tenho comigo mesma. Liberdade para viagens só acontece de fato quando há espaço na sala. E aí você entende que o maior cuidado que você pode ter com o outro é o cuidado com a harmonia entre barulhos, é o cuidado com aquilo que é seu próprio tempo, seu próprio espaço. O meu maior presente de aniversário hoje, seria você aprender aquilo que me ensinou há muitos sóis atrás: tratar de cuidar de si mesmo é, antes de tudo, a delicadeza de presentear leves viagens ao outro.
Àqueles que cuidaram dos meus rabiscos.

Sobre a autora: 

Ana Gabriela Rebelo, 31 anos, vive no Rio de Janeiro, autora do blog Gatos, caramelos e remédios para dormir; e Possible Landscapes. Escritora colaboradora da Revista Obvious, artista plástica e pesquisadora vinculada à Universidade Federal Fluminense.

Conto  de Romance Romântico
Escrito por Pedro Branco, agenciado Wolfpack.
Era cedo e o sol já entrava pelas cortinas rendadas do quarto quando Letícia abriu os olhos e viu Renato sentado na borda da cama. Por alguns segundos sua mente não processou o que estava acontecendo, mas então se assustou e recuou assustada contra a cabeceira. Pensou, em poucos instantes, em mil coisas diferentes, inclusive como acertar a cabeça do rapaz e chamar a polícia, mas antes que ela pudesse tomar qualquer atitude, Renato se levantou e se afastou, erguendo as mãos e pedindo que ela se acalmasse.
 - O que você está fazendo aqui? – Perguntou ela. Renato respirou fundo e coçou a cabeça. Não sabia como dizer aquilo da maneira certa, então disse da maneira errada mesmo.
 - Eu morri. – Afirmou ele.
 Houve um silêncio ridículo e era possível ouvir com clareza os quero-queros gritando no topo dos prédios ao redor. À distância, algum carro buzinava compulsivamente. Letícia puxou os joelhos contra o corpo.
 - Como assim? Como você entrou aqui?
 - Por cima. – Respondeu Renato.
 - Eu não estou brincando, eu vou chamar a polícia!
 - Eu não estou brincando também! – Exaltou-se o rapaz com impaciência. Aproximou-se com destreza e ergueu a mão até quase tocar na garota. Ela se apertou mais contra a cabeceira, assustada, mas não havia motivo. A mão dele estava apenas erguida no ar sem um mínimo tom de ameaça. Seus olhos suplicavam algo desconhecido.
 Letícia entendeu o que ele queria. Ergueu a própria mão, hesitou e então o tocou. Mas “tocar” não é a palavra certa para o que aconteceu, pois a mão de Renato era imaterial e impossível de ser segurada. Por várias vezes Letícia transpôs a mão, o braço e depois o tronco do rapaz, cada movimento mais rápido e assustado que o outro. Reprimiu um grito quando finalmente entendeu que Renato estava falando a verdade.
 - Como?! – Perguntou ela.
 - Eu não sei. Também sempre achei que seria diferente. – Respondeu o rapaz com muita naturalidade. – Posso sentar? Vou me sentar. – E sentou.
 - Como foi que você morreu? Eu vi você na aula uns dias atrás...
 - Isso não importa, foi bem bobo. – Disse ele. – Eu caí e tal...
 - Sei... – Silêncio. Quero-queros. – E o que você está fazendo aqui?
 - Pois é, esse que é o foda. – Ele coçou a cabeça de novo, depois coçou o braço. Volta e meia encarava os olhos dela, volta e meia desviava o olhar para qualquer coisa do quarto. Ela esperou cada vez mais impacientemente. – É que aconteceu de você ser minha alma gêmea.
 - Como é que é? – Disse ela. Esqueceu o medo e relaxou o corpo. Sentou mais para perto de Renato e nem lembrou que estava apenas de calcinha e uma camiseta. - A gente mal se conhece! A gente quase nunca se fala!
 - Então! Foi isso que eu disse quando eu cheguei lá em cima! – Exclamou o rapaz. – Mas eles disseram: “Nah! Almas gêmeas vocês eram, se não aproveitaram isso é problema todinho de vocês”. Aí eles me mandaram pra cá de volta pra resolver as coisas.
 - Que coisas?!
 Renato deu de ombros. A verdade é que eles não tinham nada a ver um com o outro, exceto o fato de estudarem no mesmo lugar. Nunca trocaram nenhuma palavra ou sequer saíram uma única vez. Só sabiam o nome um do outro pela eventualidade de um amigo conhecer outro amigo que conhecia outro amigo que conhecia alguém que um dia falou o nome do outro. E se viam nos corredores.
 E a verdade é que por causa dessa estranheza, dessa finitude toda entre eles, talvez sequer viessem a se conhecer mesmo que tivessem estampado nas testas: sou sua alma gêmea.
 - Eu não acredito nessas bobagens! – Exclamou Letícia. – Eu não acredito em amor.
 - E eu não acredito em fantasmas! – Replicou Renato abrindo os braços.
 O despertador de Letícia tocou. Tinha de trabalhar.
 - Olha... eu sinto muito que você morreu, sinto muito mesmo, mas eu preciso que você saia porque eu tenho de ir trabalhar.
 - Eu não posso sair. – Respondeu Renato. – Eu estou preso aqui. Eu tentei sair, mas não consegui. Aí eu sentei e esperei você acordar. Eles disseram “vá lá e resolva isso, depois você volta”. Mas eu não sei o que resolver e achei que você pudesse me dizer.
 - Como eu vou saber?! – Ela estava começando a se irritar. – Se você não pode sair, o que eu faço com você?
 Renato deu de ombros novamente. Letícia se irritou, saltou da cama e se enfiou no banheiro por quase uma hora. Tomou banho, trocou de roupa, passou a pouca maquiagem que sempre passava no rosto e saiu com toda a esperança do mundo de que tudo não tivesse passado de um sonho. Renato continuava sentado no mesmo lugar, pacientemente olhando para a janela. O sol que entrava pela janela iluminava seu rosto. Definitivamente não parecia com um fantasma.
 - E se eu convidar você pra sair? – Ela perguntou.
 - Eu não sou um vampiro.
 - Tá! E agora?!
 - Vai trabalhar, ué. Quando você voltar, a gente vê.
 E ela foi. Trabalhou o dia todo com apenas metade da concentração. Lá pelo meio da tarde, incapaz de parar de pensar naquele assunto, escreveu no Google “espírito alma gêmea problema voltou do além o que fazer” e leu todos os primeiros sete sites relacionados ao assunto. Infrutífero. Saiu do trabalho e foi para a faculdade.
 Letícia desenhava. Não desenhava tão mal assim, de acordo com sua própria opinião, mas naquele dia seus traços estavam terríveis. A mão tremia com a expectativa de voltar para casa e encontrar o rapaz morto. Sentada numa carteira à esquerda da sala, olhou para o lado e viu o canto onde Renato costumava se sentar – ou onde ela achava que ele costumava se sentar, porque nunca havia realmente prestado atenção nele.
 O vazio de uma carteira qualquer a estremeceu.
 Chegou em casa apreensiva. Quando entrou pela porta, encontrou um Renato entediado jogado no sofá.
 - Você está aí.
 - É. – Ele respondeu sem mexer um músculo sequer. Até porque fantasmas não têm músculos. – Eu não sabia se podia mexer nas suas coisas. Posso assistir televisão amanhã?
 - Você vai estar aqui amanhã?
 - Eu vou estar aqui até o dia em que a gente resolver essas coisas.
 - Que coisas?! – Letícia jogou a mochila sobre o mesmo sofá em que Renato estava e entrou na cozinha. Ouviu o gemido do rapaz. – Como você pode tocar em tudo menos em mim?
 - Não sei. – Respondeu ele. – Como foi a aula?
 - Por que você quer saber?
 - Eu odiava a aula de hoje.
 Letícia botou a cabeça para fora da cozinha e o encarou.
 - Eu também. – Concordou ela. – Você pode comer?
 - Acho que sim, mas eu não tenho fome.
 Ela assentiu com a cabeça e sumiu de novo na cozinha. A cabeça de Letícia era pura poesia misturada com tinta preta. Com frequência baixava a cabeça e escrevia sobre morte e ternura, solidão e abandono, desapego e carência, amor e frescura. Mas era difícil racionalizar algo que, para ela, não passava daquilo mesmo: pura poesia, pura linguagem figurada.
 - Vamos aos fatos, então. – Disse ela voltando da cozinha com um pote de plástico cheio de comida. – Por que eu?
 - Não sei. – Disse Renato.
 - Você me ama?
 - Não! – Riu o rapaz. Mentiu o rapaz. – E você?
 - É claro que não, porque eu amaria? E para de dizer que não sabe das coisas, a gente tem de conversar. – Ralhou a menina com a boca cheia de feijão. – Eu não posso viver com um fantasma em casa.
 - Certo, desculpa. Eu também não teria vindo se eles não tivessem mandado.
 - Eles quem?
 - Uns caras lá. E tinha um grandão que eu acho que era Deus, mas eu não sei bem se era Ele ou não porque ele explicou algum lance de erro de planejamento e as almas gêmeas terem uma espécie de sistema. Aí sempre dá essas tretas quando alguém morre.
 - Então todo mundo que morre passa por isso?
 - Só quem não achou a alma gêmea. – Explicou Renato. – Que eu acho que é o nosso caso.
 - Como é que pode?! – Brigou a menina apontando o garfo para o rapaz. – Você não pode ser minha alma gêmea.
 - Por que não?
 - Eu tenho namorado!
 - Ele parece ser sua alma gêmea?
 Ela riu, quase disse que sim, mas hesitou, parou, pensou, vacilou o sorriso, depois riu de novo, tentou fingir e encheu a boca de feijão.
 - Deve ser. – Disse ela. Os dois ficaram em silêncio por mais alguns instantes, então ela exclamou e engoliu a comida rápido. – Caraca! Ele vem aqui no fim de semana. Nós temos quatro dias pra resolver isso.
 - Resolver o quê? – Perguntou Renato.
 - Essas coisas! O que quer que tenha que ser resolvido.
 Mas eles não sabiam o que fazer. Por mais que pensassem, não sabiam sequer por onde começar. Naquela noite Letícia dormiu em um cantinho da cama, encolhida e apreensiva, enquanto Renato esperava o tempo passar deitado no sofá – porque fantasmas não dormem, o que é extremamente entediante.
 E sozinhos analisavam os poucos fatos que podiam analisar. Tentaram lembrar momentos anteriores em que uma pista, uma dica sequer pudesse ter sido dada de que eles sempre estiveram predestinados a se amar. Acontece que a ideia que um fazia do outro era tão diferente da realidade e tão mascarada por convenções sociais que nenhum chegou nem perto da verdade.
 Letícia era uma menina considerada linda, de sorriso fácil, de aspecto agradável e popularidade conhecida. Letícia estava sobre um pedestal. Renato era reservado, sem qualquer senso estético e nenhuma vaidade. Às vezes antipático, Renato se escondia das pessoas.
 Mas Letícia se esforçava muito para rir porque, por dentro, gritava. E Renato se esforçava muito para parecer sério, porque por dentro era bobo e inseguro. Às vezes, nos intervalos da faculdade, ele sentava num canto escuro e observava as pessoas passarem esperando que alguém o visse. E Letícia ia para o meio do povo esperando que alguma coisa a tirasse de lá.
 Os dois corriam a vida em direções opostas, um vindo do norte e indo para o sul, o outro ao contrário. Só não sabiam que ambos queriam ir para o leste. Ou para o oeste. Nenhum tinha muita noção do que queria ou do que seria o futuro, apenas tinham uma vaga consciência do que não queriam que acontecesse.
 Na verdade, de formas completamente diferentes, os dois eram absolutamente iguais. Apenas não sabiam disso.
 Durante os dias seguintes, Letícia acordou, trabalhou, estudou, voltou para casa e se sentou para comer ao lado de Renato. Os dois trocavam ois, tchaus, desejavam bons dias cheios de vazio e sem qualquer expectativa de que o dia fosse realmente bom. As conversas noturnas ficaram cada vez mais curtas, mais repetitivas, mais sem significado. Letícia conseguiu evitar toda e qualquer visita. Renato se sentiu culpado por isso.
 E conforme viviam juntos, aprendiam a se evitar. O diminuto apartamento tornou-se maior e Renato encontrou cantos escuros para se esconder. Letícia aprendeu a ignorá-lo. Tudo caiu no esquecimento tão facilmente quanto viera à tona.
 Até um sábado qualquer, mais de duas semanas depois da manhã em que se (re)conheceram. Letícia se pintou, se arrumou, vestiu seu melhor sorriso e saiu de casa. Renato observou tudo de um canto qualquer, sentado com as pernas junto ao corpo. Segundos depois de bater a porta, Letícia voltou e ligou a televisão. Parou por um instante, olhou em volta e sussurrou um “tchau” sem emoção nenhuma.
 Renato chorou em silêncio.
 O apartamento de Letícia era pequeno e bagunçado. Com frequência a garota deixava roupas jogadas em um canto, panelas sujas no fogão, louça suja empilhada na pia... E como ele se tornara um estorvo na vida dela, Renato achou que o mínimo que podia fazer era ajudar a organizar a casa que agora, de uma forma meio torta, era de ambos. Juntava as roupas – exceto as calcinhas e sutiãs, porque podia constrangê-la -, lavava a louça, guardava os restos de comida e até mesmo varria a casa.
 Mas quando ela chegava, se recolhia a um canto e esperava que ela não lembrasse que ele existia. Pelo bem dela mesma. Muitas vezes a ouviu chorando no quarto e não ousou perguntar o motivo, mas achou que se estivesse realmente sozinha em casa, ao menos teria liberdade para fazer alguma coisa a mais do que se esconder num canto da cama sob lençóis velhos.
 Talvez ela quisesse fumar, talvez ela quisesse beber, talvez quisesse chamar o namorado e trepar a noite inteira. E até onde Renato sabia, nenhuma das coisas fazia a menor diferença para ele. Exceto que cada vez que ele pensava em dar essa privacidade a Letícia, dava de cara com uma barreira invisível lacrando a porta e as janelas.
 Renato pensou em se matar, mas já estava morto. Tentou descobrir uma forma de ao menos fingir que desapareceu, como entrando na televisão ou algo assim, e foi dessa maneira que descobriu porque Eles o deixaram ser tangível a tudo, exceto Letícia. Ele não podia fugir, não podia escapar. O que quer que tivesse de ter resolvido, tinha de ser resolvido.
 Mas eles não sabiam como. E ela perdia o interesse cada vez mais.
 Talvez se ela se mudar, eu fique preso aqui. Ela só precisa vender a casa para alguém que não se importe comigo, pensou ele.
 Renato era péssimo em escrever, mas na solidão do próprio quarto gostava de despejar seus sentimentos em forma de palavras. Quando era vivo, tinha um computador velho no canto do quarto que dividia com o irmão, e era nesse computador que havia uma pasta escondida, oculta, protegida por uma senha de 37 dígitos, com textos imensos a respeito de como ele se sentia enjoado da vida que levava.
 E de como, às vezes, uma visão de relance de Letícia o enchia de coragem e vontade de desbravar o mundo.
 Renato tomou a liberdade de andar pela casa, ligar o computador de Letícia e escrever. Ele sabia que ela não voltaria naquela noite, que dormiria na casa do namorado, que os dois transariam a noite inteira e acordariam apenas no outro dia, às quatro da tarde, sobre um colchão velho já quase sem espuma. Por isso Renato escreveu tudo que tinha guardado no peito nas últimas duas semanas.
 Escreveu como se sentia um lixo por ter sido exposto a uma situação tão embaraçosa quanto aquela, mas principalmente como se sentia um lixo por mudar tanto a vida de outra pessoa. Como se sentia egoísta sendo obrigado a ficar preso ali até que Letícia decidisse sentir por ele algo que ela não sentia. E escreveu sobre Letícia em si.
 Escreveu tudo que se lembrava dela. Escreveu como às vezes ele não prestava atenção na aula porque o sorriso dela era muito mais interessante – mas eram sorrisos que ela dedicava a outras pessoas. E como ele ficava completamente sem jeito ao encontrá-la aleatoriamente nos corredores.
 Renato parou de escrever e olhou para a tela. De repente notou que não sabia nada sobre Letícia. Não sentia amor ou paixão ou mesmo muita atração por ela, porque Letícia não era nada em sua vida até duas semanas atrás. “Vocês são almas gêmeas”, disseram Eles, mas isso bem podia ser uma enorme inverdade.
 Mas Renato sentia algo. Algo que estava crescendo nos últimos dias: um desejo vil e desesperado pela menina. Escreveu sobre isso: parágrafos e mais parágrafos sobre todos os pensamentos que podia ter sobre aquela garota que o deixava morrer, todos os dias, nos cantos sujos do próprio apartamento. Aquela menina que significava tudo que ele não acreditava e que ele mais desprezava na vida. Ela, que sendo tão errada, era tão terrivelmente atraente.
 Aquela mulher que quanto mais conhecia, menos conhecia, porque mais vontade tinha de conhecer.
 E a porta abriu. Renato sentiu parar o coração que nem existia. Pensou em desligar o computador e fugir, sair do quarto dela, se esconder num canto, qualquer coisa que o escondesse dela, mas não conseguiu. A porta do quarto escancarou, Letícia entrou apressada, jogou a bolsa sobre a cama e se atirou nela.
 Renato conseguira desligar a tela e se mantinha imóvel num canto, imerso em trevas, sem fazer qualquer barulho. Letícia chorava. Quando parou de chorar, grunhiu, rosnou, gritou e socou o travesseiro. Depois se acalmou e chorou. E dormiu. O rapaz se mexeu lentamente, mal ousando respirar - até porque fantasma não respira -, e rumou para a porta do quarto. Na metade do caminho, Letícia o chamou.
 - Eu devia trocar de lugar com você. – Disse ela. Estava bêbada.
 - Você não sabe o que está dizendo.
 - Foda-se, FODA-SE! Eu que devia ser proibida de sair de casa e encarar o mundo!
 Ela tirou os sapatos e se arrastou mais para cima da cama. Renato vislumbrava apenas suaves traços do corpo da menina, mas conforme a encarava e desejava vê-la, Letícia se tornava mais nítida. Ele tentou atribuir o fato a alguma coisa na própria retina, mas fantasmas não têm retina, então ele não entendeu nada.
 - Eu perdi a porra de um brinco. – Ela reclamou com a voz embargada. – Eu quero meu brinco. E eu quero que as pessoas morram! Ou eu.
 Renato riu num impulso inconsequente e desprovido de empatia. Segundos depois Letícia ria junto. Os dois sabiam porque estavam rindo, ou achavam que o outro sabia porque estava rindo. Ou ao menos imaginavam que o outro sabia porque o primeiro estava rindo, desde que eles estivessem rindo da mesma coisa.
 E acontece que nessa confusão de pensamento, os dois meio que se acharam. Letícia, bêbada, não parecia se orientar direito, mas o suficiente para agradecer o rapaz quando ele a cobriu.
 - Você está fedendo. – Disse ele. – Quer tomar banho?
 - Quem vai me dar banho?
 - Você mesma. – Respondeu ele. – Ou você toma amanhã, tanto faz.
 Ele a deixou sozinha, deitou-se no sofá e esperou a noite passar. Era a primeira vez em muitos dias que passava a noite no sofá, e não agarrado às próprias pernas no canto da sala. Dali ele podia ouvir melhor se ela acordasse ou chamasse ou chorasse. E de fato ela chorou no meio da noite, mas bem baixinho, quase como se não quisesse ser descoberta. Não durou mais que cinco minutos.
 Renato pensou naquilo durante a noite toda. Pensou no que podia ter dado errado para ela, a quem as coisas sempre davam certo. Pensou em quem poderia tê-la ferido, já que todos a amavam e a entendiam. Pensou como algo podia ter fugido do controle daquela Letícia que sempre parecia ser superior a qualquer descontrole.
 Já era quase meio dia quando a menina abriu a porta do quarto com as mesmas roupas, olheiras fundas, olhos vermelhos e o cheiro de bebida ainda mais forte. Encontrou Renato na cozinha, que se assustou por não notá-la chegar. Na pequena mesa havia uma jarra de café quente e forte, pão, queijo, geleia de uva e margarina.
 - Foi tudo que eu encontrei pro almoço. – Disse ele. Ela encarou a mesa posta por um instante, então se sentou, tomou um gole de café e fechou os olhos. Saboreou a bebida que ela mesma mal sabia fazer e silenciosamente agradeceu por aquilo. Quando ele fez menção de se retirar da cozinha, ela chutou de leve outro banco com o pé e fez um sinal com a cabeça. Ele se sentou.
 Não conversaram absolutamente nada. Letícia olhava apenas para o que comia e Renato encarava a toalha de mesa com decidida atenção. Quando a menina terminou de almoçar, pegou os próprios pratos e copos, levou até a pia e os lavou. Renato se levantou e começou a guardar todo o resto que havia servido de refeição.
 Em menos de dois minutos a cozinha estava limpa como antes. Letícia voltou para o quarto, fechou a porta e a trancou. Renato sentou no sofá e permaneceu em silêncio. Nenhuma palavra.
 Pouco antes das três da tarde o rapaz ouviu o barulho da água correndo do chuveiro. Mais de trinta minutos depois, a água parou. Gavetas abrindo e fechando, coisas sendo arrastadas, eventuais baques das portas de algum armário.
 Letícia parecia quase totalmente recomposta quando abriu a porta do quarto e pediu que Renato fosse até lá. Assim ele o fez. Ela sentou num lado da cama e pediu que ele se sentasse ao seu lado. Nenhuma palavra era dita.
 Permaneceram sentados na cama, um ao lado do outro, por minutos imensos. Não era problema para nenhum dos dois: ele estava acostumado a longos períodos sem falar nada, ela frequentemente clamava por momentos em que pudesse permanecer só e quieta. As mãos deles teriam se encostado muitas vezes se não pertencessem cada um a um lado distinto da vida.
 Finalmente ela tomou coragem.
 - Quem é você? – Foi uma pergunta simples e direta.
 - Eu era Renato, mas não sei quem sou hoje. – Uma resposta igualmente simples e direta. – E você?
 - Eu sou isso que você viu ontem à noite.
 - Não é exatamente o que eu sempre pensei de ti, mas ainda assim agrada. – Respondeu ele. – Quer contar o que aconteceu?
 Ela sacudiu a cabeça em negativa, mas era um ato bobo e sem sentido. Nada precisava ser dito para que ele entendesse que tudo havia dado errado. Para Renato, naquele momento, Letícia significava toda a vida do mundo. Os motivos não importavam, apenas o resultado.
 - Prometo que não vou contar para ninguém. – Brincou ele. Ela riu. – Tudo bem, eu também não gosto de me sentir exposto...
 Então ela riu mais ainda. Surgiu, de repente, uma expressão maliciosa em seu rosto. Foi ao mesmo tempo em que ela se esticou um pouco, dedo em riste, e ligou a tela do computador. Renato viu seus próprios escritos brilharem. Ela os havia lido, tudo! A risada de Letícia era quase má, embora essa sensação só fosse aguçada pela sensação amarga no peito do rapaz.
 Lágrimas teriam vindo aos olhos de Renato, mas fantasmas não choram. Fantasmas, no entanto, se sentiam frustrados, irritados e envergonhados. Saltou da cama decidido a ir... aonde? Não havia aonde ir. Se voltou contra Letícia com o dedo erguido e a expressão mais acusadora que conseguia evocar, mas ela já não ligava para ele. Estava diante do computador e rolava as páginas para baixo. Em certo ponto, parou, olhou para Renato e o convidou a se aproximar.
 De longe ele notou que não eram suas palavras. Um longo texto, quase do mesmo tamanho do seu próprio, jazia na tela do computador com o título de “Memento Mori”.
 - Você escreve. – Não foi uma pergunta.
 - Nós temos algo em comum, afinal.
 - Não, eu não sei escrever. – Ela discordou, mas ele sequer notou. Mergulhou no texto da menina. Ela deitou de costas e fechou os olhos. Sentiu o sono vir e se entregou.
 Era um tratado sobre a própria vida dela. Era tudo que ela queria que alguém soubesse, mas não sabia como dizer. Era sobre suas mágoas e frustrações, sobre seus sonhos partidos, suas despedidas, suas fugas, seus raros e breves sorrisos sinceros. Letícia descrevia suas desistências e seus sonhos, suas alegrias e tristezas, suas constantes irritações com o mundo ao redor e os pequenos alívios que encontrava – normalmente dentro de si própria.
 Não havia nada sobre o que Renato sabia dela. Sobre seus muitos amigos, sobre o amor numeroso das multidões ao redor, sobre os sorrisos que ela dedicava a quem a cercava. Não havia nada sobre a menina no pedestal, tão forte e segura, tão simpática e querida. Todas as palavras eram sobre uma garota ora carrancuda, ora meramente inocente, frequentemente desiludida, que normalmente só queria um abraço desinteressado.
 Foi uma leitura demorada porque foi acompanhada de reflexões. E mesmo quando terminou, Renato não a acordou. Deixou que dormisse o domingo inteiro, até a chegada da noite. Fez o que estava ao seu alcance para o jantar. Mas Letícia não acordou até o outro dia de manhã. O jantar virou café da manhã.
 Antes de sair para trabalhar, a menina ligou a televisão e sussurrou um breve “tchau”. Renato, de seu canto, respondeu e acrescentou: “Tome cuidado”. Ela apenas sorriu.
 Os dias passaram e nunca nenhum dos dois mencionou o que se passou. Esqueceram não apenas a noite de sábado e os longos textos, mas os dias de silêncio e solidão. Esqueceram até mesmo que Renato estava morto e que eram almas gêmeas. Recomeçaram.
 Todos os dias se cumprimentavam, primeiro de forma tímida, mas depois cada vez mais natural. Quando Letícia se atrasava, Renato a chamava. Ele nunca dormia, nunca descansava, até porque fantasmas não têm do que se cansar. Preparava o café da manhã quando o sol surgia e a esperava com o jantar quando a lua estava no alto.
 À noite sentavam ao redor da TV, assistiam programas idiotas e riam de banalidades. Letícia contava novidades do mundo exterior e Renato se esforçava ao máximo para responder com algo que fosse minimamente interessante. Conheciam um ao outro sem a mínima pressa, no ritmo que tinham vontade.
 Deixaram que os dias seguissem as noites e as noites compusessem as semanas. Quando perderam a contagem dos meses, já passavam as noites na mesma cama porque Letícia se recusava a dormir antes que o sono a vencesse. E até que o sono a vencesse, conversavam sobre tudo que podia haver para se conversar.
 A menina trabalhava para ganhar dinheiro e ganhava dinheiro para comprar presentes para Renato. Quando chegava em casa com algo novo para o rapaz, sentia o coração bater mais forte na expectativa de vê-lo sorrir feliz. E ele sempre sorria feliz. Desejava poder abraça-lo, principalmente quando acordava de madrugada e o via desperto. Ele a protegia de tudo.
 Ela já não mais precisava se preocupar em dormir com a cabeça coberta. Já não tinha mais medo de fantasmas, mas achava que amava um.
 Um dia qualquer, quando já estava frio e as pessoas andavam agasalhadas na rua, ela chegou em casa com uma ideia que fazia seu coração palpitar tão forte que doía. Entrou correndo em casa, não cumprimentou, arrancou o lençol de cima da cama e procurou Renato. Antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo, ela jogou o lençol por cima dele. Não era possível definir com precisão as formas do corpo do rapaz, nem sequer ver a expressão que ele tinha no rosto, mas uma coisa nova era possível:
 Letícia se aproximou de Renato e deslizou ambas as mãos pelos braços dele. Encaixou seus próprios braços entre os dele e entrelaçou seus dedos num abraço leve e cheio de ternura. Ambos sentiram um calor reconfortante quando se deram conta de que era possível, afinal, quebrar as regras de Deus. Havia outros erros de planejamento que Ele não havia notado.
 Naquela noite dormiram juntos, ele inteiramente coberto com um lençol, ela protegida num abraço firme.
 Os dias corriam lentos, mas não devagar. Quando chegava o fim da tarde no inverno, os dois gostavam de olhar para o céu, cada um em um ponto da cidade, e ver o mundo ser coberto por um filtro amarelado que deixava tudo reluzir como ouro. Às vezes ela não tinha vontade alguma de ir à aula, por isso voltava para casa mais cedo. Às vezes ela sequer tinha vontade de sair para trabalhar e ficava o dia inteiro trocando relatos, histórias e pensamentos bobos com ele.
 E Renato notava que algo estava mudando. E conforme mudava, ele ficava mais triste.
 Um dia Letícia sentou ao seu lado e enrolou uma fronha ao redor da mão dele, entrelaçando seus dedos num aperto forte. Ela encostou a cabeça em seu ombro e disse:
 - Eu tenho que falar uma coisa.
 - Então eu também tenho. – Respondeu ele para surpresa dela.
 - Pode falar primeiro. – Ela sorriu, mas ele sacudiu a cabeça negativamente. Para Letícia era apenas um jogo, embora ele não sorrisse. – Não quer falar primeiro? Então eu também não vou.
 E por muito tempo eles não disseram nada. Sentiram, mas não disseram nada. Quando ela queria dizer, esperava que ele tomasse a iniciativa, mas ele nunca tomava. E por três vezes ela esteve perto do fim sem nem desconfiar disso.
 Os dias corriam e Renato entendia a situação cada vez melhor. Entendia o que estava mudando e porque estava mudando. Entendia quais eram as coisas que deveriam ser resolvidas e quais eram as palavras a serem ditas. Entendia, como um todo, a ironia da vida que lhe havia sido imposta. Enfim, entendia tudo, exceto o sadismo de Deus.
 E como esperava, um dia o dia chegou. Foi também num sábado e que acordaram tarde. Ela estava de estômago vazio e ele havia esquecido de preparar qualquer coisa para comer. Ela o abraçou com o lençol entre seus corpos.
 - Eu quero dizer uma coisa. – Anunciou ela. Se fantasmas tivessem estômago, o de Renato teria embrulhado. – Não dá mais pra segurar.
 - Não? – Perguntou ele. – Então não precisa ser dito.
 As palavras dele estavam carregadas de dor e pesar.
 - Não precisa? – Ela riu. – Eu sou tão previsível assim?
 - Eu também tenho de dizer uma coisa. – Anunciou ele. Ela sorriu o maior e mais sincero sorriso que ele já havia visto em sua existência. Ela não falou nada, mas seu coração batia mais rápido e sua respiração se tornava mais profunda. Quando ela estava prestes a apressá-lo, ele disse: - Eu tenho de ir.
 Algo morreu dentro dela. Algo morreu e levou junto seu sorriso. Levou algum tempo até ela se sentar e olhar para ele. Pensou que pudesse ser uma brincadeira ou um engano, mas a expressão no rosto dele não mentia. Era o tipo de expressão que ela não sabia descrever, que sequer gostaria de entender, mas que dizia tudo de forma tão clara que eles podiam passar direto para a briga.
 E ela brigou. Xingou, gritou, chutou coisas e chorou. Chorou mais que qualquer outra coisa, mas chorou sozinha. Não havia nada que ele pudesse dizer que a consolasse, e em determinado ponto daquele maldito dia ela propôs que eles permanecessem daquele jeito para sempre. Disse que não se importava com as limitações, com as impossibilidades, com nada! Que ela seria feliz vivendo daquele jeito, se ele não a abandonasse.
 E ele não dizia nada porque nada havia a ser dito. Ela mesma sabia que nada podia ser dito. Que o que quer que fosse forte o suficiente para dar Renato a ela, era forte o suficiente para levá-lo embora de novo. Porque o planejamento das idas e vindas não estava errado e Eles tinham total controle daquilo.
 Se eu não o amasse, ele poderia ficar, pensou com amargura e desespero.
 Por fim, cansada, se retirou à solidão e ao silêncio de novo. Quis expulsar o rapaz da sua companhia, mas teve medo que ele fosse embora enquanto estivessem separados.
 - Quando vai ser? – Ela perguntou no meio da madrugada, quebrando o silêncio de muitas horas.
 - Quando você dormir. – Disse ele.
 - Por quê? Eu quero me despedir. Eu posso ao menos me despedir?! – Ela sentia uma fúria insólita crescendo e dando um nó na garganta. Ele sacudiu a cabeça numa negativa sentencial. – Por quê?
 - Porque não faz diferença. Eles vão te fazer esquecer tudo depois.
 - O QUÊ?! POR QUÊ?!
 - Porque... me desculpe. – Pediu ele. Sentia-se egoísta como outrora. – Porque você vai continuar a viver. As “coisas a serem acertadas” eram problemas meus, não seus.
 - Você tem de estar brincando, seu filho duma puta! FILHOS DA PUTA, TODOS VOCÊS! – Ela gritava inconsequente. – Você não pode estar falando sério.
 - A vida continua pra você e eu vou deixar de ser sua alma gêmea. Você não pode se lembrar de mim ou nada vai tomar o rumo que tem de ser tomado. – Ele explicou tudo da maneira mais sutil que conseguia, mas a cada nova palavra ela perdia mais o controle.
 - Eu não quero outra alma gêmea, eu já tenho você. Você! – Mas tudo que ele fazia era baixar a baixar a cabeça e encarar os próprios pés. Quando ela sentiu o desespero e a raiva no auge, jogou o lençol sobre ele e imediatamente o jogou na cama. Procurou e encontrou quase imediatamente seus lábios e o beijou. Foi esquisito e com gosto de amaciante, mas nenhum dos dois se importava. Atrás do fino lençol, os lábios de ambos se encaixavam perfeitamente.
 Quando não havia mais nada a ser dito ou feito, os dois se deitaram e esperaram o tempo passar. Letícia não queria dormir. Estava determinada a retardar o momento o tanto que fosse necessário. Aguentou toda a noite de sábado e o domingo inteiro. Quando a noite chegou novamente, sentia seu corpo cansado, a cabeça dolorida e os olhos pesados. Às vezes tinha vontade de vomitar tal a situação decadente de seu próprio corpo, mas se mantinha forte.
 Renato estava sempre ao lado dela.
 Falaram pouco durante aquele tempo todo. Trocavam carícias e beijos. Chegou um momento, no entanto, que mesmo a ternura entre os dois se esgotou e se cansaram da situação. Letícia estava nos limites da própria força quando deitou na cama e se desesperou com o peso dos seus olhos e o cansaço de seu corpo.
 Renato deitou ao seu lado. Se seu nariz não fosse intangível, estaria tocando o dela. Enrolou a mão no lençol e deslizou seus dedos de leve pelas curvas do rosto de Letícia. E conforme os minutos passaram, ela sentiu que estava se entregando. Não havia nada a ser feito.
 - Por favor... – Pediu ela. – Tenta voltar.
 - Eu vou tentar, mas você não vai se lembrar de nada. – Disse ele.
 - Eu vou tentar lembrar, mas se você não se esquecer de mim, me procura. Por favor...
 Ele prometeu sem saber se aquilo fazia algum sentido.
 Uma lagriminha escorreu de um dos olhos dela quando eles finalmente se fecharam. Ela tentou sorrir, mas quase não conseguiu. Ele continuou acariciando seu rosto até que adormecesse de vez, o que não demorou a acontecer.
 Antes de partir, o rapaz beijou a testa de sua alma gêmea sem lençol algum entre eles, e mesmo que não pudessem se tocar, ambos tiveram a impressão de sentir algo. Fraca, adormecida, com apenas um último fio de consciência do que estava acontecendo, Letícia sussurrou com a voz cheia de emoções diversas: “Tchau”.
 No outro dia, quando ela acordou, não havia um resquício sequer do tempo que viveu com Renato. Nenhum arquivo no computador, nenhum prato fora do lugar, nenhum lençol bagunçado que pudesse criar qualquer desconfiança. E além da sensação de vazio, cansaço e mal-estar, Letícia não sentia absolutamente mais nada.
 Naquele dia ela trabalhou, distribuiu sorrisos e muitas vezes desejou estar só ou voltar para casa. À noite foi para a aula e se sentou no extremo da sala que frequentemente sentava. Não havia nada de errado, nada de anormal, mas algo a incomodava profundamente.
 Do outro lado, por algum motivo, o vazio de uma carteira qualquer a fazia estremecer.

Sobre o Autor:

Pedro Branco, 26 anos, vive atualmente em Porto Alegre. 
Email: p.alvesbranco@gmail.com
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